A SECLA - Sociedade de Exportação e Cerâmica, S.A. foi uma fábrica da cerâmica portuguesa fundada em 1947, com sede em Caldas da Rainha. Foi uma das principais exportadoras de faiança e empregadoras regionais e a maior e última das grandes fábricas de cerâmica das Caldas da Rainha, e encerrou em 2008.

Os produtos da SECLA eram exportados para vários países do mundo, em especial para os EUA, Reino Unido, Alemanha e França. Além da louça de mesa (tableware), de cozinha (kitchenware) e forno (ovenware) também produzia louça decorativa como vasos e jarras, entre outras.

História A empresa sucedeu-se à Fábrica de Cerâmica Mestre Francisco Elias (nome escolhido como homenagem aos oleiros locais), que fora criada por Alberto Pinto Ribeiro (1921-1989) em 1945 para exportação de "louça das Caldas" em larga escala para os Estados Unidos da América, , e instalada na Rua Sales Henriques, nas Caldas da Rainha. Pinto Ribeiro trabalhava então no Hotel Avis, onde conheceu Clifford Furst, um exportador americano interessado no comércio e exportação de cerâmica para os EUA; entrou então em contacto com vários fabricantes locais com o objectivo de fazer uma sociedade, sem grande sucesso, pelo que decidiu fundar uma nova unidade produtiva mais preparada para a produção cerâmica de grande volume. Em 1945, a sociedade fundadora denominava-se VOLCAR, SARL. Em 1946, a VOLCAR abandonou a sociedade, e Pinto Ribeiro estabeleceu negociações com a firma Costa & Arez. A SECLA foi criada como uma sociedade de responsabilidade limitada constituída a 19 de Dezembro de 1946, e abriu atividade a 1 de Janeiro de 1947. Os seus fundadores foram Pinto Ribeiro, Fernando Ponte e Sousa (1902-1990), Fernando Carneiro Mendes, Vitorino Costa Vinagre e Américo Castro Arez.

Tecnologia e produção A fábrica iniciou a sua produção reunindo uma série de ceramistas experientes, na sua maioria oriundos da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, e seguindo os modelos naturalistas da louça tradicional da região, produzindo serviços de mesa. A fábrica expôs a primeira fornada na loja de Júlio Elias, na Rua Almirante Cândido dos Reis, em 1944. No entanto, para dar resposta ao mercado norte-americano, cedo deu prioridade à inovação de processos técnicos, modelos de louça e decoração, de modo a baixar os custos e aumentar o volume de produção. Marcou uma ruptura com a cerâmica artesanal por uma produção mais mecanizada e adoptando um design mais alinhado com o gosto da clientela norte-americana e europeia e focando-se na produção de louça utilitária. Nesta fase, a produção era desenvolvida em pasta calcítica, uma mistura de barro branco de Leiria e areia retirada dos leitos dos rios, em barro suécio, mistura de barro branco, barro preto da Quinta de Santo António, e areia. A decoração destas peças usava temas tradicionais, com elementos de fauna e flora, e as cores típicas caldenses, com a utilização das misturas de óxidos de manganês, verde de cobre, cobalto, camurça, amarelo mel, aplicadas a pincel ou por imersão. A partir de 1948, com a chegada de Mariano Pereira dos Santos, vindo da Fábrica de Sacavém, aumentou-se a utilização de moldes de gesso, e iniciou-se a aquisição de maquinaria e matéria prima para o fabrico em jaule (com moldes e menor intervenção do oleiro) e enchimento (com barro no estado líquido). O pintor Mário Anjos introduziu a pitura manual em 1949, com as linhas Províncias, Regional, Ribatejo e Bailados. A louça era decorada por estampilha e pintada com tintas de água. Tanto Pinto Ribeiro como Ponte e Sousa faziam contributos artisticos para os artigos fabricados na SECLA. As primeiras produções da fábrica de teor mais modernista são os serviços de chá e café Secla, Suécia e Brasil, vendidos em Portugal na Casa Sabóia, em Lisboa. Por forma a obter maior controlo de qualidade na produção de fornadas, o engenheiro Costa Ribeiro instalou em 1952 um laboratório de controlo de qualidade dos componentes da pasta na SECLA, que contribuiu para a utilização de novas técnicas de produção, e por conseguinte para o surgimento de pequenos estúdios e artistas na cerâmica nacional, como Manuel Cargaleiro, Jorge Barradas e Querubim Lapa. Em 1958, com a aquisição do primeiro forno eléctrico, realizam-se os primeiros ensaios para fabrico de pastas com diferentes composições para aumentar a sua resistência; a nova pasta Marlene constitui o primeiro passo para o desenvolvimento da pasta feldspática. Foi também nos anos 1950 que se deu início à produção de materiais de revestimento, em colaboração com a firma Dias da Silva, proprietária em Lisboa do Centro Técnico de Materiais. O sucesso desta parceria e da produção de azulejos da SECLA levou ao convite a que participasse na Liga de Arquitectura de Nova Iorque de 1960, expondo azulejos e peças de Luís Ferreira da Silva na 5th Avenue. Os azulejos SECLA foram utilizados na renovação arquitectónica da Praça do Marquês de Pombal, da autoria de Carlos João Chambers Ramos e Carlos Manuel de Oliveira Ramos, com a produção do azulejo a dar-se em meados dos anos 60, aquando do início das obras de construção da Praça. Os azulejos desenhados por Francisco da Conceição Silva em meados da década de 1950, de 5x5 centímetros, tiveram grande popularidade.

