Os mapuches são um povo indígena da região centro-sul do Chile e do sudoeste da Argentina. Os grupos localizados entre os rios Biobío e o Toltén (atual Chile) conseguiram resistir com êxito aos conquistadores espanhóis na chamada Guerra de Arauco, uma série de batalhas que durou 300 anos, com longos períodos de trégua. A coroa de Espanha reconheceu a autonomia destes territórios em 1641, por meio do Tratado de Quilín. Após a independência de Chile e Argentina, estes territórios foram invadidos por destacamentos militares republicanos, sendo a população Mapuche confinada em "reduções" no Chile e reservas indígenas na Argentina.

Por conta deste processo de despojo territorial, mais que a metade da população indígena Mapuche vive hoje em dia em zonas urbanas, muitas mantendo, entretanto, vínculos com suas comunidades de origem.

miniaturadaimagem|Bandeira histórica Mapuche.

De maneira geral o movimento Mapuche luta pela recuperação de seu território ancestral, por mudanças constitucionais em prol dos direitos indígenas e reconhecimento por parte dos Estados de suas especificidades culturais.

Isso sem descartar o separatismo e a independência do Chile e da Argentina, como declarado pelo próprio movimento mapuche: "Debaixo de um ambiente intolerável de opressão, não se vislumbram perspectivas de reconciliação, e hoje muitos mapuche se perguntam se tivessem a opção de escolher entre o caminhar sozinhos ou em má companhia não optariam pela primeira opção. A situação descrita justifica os anseios de independência dos mapuche que, queiram ou não reconhecer, seguem vigentes".

Etimologia thumb|left|250px|Fotografia de 1897, tirada pelo geógrafo Hans Steffen

A denominação Mapuche se origina da fusão de duas palavras, “mapu” que significa terra, e “che”, que significa gente. Em algumas regiões, ambos os termos são utilizados com pequenas diferenças de significado. Especula-se que o nome araucano proceda da palavra quechua "awqa", inimigo, selvagem ou rebelde, ou de "palqu", silvestre, tendo sido lhes dada pelos incas ou pelos espanhóis, fato que explica o repúdio desta designação por parte dos próprios Mapuche.

Segundo os cronistas, os incas denominavam à população que habitava o sul do rio Choapa de purumauca. Os espanhóis adotaram a denominação auca para se referir a ela. Da mesma forma, postula-se que, não sendo uma palavra quechua, o termo poderia ser uma derivação da palavra mapuche "Ragko" (água ruidosa) castelhanizada, que os conquistadores haviam utilizado para os habitantes de um lugar com este nome e que logo havia se estendido a todos os povos restantes daquela região.

Até o século XVIII, também existiam entre os integrantes desta etnia a autodenominação "reche", cuja tradução significaria homem verdadeiro.María del Milagro Lee Arias señala en sus Breves notas de la etnohistoria del pueblo mapuche que:

Língua e Cosmovisão Os mapuches falam língua Mapudungun (em português, som da terra).

A terra caracteriza e dá sentido existencial aos mapuche, fazendo parte desde seu etnônimo (gente da terra) até a espécie de seus sobrenomes, geralmente toponímias do lugar em que historicamente vivem (ou viviam) as diferentes linhagens de parentesco.

Os Mapuche usam a ideia de mapu para designar a Terra, compreendida enquanto seus territórios tradicionais, contudo não somente no simples plano material. A ideia de mapu não faz “só uma referência ao tangível, ao material, senão que possui uma dimensão espacial que permite situar todas as dimensões da vida no universo. Ou seja, possui também uma dimensão transcendente” (PAILLAL, 2006, p. 31).PAILLAL, José M. La sociedad Mapuche prehispánica: Kimün, arqueologia y etnohistória. In: QUEMENADO, Pablo M. Escucha Winka: Cuatro ensayos de História Nacional Mapuche y un epílogo sobre el futuro. 1º ed., Santiago, Chile: LOM ediciones, 2006. O conceito de Mapu alude assim a um espaço tanto físico como metafísico, onde as forças do bem e do mal se complementam e interagem.

