thumb|280px|Ministro Gilberto Gil, Mãe Stella de Oxóssi e o Prefeito de Salvador, Antônio Imbassahy, na abertura da edição de 2003
Alaiandê Xirê — Festival Internacional de Alabês, Xicarangomas e Runtós é um festival reunindo sacerdotes-músicos (ogãs) das diferentes nações do candomblé (alabês nagô, xicarangomas Congo/Angola e runtós jejeOs homens que chamam os deuses pra terra) procedentes de todos os estados brasileiros e de diásporas africanas. Foi criado em 1998 sob a liderança do ogã de Ogum Roberval Marinho e da Agbeni Xangô a escritora e roteirista Cléo Agbeni Martins, membros do Ilê Axé Opô Afonjá, de São Gonçalo do Retiro, em Salvador da Bahia. O festival é um importante evento da cultura afro e afrobrasileira, que além dos interessados nos aspectos religiosos, artísticos e celebratórios, atrai também muitos pesquisadores e acadêmicos. Os encontros e seminários paralelos debatem as questões pertinentes aos povos e comunidades tradicionais afro, enfatizando as relacionadas aos músicos sagrados de todas as nações.
História
"Alaiandê" é um dos atributos de Xangô como o grande mestre dos atabaques, e "xirê" significa festa, o ritual de dança dos orixás em círculo.Cappelli, Rogério. Saindo da Rota: uma discussão sobre a pureza na religiosidade afro-brasileira. Mestrado. Universidade Federal Fluminense, 2007, p. 62 Ambos os fundadores, Cléo Martins e Roberval Marinho, têm uma longa associação com a religião e com o mundo acadêmico e artístico. Além de sacerdotisa do candomblé, Cléo é bacharel em Direito, escritora e roteirista, e por seis anos foi monja beneditina, e Marinho é sacerdote, doutor em Arte e Educação, pesquisador e professor universitário.
Em entrevista ao Correio da Bahia, Cléo lembrou os primeiros tempos: "Há muitos anos o Opô Afonjá promove discussões acadêmicas dentro do terreiro, o Alaiandê nasceu de um seminário chamado Irê Aió, que quer dizer caminho de alegria, um caminho divinatório de alegria. Roberval Marinho, que é um ogã do axé, me disse: 'é preciso fazer alguma coisa diferente daquela coisa fria da academia'. A ideia dele era trazer uma visão acadêmica diferente, sem aquilo de todo mundo sentadinho. Então ele sugeriu um festival de tocadores de candomblé, talvez uma competição. Numa dessa, Mãe Stella entrou na jogada também e a gente entendeu que competição ficava chato, até porque todos são bons, mas festival era legal. Aí eu dei o nome. Na verdade primeiro foi Alaiandê Nilê, que seria o grande tocador na casa. Mas Roberval sugeriu Alaiandê Xirê, a 'brincadeira do grande tocador'. Por isso, digo que ele é o pai e eu sou a mãe desse festival, que nasceu de uma vontade de trazer o acadêmico através do lúdico. Pois não tem coisa melhor que a brincadeira, você vê o mais verdadeiro da pessoa na brincadeira, na festa, quando ela se descontrai".