Estúdio SECLA e O Curral Apesar da declarada produção em massa, a marca apostou na inovação criativa, contratando artistas cerâmicos de renome como Hansi Staël, directora artística da empresa desde 1950, sua colaboradora desde 1950, e directora artística desde 1954. Esta foi instrumental à criação do Estúdio SECLA, uma secção dedicada ao desenvolvimento da expressão artística individual, inspirado pelo movimento Arts & Crafts de oficinas de design. O Estúdio situava-se na oficina de olaria, estendendo-se frequentemente à secção de pintura. Aqui se criavam peças únicas e serializadas, que eram depois expostas em galerias e mostras nacionais e internacionais, ao lado de peças de produção. Os artistas tinham de identificar as obras com a marca SECLA, e estavam autorizados a assiná-las e expô-las em nome próprio. A Hansi Staël seguiu-se em 1958 José Aurélio, que supervisionou também o controlo de qualidade da produção durante oito anos e produziu também várias obras de cerâmica. Sob a direção artística de José Aurélio, o Estúdio beneficiou da colaboração artistas plásticos e designers como Victor Palla, Júlio Pomar, Alice Jorge, António Quadros, José Santa-Bárbara, Thomaz de Mello e Maria Antónia Paramos.

Uma das figuras mais importantes da década de 50 na SECLA foi Luís Ferreira da Silva, que assumiu a liderança da secção de pintura na fábrica em 1954. A princípio, reproduzia os motivos decorativos criados por Hansi Staël, mas logo começou a desenvolver uma linguagem própria. Tornou-se ceramista em 1957, concentrando-se na qualidade material das massas, a composição dos vítreos, a volumetria e a riqueza cromática da sua paleta. Foi crucial à imagem inovadora da SECLA até à sua partida em 1958. Regressou como director entre 1960-67 para um período de nova experimentação com uso de novas linguagens, que incluem a reutilização de fragmentos de cerâmica para decorar peças e uso de barro refractário, numa nova oficina localizada na cave do edifício principal, denominada O Curral, onde trabalhava com os oleiros rodistas Guilherme Gomes Barroso (1925-1995) e José Picas do Vale (1911-). Estes modelavam a peça inicial à roda, que era depois retrabalhada pelos artistas convidados. O Curral e o Estúdio coexistiram e desenvolveram linguagens diversas. Este trabalho foi construindo o espólio do espaço museológico da SECLA.

Na década de 1970, devido a um aumento do interesse em design industrial, enfoque na industrialização e produção em massa, e perda de popularidade da cerâmica de autor, tanto o Estúdio como o Curral foram encerrados, criando-se então o Gabinete de Estudos de Desenho e Modelação, sob orientação de Herculano Elias, que se dedicava à criação e teste de protótipos para produção em série em grés e faiança feldspática, que era exportada preferencialmente para a Suécia, Dinamarca, e Holanda.