O universo cosmogônico Mapuche possuiria duas dimensões: uma vertical e outra horizontal. A primeira faz referência a uma série de plataformas que estariam superpostas no espaço, possuindo certa hierarquia, sendo as superiores relacionadas ao bem e as inferiores ao mal. A mapu, estaria em um grau intermediário, espaço de intersecção, lugar onde o bem e o mal permeiam sincronicamente.GREBE, María Ester, Sergio Pacheco y José Segura. Cosmovisión Mapuche. In: Cuadernos de la realidad nacional, Nº 14, pp. 46-73, 1972.:

Em relação à dimensão horizontal, estas plataformas seriam todas quadradas e de igual tamanho. Geograficamente, esta plataforma que é a mapu, está orientada segundo os quatro pontos cardeais, tomando como referência o leste, materializado pela cordilheira dos Andes, direção sagrada e positiva de onde nasce o sol, matriz da presente concepção espacial.

A ideia do mundo quadrado, sendo os vértices os pontos cardeais é representada no kultrun, um dos instrumentos musicais mais importantes da cultura Mapuche, utilizado tradicionalmente em rituais xamânicos. “O kultrun é o resumo do conjunto da criação que a machi utiliza para seus serviços como símbolo e expressão do poder” (PIUTRÍN, 1985, p. 121).PIUTRÍN, Martín A. Mapuche: ayer-hoy. Imprenta y Editorial “San Francisco”. Chile: 1985. É justamente no centro deste quadrado, o centro do universo, que as comunidades Mapuche localizam sua morada. Este ponto é demarcado fisicamente no terreno por meio do nillatúe, um monumento antropomórfico de madeira colocado em um campo aberto na comunidade Mapuche, sendo um espaço sagrado onde se celebram de tempo em tempo rituais de fertilidade (nillatún).

Cabe ressaltar dois pontos fundamentais da cosmovisão Mapuche. O primeiro é o caráter animista desta cultura, ou seja, a ideia de que todos os elementos da natureza são vivos, conscientes e possuem ânima (espécie de energia, o qual os Mapuche chamam de newén). Assim, por exemplo, uma planta medicinal possui em sua essência um determinado newén; sendo justamente este, incorporado por aquele que ingere a planta, o responsável pela cura do enfermo. O segundo aspecto importante é o da reciprocidade, ideia fundamental no “Kimün Mapuche” (sabedoria Mapuche), na qual pauta-se a ideia do equilíbrio das relações, fundamental a sua perpetuidade.

Origem da etnia mapuche

miniaturadaimagem|Mulher mapuche

A existência de vestígios de uma "cultura Mapuche" nos remete há, pelo menos, cinco séculos antes de Cristo (BENGOA, 2000, p. 20).José, BENGOA. História del Pueblo Mapuche: siglo XIX y XX. 6ª ed. corr. Santiago, Chile: LOM ediciones, 2000. Conformavam uma sociedade caçadora, coletora e horticultora, possuindo “um regime de vida que os permitiu crescer enormemente em população, estabilizar-se num território determinado e chegar a constituir uma cultura pré-agrária de grande força e desenvolvimento” (Ibidem, p. 363). Estima-se que a população, no momento da chegada dos espanhóis, variava de 800 mil (GALDAMES, 2008, p. 76)GALDAMES, Osvaldo S. Breve história contemporánea de Chile. Santiago, Chile: Fondo de Cultura Económica, 2008. a um milhão de indivíduos (BENGOA, 2000, p. 21).

Por muito tempo a teoria mais conhecida foi a postulada por Ricardo E. Latcham, que afirmava que os mapuches eram originários do atual território argentino e que, através de um longo processo de migração, se introduziram como um grupo étnico e cultural distinto entre os picunche e os huilliche, se instalando definitivamente entre os rios Bíobío e Toltén. Até poucos anos a teoria de Latcham parecia não merecer objeções. Porém atualmente está sendo objeto de discussões, sendo proposto que que derivam de um povoamento mais antigo. Esta última teoria, chamada "Teoria autoctonista" pelos especialistas, tornou-se muito popular por postular a origem mapuche enquanto grupo étnico no próprio estado chileno.

