O Campeonato Sul-Americano de Futebol de 1922 foi a sexta edição da competição. Participaram da disputa cinco seleções: Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. A sede foi no Brasil e os jogos ocorreram em turno único, como Brasil e Paraguai acabaram empatados no turno único, houve a necessidade de um jogo desempate. A Seleção Brasileira foi a campeã. O artilheiro da competição foi Juan "El Monito" Francia, da Argentina.

Brasil no Sul-Americano Para celebrar o primeiro Centenário de sua Independência, o Brasil solicitou a organização da Copa América na CONMEBOL e foi prontamente atendido. No Rio de Janeiro, no Estádio das Laranjeiras — mesmo palco do torneio de 1919 — a Seleção Brasileira não decepcionou e ficou com o título sul-americano, o segundo de sua história, novamente como anfitrião. Sem o astro Arthur Friedenreich, na partida final, o Brasil é liderado por três campeões de 1919: Amílcar Barbuy, Neco e Heitor Domingues. A competição, que pela primeira vez na história teve a participação de cinco países, contou com o inédito triplo empate na primeira colocação, entre Brasil, Uruguai e Paraguai. Os uruguaios, em protesto contra a arbitragem, acabaram desistindo da competição, deixando então o caminho livre para Brasil e Paraguai decidirem o título. No jogo extra, vitória da Seleção Brasileira por 3 a 0. A Argentina, sem poder contar com jogadores dos principais clubes, como River Plate, Independiente, Racing e San Lorenzo, teve um fraco desempenho, bem diferente da edição anterior, quando conquistou o título pela primeira vez.

Jogos O primeiro jogo deste campeonato foi no dia 17 de Setembro com 30.000 torcedores empurrando a Seleção Brasileira contra o Chile, até então na história do Campeonato Sul-americano, a pior equipe de todas, ficando em último lugar em todas as vezes que participou. Mas o resultado foi 0 a 0. Além do empate, o Brasil ainda perdeu dois jogadores machucados.

O Uruguai fazia a sua parte e vencia o Chile em 23 de Setembro com 12.000 pessoas acompanhando o jogo na arquibancada das Laranjeiras. O resultado de 2 a 0 conquistado ainda no primeiro tempo dava a liderança ao Uruguai na competição. Heguy aos 10 minutos e Urdinarán de pênalti aos 19 marcaram para os uruguaios.

No dia seguinte, o Brasil voltava a campo para mais uma desastrosa partida. O empate em 1 a 1 com o Paraguai, desanimava os 25.000 torcedores que compareceram ao estádio. O Paraguai saiu na frente com Rivas aos 14 do primeiro tempo e o Brasil só empatou aos 26 do segundo tempo, tamanha a dificuldade devido aos desfalques do primeiro jogo.

Para deixar tudo sem definição, a Argentina fazia o seu primeiro jogo e vencia o Chile por 4 a 0 em 28 de Setembro com apenas 2.500 espectadores. Com a goleada, a Argentina se juntava ao Uruguai e ao Brasil na liderança, todos com 2 pontos. Mas o Brasil tinha um jogo a mais.

Em primeiro de Outubro a Seleção Brasileira fazia seu terceiro jogo e também seu terceiro empate. 0 a 0 contra o Uruguai, que mantinham a liderança agora com 3 pontos cada. Até agora, o Brasil marcou apenas um gol. Mas Brasil e Uruguai teriam a companhia de Paraguai 4 dias depois. O Paraguai, assim como o Uruguai somava 3 pontos em apenas dois jogos, após vencer o eliminado Chile por 3 a 0 em 5 de Outubro, com apenas 1.000 pessoas presentes. Vale lembrar, que a Argentina até agora, desfalcada de diversos jogadores dos principais clubes, como River Plate, Independiente, Racing e San Lorenzo, tinha feito apenas um jogo e estava com 2 pontos.

E o segundo jogo argentino foi uma derrota para os uruguaios por 1 a 0 em 8 de Outubro com gol de Buffoni aos 43 do primeiro tempo. O juiz foi Pedro Santos do Brasil. O resultado dava ao Uruguai, enorme vantagem de 2 pontos na liderança. Mas mesmo assim, Brasil, Paraguai e Argentina ainda tinham chances de vencer a competição. É a primeira vez que faltando apenas dois jogos para o fim da competição, 4 seleções podiam ser campeãs.

Mas em 12 de Outubro, o Paraguai derrotou a Seleção do Uruguai por 1 a 0. Este jogo garantiu que o Brasil ainda tivesse chances de ser campeão, pois bastava um empate para o Uruguai eliminar o Brasil e uma vitória para ser campeão. Mas aqui começa um problema que até hoje existe no Brasil. O árbitro era o brasileiro Pedro Santos. A Seleção do Uruguai reclamava muito após a partida dos erros do árbitro.

Em 15 de Outubro, o Brasil vence a Argentina por 2 a 0 com 25.000 pessoas no estádio. Este resultado levava o Brasil à 5 pontos, a mesma pontuação que o Uruguai e o Paraguai. Mas o Paraguai ainda tinha um jogo para fazer. Brasil e Uruguai, que já tinha sido prejudicado pela arbitragem, já haviam feito todos os seus jogos e torceriam para que o Paraguai perdesse o seu último jogo.

E no dia 18 de Outubro, não bastasse as confusões do árbitro brasileiro no jogo Paraguai e Uruguai, um novo árbitro brasileiro apitava Argentina e Paraguai. O árbitro Henrique Vignal do Brasil teve participação direta no resultado, tanto que o Paraguai resolveu sair de campo aos 34 minutos do segundo tempo em protesto contra o pênalti marcado pelo juiz. Apenas o goleiro Denis ficou em campo, mas não conseguiu evitar o segundo gol argentino.

