Rafael Antonio Caldera Rodríguez ( ; San Felipe, 24 de janeiro de 1916 – Caracas, 24 de dezembro de 2009) foi um político e acadêmico venezuelano que exerceu o cargo de 46.º e 51.º Presidente da Venezuela de 1969 a 1974 e novamente de 1994 a 1999, tornando-se assim o político democraticamente eleito que mais tempo governou o país no século XX.Rafael Caldera – Cognitio

Amplamente reconhecido como um dos fundadores do sistema democrático venezuelano,John D. Martz, "Venezuela, Colombia, and Ecuador," in Jan Knippers Black, ed. Latin America, Its Problems and Its Promise, 2nd ed. (Boulder, Colorado: Westview Press, 1991), 439 um dos principais arquitetos da Constituição de 1961 e um pioneiro do movimento da democracia cristã na América Latina, Caldera foi presidente durante o segundo período de governo civil democrático em um país marcado por uma história de violência política e de caudilhos militares.Rafael Caldera: President of Venezuela who helped forge an era of democracy and political stability in his country – Independent

Sua liderança ajudou a consolidar a reputação da Venezuela como uma das democracias mais estáveis da América Latina na segunda metade do século XX."02 Feb 1994 – 02 Feb 1999 – Rafael Caldera Rodríguez – Global Security"

Ele também é lembrado como o presidente que concedeu perdão a Hugo Chávez em dezembro de 1994, permitindo-lhe sair da prisão e mais tarde concorrer à Presidência, cargo que ele alcançou em 1998.

Juventude, educação e primeiros feitos thumb|esquerda|180px|O menino Rafael Caldera, vestido de marinheiro, 1920. thumb|180px|Caldera aos dezenove anos, 1935. thumb|150px|esquerda|Rafael Caldera durante a premiação de formatura do ensino médio, Colégio San Ignacio, Caracas, 16 de outubro de 1931. (Texto manuscrito): "Para minha adorada mamãe e meu papai, uma lembrança da minha escola com total devoção". thumb|210px|direita|Caldera durante o noivado com Alicia. Também na foto: seu pai, Rafael Caldera Izaguirre, sua irmã Rosa Elena e seus tios (que se tornaram seus pais adotivos) María Eva Rodríguez e Tomás Liscano, em Miracielos, Caracas, 1940. Rafael Caldera Rodríguez, filho de Rafael Caldera Izaguirre e Rosa Sofía Rodríguez Rivero, nasceu em 24 de janeiro de 1916, em San Felipe, Venezuela. Sua mãe morreu quando ele tinha dois anos e meio, e Caldera foi criado pela tia materna María Eva Rodríguez Rivero e por seu marido, Tomás Liscano Giménez.

Caldera cursou o ensino primário em sua cidade natal, San Felipe, e depois em Caracas, na escola católica jesuíta San Ignacio de Loyola, onde concluiu o ensino secundário aos quinze anos. No ano seguinte, iniciou os estudos de Direito na Universidade Central da Venezuela.

Como jovem universitário, Caldera revelou um brilhantismo intelectual precoce. Aos dezenove anos, depois de estudar os 26 volumes das obras completas de Andrés Bello, Caldera publicou seu primeiro livro, Andrés Bello,Rafael Caldera, Andrés Bello. Caracas: Parra León Hnos., 1935. 167 p. / – 2ª ed. Buenos Aires: Edit. Atalaya, 1946. 148 p. English translation by John Street. London: G. Allen & Unwin, 1977. 165 p uma análise abrangente da vida e da obra de Bello em seus textos literários, linguísticos, jurídicos, históricos, filosóficos e políticos. Esse livro recebeu um prêmio da Academia Venezuelana da Língua em 1935 e permanece como referência indispensável para estudos acadêmicos sobre o mais destacado homem de letras venezuelano do século XIX.

