Nilo Murtinho Braga, mais conhecido como Nilo (Belém, 3 de abril de 1903 — Rio de Janeiro, 7 de fevereiro de 1975), foi um futebolista brasileiro que se notabilizou em especial no Botafogo e também por América de Natal, Fluminense e Seleção Brasileira, com a qual esteve na primeira Copa do Mundo FIFA - inclusive no próprio jogo de estreia do Brasil na história do torneio.

Atacante de baixa estatura, tinha como características a velocidade, a habilidade dribladora e a facilidade de marcar gols com ambos os pés. Chegou a deter o recorde de gols do Campeonato Carioca de Futebol, e de modo que na década de 1950 tal marca ainda parecia insuperável, embora ele fosse modesto sobre esse feito; veio a ser superado apenas por Ademir de Menezes (por um gol a mais), Romário, Zico e pelo atual recordista, Roberto Dinamite. Os números de Nilo, somados ao início precoce da carreira, fizeram-lhe ser apelidado de "menino de ouro", embora viesse a ter uma trajetória marcada também pela longevidade.

Era tio da atriz Rosamaria Murtinho, ligação familiar que a influenciou a se tornar torcedora ilustre do Botafogo. João Saldanha creditava a Nilo boa parte da popularidade angariada nas primeiras décadas do século XX pelo clube no Estado do Pará, com a imprensa desse Estado chegando a reconhecer em 1927 que "a atuação de Nilo Murtinho no jogo de ontem causou entusiasmo aqui. De todos os jogadores vindos até Belém, foi Nilo o homem que mais tem prendido a atenção dos sportmen. É um jogador de raro valor".

Pode-se contabilizar em sua carreira pelo Botafogo 190 gols em 201 jogos, o que o torna, hoje, o maior artilheiro da história do clube se levarmos em consideração sua média de gols por partida (0,95 por jogo). Também destacou-se no antigo Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, com títulos nos de 1924, 1925, 1927 e 1928 pela Seleção Carioca.

Origem

A atriz Rosamaria Murtinho, sobrinha ilustre de Nilo, nasceu em Belém, mas mudou-se ainda com três semanas de vida ao Rio de Janeiro. O atleta, por sua vez, ora era referido como paraense, ora como carioca já de nascença, embora com família instalada no Pará - como em nota de O Imparcial que, em 1925, divulgara que "o consagrado centerforward carioca Nilo Murtinho Braga, do Fluminense F.C., embarcará para a capital do Estado do Pará (...). Nilo Murtinho, que vai a chamado do seu progenitor, o comandante Emmanuel Braga, capitão do porto do Estado nortista, ao que sabemos, vai demorar-se por algum tempo em Belém".

Seu pai, falecido em 1944, tinha Emmanuel Gomes Braga como nome completo. Era tenente na ocasião do nascimento de Nilo, cuja mãe chamava-se Magdalena do Amaral Murtinho. Ela, que passou a ser Magdalena Murtinho Braga, era filha de um senador, José Murtinho, representante de Mato Grosso em legislaturas entre 1912 e 1920, ainda ocupando o cargo no falecimento dela em 1916. Através desse avô, Nilo era parente também de outras personalidades dos três poderes do Império do Brasil e/ou da Primeira República Brasileira: José Murtinho era filho de outro José Murtinho, natural da Bahia, mas governador do Mato Grosso no século XIX; dentre outros filhos deste, estiveram Manuel José Murtinho, igualmente governador matogrossense e que foi ainda ministro do Supremo Tribunal Federal, e Joaquim Murtinho. Ocasionalmente referido como bisavô da atriz, Joaquim também foi senador por Mato Grosso, além de ministro nas presidências de Prudente de Morais e de Campos Sales.

No início da década de 1910, o pai Emmanuel Gomes Braga trabalhava no porto de Belém como capitão de corveta. A família mudou-se ao Rio de Janeiro quando Emmanuel foi nomeado em 1913 pela Marinha do Brasil para ser ajudante na capitania do porto dessa cidade. No decorrer da década de 1910, Emmanuel foi nomeado para ser capitão de porto no do Rio Grande do Norte, vindo Magdalena a falecer nesse Estado nordestino em fevereiro de 1916. Emmanuel deixou em outubro de 1918 esse posto, eventualmente regressando ao Pará; sua nomeação para exercer a capitania do porto de Belém deu-se em maio de 1923.

