Constantin Brâncuși (pronúncia em romeno: ; ; 19 de fevereiro de 1876 – 16 de março de 1957) foi um escultor, pintor e fotógrafo romeno que desenvolveu a maior parte de sua carreira na França. Cresceu em Hobița, estudou em Craiova e Bucareste e se estabeleceu em Paris em 1904. Entre 1905 e 1907, frequentou a École des Beaux-Arts e trabalhou por um breve período no ateliê de Auguste Rodin.
A partir de 1907, Brâncuși deixou a modelagem acadêmica e passou a esculpir diretamente a pedra e a madeira. Reduziu cabeças, torsos, aves e outros motivos a volumes simples, trabalhou o brilho do bronze por meio do polimento e incorporou os pedestais à composição das esculturas. Retomou os mesmos temas em materiais, escalas e proporções diferentes. Entre suas obras estão O Beijo, Musa adormecida, Mademoiselle Pogany, Pássaro no espaço e o conjunto de Târgu Jiu.
Biografia
Infância e formação na Romênia
Constantin Brâncuși nasceu em 19 de fevereiro de 1876, na aldeia de Hobița, no distrito de Gorj. Era filho de Nicolae Radu e Maria Brâncuși. A família vivia da agricultura, da criação de animais e do trabalho em madeira, aprendido entre gerações.
Frequentou a escola primária em Peștișani entre 1884 e 1887. Aos onze anos, deixou a casa da família e foi para Târgu Jiu. Trabalhou durante alguns meses com um tintureiro chamado Moscu, com quem aprendeu a preparar corantes vegetais e a tingir lã para tapetes. Depois serviu em um café. Passou algum tempo com o meio-irmão Ion, que mantinha uma hospedaria em Peștișani, e mudou-se para Craiova em 1889. Trabalhou em um armazém e, em setembro de 1892, encontrou emprego em uma mercearia de Slatina.
Em Craiova, chamou atenção por sua habilidade com a madeira. Aos dezoito anos, construiu um violino com materiais encontrados no local onde trabalhava. Em 1894, ingressou na Escola de Artes e Ofícios de Craiova. Estudou desenho, modelagem, talha e marcenaria, concluindo o curso em 1898.
No mesmo ano, entrou na Escola Nacional de Belas-Artes de Bucareste. Na prova de admissão, desenhou a carvão uma reprodução em gesso do grupo de Laocoonte, que voltou a estudar em argila e gesso em 1900. Sua formação incluiu anatomia com o médico Dimitrie Gerota. O Écorché, concluído sob a orientação de Gerota, mostra um homem sem a pele, com a musculatura exposta. A obra foi apresentada no Ateneu Romeno em 1903.
Brâncuși recebeu o diploma em 1902. Cumpriu um ano de serviço militar e continuou a trabalhar no ateliê da escola. Em 1903, recebeu a encomenda de um monumento ao médico e general Carol Davila. Modelou o busto em gesso, depois fundido em bronze e instalado diante do Hospital Militar de Bucareste. A obra ainda seguia o retrato acadêmico de seus anos de formação.
Ainda em 1903, deixou Bucareste em direção à Europa Ocidental. Fez grande parte do caminho a pé e trabalhou durante a viagem para se sustentar. Passou por Viena, Munique e Basileia, onde permaneceu por algum tempo, e chegou a Paris em 14 de julho de 1904.
Estudos em Paris e ruptura com Rodin
thumb|right|upright=0.85|École nationale supérieure des beaux-arts, em Paris.
Nos primeiros meses em Paris, Brâncuși trabalhou como lavador de pratos na Brasserie Chartier. Quando enfrentava dificuldades financeiras, servia nas celebrações da igreja ortodoxa romena da rue Jean-de-Beauvais. Em junho de 1905, foi aprovado no exame de ingresso da École des Beaux-Arts, onde estudou na classe de escultura de Antonin Mercié. Recebeu uma bolsa anual do Ministério da Educação romeno entre 1905 e 1908.
thumb|right|upright=0.85|Auguste Rodin em 1893, fotografia de Nadar.
Em 1906, apresentou pela primeira vez obras no salão da Société nationale des beaux-arts e no Salão de Outono, entre elas os gessos L'Enfant e L'Orgueil. Na edição seguinte do salão da Société nationale, levou Le Supplice, um retrato de Nicolae Dărăscu e duas cabeças de criança.
thumb|left|Brâncuși, c. 1905
Em março de 1907, começou a trabalhar como assistente de Auguste Rodin. Permaneceu no ateliê durante poucas semanas. Preferiu buscar um caminho próprio e resumiu a decisão com a frase: "Nada cresce à sombra de árvores grandes".
