No Calor da Noite () é um filme de 1967 produzido nos Estados Unidos, dos gêneros policial, drama e suspense, dirigido por Norman Jewison, com roteiro de Stirling Silliphant, que foi baseado no livro homônimo de John Ball.

Produzido por Walter Mirisch, o longa é estrelado por Sidney Poitier, Rod Steiger e Warren Oates.

No Calor da Noite venceu cinco categorias do Oscar, incluindo o prêmio de melhor filme. Teve duas continuações, They Call Me Mister Tibbs! em 1970, e The Organization, em 1971. Em 1988, ele serviu de base a uma série de televisão.

Lançado durante o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, o filme tornou-se particularmente associado à interpretação de Poitier como o detetive Virgil Tibbs e às confrontações entre o personagem e as estruturas raciais da cidade fictícia de Sparta, no Mississippi. A obra também recebeu atenção histórica pela fotografia de Haskell Wexler, concebida para representar adequadamente diferentes tons de pele em filme colorido, e pela cena em que Tibbs reage fisicamente a uma agressão de um proprietário branco.

Em 2002, a Biblioteca do Congresso selecionou In the Heat of the Night para preservação no National Film Registry, destinado a filmes considerados cultural, histórica ou esteticamente significativos. Em 2007, o American Film Institute colocou o longa na 75.ª posição de sua lista revisada dos cem maiores filmes norte-americanos.

Sinopse Conta a história de Virgil Tibbs, um detetive de polícia negro da Filadélfia, que contra sua vontade se envolve em uma investigação de assassinato, numa pequena cidade racista no Mississippi.

Em uma noite quente em Sparta, o rico industrial Philip Colbert é encontrado morto em um beco. Enquanto procura suspeitos, o policial Sam Wood encontra Virgil Tibbs na estação ferroviária e, baseando-se principalmente em sua condição de homem negro desconhecido na cidade e na quantidade de dinheiro que carrega, leva-o à delegacia. O chefe de polícia Bill Gillespie logo descobre que Tibbs não é um criminoso, mas um experiente detetive de homicídios da Filadélfia.

Por determinação de seu superior, Tibbs passa a auxiliar a polícia local. Seu conhecimento de investigação criminal e medicina forense rapidamente evidencia falhas nas conclusões dos policiais de Sparta. Entre os suspeitos está Harvey Oberst, encontrado com a carteira da vítima, mas Tibbs demonstra que ele roubara o objeto depois de encontrar o cadáver e não poderia ter cometido o homicídio.

A investigação também leva Tibbs ao influente fazendeiro Eric Endicott, que se opunha aos planos de Colbert de construir uma fábrica na região. Durante o encontro, Endicott dá um tapa em Tibbs, que imediatamente revida. A confrontação intensifica as tensões raciais e faz com que Tibbs se torne alvo de moradores brancos da cidade.

Enquanto Gillespie e Tibbs continuam investigando, o policial Sam Wood também se torna suspeito. O caso acaba se conectando a Delores Purdy, uma jovem grávida, e a Mama Caleba, que realizava abortos clandestinos. Tibbs descobre que o pai da criança é Ralph Henshaw, funcionário de uma lanchonete. Ralph admite ter assassinado Colbert para conseguir dinheiro para pagar pelo aborto de Delores. Com o crime solucionado, Gillespie acompanha Tibbs até a estação ferroviária e os dois se despedem demonstrando o respeito que se desenvolveu entre eles durante a investigação.

Elenco principal Sidney Poitier como Detetive Virgil Tibbs Rod Steiger como Chefe de Polícia Bill Gillespie Warren Oates como Sargento (Patrulheiro) Sam Wood Lee Grant como Sr.ª Leslie Colbert Larry Gates como Eric Endicott James Patterson como Lloyd Purdy (irmão de Delores) William Schallert como Prefeito Webb Schubert Beah Richards como Mama Caleba (Sra. Bellamy) Peter Whitney como CPL. George Courtney Kermit Murdock como H.E. Henderson (banqueiro) Larry D. Mann como Watkins Quentin Dean como Delores Purdy Anthony James como Ralph Henshaw (balconista da lanchonete) Arthur Malet como Ted Ulam (agente funerário) Scott Wilson como Harvey Oberst (suspeito de assassinato) Matt Clark como Packy Harrison Eldon Quick como Charlie Hawthorne (fotógrafo) Harry Dean Stanton como policial Jester Hairston como Henry (mordomo de Endicott)

Entre os demais integrantes creditados do elenco encontram-se Fred Stewart como Dr. Stuart, Timothy Scott como Shagbag Martin, William C. Watson como McNeil, Stuart Nisbet como Shuie, Khalil Bezaleel como Jess, Peter Masterson como Fryer, Alan Oppenheimer como engenheiro, Clegg Hoyt como um policial e Buzz Barton como o condutor do trem.

Produção

Desenvolvimento e adaptação O filme foi baseado no romance policial In the Heat of the Night, de John Ball, publicado em 1965 e primeiro livro protagonizado pelo detetive Virgil Tibbs. Em junho daquele ano, a imprensa norte-americana anunciou que a Mirisch Corporation preparava uma adaptação cinematográfica. De acordo com registros de produção consultados pelo American Film Institute, o produtor Walter Mirisch considerava que a história policial permitia abordar diretamente as relações raciais contemporâneas nos Estados Unidos.

Inicialmente, o roteirista e produtor Robert Alan Aurthur esteve associado ao projeto. A adaptação acabou sendo assumida por Stirling Silliphant, que concluiu o roteiro no início de 1966, quando o projeto foi oferecido a Norman Jewison.