Um ano depois, o presidente venezuelano López Contreras tomou conhecimento de artigos de opinião em jornais sobre questões trabalhistas escritos pelo jovem Caldera, então com vinte anos. Contreras nomeou-o vice-diretor do recém-criado Escritório Nacional do Trabalho. A partir dessa posição, Caldera teve papel fundamental na redação da primeira Lei do Trabalho da Venezuela, que permaneceu em vigor por mais de cinquenta anos, até sua reforma em 1990. O jurista internacional Wilfred Jenks, que redigiu a Declaração da Filadélfia sobre direitos trabalhistas e exerceu dois mandatos como diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), órgão afiliado à Liga das Nações, visitou a Venezuela em 1936 para revisar a lei. Ele trabalhou em estreita colaboração com Caldera, então primeiro correspondente da OIT no país. Jenks afirmou depois que o Código Internacional do Trabalho publicado sob sua orientação na véspera da Segunda Guerra Mundial continha vários temas organizados da mesma forma que no projeto venezuelano de Código do Trabalho.Address by His Excellency Mr. Rafael Caldera, President of the Republic of Venezuela −9 June 1998 – ILO

Durante os anos de universidade, Caldera envolveu-se ativamente na política estudantil. Ingressou na Federação de Estudantes da Venezuela (FEV), liderada por estudantes que se revoltaram em 1928 contra o ditador Juan Vicente Gómez e ficaram conhecidos como a Geração de 28. Embora bem mais jovem que seus pares, Caldera rompeu com coragem com essa federação quando a liderança passou a defender reformas anticlericais, exigindo a expulsão dos jesuítas e de outras ordens religiosas da Venezuela.Venezuela: Conservative representation without conservative parties. Michael Coppedge. Working Paper #268 – June 1999

Em 1936, Caldera fundou a União Nacional de Estudantes (UNE), semente do que viria a ser o movimento democrata-cristão venezuelano.Several authors. COPEI: En el principio fue la UNE. (Venezuela: Ediciones Nueva Política y Fracción Parlamentaria de COPEI), 44. thumb|esquerda|200px|No auditório da Universidade Central da Venezuela, ao se formar como advogado e doutor em Ciências Políticas em 1939.

Vida política Os primeiros trinta anos (1939–1969) thumb|210px|direita|1941. O representante mais jovem nomeado para o Congresso Nacional, Rafael Caldera tinha vinte e cinco anos. Depois de se formar na universidade, Caldera fundou Ação Nacional, movimento político criado para participar das eleições municipais. Logo em seguida, fundou o Partido Ação Nacional e foi eleito, em janeiro de 1941, aos vinte e cinco anos, para a Câmara dos Deputados por seu estado natal de Yaracuy.

Como deputado, opôs-se com firmeza ao projeto que levou ao tratado de fronteira de 1941 com a Colômbia. Também teve papel de destaque nos debates sobre a reforma parcial da Constituição de 1936 e sobre alterações do Código Civil, sendo uma das principais vozes na aprovação de leis trabalhistas progressistas. Em 27 de outubro de 1945, Caldera foi nomeado procurador-geral pelo líder da Junta de Governo Revolucionária, Rómulo Betancourt, que derrubara o presidente Isaías Medina Angarita no golpe de 18 de outubro de 1945.

Em 13 de janeiro de 1946, Caldera cofundou o COPEI, Comité de Organización Política Electoral Independiente (Comitê de Organização Política Eleitoral Independente), partido democrata-cristão que se tornaria um dos dois maiores partidos de massa da Venezuela. A primeira declaração de princípios do COPEI inspirou-se na doutrina social da encíclica papal Quadragesimo Anno (1931) e defendia democracia, pluralismo e reforma social.

Quatro meses depois, em 13 de abril de 1946, Caldera renunciou ao cargo de procurador-geral em protesto contra os contínuos ataques violentos sofridos pelos membros de seu recém-criado partido por parte de simpatizantes do governo.

