Eufrásia Teixeira Leite (Vassouras, 15 de abril de 1850 – Rio de Janeiro, 13 de setembro de 1930) foi uma aristocrata, herdeira multimilionária, investidora financeira e filantropa brasileira.
Após a perda dos pais em 1872, Eufrásia e sua irmã, Francisca Bernardina, passaram a administrar com notável talento a herança recebida, multiplicando seu patrimônio e deixando, em testamento, uma fortuna que poderia comprar 1.850 quilos de ouro, aos preços da época, e cuja maior parte foi legada a instituições assistenciais e educacionais da cidade de Vassouras, no Rio de Janeiro. O usufruto da riqueza garantiu-lhe a emancipação econômica, tornando-a, além de uma bem-sucedida rentista, uma mulher independente que viveu a vida conforme as suas escolhas. Para os padrões atuais, Eufrásia seria bilionária.
Biografia Eufrásia nasceu na cidade fluminense de Vassouras, em 1859. Era a filha caçula do Dr. Joaquim José Teixeira Leite e Ana Esméria Correia e Castro, sendo neta paterna do barão de Itambé, neta materna do barão de Campo Belo, sobrinha do barão de Vassouras e sobrinha-neta do barão de Aiuruoca. Tinha uma única irmã, Francisca Bernardina Teixeira Leite (1845-1899), e um irmão que morreu na infância.
A família de seu avô paterno já era muito rica quando mudou-se de Conceição da Barra de Minas para Vassouras. Seu pai e seu tio barão de Vassouras se estabeleceram como capitalistas, fundando, no Rio de Janeiro, a empresa "Casa Teixeira Leite & Sobrinhos", que emprestava dinheiro a juros e realizava intermediações financeiras com os prósperos fazendeiros de café. Por outro lado, a família de sua mãe era composta somente por ricos plantadores de café, sendo ela membro da tradicional família Correia e Castro.
Para os padrões brasileiros da época, recebeu uma educação aristocrática, tendo estudado na escola de moças de madame Grivet, que existia na localidade de Comércio, hoje Sebastião Lacerda, em Vassouras. Além do ensino básico, aprendeu boas maneiras, a falar o francês e a tocar piano.
Europa thumb|280px|Chácara da Hera, antiga residência de Eufrásia Teixeira Leite, em Vassouras. Com a morte de seus pais, (a mãe em 1871 e o pai em 1872), Eufrásia e sua irmã herdaram uma fortuna de 767:937$876 réis (767 contos, novecentos e trinta e sete mil, oitocentos e setenta e seis réis), o que equivalia na época a metade da dotação pessoal do imperador D. Pedro II para um ano. Logo depois, em 1873, morreu sua avó materna, a baronesa de Campo Belo, e as irmãs receberam, como herança, mais 106:848$886 (cento e seis contos, oitocentos e quarenta e oito mil e oitocentos e oitenta e seis réis) na forma de títulos e a casa que nasceu (Museu Casa da Hera). A propriedade foi administrada de forma a ser auto sustentável na maior parte do tempo pela dificuldade do cambio e envio de dinheiro. Vendia flores e frutas.
Nas décadas de 1870 e 1880, a região de Vassouras já entrava em decadência, devido ao esgotamento do solo e ao envelhecimento dos escravos, mas os bens das irmãs não eram fazendas de café; elas possuíam apólices de títulos da dívida pública do Empréstimo Nacional de 1868, ações do Banco do Brasil, depósitos bancários, títulos de crédito de pessoas, uma casa no Rio de Janeiro e uma grande propriedade urbana em Vassouras, atualmente conhecida como Casa da Hera ou Chácara da Hera, onde residiam com seus pais.
Jovens e solteiras, as irmãs venderam ações, títulos e a casa do Rio de Janeiro, cobraram créditos, fecharam a casa da chácara, deixando dois empregados incumbidos de sua conservação, e partiram, em 1873, para residir em Paris.
