Padre Donizetti Tavares de Lima (Santa Rita de Cássia, 3 de janeiro de 1882 — Tambaú, 16 de junho de 1961), conhecido como Padre Donizetti, foi um padre católico brasileiro. Sua vida foi marcada por acontecimentos extraordinários: ficou muito conhecido na década de 1950 por graças, conversões e milagres de curas atribuídos a ele, e que o mesmo atribuía a Nossa Senhora Aparecida, de quem era muito devoto.
No dia 6 de abril de 2019, o Papa Francisco reconheceu um milagre ocorrido por intercessão do padre, e, com essa decisão, o sacerdote pôde ser beatificado. A cerimônia de beatificação ocorreu em Tambaú, em 23 de novembro , e foi presidida pelo cardeal Angelo Becciu, que representou o Papa. Sua festa litúrgica é em 16 de junho.
História Padre Donizetti nasceu no atual município de Cássia, no dia 3 de janeiro de 1882, filho de Tristão Tavares de Lima e Francisca Cândida Tavares de Lima. Teve oito irmãos, todos com nomes em homenagem a músicos, e "Donizetti" foi o nome escolhido em homenagem ao músico italiano Gaetano Donizetti. Aos quatro anos, Donizetti e sua família se mudaram para Franca, no interior de São Paulo, onde cursou o primário e começou a aprender música.
Vida sacerdotal Donizetti pediu ao seu pai para ingressar no seminário; porém sua família estava em condição financeira muito precária na época, e, portanto, seu pai decidiu que antes ele devia ajudá-los a se estabelecerem financeiramente, o que ele fez. Sua família não enriqueceu mas se estabilizou e aos 18 anos voltou a fazer o mesmo pedido e com o consentimento do pai, entrou para o seminário, recebendo a imagem de Nossa Senhora Aparecida com manto de seda branco como presente de sua mãe.
Aos 18 anos, foi para o seminário. No dia 12 de julho de 1908 foi ordenado sacerdote em Pouso Alegre, Minas Gerais. No dia da ordenação, pediu ao bispo para fazer um voto de pobreza. Devido a isso, sempre dormia no chão, quando não em ripas de madeiras com livros ou vasos redondos de louça como travesseiros. Depois de algum tempo deram-lhe uma cama de hospital com colchão de palha. Sua batina era doada e já usada.
Logo após a ordenação, realizou seu trabalho pastoral na Paróquia São Caetano, ainda em Pouso Alegre. Mais tarde foi para a Diocese de Campinas, sendo vigário da Paróquia Santa Mãe de Deus, em Jaguariúna. Em 1909, foi nomeado pároco de Sant'Ana, em Vargem Grande do Sul, pertencente à então Diocese de Ribeirão Preto. De 20 de abril até 9 de agosto de 1909 foi também o Administrador da Paróquia Senhor Bom Jesus de Aguaí. Acabou destacando-se pelo trabalho pastoral intenso, trabalhando o evangelho com ênfase na questão social, como na defesa dos pobres e dos trabalhadores vítimas da exploração. Por essa razão, recebeu uma injusta e falsa acusação de ser simpatizante do comunismo. Outra característica de seu trabalho foi o de ensinar a doutrina católica fora do sincretismo religioso, que era comum em sua comunidade. Donizetti, que também era advogado, ajudava os trabalhadores que precisavam de auxilio, pois naquela época os ricos empresários e políticos abusavam de seus funcionários, não pagando o que era de direito. Então Padre Donizetti, dizia-lhes o que deviam fazer, provocando uma revolta de ricos e políticos, que tentaram matá-lo por 2 vezes.
