Líbano (; , , oficialmente República do Líbano é um país localizado na extremidade leste do mar Mediterrâneo, na Ásia Ocidental, numa região que faz ligação entre esse continente e a Europa. Faz fronteira com a Síria ao norte e a leste e com Israel ao sul e a oeste. No cruzamento da bacia do Mediterrâneo, o Líbano é uma das regiões de antigas civilizações, como fenícios, assírios, persas, gregos, romanos, bizantinos e turcos otomanos, sendo que sua rica história formou a identidade cultural única em diversidade étnica e religiosa do país.

Os primeiros indícios de civilização no Líbano remontam há mais de 7000 anos de história registrada. O Líbano foi o local de origem dos fenícios, uma cultura marítima que floresceu durante quase 2500 anos (3000–539 a.C.). Quando do colapso do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial, as cinco províncias que compõem o Líbano moderno ficaram sob mandato da França. O Líbano estabeleceu um sistema político único em 1942, conhecido como confessionalismo, um mecanismo de partilha de poder com base em comunidades religiosas. Foi criado quando os franceses expandiram as fronteiras do monte Líbano, que era majoritariamente habitado por católicos maronitas e drusos, para incluir mais muçulmanos. O país ganhou a independência em 1943, e as tropas francesas se retiraram em 1946.

Antes da Guerra Civil Libanesa (1975-1990), o país vivia um período de relativa calma e prosperidade, impulsionada pelo turismo, agricultura e serviços bancários.U.S. Department of State (Janerio de 2009). "Background Note: Lebanon". Acessado em 21 de julho de 2009. Por causa de seu poder financeiro e diversidade, o Líbano era conhecido em seu auge como a "Suíça do Oriente". O país atraiu um grande número de turistas,Anna Johnson (2006). "Lebanon: Tourism Depends on Stability". Retrieved 31 October 2006. tal que a capital Beirute era referida como "Paris do Oriente Médio". No final da guerra, houve grandes esforços para reanimar a economia e reconstruir a infraestrutura do país.Canadian International Development Agency. "Lebanon: Country Profile". Retrieved 2 December 2006.

Até julho de 2006, o Líbano desfrutou de uma estabilidade considerável, a reconstrução de Beirute estava praticamente concluídaCenter for the Study of the Built Environment. "Deconstructing Beirut's Reconstruction: 1990-2000" . Retrieved 31 October 2006. e um número crescente de turistas se hospedavam nos resorts do país. Em seguida, a guerra de 2006 entre Israel e o Hezbollah causou a morte de civis e significativos danos na infraestrutura civil do Líbano. O conflito durou de 12 de julho daquele ano até um cessar-fogo patrocinado pela ONU em 14 de agosto.

No dia 4 de agosto de 2020, Beirute foi abalada por duas fortes explosões que provocaram mais de 100 mortos e milhares de feridos. Na origem das explosões estiveram 2750 toneladas de nitrato de amónio armazenadas num depósito do porto de Beirute.

Etimologia O nome Líbano origina-se do semítico lbn (لبن), que significa "branco", provavelmente uma referência à neve que cobre o monte Líbano.

Ocorrências do nome foram encontrados em diferentes textos da biblioteca de Ebla (que data do terceiro milênio a.C.), cerca de 70 vezes na Bíblia Hebraica e em três das 12 tábuas da Epopeia de Gilgamesh (escrito em 2100 a.C.). O nome é registrado no Antigo Egito como Rmnn.

História

Pré-história e Antiguidade

thumb|esquerda|Mapa da FeníciaO território do Líbano já é habitado pelo homem desde o Paleolítico e está inserido na região conhecida como Crescente Fértil, onde a agricultura e a pecuária surgiram, por volta de 12 mil anos atrás, quando o território libanês era habitado pela cultura natufiana.

Com a agricultura, surgiram as primeiras aldeias, as quais, ao longo dos milênios, foram evoluindo, dando origem às primeiras cidades na região, como Biblos/Gubla, considerada uma das cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo, datada de sete mil anos atrás. A metalurgia na região é datada de, pelo menos, seis mil anos atrás.