Mas esta não foi a primeira vez que Eufrásia e sua irmã partiam para a Europa. O jornal Correio Mercantil, de 7 de junho de 1857, informava que Joaquim José Teixeira Leite, sua esposa, e suas filhas partiram para a Europa no paquete Gênova. E como Joaquim recentemente fora eleito deputado, há meses os jornais já informavam sobre essa viagem, pois seu suplente assumiria a legislatura. Em 30 de abril de 1857 o Correio Mercantil dizia: "Está em preparativo de viagem para Europa, em consequência de moléstia de uma filha, o Dr. Joaquim José Teixeira Leite". Em 1859 já estavam de volta ao Brasil, a estadia pode não parecer longa, mas para duas crianças, viver quase dois anos no exterior causou impacto. Portanto, quando Eufrásia e a irmã voltaram a Paris em 1873, no luto pelos pais, elas buscavam um lugar que não era desconhecido pelas duas.
Romance com Joaquim Nabuco thumb|250px|Joaquim Nabuco, em 1886. Eufrásia, além de inteligente e hábil com negócios, foi uma mulher muito bela, como mostram diversos quadros e retratos. O famoso romance entre Eufrásia e o abolicionista Joaquim Nabuco começou ou ganhou força no convés do navio Chimborazo, durante sua viagem à Europa em 1873: "ainda não se pode afirmar com exatidão o local onde eles se conheceram. Foi paixão tão fulminante, que desembarcaram noivos na Europa. Os pais do noivo, ao receberem o telegrama no Rio de Janeiro, avisando sobre o noivado, comemoraram o compromisso tão auspicioso que o filho havia feito e agilizaram-se para preparar a documentação necessária ao enlace do filho. O noivado durou pouco, foi desfeito e refeito outras quatro vezes ao longo de quatorze anos de muitas correspondências. (…) Nas três semanas de travessia do Atlântico, encantou Eufrásia e por ela foi encantado. De setembro a janeiro, permaneceu em Paris, compromissado com a órfã que morava com a irmã em Versalhes. Emancipada, Eufrásia deu a própria mão em casamento, apenas comunicando aos parentes brasileiros a sua vontade. Por mais que não pudesse impedi-la, seu tio (o Barão de Vassouras) manifestou repúdio ao noivo. Razões não faltavam: o pai do rapaz era do Partido Liberal, enquanto os membros da família Teixeira Leite eram do Partido Conservador; o rapaz ousava ser um abolicionista, herdeiro do Engenho Massangana ".
As cartas amorosas que Eufrásia recebeu de Joaquim Nabuco foram, diz a tradição, por expressas instruções dela, encerradas em seu caixão. Outra teoria era de que Eufrásia teria pedido para seu testamenteiro, Raul Fernandes, queimar as cartas após sua morte. Pelo fogo ou pela terra, o fato é que as cartas escritas por Nabuco à Eufrásia se perderam, restando apenas uma: a carta do rompimento do romance, de 16 de abril de 1886, em que ele diz, entre outras coisas, o seguinte: "Eu por meu lado considero-me perfeitamente livre de qualquer compromisso meu consigo e pretendo governar-me guiando-me só pelo coração. (…) Eu sinto que tudo acabou entre nós e não vejo quem mais poderá ou quererá encher este fim de vida que não parece valer a pena separar do passado. Adeus, sempre seu, amigo verdadeiro, Joaquim Nabuco." Embora essa tenha sido a carta de despedida do romance, eles ainda trocaram outras mais em 1887, quando Eufrásia tentou emprestar-lhe dinheiro, já que Nabuco estava com dívidas, mas isso feriu seu orgulho, e após uma conturbada troca de cartas, ele parou de responder a Eufrásia definitivamente.
Já as cartas e bilhetes que Eufrásia enviou a Joaquim Nabuco estão guardadas na Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. Algumas dessas cartas sugerem que algo muito íntimo, para além dos padrões da época, teria ocorrido entre os dois..
A maior parte do romance ocorreu na Europa, onde Eufrásia tinha interesses financeiros e mundanos. Joaquim Nabuco, porém, tinha ambições políticas no Brasil. O romance durou de 1873 até 1887, quando Eufrásia remeteu a última carta para Joaquim Nabuco. Dois anos depois, ele se casou com Evelina Torres Soares Ribeiro. Eufrásia jamais se casou..
