Vidas Secas (Na grafia da época, Vidas Sêcas) é um filme brasileiro de 1963, do gênero drama, dirigido e escrito por Nelson Pereira dos Santos para a Herbert Richers. O roteiro é baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos, sendo o filme estrelado por Átila Iório, Maria Ribeiro, Genivaldo Lima, Gilvan Lima e Joffre Soares. De acordo com os letreiros iniciais, as filmagens foram realizadas em Minador do Negrão e Palmeira dos Índios, sertão de Alagoas.
Considerado um dos principais filmes do movimento cinematográfico brasileiro Cinema Novo, Nelson continuou com a tendência de adaptar a literatura com temática social para o meio cinematográfico.VIDAS Secas. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2026. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/123441-vidas-secas. Acesso em: 17 de abril de 2026. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7 Estreou em 22 de agosto de 1963, no circuito Metro, no Rio de Janeiro, permanecendo duas semanas em cartaz. Chegou às salas de cinema de São Paulo em março de 1964, no mesmo mês da instauração do Golpe de 1964. Naquele mesmo ano foi exibido na 17ª edição do Festival de Cinema de Cannes, na França, onde competiu pela Palma de Ouro, graças a um convite especial do festival, uma vez que o Itamaraty preferiu enviar para o evento a fita de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
É o único filme brasileiro indicado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais em uma cinemateca. Foi listado por Jeanne O Santos, do Cinema em Cena, como "clássicos nacionais". Também foi Incluído no livro 1001 Filmes para Ver antes de Morrer, de Steven Jay Schneider. No livro Cien años sin soledad. Las mejores películas latinoamericanas de todos los tiempos, escrito por Carlos Galiano e Rufo Caballero, Vidas Secas foi classificado entre os oito melhores filmes latino-americanos de todos os tempos. Em 1999, uma pesquisa do jornal Folha de S.Paulo realizada com 24 críticos e estudiosos do cinema brasileiro, indicou Vidas Secas como o segundo melhor filme brasileiro de todos os tempos. Já em 2015, o filme ficou na terceira posição na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Em maio de 2026, foi incluído na lista dos 100 filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, da mesma associação.
Enredo 225px|miniaturadaimagem|left|Maria Ribeiro como Sinhá Vitória em cena do filme. Anos 40. Fabiano (Átila Iório) foge com sua esposa, Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), e seus dois filhos (Gilvan Lima e Genivaldo Lima), da grande seca do sertão nordestino. Após uma longa e cansativa caminhada pelo sertão, chegam à casa dilapidada de Tomás, um amigo que foi tentar a sorte em outras regiões. O pai da família, Fabiano, é contratado pelo dono da fazenda (Jofre Soares) onde Tomás trabalhava como vaqueiro. A vida não é fácil e Fabiano está endividado com o patrão.
Em véspera de uma festa folclórica, num domingo, Fabiano é provocado por um policial a jogar cartas. Mesmo após ganhar, ele é espancado e levado para a prisão. Quando solto, volta ao trabalho. A mãe fica furiosa com ele, pois gastou todo o dinheiro da família com bebida e jogos de azar. Ela sonha em dormir numa cama de couro. A família começa a se preparar para partir novamente, em uma busca desesperada de terras férteis. A seca estava assolando o país mais uma vez. Antes de irem embora, o pai vai até um campo para matar Baleia, o cachorro da família.
Um longo plano-sequência deles caminhando pelo deserto árido termina o filme.
Elenco Para as filmagens foram usados muitos atores amadores, inclusive locais.