Quanto ao local de nascimento de Nilo, em 1929 o Jornal do Brasil atribuía a imprecisão a uma provocativa insinuação bairrista dos rivais de São Paulo: reportou "o valoroso player Nilo Murtinho Braga, um dos melhores forwards brasileiros, carioca de quatro costados, mas que os paulistas querem, a muque, transformar em paraense, porque esteve lá uma vez". Nilo virara alvo preferencial justamente por ser contínuo carrasco da Seleção Paulista no Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, sendo descrito já em 1959 pelo jornal paulistano A Tribuna como "o dianteiro que o futebol paulista mais temeu em todos os tempos".

A rivalidade Rio-São Paulo estava bastante inflamada no final da década de 1920, desdobrando-se desde à convocação à Copa do Mundo FIFA de 1930 sem jogadores de equipes paulistas até o conflito armado da Revolução Constitucionalista de 1932;GEHRINGER, Max (set. 2005). CARIOCAS VERSUS PAULISTAS. Placar Especial "A Saga da Jules Rimet fascículo 1 - 1930 Uruguai". São Paulo: Editora Abril, pp. 16-22 também fazia com que um mesmo veículo de imprensa ora publicasse uma versão do local de nascença de Nilo, ora de outra: também em 1959, o Jornal dos Sports publicou crônica segundo a qual "numa dessas polêmicas, descobriram, certa vez no Rio, que o Arthur Friedenreich, o El Tigre, não era paulista, que nascera em Santa Catarina, e que viera já taludinho para São Paulo. A represália dos paulistas não se fez tardar, e afirmou-se que Nilo Murtinho Braga, um dos futebolistas mais em evidência àquela época, não era carioca, e sim, paraense, tendo nascido, dizia-se, em Belém do Pará. A verdade sobre Arthur Friedenreich reestabeleceu-se logo, pois os paulistas publicaram uma certidão de nascimento provando - e aí vai um detalhe curioso - que o Friedenreich nascera à rua da Vitória, esquina da rua do Triunfo... Quanto ao Nilo, não surgiu atestado algum. Mas Nilo Murtinho Braga é carioca da gema. Nasceu à rua 19 de fevereiro, em Botafogo".

Contudo, na confessa ausência de certidão de nascimento de Nilo, pode extrair-se do mesmo Jornal dos Sports uma constatação contundentemente favorável à versão oposta: em 1931, para desfazer dúvida de um leitor, publicou-se ali que "constatamos que o grande crack é natural do Estado do Pará, muito embora se tenha 'diplomado' no football carioca. É que a inscrição do mesmo para o campeonato brasileiro de football cita o Pará como seu lugar de nascimento". O jornalista Mário Filho amparava essa corrente, contextualizando em 1957 que: "o mais comum era o jogador virar Paulista, como aquele médio do Bangu campeão de 33. Ou Mineiro, feito o centroavante do America de 28. Devia ser mineiro. De Paulista no futebol carioca só me lembro de um, de Mineiro também. E não faltaram paulistas e mineiros no futebol carioca. Mas geralmente eles se faziam aqui e ninguém ligava o Estado deles a eles. Quando veio para o Rio, Marcos de Mendonça, mineiro, não pensava em futebol. Amado Benigno era amazonense. Poucos, porém, sabiam disso. Nilo Murtinho Braga era paraense. Jogou, porém, no primeiro campeonato infantil que se organizou no Rio".

Posteriormente à crônica de 1959, o próprio Jornal dos Sports tornou a referir-se a Nilo, repetidas vezes, como "paraense"; antes, já havia se referido a ele até como alguém de origem "nordestina". Em 1931, em escala naval no Recife para viagem à Europa, Nilo enviou "uma afetuosa saudação a todos os esportistas paraenses", recebendo via telégrafo "os melhores votos de feliz êxito" do Clube do Remo, em outra notícia em que o Jornal dos Sports referiu-se a ele como nativo do Pará; Frederico Murtinho, irmão de Nilo e mais conhecido como "Fred", jogava neste clube em meados da década de 1920, inclusive integrando o elenco remista campeão paraense de 1925 e de 1926.DA COSTA, Ferreira (2013). 1925 - Só o valante União "beliscou" o Remo na campanha do Bi. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 39-40DA COSTA, Ferreira (2013). 1926 - Remo, sem muito trabalho, levanta o Tricampeonato. Parazão Centenário. Teresina: Halley S.A. Gráfica e Editora, pp. 41-42 Frederico foi o pai de Rosamaria.