Vida na Europa thumb|300px|40, rue de Bassano: residência de Eufrásia Teixeira Leite em Paris. Eufrásia tinha o espírito empresarial da família e investiu sua fortuna e a da irmã, não em terras ou ativos produtivos, mas em capital financeiro, sabendo administrá-la e multiplicá-la com maestria no circuito mercantil internacional. Em países europeus, comprou ações de empresas que produziam com as novas tecnologias da Segunda Revolução Industrial, como indústrias extrativistas, companhias ferroviárias, indústrias de transformação e bancos estrangeiros, e participou da internacionalização de capitais que ocorria na época. No Brasil, Eufrásia comprou ações no Banco do Brasil, Banco Comércio e Indústria de São Paulo, Banco Mercantil do Rio de Janeiro, Companhia América Fabril, Cia. de Fiação e Tecidos Aliança, Cia. Tecelagem de Seda Ítalo-Brasileira, Companhia Antártica Paulista, Cia. Cantareira e Viação Fluminense, Cia. Docas de Santos, Cia. Mogiana de Estradas de Ferro, Cia. Paulista de Estradas de Ferro, Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Consta ter sido a primeira mulher a entrar no recinto da Bolsa de Valores de Paris.
Instalou-se em Paris, residindo depois de 1884 com a irmã em um hôtel particulier de cinco andares, na rua Bassano 40, 8º arrondissement, próximo ao Arco do Triunfo, endereço sofisticado até os dias atuais. As irmãs viviam uma vida recatada, mas participavam da vida social parisiense. Eufrásia integrou o círculo das amizades mais próximas de Dona Isabel de Bragança, princesa imperial do Brasil, quando esta estava já no exílio na França.
Sua irmã, Francisca Bernardina, tinha uma séria deformação na bacia e morreu em 1899, em Paris, sem ter se casado. Assim, Eufrásia herdou também a fortuna da irmã.miniaturadaimagem|Eufrásia Teixeira Leite (em pé), sua irmã Francisca Bernardina Teixeira Leite (à direita da imagem, ombro tocado pela irmã), e uma prima. |alt=Entre 1874 e 1928 veio somente duas vezes ao Brasil, mas viajou para diversos outros países. Viu a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) na Europa e lamentou os danos causados aos prédios.
Alta-Costura O acervo do Museu Casa da Hera, antiga residência de Eufrásia, é variado e guarda, inclusive, algumas roupas da antiga proprietária. Há exemplares da famosa Maison Worth, fundada pelo costureiro Charles Frederick Worth (1825-1895), considerado o "pai da alta-costura". Isso revela a riqueza de Eufrásia, seu consumo de luxo, e sua circulação na alta roda da sociedade parisiense.
"A coleção de Eufrásia assinada por Worth é composta por oito peças que se diversificam nas formas e funções de uso, são elas: dois hobbies, quatro casacos e um traje de montaria composto por duas partes — saia e jaqueta. O Museu não dispõe de vestidos assinados por Worth, entretanto, na coleção geral de indumentária do Museu encontramos vestidos de baile ricamente decorados, outros de uso cotidiano finamente bordados. Os sessenta e quatro itens identificados, incluídos aí as oito peças de Worth, estão armazenados na reserva técnica adaptada em um dos quartos da Casa-Museu. (…) No imaginário social, sobretudo em Vassouras, Eufrásia está associada ao luxo e ao requinte e, certamente, a coleção de trajes contribui para a atribuição desses valores. Numa leitura geral sobre as características formais dos trajes confeccionados por Worth, nota-se que a maioria das peças tem acabamento detalhado, preocupação especial do estilista para ganhar destaque no mercado. Os padrões utilizados são de tecidos raros, aveludados ou em seda. Em primeiro plano os ornamentos em bordados delicados, predominantemente em uma cor semelhante a do tecido de base trás discrição". Outro objeto do museu que torna patente sua influência é seu retrato feito pelo famoso pintor francês Carolus Duran, que foi medalhista de ouro nos Salões de pintura parisiense, tendo alguns de seus quadros adquiridos pelo Estado Francês e exibidos no Museu de Luxemburgo. Hoje encontramos grandes pinturas de Carolus Duran no Museu D´Orsay e no Pétit Palais, em Paris. No Brasil, encontramos Duran em Vassouras, no Museu Casa da Hera. Nessa pintura, Eufrásia surge com um vestido decotado de noite, de seda clara, envolta por uma estola de pele de arminho, em fundo vermelho: outra marca registrada de Duran.
Retorno e morte no Brasil