Maria Gabriela Llansol Nunes da Cunha Rodrigues Joaquim (Lisboa, 24 de Novembro de 1931 - Sintra, 3 de Março de 2008), mais conhecida, simplesmente, como Maria Gabriela Llansol foi uma escritora e tradutora portuguesa.
Biografia Formada em Direito, que jamais exerceu, começa a publicar em 1962.LLANSOL, Maria Gabriela Um falcão no punho, ed. Autêntica, 2011, p.149 Entre 1965-1984, viveu, em exílio, na Bélgica, onde deu início, com O livro das comunidades, a uma obra, com mais de 26 livros, de gênero inclassificável, como se lê na “Nota biográfica”, incluída na edição brasileira de Um falcão no punho:
Na literatura portuguesa contemporânea, a obra de Maria Gabriela Llansol destaca-se com um perfil avesso à representação dominante no romance e a todas as formas de ortodoxia. Escrito sob o signo da ruptura, o seu texto estrutura-se de forma não linear e não sequencial, gerando frequentemente fulgurações, ou “cenas-fulgor”, que traduzem a descontinuidade temporal, a preferência pelo fragmentário e a experiência da metamorfose e da vibração do Vivo originalmente postas em linguagem.
A experiência do encontro com a escrita llansoliana, e com a proposição que ela porta, se reflete na grande quantidade de produções acadêmicas, tais como trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado e teses doutorais – dedicadas à obra llansoliana - uma rápida busca no acervo da Biblioteca da UFMG, por exemplo, mostra que, desde 1997, foram cerca de 18 trabalhos realizados acerca da obra llansoliana.Busca no Catálogo da Biblioteca da UFMG
Também pela quantidade de filmes, e outras produções artísticas, que nascem dessa experiência - por exemplo, o filme Redemoinho-poema, de Lucia Castello Branco e Gabriel Sanna.
Sobre a escrita de Maria Gabriela Llansol Conforme se lê na "Nota biográfica" dos Diários, publicados, no Brasil, pela Autêntica Editora, sua escrita se dá “nas margens da língua [...] e fora do universo institucional e mediático da ‘literatura’.
Ainda nessa nota, lemos, de Augusto Joaquim, seu marido e companheiro da escrita e de vida: “o mundo a que esta autora se refere é o nosso mundo e, no nosso mundo, aos problemas de fundo que o fazem tal como ele é: lugar por onde passamos à procura de amor e de sentido”.
Tal afirmação coloca o texto de Llansol como uma experiência para além da adesão a verdades dadas de antemão, ou reservadas a uns poucos; pois, em carta a Eduardo Prado Coelho, lemos:
Desde sempre me tenho norteado pelo princípio do que o texto precisa de encontrar, não o leitor abstracto, mas o leitor real, aquele a que, mais tarde, acabei por chamar legente – que não o tome nem por ficção, nem por verdade, mas por caminho transitável.
Se caminho transitável, não ficção ou verdade, afirma Llansol, ainda na carta citada, é desejo desse “texto tentar abrir no real da política actos mais frequentes de dom poético, de compaciência pelos corpos que sofrem, e de alegria pelos que amam”, propondo, aos legentes, a possibilidade de ajudar “a viver melhor e com menos impostura”.
Assim, o texto de Maria Gabriela Llansol não pretende ser tão-somente como uma forma estética alheia à realidade, um puro experimentalismo. Ele se volta contra a impostura, e, por conseguinte, contra as ficções do mundo, e suas verdades. Como a ficção de que nos fala a autora na Carta ao legente, acerca dos "sem-terra" e daqueles que são desconsiderados pelos valores vigentes, os pobres:
Legentes da dor sem saber ler. Desprovidos de actos voluntários, nasceram com fome./ E está estabelecido pela ficção (que não o texto) do mundo que passarão fome.
E é nesse ponto de “companhias estelares”, dos “sem terra" e dos pobres, que o texto llansoliano se propõe como possibilidade de continuação de uma problemática:
Creio que os outros escritores “do meu ramo” já conhecidos ou ainda no começo, aqui e no Brasil, vão ter de pensar no modo como criar um espaço de vida, que não seja marginal a nada, mas um lugar real de escrita e de leitura.