Os fundadores contaram com uma equipe composta por Rita Virgínia do Rio, "o Xangô do Alaiandê", Luís Austregésilo e Nadja, Ana Rúbia de Mello, Magali Sepreny, Maestro Fred Dantas, Fatumbi Marcelo Lima, Adriano Abiodun, Guelê, Neca, Ojé Eurico, Lázaro Faria, Ebomi Nice de Oiá, Ogã Léo, Ivone e família, Tonho, Papadinha, Rosa e Lídia. O primeiro festival aconteceu em 1998, no Axé Opô Afonjá, palco de todos os outros Alaiandês até 2006, quando se decidiu mudar o formato do evento, tornando-se itinerante: cada ano em uma comunidade diferente. É aberto ao público em geral, sem fins lucrativos. Xangô, o orixá do fogo, justiça e poder em exercício é o padroeiro do Alaiandê Xirê.Fernando de Ogum. Religiões Afro-Brasileiras. Grupo de Estudos e Pesquisas Boiadeiro Rei, s/d., pp. 93-94
thumb|esquerda|Ministro Gilberto Gil e Mãe Stella de Oxóssi
Nas palavras de Elke Lopes Muniz, "unindo membros dos candomblés e reconhecidos intelectuais e acadêmicos de inúmeras universidades do Brasil e do exterior", o festival já foi realizado em várias cidades, tendo como seus objetivos principais "debater questões diversas sobre os povos e comunidades tradicionais de matriz africana com ênfase naquelas relacionadas aos músicos sagrados dos candomblés de todas as nações". Segundo o pesquisador Rosenilton de Oliveira, desde sua origem o festival teve a preocupação de extrapolar a dimensão lúdica e religiosa e oferecer também uma visão crítica sobre identidade afro, a cultura, a política e a sociedade. Também "percebe-se que a intenção não é apagar a diversidade de expressões religiosas do campo afro, nem uniformizar, mas encontrar uma categoria ampla o suficiente para englobar todas as casas e que permita o diálogo com o poder público".Oliveira, Rosenilton Silva de. A cor da fé: "identidade negra" e religião. Doutorado. USP, 2017, pp. 53-66
De acordo com a pesquisadora Lisa Earl Castillo, o festival tem ampla repercussão na imprensa e entre o público universitário, além de atrair profissionais de diversas vertentes, como músicos, artistas, professores, antrOpôlogos e sociólogos. Um portal na internet oferece informação aos interessados. O Opô Afonjá foi o primeiro terreiro baiano a ter um portal na internet, e segundo Castillo tem despertado grande interesse entre os etnógrafos. Além disso, "a posição privilegiada do Opô Afonjá nos textos etnográficos tem um paralelo na produção paraetnográfica. Na Bahia, a grande maioria dos textos de sacerdotes-autores provém do Opô Afonjá, [...] o terreiro mais elogiado na etnografia como modelo de autenticidade africana".Castillo, Lisa Earl. Entre a oralidade e a escrita: a etnografia nos candomblés da Bahia. EDUFBA, 2008, p. 139 thumb|O terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, palco dos festivais até 2006.
Em 2000 o Opô Afonjá foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que declarou:
"A Comunidade do Ilê Axé Opô Afonjá é detentora de uma das casas religiosas de matriz africana mais antigas do Brasil. Fundada em 1910, em São Gonçalo do Retiro, na periferia de Salvador, por Mãe Aninha, importante personagem da luta pela liberdade do culto afro-brasileiro, ou religião dos orixás (alcançada tardiamente, por meio de Decreto de Getúlio Vargas). Para assegurar os princípios e valores da tradição, criou em 1936 a Sociedade Cruz Santa do Ilê Axé Opô Afonjá. O tombamento do terreiro aconteceu em julho de 2000, pelo IPHAN, conferindo-lhe o título de Patrimônio Cultural do Brasil e reconhecendo-o como área de proteção cultural e paisagística".Prêmio Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana. "Sociedade Cruz Santa do Axé Opô Afonjá - Ilê Axé Opô Afonjá. Salvador, BA". In: IPHAN. Edital de Apoio e Fomento ao Patrimônio Cultural de Comunidades de Terreiro — Catálogo dos Premiados, 2014.
Em 2003 o então ministro da Cultura Gilberto Gil abriu o festival, louvando as tradições e a atuação de Mãe Stella. Na mesma ocasião foram entregues os Prêmios Xangô a pessoas que deram um apoio relevante à comunidade afro.parés, Luis Nicolau. "Xangô in Afro-Brazilian Religion". In: Tishken, Joel E.; Falola, Toyin; Akínyẹmí, Akíntúndé (eds). Ṣàngó in Africa and the African Diaspora. Indiana University Press, 2009, p. 248-272 Em 2013 o festival foi premiado pelo IPHAN reconhecendo-o como um evento exemplar na "preservação, valorização e documentação do patrimônio cultural dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana".IPHAN. "Prêmio Patrimônio Cultural dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana". O festival hoje conta com o apoio do Instituto Alaiandê Xirê e se tornou um evento de alcance nacionalCampos, Zuleica Dantas Pereira. Os afro-descendentes do Ilê Obá Ogunté: espaços e deslocamentos híbridos. Resumo. Unicap, 2011 e um dos maiores da cultura do candomblé."Rodolpho Tourinho registra evento da cultura do candomblé". Assessoria de Imprensa do Senado Federal, 03/09/2004 Entrega anualmente o Troféu Alaiandê Xiré.Oliveira, Dennis de. “Não é intolerância religiosa e sim racismo, afirma Paulo Cesar Oliveira". Revista Fórum, 31/20/2013
Edições I Alaiandê Xirê
I - título e data do evento: Xangô dobra os couros para a velha guarda dos terreiros: de 17 a 18 de maio de 1998. Local: Axé Opô Afonjá.'