Pouco depois, recebeu a encomenda de um monumento funerário para Petre Stănescu, destinado ao cemitério de Dumbrava, em Buzău. O projeto reunia um busto do morto e a figura ajoelhada de A Oração. O tamanho das peças exigiu um espaço de trabalho no térreo. Em março de 1908, Brâncuși alugou um ateliê no número 54 da rue du Montparnasse, perto do pintor e fotógrafo Edward Steichen. Permaneceu ali até 1916.
Entre 1908 e 1910, a baronesa Renée Frachon posou para Brâncuși. As sessões deram origem a La Baronne R.F. e às primeiras formas de Musa adormecida. O rosto foi reduzido a poucas linhas sobre uma cabeça reclinada e ovoide.
Brâncuși também se afastou da modelagem em argila ou gesso destinada à fundição. Passou a cortar diretamente a pedra e a madeira, sem abandonar as versões em gesso e bronze. O modo de trabalhar aprendido na Romênia permaneceu presente no uso das ferramentas e no contato contínuo com o material.
Ateliês, amizades e retratos
thumb|upright|Amedeo Modigliani, Retrato de Constantin Brâncuși, c. 1909.
A partir de 1908, Brâncuși conviveu com artistas e escritores que trabalhavam em Paris, entre eles Amedeo Modigliani, Fernand Léger, Marcel Duchamp, Henri Rousseau, Guillaume Apollinaire, Alexander Archipenko e Henri Matisse. Conheceu Modigliani em 1909 por intermédio do colecionador Paul Alexandre. O artista italiano o retratou em lápis preto e vermelho naquele ano.
Manteve contato com artistas, músicos e escritores romenos que viviam na França, entre eles George Enescu, Theodor Pallady, Camil Ressu, Nicolae Dărăscu, Benjamin Fondane, Panait Istrati, Traian Vuia, Eugène Ionesco e Emil Cioran. Falava romeno no ateliê, recebia conterrâneos e acompanhava notícias de seu país.
Em 1910, conheceu a pintora húngara Margit Pogány, que estudava em Paris. Ela posou em 1910 e 1911. Depois de seu retorno à Hungria, Brâncuși esculpiu de memória a primeira versão em mármore de Mademoiselle Pogany, concluída em 1912. Os dois mantiveram amizade e correspondência por décadas.
Uma versão de O Beijo, esculpida em 1909, foi instalada em 1911 na sepultura de Tatiana Rachewskaia, no Cemitério do Montparnasse.
Em maio de 1912, alugou um segundo ateliê no número 47 da rue du Montparnasse, em frente ao primeiro. No outono, visitou com Duchamp e Léger a exposição de aviação do Grand Palais. Os três se detiveram diante de uma hélice. A precisão da peça industrial alimentou uma conversa sobre as formas produzidas pelas máquinas e o caminho que a escultura poderia tomar.
Brâncuși frequentou jantares organizados em torno de Apollinaire e reuniões de artistas ligados ao Grupo de Puteaux. Também comparecia aos encontros conduzidos pelo poeta Paul Fort na La Closerie des Lilas, onde encontrava Léger, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Erik Satie e outros músicos e escritores.
Armory Show e a galeria 291
thumb|upright=0.75|Cartaz do Armory Show, 1913.
Em dezembro de 1912, Arthur B. Davies, Walt Kuhn e Walter Pach visitaram Paris em busca de obras para o Armory Show. O catálogo da exposição registrou cinco esculturas de Brâncuși: O Beijo, Musa adormecida, Uma musa, Mademoiselle Pogany e Torso.
A mostra abriu em Nova Iorque em 17 de fevereiro de 1913, seguiu para Chicago e terminou em Boston. As formas compactas de Brâncuși provocaram risos, caricaturas e discussões na imprensa. Mademoiselle Pogany foi comparada a um ovo por comentaristas que não reconheciam nela um retrato convencional.
thumb|left|260px|Interior do Armory Show em Nova Iorque, 1913. À esquerda, Mademoiselle Pogany, de Brâncuși.