Afinal, como ela mesma afirma em entrevista a João Mendes, em 1995, quando se trata da textualidade, não cabe pensar em hereditariedade, mas em “continuidade de problemática”.LLANSOL, Maria Gabriela. Entrevistas, ed. Autência, 2011, p.35 Problemática que, portanto, aponta para um caminho transitável e real: da escrita, da leitura e da vida, que, a partir do fulgor do texto, são vividas sem impostura, e são convite aberto.
Prémios e Reconhecimento miniaturadaimagem|285x285px|Homenagem a Maria Gabriela Llansol, pela Câmara Municipal de Sintra, em 2009
Prémio Dom Dinis da Fundação Casa de Mateus do ano de 1985, por Um Falcão no Punho Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB da Associação Portuguesa de Escritores do ano de 1990, por Um Beijo Dado Mais Tarde Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB da Associação Portuguesa de Escritores do ano de 2006, por Amigo e Amiga A Câmara Municipal de Sintra homenageou-a com uma placa evocativa na Volta do Duche, junto do plátano que é referido como Grande Maior no seu livro Parasceve.
Obras Seleccionadas Entre as suas obras encontram-se: 1962 - Os Pregos na Erva 1973 - Depois de Os Pregos na Erva
Geografia de Rebeldes 1977 - O Livro das Comunidades 1983 - A Restante Vida 1984 - Na Casa de Julho e Agosto
O Litoral do Mundo 1984 - Causa Amante 1986 - Contos do Mal Errante. Com posfácio de Manuel Gusmão 1988 - Da Sebe ao Ser
Outras obras 1990 - Amar um Cão 1990 - O Raio sobre o Lápis 1990 - Um Beijo Dado mais tarde 1993 - Hölder, de Hölderlin 1994 - Lisboaleipzig I. O encontro inesperado do diverso 1994 - Lisboaleipzig II. O ensaio de música 1998 - A Terra Fora do Sítio 1998 - Carta ao Legente 1999 - Ardente Texto Joshua 2000 - Onde Vais, Drama-Poesia? 2000 - Cantileno, com posfácio de Lucia Castello Branco 2001 - Parasceve. Puzzles e Ironias 2002 - O Senhor de Herbais. Breves ensaios literários sobre a reprodução estética do mundo, e suas tentações 2003 - O Começo de Um Livro é Precioso 2003 - O Jogo da Liberdade da Alma 2006 - Amigo e Amiga. Curso de silêncio de 2004 2007 - Os cantores de leitura
Diários 1985 - Um Falcão no Punho. Diário I 1987 - Finita. Diário II 1996 - Inquérito às Quatro Confidências. Diário III
Publicações póstumas (Editadas pelo Espaço Llansol / Assírio) 2009 - Livro de Horas I: Uma data em cada mão 2010 - Livro de Horas II: Um arco singular 2013 - Livro de Horas III: Numerosas Linhas 2014 - Livro de Horas IV: A palavra imediata 2015 - Livro de Horas V: O azul imperfeito 2018 - Livro de Horas VI: Herbais foi de Silêncio 2020 - Livro de Horas VII: O Sonho é um Grande Escritor 2022 - Livro de Horas VIII: Escrito nas Margens 2023 - Livro de Horas IX: Um Conjunto de Espirais (Colares, 1985-1990) 2025 - Livro de Horas X: A Floresta das Intensidades Publicações póstumas (Outras editoras)
2019 - Sintra em passo de pensamento 2020 - O Texto-Catarina
Traduções 1995 - Emily Dickinson, Bilhetinhos com Poemas (sob o pseudónimo de Ana Fontes) 1995 - Paul Verlaine, Sageza 1996 - Rainer Maria Rilke, Frutos e Apontamentos 1998 - Rimbaud, O Rapaz Raro 1999 - Teresa de Lisieux, O Alto Voo da Cotovia 2001 - Apollinaire, Mais Novembro do que Setembro 2002 - Paul Éluard, Últimos Poemas de Amor 2003 - Charles Baudelaire, As Flores do Mal
Referências
Ligações externas Blog do Espaço Llansol: http://espacollansol.blogspot.com Blog Fio de água do texto: https://fiodeaguadotexto.wordpress.com Documentário: Maria Gabriela Llansol - Um Olhar Intenso Pode Incendiar o Texto, realizado por Abílio Leitão Filme Redemoinho-Poema documentário sobre Maria Gabriela Llansol de Lucia Castello Branco e Gabriel Sanna
Categoria:Escritoras de Portugal Categoria:Naturais de Lisboa Categoria:Mulheres na literatura Categoria:Portugueses de ascendência espanhola