Por volta de 3000 a.C., os canaanitas, os povos semitas que habitavam os atuais Líbano, Israel e Palestina durante a Idade do Bronze, desenvolveram civilizações e reinos. Os canaanitas do norte, denominados pelos gregos de "fenícios", mantinham cidades-estados autônomas entre si, com Gubla, Sidon, Tiro e Beirute, e mantinham relações comerciais com os egípcios desde os séculos XVII a XVI a.C. Mais tarde, por volta de 1400 a.C., as dinastias egípcias incorporam a Fenícia aos seus domínios.

No século XII a.C., os egípcios perderam o controle da região de Canaã, devido à invasão dos chamados Povos do Mar, oriundos da Europa e da Ásia Menor (Anatólia). Após isso, os fenícios, bastante ligados ao mar, fundaram colônias pelo Mediterrâneo, dentre as quais as que mais se destacaram foram Cartago (atual Túnis, Tunísia) e Cádiz (Espanha). Os fenícios são creditados com a invenção do alfabeto mais antigo já registrado, que posteriormente inspirou o alfabeto grego e o latino posteriores.

No século X a.C., Hirão, rei de Tiro, ajudou o rei Salomão de Israel a construir um templo em Jerusalém, o que indica que os fenícios e os israelitas mantinham relações amistosas. No século seguinte, no entanto, a autonomia das cidades fenícias começou a gradualmente desparecer, devido ao domínio do Império Neoassírio, que conquistou os reinos, os quais passaram a ter que pagar tributos para o império.

Durante o domínio do Império Neobabilônico (612-539 a.C.), os faraós tentaram retomar o controle sobre a região de Canaã. Posteriormente, o Império Aquemênida tomou a região, controlando-a até o século IV a.C., quando ocorreram revoltas em Sidon e Tiro contra o imperador persa, logo antes de os gregos conquistarem a terra.

Após o Cerco de Tiro (332 a.C.), a Fenícia caiu para as mãos do Império Macedônico de Alexandre Magno, após cuja morte a região passou para o Egito Ptolomaico e posteriormente para o Império Selêucida, no período helenístico (323-64 a.C.).thumb|esquerda|Templo de Baco, em Balbeque

Em 64 a.C., os romanos conquistaram o Império Selêucida, incorporando a Fenícia aos seus domínios, mais especificamente à província da Síria. Durante o Império Romano, a língua fenícia foi substituída pelo aramaico como idioma local, e dessa época é o Templo de Júpiter em Baalbek.

A região que agora é o Líbano, assim como o resto da Síria e grande parte da Anatólia, tornou-se um importante centro do cristianismo no Império Romano durante o início da difusão da fé. Durante o final do século IV e início do século V, um eremita chamado Maron estabeleceu uma tradição monástica focada na importância do monoteísmo e do ascetismo, perto da cordilheira mediterrânea conhecida como Monte Líbano. Os monges que seguiram Maron espalharam seus ensinamentos entre os libaneses da região. Esses cristãos ficaram conhecidos como maronitas e se mudaram para as montanhas para evitar perseguição religiosa pelas autoridades romanas.

Em 395, o Líbano passou a pertencer ao Império Romano do Oriente (Império Bizantino). Sob o seu domínio, as atividades intelectuais em Beirute, Sidon e Tiro floresceram, mas uma série de terremotos no século VI, somados à corrupção e altos impostos, provocaram desordem na região, o que favoreceu a sua conquista pelos muçulmanos, no século VII.

Domínio árabe

Devido à vitória das forças do Califado Ortodoxo sobre o exército bizantino na batalha de Jarmuque (636), o califado conquistou a região do Levante, a qual batizou de "Bilad Al-Sham". Durante o Califado Omíada (661-750), apesar das revoltas ocasionais dos maronitas, o Líbano forneceu forças navais aos muçulmanos na luta contra os bizantinos. Posteriormente, a dinastia abássida trouxe um florescimento intelectual e comercial para a região. Nos séculos IX a XI, a área pertenceu a dinastias sediadas no Egito, como o Califado Fatímida.