Instalações A SECLA chegou a laborar em simultâneo com três unidades fabris, com pastas de faiança distintas:

pasta feldspática destinada a produtos de uso utilitário doméstico; pasta de teor calcite, destinada a produtos ornamentais.

Secla 1 A fábrica original tinha instalações temporárias em parte da olaria de Inácio Perdigão, na Rua Henrique Sales. Em 1945 torna-se necessária a expansão para um novo edifício, e em Novembro deste ano, a VOLCAR fez requerimento de licença para instalar uma fábrica de telha, tijolo e olaria de 2.ª classe em terrenos da Jalapa, em frente ao cemitério das Caldas da Rainha, onde previamente existiam a serração de madeiras de José Caetano e a Fábrica de Louça de Alexandre Afonso Duarte Angélico, ambas adquiridas pela VOLCAR. O primeiro núcleo da fábrica localizou-se na oficina de José Caetano, depois de remodelada e de construídos alguns anexos. Esta fábrica teve aumentos sucessivos durante a década de 50, devido ao crescimento da marca e ao desenvolvimento de novas técnicas e maquinaria. O equipamento inicial incluía dois fornos de chama invertida, anos mais tarde substituídos por dois fornos circulares, alimentados a madeira. O início do uso de fornos eléctricos, que ocorre em 1958, marca alterações à morfologia dos edifícios (como pés-direitos duplos) para acomodar estas máquinas. A fábrica era então constituída por "nove edifícios: armazém, oficina de calda e modelação, oficina de máquinas, oficina de jaule, oficina de pintura e fornos, refeitório, oficina de serralharia, armazéns e instalações sanitárias. Empregavam 23 operários cerâmicos especializados, 4 aprendizes, 22 operários não especializados e 2 empregados de escritório.". Esta unidade encerrou em finais da década de 90.

Secla 2 Construída nos anos 70, a Fábrica 2 situava-se próxima da primeira, junto do cemitério e da linha férrea. Conduziu a um aumento do pessoal e a uma maior produção, sobretudo de pasta feldspática, destinada à produção de vasos para a Holanda e Inglaterra. No início do século XXI, devido à perda do grande volume de encomendas por parte de grandes clientes como a IKEA, a Secla 2 encerrou, e a partir de 2004 todo o processo produtivo foi concentrado na Secla 3.

Secla 3 A Secla 3, situada fora da cidade, na zona industrial das Caldas da Rainha, e inaugurada em Maio de 1994, tinha um objectivo de produção de um milhão de peças por mês. Esta expansão deveu-se ao interesse de grandes clientes, sobretudo americanos.

Outros equipamentos Durante a sua fase de maior sucesso, nos anos 50 e 60, a empresa tinha um campo de jogos, um clube de voleibol, aulas de ginástica, um refeitório que vendia bens de primeira necessidade a preços sociais, e uma creche para uso dos seus funcionários. Incluía ainda serviços médicos e de enfermagem para o pessoal - o médico caldense Luís da Costa e Silva trabalhou nas instalações da SECLA, sendo deste modo um precursor da Medicina de Trabalho - um museu e uma loja aberta ao público.

Declínio, falência e demolição A fábrica entrou em declínio na primeira década do século XXI, devido à perda dos grandes clientes, à concorrência do mercado asiático e escassez de encomendas, entre outros motivos. As Fábricas 1 e 2 foram vendidas à banca por um total de 11 milhões de euros, por forma a mitigar os custos de funcionamento da marca e da sua produção antes da entrada no processo de falência. Esta deu-se em 2008, cessando-se a produção a 30 de Junho desse ano.

O espólio da SECLA, constituído por cerca de 5000 peças de faiança, documentação e cerca de 3000 moldes, madres e instrumentos de fabrico, foi adquirido pelo Município em 2009. A primeira fábrica da Secla foi classificada de edifício de Interesse Municipal.