Edward Steichen escolheu as peças da primeira exposição individual de Brâncuși nos Estados Unidos. A mostra, intitulada An Exhibition of Original Sculpture, in Bronze, Marble, and Wood, by Constantin Brancusi, of Paris, reuniu oito esculturas na galeria 291, de Alfred Stieglitz, entre 12 de março e 4 de abril de 1914. Entre elas estavam Măiastra e Mademoiselle Pogany. Agnes e Eugene Meyer pagaram o transporte das obras e passaram a comprar diretamente do artista.
O advogado e colecionador John Quinn, apoiador do Armory Show, comprou obras de Brâncuși e manteve contato com ele até morrer, em 1924. Em 1914, adquiriu na galeria 291 uma versão de Mademoiselle Pogany.
Primeira Guerra Mundial e impasse Ronsin
thumb|right|Ateliê de Brâncuși em Paris, 1920, fotografado por Edward Steichen.
Brâncuși permaneceu em Paris depois do início da Primeira Guerra Mundial. Em 1915, doou obras para uma exposição na galeria Bernheim-Jeune em benefício de artistas poloneses atingidos pela guerra. Como cidadão romeno, ainda estava sujeito ao serviço militar. Recusou-se a servir em 1916 e recebeu dispensa definitiva em 8 de novembro de 1917.
No começo de 1916, instalou-se no número 8 da impasse Ronsin. Depois ocupou o número 11. Uniu dois e, depois, três ateliês, abrindo passagens nas paredes. Em 1936 e 1941, acrescentou espaços para as obras em andamento, a bancada e as ferramentas.
Em 1916, a Modern Gallery, fundada por Marius de Zayas, comprou Le Nouveau-Né I. A venda ampliou o grupo de colecionadores norte-americanos que acompanhavam seu trabalho. Brâncuși também começou a fotografar as esculturas e a testar diferentes disposições para elas dentro do ateliê.
Dada, fotografia e publicações
Em janeiro de 1920, os organizadores do Salon des Indépendants excluíram Princesa X por causa da forma fálica que atribuíram à escultura. Fernand Léger e outros amigos de Brâncuși protestaram, e a peça voltou à exposição. A controvérsia deu origem ao manifesto Pour l'indépendance de l'art, assinado por mais de setenta artistas e escritores.
Brâncuși era amigo de Tristan Tzara, Francis Picabia e Duchamp, mas não aderiu ao Dadaísmo. Compareceu a leituras e apresentações do grupo. Em 26 de maio de 1920, participou do festival Dada em Paris e assinou com Léger o manifesto Contre cubisme, contre dadaïsme.
thumb|upright=0.75|Man Ray, que auxiliou Brâncuși com seus equipamentos e métodos fotográficos.
Brâncuși fotografava suas obras desde a década de 1910. Em 1921, conheceu Man Ray, que o ajudou a comprar equipamentos, instalar uma câmara escura e aperfeiçoar os processos de revelação. Brâncuși fotografava as esculturas sob luzes diferentes, alterava os enquadramentos e registrava as relações entre as peças e o espaço. Também filmou o ateliê e esculturas colocadas sobre bases giratórias.
Em setembro de 1921, a revista norte-americana The Little Review publicou um número dedicado a Brâncuși. A edição trouxe um ensaio de Ezra Pound e 24 pranchas fotográficas de esculturas e vistas do ateliê.
Em 1923, Brâncuși recebeu a Ordem da Estrela da Romênia, concedida pelo rei Fernando I.
Em 1925, a revista parisiense This Quarter publicou fotografias, desenhos e aforismos de Brâncuși. A escolha das imagens ficou a cargo de Irène Codreanu.
thumb|left|Páginas da revista De Stijl dedicadas a Brâncuși, publicadas em 1927, com uma fotografia de Mademoiselle Pogany ao lado da modelo
Em dezembro de 1927, a revista De Stijl publicou fotografias de Princesa X, Escultura para cegos e outras obras de Brâncuși.
Nova Iorque, colecionadores e colaboradores
thumb|right|200px|Brâncuși, à esquerda, com Henri-Pierre Roché, Erik Satie e Jeanne Robert Foster, em 1923.
Em outubro de 1923, John Quinn passou cerca de duas semanas em Paris e visitou Brâncuși. Depois da morte do colecionador, Duchamp e Henri-Pierre Roché compraram 29 esculturas de seu espólio a pedido do artista. Brâncuși receava que a venda simultânea das peças reduzisse seus preços. Duchamp e Roché ofereceram as esculturas gradualmente a outros colecionadores.