Durante os primeiros séculos de domínio muçulmano, as montanhas libanesas tornaram-se refúgio para variados grupos étnicos e religiosos, como os maronitas vindos do vale do Rio Orontes, na atual Síria. De modo geral, os governantes muçulmanos foram tolerantes com cristãos e judeus.

No início do século XII, após os cruzados retomarem Jerusalém, eles voltaram a atenção para a costa do Líbano, conquistando Trípoli (1109), Beirute (1110), Sidon (1110) e Tiro (1124), esta última após um longo cerco. O atual território libanês ficou divido entre o Condado de Trípoli ao norte e o Reino de Jerusalém ao sul. No final do século XII, a região voltou para o domínio muçulmano, devido à conquista liderada por Saladino.

Em 1282, surgiu o Sultanato Mameluco, sediado no Egito, e o Líbano estava incluso em seus domínios. Entre 1291 e 1308, os xiitas e drusos libaneses se revoltaram contra esse reino muçulmano. Durante o domínio mameluco, o comércio foi estimulado na região.

Império Otomano thumb|Palácio do governador otomano Fakhr-al-Din II, século XVII|esquerdaEm 1516, o Império Otomano, formado no século XIV na Anatólia, conquistou o reino mameluco e incorporou o Levante aos seus domínios. Em pouco tempo, a região do Líbano ganhou um título semiautônomo, o Emirado do Monte Líbano, liderado pelas famílias Maan (até 1597) e Chehab (1697-1842). Durante esse período, a influência europeia cresceu, sobretudo no comércio.

O século XIX foi marcado no Líbano por mudanças sociais, econômicas e políticas. A população cristã, em crescimento, migrou para o sul e para as cidades e, a partir do final do século, muitos cristãos libaneses emigraram para a América, tendo como um dos principais destinos o Brasil. Esse crescimento perturbou o equilíbrio tradicional da região, se inclinando cada vez mais para ele os Chehab.

Em 1842, o Emirado do Monte Líbano chegou ao seu fim, com o seu emir deposto, com o apoio do Reino Unido e França. Isso levou a uma deterioração na relação entre os maronitas e os drusos, gerando um conflito entre eles, com um massacre de 10 mil cristãos em 1860. Devido à conivência dos otomanos com a matança, a França interveio no Líbano em 1860, levando à criação de uma região autônoma cristã nas montanhas, a qual prosperou por décadas.

No final do século XIX e início do século XX, houve um grande aumento no nacionalismo árabe no Levante e os libaneses começaram a formar as primeiras organizações políticas nacionalistas.

Primeira Guerra Mundial, mandato francês e independência thumb|Mapa do Mandato Francês da Síria e do Líbano em 1920Em 1914, logo após o começo da Primeira Guerra Mundial, o Império Otomano entrou no conflito do lado da Alemanha e da Áustria-Hungria. Os otomanos aboliram a autonomia do Líbano e a região foi ocupada militarmente. Em setembro de 1918, o general britânico Edmund Allenby e os revoltosos árabes entraram na Palestina, abrindo caminho para a conquista da Síria e do Líbano.

Com o fim da guerra, em 1918, o Líbano foi militarmente ocupado pela França e, na conferência de San Remo, em abril de 1920, os Aliados deram aos franceses o mandato sobre a Grande Síria e, em 1º de setembro de 1920, o general Henri Gouraud proclamou a criação do mandato do Grande Líbano, constituído do antigo Mutasarrifado do Monte Líbano mais áreas vizinhas, formalizado pela Liga das Nações em 1923, sediado em Beirute, com as fronteiras atuais libanesas sendo estabelecidas naquela data. Em 23 de maio de 1926, foi promulgada a constituição libanesa, de inspiração francesa, criando a parlamentarista República Libanesa, ainda sob mandato da França, tendo como primeiro presidente Charles Dabbas.