Além de Frederico, Nilo teve como irmão Fernando Murtinho Braga. Os três chegaram a conviver juntos no Botafogo em 1919. Contudo, embora Frederico ainda praticasse futebol na década de 1920, Fernando logo veio a ser outro familiar a enveredar por longa carreira na administração pública; em seu caso, no Itamaraty, estabelecendo-se já em 1920 no consulado brasileiro de Norfolk. Nos anos seguintes, Fernando também trabalhou em representações diplomáticas brasileiras em Lyon (1925), no Chile (1926), em Montreal (1940) e em Oslo (1949), precisando agradecer à distância as condolências em 1944 pela perda do pai Emmanuel.

Carreira em clubes Fluminense (infantil) e América-RN

Nilo iniciou-se no futebol no Curupaití, equipe infantil que treinava no estádio do Fluminense. Acabou integrando os infantis do próprio Fluminense e vencendo por este clube, em 1916, o campeonato carioca da categoria, o primeiro do tipo realizado no país.

Na época, seu pai foi militarmente transferido ao Rio Grande do Norte, nomeado pela Marinha do Brasil para ser capitão do porto de Natal, cargo que ocupou até outubro de 1918. Isto que propiciou que os irmãos Murtinho Braga se desempenhassem nos primórdios do futebol potiguar: Frederico fora, ainda 1915, um dos fundadores do ABC, antes de vir a jogar por Botafogo e Remo.

Nilo, contudo, veio a defender o rival América de Natal. Em 1919, mesmo com apenas 15 anos de idade, consagrou-se no time adulto americano como autor do gol que valeu o título do primeiro campeonato potiguar da história, em pleno Clássico Rei o ABC. Naquele mesmo ano, regressou ao Rio de Janeiro.

Primeiros ciclos no Botafogo e no SC Brasil

Em 1919, de volta ao Rio de Janeiro, ingressou no então Botafogo Football Club, seu clube do coração. O time possuía desde os primórdios expressivo contingente de paraenses, sendo campeão em 1910 com cinco no mesmo time titular - Abelardo de Lamare, Rolando de Lamare, Mimi Sodré (todos jogadores da Seleção Brasileira), Lauro Sodré Filho e Emanuel Sodré. Esses três eram filhos do próprio governador do Pará em 1919, Lauro Sodré, sendo Emanuel um dos fundadores do clube, em 1904. Abelardo e Rolando, por sua vez, descendiam de Joaquim Raimundo de Lamare, governador do Pará no século XIX.

Nilo foi promovido diretamente do time C à equipe principal, sem passar pelo time B, salto que chegara a fazer desatentos perguntarem-se se ele teria sofrido alguma punição ao não o verem nos treinos do C. Estreou no elenco botafoguense adulto ainda tendo 16 anos de idade, no dia 7 de dezembro de 1919, em duelo Botafogo 2–0 Bangu. Fernando Murtinho e Frederico Murtinho, dois irmãos de Nilo, também foram futebolistas botafoguenses naquele ano.

Da ativa vivência de Nilo no Botafogo, há registros de 1920 até de sua participação como árbitro de tênis de mesa nas competições internas do clube.

Em 1922, por causa de desentendimentos na política interna botafoguense, resolveu tomar uma atitude inusitada: transferiu-se para o Sport Club Brasil, da Série A da Segunda Divisão do Campeonato Carioca de Futebol, porque não gostaria de enfrentar seu clube do coração. Contudo, voltou ao "Glorioso" em 1923, permanecendo até agosto do mesmo ano. Foi o jogador que mais fez gols pelo Botafogo na competição estadual de 1923. No período de 14 de agosto a dezembro de 1923, atuou pelo S. C. Brasil novamente. Naquele ano, chegou a lograr hat trick em vitória de 5–3 em pleno estádio das Laranjeiras no clássico com o Fluminense.O vovô de todos os clássicos (maio de 2005). Placar Especial 35 Anos - Coleção de Aniversário n. 2, "Os Grandes Clássicos". Editora Abril, pp. 20-25