Chegada a Tambaú Por questões de segurança, ele foi transferido pelo bispo, sendo que no dia 24 de maio de 1926 foi nomeado pároco na Paróquia de Santo Antônio da cidade de Tambaú, no Estado de São Paulo. Chegou à cidade no dia 12 de junho, e sua posse ocorreu no dia seguinte, na missa das 11 horas de um domingo, no dia do padroeiro da cidade. Seu primeiro ato na cidade foi o de ir à igreja São José, onde se ajoelhou e rezou diante do altar. Ao perceber que os primeiros bancos da Igreja eram reservados aos políticos e ricos, retirou todas as demarcações, e disse:
Fundou em Tambaú diversas entidades, como o asilo São Vicente de Paulo, a Associação de Proteção à Maternidade e Infância de Tambaú, além da Congregação Mariana, a Irmandade das Filhas de Maria e o Círculo Operário Tambauense. Conta-se que no bolso de sua batina sempre havia balas e santinhos que distribuía às crianças que encontrava na rua. As crianças também passavam em sua casa antes de ir à escola para pedir a bênção. Toda semana, Padre Donizetti, fazia um pequena procissão com as crianças e seus coroinhas até o asilo, sempre fazendo a oração do terço. À época da administração do prefeito José Gatto em Tambaú, conversou com o governador, a pedido do padre, para a construção de uma escola que hoje leva o seu nome. Também lutou para fundar o asilo São Vicente de Paulo na cidade.
Os políticos que antes da chegada de Donizetti, se sentavam nos primeiros bancos da igreja, passaram a sentar-se nos últimos, pois na hora da homilia eles saíam da igreja porque o padre falava de problemas da cidade, e pedia aos vereadores e prefeitos para resolvê-los. Os vereadores e prefeito, por sua vez, pediam auxílio e sugestões ao padre, principalmente em questões trabalhistas. O povo pedia para o padre tornar-se o prefeito de Tambaú, porém ele sempre dizia: "Meu compromisso é com os pobres e com a Igreja, hoje e sempre".
Também diz-se que certa vez, no dia de Santo Antônio, padroeiro da cidade, em meio a procissão, Padre Donizetti percebe que o delegado da cidade estava fumando, foi quando ele saiu da procissão para chamar a atenção do delegado, o qual no outro dia foi reclamar com o bispo a respeito dessa atitude do padre, dizendo que o padre não mandava em nada e não tinha autoridade sobre ele, o bispo porém disse que o superior do delegado já estava sabendo e quem iria embora da cidade era ele.
Com o tempo, a fama do Padre Donizetti começou a se espalhar até mesmo no exterior, e era grande o número de pessoas em busca das curas, através de sua intercessão, que enviavam cartas da Espanha, Portugal, Uruguai, Estados Unidos, Itália, Iugoslávia, dentre outros. Sua bênção tornou-se muito procurada e era tradicionalmente dada da janela de sua casa, vista a quantidade imensa de pessoas que ficavam lá em frente, aguardando-a.
O jornalista Joelmir Beting, morto em 2012, conheceu pessoalmente o Padre Donizetti. Seu filho, Mauro Beting, afirmou em entrevista que “que deve a própria vida” ao beato Donizetti. "Foi ele quem orientou meu pai [Joelmir Beting] para se mudar para a capital, onde ele estudou e começou a trabalhar como jornalista". Mauro acrescentou outro caso, agora milagroso, atribuído ao Padre Donizetti. "Minha avó teria que amputar os pés. Porém, ela rezou para [padre Donizetti] e não precisou mais", relatou. O pai de Mauro também atribuía um milagre ao beato. Após um acidente no Rio Pardo, Joelmir ficou gago e, depois de tomar um caldo de quiabo da casa do padre, o problema foi curado.
Procissão a Nossa Senhora Aparecida Ao chegar em Tambaú, solicitou uma réplica da imagem de Aparecida retirada do Rio Paraíba pelos pescadores. Ao chegar a imagem pela linha férrea, chovia muito na cidade, mesmo assim o padre autorizou a saída de uma procissão. Os relatos é que durante o trajeto da estação ferroviária até a igreja Matriz Santo Antônio, a chuva ia abrindo "alas" para a passagem da procissão, sendo que nem a imagem, nem as pessoas se molharam.
Incêndio na Igreja Matriz No dia 11 de outubro de 1929, Padre Donizetti acabava de celebrar a Santa Missa na Igreja de São José, quando o avisaram que a Igreja Matriz de Santo Antônio estava pegando fogo por causa de um curto circuito. Padre Donizetti foi imediatamente para lá acompanhado de seu coroinha. Chegando lá, segundo jornais da época, alguns homens teriam retirado a imagem de Nossa Senhora, bem como a do padroeiro Santo Antônio, salvando-as do incêndio. De acordo com relatos em vários livros e testemunhos, o tambauense responsável pela retirada da imagem - e que não sofreu nenhuma queimadura no incêndio, foi Angelo Latari.