Em 1946, foi eleito representante à Assembleia Nacional Constituinte, instalada em 17 de dezembro daquele ano. Esse órgão legislativo tinha a tarefa de elaborar uma nova Constituição guiada pelos princípios da Revolução de Outubro. Venezuelanos de todas as regiões passaram a admirar a habilidade retórica do jovem político. Caldera pôde ser ouvido em todo o país depois que Andrés Eloy Blanco, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, atendeu a seu pedido para permitir a transmissão radiofônica ao vivo das sessões legislativas. Caldera teve papel destacado nessa assembleia. Proferiu discursos célebres sobre os direitos sociais dos trabalhadores, a função social da propriedade privada, a reforma agrária, a liberdade religiosa, a educação religiosa e a necessidade de eleição direta e popular dos governadores estaduais.Rodolfo José Cárdenas: «Primer discurso de Rafael Caldera en la Constituyente», in COPEI en el Trienio Populista 1945–48, La tentación totalitaria de Acción Democrática. (Spain: Hijos de E. Minuesa, S.L., 1987), 35 thumb|210px|esquerda|Rafael Caldera durante a campanha presidencial de 1947, chegando a San Cristóbal, Táchira.

Nas eleições de 1947, aos 31 anos, concorreu pela primeira vez à presidência e percorreu o país divulgando as ideias de seu novo partido. O renomado romancista venezuelano Rómulo Gallegos, candidato do partido social-democrata AD (Ação Democrática), venceu a eleição. Caldera também concorreu ao Congresso e foi eleito para a Câmara dos Deputados para o período de 1948–1953. Seu mandato, porém, foi interrompido quando Gallegos foi deposto por um golpe de Estado em 24 de novembro de 1948.

Em 1952, Caldera foi eleito representante à Assembleia Nacional Constituinte. Depois que o coronel Marcos Pérez Jiménez, chefe da Junta Militar, ignorou a vitória eleitoral do partido URD (União Republicana Democrática) e expulsou Jóvito Villalba e outros líderes dessa legenda do país, Caldera e outros parlamentares eleitos do COPEI recusaram-se a participar da nova Assembleia Constituinte.

Durante a ditadura militar de Pérez Jiménez (1952–1958), Caldera foi expulso da Universidade Central da Venezuela e preso várias vezes. Em 3 de agosto de 1955, agentes da Segurança Nacional, uma grande força policial secreta liderada por Pedro Estrada, que perseguia opositores e mantinha notórios campos de concentração, lançaram uma bomba na casa de Caldera, colocando em risco a vida de seu filho mais novo, então com nove meses. Em 20 de agosto de 1957, foi novamente detido, desta vez em regime de isolamento, depois que Pérez Jiménez soube que Caldera provavelmente seria o candidato de consenso de todos os partidos de oposição na eleição presidencial marcada para dezembro de 1957. Com Caldera preso, Pérez Jiménez transformou a eleição em um plebiscito inconstitucional ("sim" ou "não") para decidir sua permanência no poder.

Após o plebiscito de dezembro de 1957, Caldera foi enviado ao exílio pela ditadura de Pérez Jiménez, em janeiro de 1958. Viajou para Nova Iorque e foi recebido por Rómulo Betancourt e Jóvito Villalba. Seu exílio, contudo, durou apenas alguns dias, pois Marcos Pérez Jiménez foi deposto por uma revolta civil e um golpe militar em 23 de janeiro de 1958. Ao retornar à Venezuela, os três líderes assinaram o Pacto de Punto Fijo, assim chamado por ter sido firmado na residência de Caldera.

Esse pacto continha importantes acordos políticos, especialmente o compromisso dos principais partidos em construir, proteger e fortalecer as instituições democráticas e o Estado de direito. Segundo o cientista político Daniel H. Levine, seu objetivo era "apoiar a democracia, unir-se para resistir a desafios à sua legitimidade e sobrevivência, respeitar as eleições e, em geral, buscar institucionalizar a política, canalizando a participação por meio de veículos e arenas democráticos".Daniel H. Levine, "Venezuela: The Nature, Sources and Prospects of Democracy" in Democracy in Developing Countries – Latin America, Larry Diamond, Juan J. Linz, and Seymour Martin Lipset eds. (Boulder, Colorado; Lynne Rienner Publishers, 1989), 248

thumb|210px|direita|Caldera e Mariano Picón Salas no programa La Hora Nacional. RCTV, 1958. O Pacto de Punto Fijo serviu de base para o mais longo período de governo civil democrático da Venezuela (1958–1999).