O primeiro Alaiandê Xirê homenageou o pintor Carybé, então recentemente falecido em 1997, e Camafeu de Oxóssi, figura lendária da Bahia, falecido em 1994. Participaram deste evento a "velha guarda" dos alabês de Salvador, dando-se destaque para Jorge Alabê,Jorge Alabê Jazz Festival -2002 New Orleans como era conhecido o chefe dos tocadores da Casa Branca do Engenho Velho. Jorge viria a falecer exatos nove dias depois desta primeira edição do Festival, deixando farta produção e saudosa memória.
II Alaiandê Xirê II - título e data do evento: O que Xangô quer toma e tomba: Xangô dobra os couros para o tombamento do Opô Afonjá, pelo Iphan: de 25 a 28 de novembro de 1999. Local: Axé Opô Afonjá.
Esta foi a primeira edição internacional do Alaiandê Xirê, o qual contou com a presença de sacerdotes cubanos, residentes em Miami e Nova Iorque. Nesta edição, o festival prestou homenagem a Jorge Alabê.
III Alaiandê Xirê
III - título e data do evento: O Bambá do terreiro na Roda de bamba: 2,3,4 de dezembro de 2000. Local: Axé Opô Afonjá.
Uma homenagem a Mãe Caetana Bamboxê: uma das maiores matriarcas do universo dos terreiros. Ogãs no Alaiandê Xirê.
IV Alaiandê Xirê IV - título e data do evento: Xangô dobra os couros para as mulheres de mercado: de 9 a 11 de dezembro de 2001. Local: Axé Opô Afonjá.
Uma homenagem a Oiá/Iansã, a padroeira das mulheres de mercado.
V Alaiandê Xirê V - título e data do evento: Xangô dobra os couros para a identidade e soberania: de 8 a 10 de dezembro de 2002. Local: Axé Opô Afonjá.
VI Alaiandê Xirê thumb|Mãe Olga de Alaqueto, Ministro da Cultura Gilberto Gil e Mãe Stella de Oxóssi thumb|Ysamur Flores Pena da Universidade da Califórnia, Los Angeles, Estados Unidos.
VI - título e data do evento: Semana de herança africana: Xangô dobra os couros para as aiabás orixás femininos: de 24 a 28 de agosto de 2003. Local: Pátio de Xangô, do Axé Opô Afonjá.Candomblé globalizado
O VI Alaiandê Xirê reuniu em 28 de agosto de 2003 no terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, músicos-sacerdotes do candomblé de várias nações para discutir a herança africana e realizar o primeiro seminário 'Xangô na África e na diáspora'.
O Festival Internacional de Alabês, Xicarangomas e Runtós reúne os melhores músicos sacerdotes do Brasil e do exterior. Teve a participação do Ministro da Cultura Gilberto Gil (iniciado no terreiro), palestra do antrOpôlogo Vivaldo da Costa Lima, apresentação da Oficina de Frevos e Dobrados, do maestro Fred Dantas, e lançamento do livro Ao sabor de Oiá, de Cléo Martins, coordenadora geral do evento. Expressão em iorubá que significa algo como 'a festa do grande tocador', o Alaiandê Xirê é uma espécie de celebração da música sacra das diferentes nações do candomblé, participam terreiros como a Casa Branca, Gantois, Bate Folha, Bogum e Pilão de Prata, entre outras. Os temas são variados, indo da própria mitologia dos orixás a questões mais contundentes como ética e intolerância religiosa. Ou ainda - um ponto sempre polêmico -, o momento do transe.
A primeira mesa, Xangô, Oxum, Oiá e Obá nas diferentes nações conta com professores estadunidenses, franceses e espanhóis. Nas demais, nomes ligados ao cinema e teatro (Chica Xavier, Clementino Kelé, Márcio Meirelles), literatura (Antonio Olinto e Ildásio Tavares), Ysamu Flores Peña da Universidade da Califórnia, Los Angeles, Estados Unidos, antropologia (Júlio Braga, Raul Lody, Angela Luhning), psicologia (Monique Augras, Antonio Moura, Jorge Alakija), direito (Itana Viana, Pedreira Lapa) e religião (monge Dom Anselmo, irmã Paola Pedri). Além, claro, de representantes do próprio candomblé, como o pai de santo gaúcho Walter Calixto, Pai Borel, que é ogã alabê e vai falar de sua resistência religiosa no Rio Grande do Sul.
VII Alaiandê Xirê thumb|esquerda|Ricardo Bittencourt ator.