Produção Roteiro e filmagens thumb|right|220px|Nelson Pereira dos Santos na década de 60. A ideia inicial de Nelson Pereira dos Santos era escrever um roteiro original sobre a seca do sertão nordestino, porém, apesar de diversas tentativas, o cineasta não conseguiu desenvolver um roteiro que o satisfizesse. Durante suas pesquisas, ele consultou o livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos e concluiu que, ao invés de criar um roteiro, o melhor seria adaptar a obra de Graciliano. Em 1959, Nelson e a equipe foram a Juazeiro, na Bahia, para rodar o longa, mas não encontraram condições morfoclimáticas apropriadas devido as fortes chuvas que atingiram a região e deixaram a catinga verde. As gravações foram canceladas, entretanto, para aproveitar a equipe, Nelson resolveu improvisar a criação de outro filme, Mandacaru Vermelho. Na segunda tentativa de filmagem de Vidas Secas, em 1962, Nelson optou por Palmeira dos Índios (cidade da qual Graciliano Ramos foi prefeito), em Alagoas, conseguindo, por fim, rodar o filme. A equipe era formada por poucas pessoas, entre elas o produtor Herbert Richers e os fotógrafos Luiz Carlos Barreto e José Rosa. Foi gravado em preto e branco e custou 18 milhões de cruzeiros.
Escolha do elenco Parte do elenco, como Átila Iório e Maria Ribeiro, veio do Sudeste com Nelson, e a outra parte foi descoberta no agreste alagoano. Átila, apesar de não possuir as características físicas que o diretor desejava, foi contratado devido a falta de tempo para a escolha do elenco. Maria Ribeiro, que interpreta Sinhá Vitória, nunca havia atuado antes e foi descoberta por Nelson no Laboratório Líder, onde trabalhava como técnica. Em Palmeira dos Índios, Nelson foi a um circo e conheceu o palhaço Jofre Soares, convidando-o para fazer parte do filme, primeiro como assistente de produção e depois como ator, no papel de um fazendeiro. Devido ao alto conhecimento que Jofre tinha sobre a região, Nelson o encarregou de encontrar outros moradores da cidade para atuar no filme; foi Jofre quem apresentou ao diretor os irmãos Genivaldo e Gilvan Lima, que interpretaram os filhos de Fabiano. A cadela vira-lata, que interpreta Baleia, foi encontrada por Nelson embaixo de uma barraca de uma feira de Palmeira dos Índios.
Recepção Opinião da crítica Jean de Baroncelli, escrevendo para o jornal Le Monde, descreve Vidas Secas como "um filme despojado, descarnado, trágico à sua maneira, assim como o sertão brasileiro que lhe serve de pano de fundo". Vincent Canby, do jornal The New York Times, disse que a obra é “emocionante como um chamado às armas (e à câmera) de uma pequena, nova e combativa indústria cinematográfica”. Para Canby, o filme foi dirigido por um "diretor enormemente talentoso que sabe como controlar sua dor e raiva".
Prêmios e indicações
Prêmio Governador da Guanabara 1963 (Brasil) Recebeu 20 milhões de cruzeiros do governador Carlos Lacerda.
Festival de Cannes 1964 (França) Recebeu o Prêmio do OCIC e o prêmio dos cinemas de arte. Foi indicado ao Grand Prix (Palma de Ouro).
Resenha de Cinema de Gênova 1965 (Itália) Foi considerado o melhor filme daquele ano.
Controvérsias Cena da morte de Baleia Uma das cenas mais famosas de Vidas Secas é o abatimento da cadela Baleia, onde é mostrado o animal sendo atingido por um tiro de espingarda dado por seu dono Fabiano. Quando o filme foi exibido no Festival de Cannes, na França, em 1964, o público e a crítica francesa ficaram impressionados com o realismo da cena e acreditaram que a cadela tivesse sido sacrificada de verdade durante as filmagens. Houve, inclusive, protestos da Sociedade Francesa de Proteção aos Animais. Na tentativa de provar que o animal não sofreu maus-tratos e estava vivo, a companhia aérea francesa Air France se ofereceu para levar a cadela brasileira até a França e mostra-la ao público. Todavia, mesmo com a cadela brasileira em Cannes, a equipe do filme foi acusada de enviar à França um outro animal com características semelhantes à da interprete de Baleia, o que foi negado.
Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no ano de 2018, Luiz Carlos Barreto, diretor de fotografia do filme, explicou como a cena da morte de Baleia foi realizada:
No ano de 2002, foi lançado o curta-metragem Como se Morre no Cinema, dirigido por Luelane Corrêa, que narra as participações e as mortes ficcionais do papagaio e da cadela Baleia no filme Vidas Secas.
Ligações externas O dia que a cachorra Baleia visitou Cannes - Blog do Bob
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