Alguns antropólogos e historiadores defendem, entretanto, que a etnia que conhecemos como Mapuche se conformou exatamente no/pelo contato com os espanhóis, como estratégia de defesa, num processo de etnogênese (BOCCARA, 1999).BOCCARA, Guillaume. Etnogénesis Mapuche: resistencia y restructuración entre los indígenas del centro-sur de Chile (siglos XVI-XVIII), Hispanic American Historical Review, 79-3: 425-461, 1999. O caráter político descentralizado e a distribuição espacial fragmentada, que incluíam o litoral, os planaltos, os vales centrais e a alta cordilheira não favoreciam a comunicação e a unidade, necessários para a homogeneidade cultural que conformaria um só grupo étnico.

Inclusive existem fontes históricas que fazem menção a uma espécie de divisão interna da etnia Mapuche, pautada por identidades territoriais e adaptações culturais aos meios naturais, os chamados Futalmapus. Fariam parte, por exemplo, os "lafkenches" (lafke: costa, mar, che: gente, ou seja, gente do mar) e os pewenches (pewén: araucária existente na alta cordilheira, che: gente, ou seja, gente da araucária).

Sobre sua presença no território argentino, se sabe com mais certeza que, posteriormente, devido à pressão exercida pelos espanhóis, num largo processo de migração através das passagens das cordilheira dos Andes e de transmissão cultural, entre os séculos XVIII e XIX colonizaram os territórios próximos à cordilheira: o Comahue, grande parte da região pampeana e o norte da Patagônia oriental, terras até então ocupadas por diversos povos não-mapuches. Muitos destes povos foram mapuchizados (e não necessariamente sempre de forma pacífica) os "pehuenches antigos" e as parcialidades setentrionais dos tehuelches.

Localização e Distribuição

miniaturadaimagem|Territorialidade mapuche de acordo com conhecimento ancestral (verde) e distribuição atual (laranja), nos territórios da atual Argentina e Chile.

No Chile

No ano de 2002 o censo chileno contabilizava uma população de pouco mais de 15 milhões de pessoas, sendo que por volta de 604 mil se definiram como Mapuche, representando assim 4% da população chilena. Como conseqüência de processos de migração interna, verificados a partir da desestruturação do território Mapuche no século XIX, muitos indígenas foram viver na cidade. Ainda de acordo com o censo chileno de 2002, estima-se que 62% dos Mapuche vivam em cidades, sendo que só a região metropolitana de Santiago abrigaria mais de 180 mil indivíduos (30% de toda a população Mapuche).

Ainda assim, um terço da população Mapuche (por volta de 200 mil pessoas) ainda vive na região administrativa da Araucanía, considerada o coração de seu território ancestral, fazendo com que, uma de quatro pessoas que vivem nesta jurisdição seja Mapuche. A maioria desta população, entretanto, encontra-se socialmente marginalizada, sendo que segundo pesquisa oficial 42% dos Mapuche da Araucanía se encontravam no nível da pobreza.ODPI: OBSERVATORIO DE DERECHOS DE LOS PUEBLOS INDIGENAS- Documento de Trabajo Nº 1: Los derechos de los Pueblos indígenas in Chile, balance de 2004. Temuco, Chile: 2005.

Na Argentina

Paralelamente à "Pacificação da Araucanía", levada a cabo pelos então chilenos, foi realizada pelo exército argentino o que foi chamado de “Conquista do Deserto”. Houve uma primeira tentativa em 1833 que permitiu que as tropas argentinas ocupam quase todo o norte do território do rio Negro e Limay e até mesmo a área Valcheta, mas a guerra civil na Argentina permitiu que os Mapuche e mapuchizados se reorganizassem, de modo que no início de 1870 realizassem suas incursões quase até a periferia das cidades de Mendoza, San Luis, Rio Cuarto, sul da província de Santa Fe e grande parte da província de Buenos Aires, até cerca de 70 km da cidade de Buenos Aires. Sua derrota foi completa a partir da chamada “Campanha do deserto”, que começou formalmente em 1879, dirigido pelo general Julio Argentino Roca (no ano seguinte, em 1880, Roca seria eleito presidente do país).