A imprensa e a Seleção Brasileira Falar em Seleção Brasileira com a ideia de que dela fizessem parte jogadores que efetivamente representassem o Brasil foi uma tarefa difícil, uma vez que os estatutos da CBD excluíam os analfabetos, que de acordo com o Censo de 1920, eram 65% da população brasileira . Junto a esse dado, vale ressaltar que, a despeito da organização do campeonato de seleções estaduais, a seleção de 1922 contou apenas com jogadores de São Paulo e da cidade do Rio de Janeiro, como era de costume. Da equipe que disputou a final do torneio contra o Paraguai, sete jogadores eram de equipes paulistas e quatro eram de equipes cariocas..

No entanto, de uma maneira geral, a imprensa saudou os esforços por parte dos dirigentes da CBD e da “Comissão Desportiva do Centenário” em fazer reunir “um conjunto que representasse dignamente o sport nacional” através do campeonato de seleções estaduais, “proporcionando os seus resultados sorpreendente opportunidade para que se constatasse o progresso sportivo de outros Estados” (“Domingo Sportivo”. O Imparcial, Rio de Janeiro, 14 de agosto de 1922, p. 1). No dia seguinte à final, em 23 de outubro, os periódicos exultavam o feito do selecionado brasileiro e alimentavam o discurso de comemorações feitas pelo povo, dando destaque ao alcance verdadeiramente nacional do feito. O Imparcial, logo em sua primeira página destacava: “Todo o Brasil rejubila a estas horas com a merecida victória alcançada hontem [...]”. O Jornal descrevia que “os louros dessa memoravel pugna couberam, mui justamente aos nossos patricios que tiveram, assim, o justo premio dos esforços despendidos e da abnegação com que sempre lutaram em defesa das cores nacionais” (O Jornal, Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1922, p. 7)..

Não foram apenas o público e a imprensa aqueles a comemorar o feito e a celebrar a seleção de futebol como verdadeiros “heroes” da nação. O deputado Benjamim Barroso propôs o pagamento de um prêmio de 50:000$000 a ser dividido entre os jogadores, valor equivalente à renda do jogo contra os paraguaios . A proposta, aprovada no Congresso Nacional, tinha em seu texto introdutório, a demonstração das justificativas para tal medida. Os deputados consideravam que os vencedores do torneio “realizado no Centenario da Independencia, se esforçaram, conservando-se adstrictos aos preceitos desportivos, pelo renome da nossa gente” (A Noite, Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1922, p. 3; Diário de Pernambuco, 24 de outubro de 1922, p. 3). O pagamento do prêmio gerou muita polêmica e a imprensa se aproveitou para desfiar muitas críticas ao governo, principalmente através das charges das revistas Careta e A Cigarra. A referência aos 50:000$000 como prêmio para os jogadores foi tratado em tom de escândalo por alguns órgãos de imprensa. O Diário de Pernambuco (24 de outubro de 1922, p. 3) e o jornal carioca A Noite (Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1922, p. 3), forte oposicionista do regime, denunciavam a aprovação por parte do Congresso de proposta para o pagamento de prêmio aos atletas que haviam vencido o torneio de futebol..

O escândalo era maior, pois a própria CBD exigia em seus estatutos que todos os atletas fossem amadores para poder representar a seleção brasileira. O valor não era dos maiores. Era menor, por exemplo que a renda de apenas um dos jogos do torneio, entre Brasil e Argentina, em que se obteve, com a venda de ingressos, 54:018$000 (“Os Sports no Centenário”. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 16 de outubro de 1922, p. 3). Cada um dos 15 jogadores ficaria com muito menos do que os dois jangadeiros que fizeram uma viagem marítima do Ceará à Capital e os dois ciclistas gaúchos, que saíram da cidade de São Pedro em suas bicicletas com destino também ao Rio de Janeiro, como forma de celebrar o centenário. Originalmente, o Congresso aprovou 100:000$000 apenas para os jangadeiros, mas o atuante deputado gaúcho Octavio Rocha conseguiu uma emenda ao projeto para a divisão com os atletas gaúchos . Mesmo assim, era um valor elevado a ser dividido entre os jogadores de futebol. Cada um receberia do governo valores que poderiam chegar a ser quase 20 vezes maior do que o salário de um operário da Fábrica América Fabril..

Além desse escândalo, alguns parlamentares passaram a condenar as competições internacionais de futebol, pois estas estariam acirrando rivalidades que extrapolavam o campo e estavam dificultando relações com figuras proeminentes dos países sul-americanos. Brasil e Uruguai disputavam uma cadeira permanente na Liga das Nações e devido aos atritos com a seleção uruguaia, alguns parlamentares brasileiros viram a competição e o acirramento das rusgas entre os dois países como um revés na política internacional do país. O deputado paulista Carlos Garcia apresentava projeto à Câmara proibindo os jogos internacionais no país (“O Projecto Carlos Garcia”. Folha da Noite, São Paulo, 21 de outubro de 1922, p. 3). Em charge de autoria de Belmonte, publicada dias após o jogo entre Brasil e Uruguai, a violência e a confusão entre os jogadores foi o mote para o ilustrador abordar o assunto. Ao lado da República, simbolizada por uma grande mulher e parte da bandeira nacional, tremulavam as bandeiras do Uruguai, Chile e Argentina. Junto ao símbolo da bandeira, um parlamentar em trajes oficiais aponta para dois jogadores ao lado de uma bola de futebol. Um deles está com um pé no pescoço do outro e o político afirma: “O que alguns fazem com as mãos, outros fazem com os pés” (“Fraternidade Sul-Americana”. Careta, Rio de Janeiro, Anno XV, n. 746, 7 de outubro de 1922, p. 30)..