A população encarou o fato como um milagre de Nossa Senhora. Com esse acontecimento, ele decidiu construir uma igreja para guardar a milagrosa imagem. Foi ao bispo pedir permissão, diversas vezes, após conseguir o terreno, o material, e pessoal para a construção, que foi negada pelo bispo. Em obediência o padre não iniciou a obra.
A última bênção A última bênção do Padre Donizetti foi dada no dia 30 de maio de 1955, e é um dos ocorridos mais conhecidos de sua vida, e ainda hoje a data é celebrada na cidade onde residia, Tambaú. Na década de 50, mais de 20 mil pessoas chegavam ao município todos os dias em busca de bênçãos. Na época, a cidade tinha cerca de 7 mil habitantes e não comportava receber tantos peregrinos. Havia o risco de propagação de epidemias, e a cidade tinha infraestrutura insuficiente em questões de água, alimento e pouso. Há relatos em que chegaram a juntar-se em Tambaú 200 mil pessoas esperando a famosa bênção, constituindo uma verdadeira calamidade pública. Os peregrinos subiam em árvores e nos telhados das casas que circundam a praça da igreja, e choravam emocionados. Milhares de velas foram acesas, segundo o arquivo da Folha de S.Paulo dessa data. À época, afirmou que a decisão de findar as bênçãos era por "motivos elevados", o que levou a especulações sobre ser ordem do bispo da época. Ele afirmou:
No dia, esquadrilhas de aviões da base aérea de Cumbica e de Santos sobrevoaram a cidade, realizando acrobacias em homenagem ao Padre Donizetti. A bênção das 12 horas sofreu um atraso de quase duas horas, após circular na cidade de que o governador Jânio Quadros estaria a caminho de Tambaú, a fim de receber, ele também, a milagrosa bênção. Por fim, desmentido o boato, o padre se dirigiu à multidão que se comprimia na praça, em frente à casa paroquial. O radialista Pedro Geraldo Costa, da Rádio Nacional, anunciou que havia organizado uma "chuva de rosas" em homenagem ao Padre, feita por aviões. Após a bênção, um avião da linha de transportes aéreos cruzou sobre a praça, deixando na sua trajetória um rastro de pétalas de rosas.
Durante todo o dia os peregrinos comentavam casos de curas miraculosas e atribuíam ao padre Donizetti feitos verdadeiramente excepcionais. Um desses casos, foi confirmado pelo próprio padre, que foi o de uma criança que havia falecido em Ribeirão Preto e que já se encontrava no caixão, quando ressuscitou, na mesma ocasião em que o padre dava a bênção das 14 horas. O repórter da Folha na época fotografou a mortalha que teria envolvido o corpo da menina, porém não foram colhidos maiores detalhes, nem mesmo os nomes dos pais da criança. Falando sobre o caso à multidão, afirmou o sacerdote: "Isso não me surpreende, pois há algum tempo ressuscitei um morto, mas tive o cuidado de pedir aos parentes que o conservassem em casa durante três dias como se estivesse doente, para não assustar a população." Um dos fâmulos do cardeal Mota afirmou que vira uma criança de seis meses falar desembaraçadamente depois de ter sido tocada pelo padre Donizetti.
Milagres registrados
Bilocação Houve um fato que impressionou muito o povo tambauense: a bilocação, que é estar em dois lugares ao mesmo tempo. Enquanto celebrava a missa, padre Donizetti marcava presença em um leilão do outro lado da cidade.
O vendedor de vinho Em 1954, o vendedor ambulante de vinho, Gervásio Rota, que sofria de um grave problema nos joelhos que quase o impossibilitava de andar, foi pedir a bênção ao padre, que ao fazer o sinal da cruz, sentiu a dor parar imediatamente. Esse foi o primeiro milagre do Padre Donizetti a se tornar amplamente conhecido, e foi o pontapé inicial de sua fama de milagreiro.
O milagre da corrente Uma mulher que vivia acorrentada pelos pais, por ser considerada louca, chegou à cidade gritando de dor e fúria mas ao chegar perto do Padre Donizetti, recebeu sua bênção, então ele pediu aos pais para que tirem a corrente. Receosos eles a tiram e ao fazê-lo, sua filha se acalma e para de gritar. Ficou totalmente curada. Esse ficou conhecido como o "milagre da corrente".
Milagre do Braguinha