A adaptação cinematográfica realizou alterações relevantes em relação ao romance. A cidade fictícia de Wells, Mississippi, passou a ser denominada Sparta, permitindo que a produção utilizasse placas e estabelecimentos existentes em Sparta, Illinois, onde grande parte das filmagens ocorreu. No livro, Tibbs trabalhava na polícia de Pasadena, Califórnia; no filme, ele foi transformado em um detetive de homicídios da Filadélfia.

O roteiro também enfatizou mais diretamente o confronto racial entre Tibbs e os habitantes de Sparta. Em análise publicada pela Criterion Collection, o crítico K. Austin Collins observa que a adaptação conferiu maior intensidade à reação de Tibbs ao racismo e utilizou sua autoridade profissional como parte central do conflito entre o personagem e a sociedade que o cerca.

Filmagens A equipe pesquisou aproximadamente 150 a 200 cidades dos estados do Sul e do Meio-Oeste dos Estados Unidos antes de escolher Sparta, em Illinois, como principal locação. As filmagens começaram em setembro de 1966 e prosseguiram até meados de novembro.

Apesar de a narrativa ocorrer no Mississippi, a maior parte do longa foi rodada em Illinois. Sidney Poitier estava receoso em trabalhar no Sul dos Estados Unidos devido a experiências anteriores de violência e intimidação racial. Jewison concordou em realizar a maior parte da produção ao norte da linha Mason-Dixon, embora algumas sequências tenham sido filmadas no Tennessee.

As cenas ligadas à propriedade de Endicott e à plantação de algodão foram filmadas na região de Dyersburg, Tennessee. Para a propriedade do personagem, a equipe construiu uma estufa que abrigava uma coleção de orquídeas avaliada, na época, em cerca de 15 mil dólares.

As tensões raciais afetaram diretamente essa etapa da produção. Segundo os registros reunidos pelo AFI, a equipe deixou o Tennessee aproximadamente um dia e meio antes do planejado devido à falta de cooperação local e à sensação de insegurança; as cenas restantes foram concluídas em estúdio em Los Angeles. Poitier teria limitado suas saídas do hotel durante a permanência na região.

Jewison posteriormente recordou que apenas um hotel local aceitou hospedar conjuntamente integrantes negros e brancos da produção durante as filmagens no Tennessee. O diretor também relatou que algumas cenas ganharam elementos improvisados durante os ensaios e a interação entre Poitier e Steiger.

O custo final da produção ficou abaixo de dois milhões de dólares segundo registros contemporâneos compilados pelo AFI.

Fotografia e iluminação A direção de fotografia ficou a cargo de Haskell Wexler, que havia recebido no ano anterior o Oscar de melhor fotografia por Who's Afraid of Virginia Woolf?. In the Heat of the Night foi um dos primeiros grandes filmes de Hollywood a receber reconhecimento posterior pela maneira como sua iluminação foi planejada levando em consideração a aparência de atores negros em película colorida.

Historicamente, esquemas de iluminação e exposição desenvolvidos tendo atores brancos como referência podiam produzir excesso de brilho e perda de detalhes faciais em intérpretes com pele mais escura. Wexler e Jewison procuraram manter visíveis as expressões de Poitier utilizando iluminação e exposição ajustadas ao seu tom de pele.

Como grande parte da narrativa ocorre durante a noite, Jewison e Wexler também utilizaram técnicas de subexposição e desenvolvimento forçado do negativo para preservar a atmosfera noturna e recuperar detalhes da imagem. Wexler empregou ainda câmeras relativamente móveis e técnicas de câmera na mão, contribuindo para uma aparência menos estática que a de muitos dramas policiais hollywoodianos do período.

A fotografia do filme passou, assim, a ser estudada não apenas por sua atmosfera visual, mas também pela história técnica da representação de diferentes tons de pele no cinema em cores.

A cena do tapa Uma das sequências mais conhecidas ocorre quando Tibbs e Gillespie visitam o rico proprietário Eric Endicott. Após perceber que está sendo investigado, Endicott dá um tapa no rosto de Tibbs. O detetive reage imediatamente, golpeando-o de volta.

A reciprocidade da agressão assumiu grande significado no contexto do cinema norte-americano dos anos 1960. Jewison posteriormente descreveu a cena como uma ruptura com uma convenção racial hollywoodiana e recordou a reação intensa que ela provocou nas plateias da época.

O pesquisador Geert Heetebrij, em estudo dedicado ao roteiro de Silliphant, analisou versões do desenvolvimento da adaptação e observou que a caracterização de Tibbs foi modificada durante o processo de escrita para tornar seu confronto com a estrutura racial de Sparta mais ativo.

O episódio também ajuda a estabelecer a diferença entre Tibbs e a imagem de personagens excepcionalmente contidos e moralmente idealizados anteriormente associados a Sidney Poitier. Para críticos e historiadores posteriores, a sequência tornou-se uma das imagens emblemáticas de resistência negra no cinema hollywoodiano do período dos direitos civis.

Música A trilha sonora foi composta e produzida por Quincy Jones, combinando elementos de jazz, blues, gospel e música associada ao Sul dos Estados Unidos.

A canção-tema, também intitulada "In the Heat of the Night", tem música de Jones, letra de Alan e Marilyn Bergman e interpretação de Ray Charles. O trio também escreveu "Foul Owl", utilizada no filme.

A gravação de Charles acompanha a sequência inicial, na qual a chegada de Tibbs a Sparta é mostrada antes de sua identidade ser revelada. A combinação entre a trilha de Jones, a fotografia noturna de Wexler e as imagens da pequena cidade estabelece desde a abertura a atmosfera de tensão da narrativa.

A trilha sonora de Jones recebeu indicação ao Grammy de 1968 na categoria então dedicada a trilhas sonoras para cinema e televisão.

Temas e análises

Racismo e autoridade Embora estruturado como um filme policial e um mistério de assassinato, In the Heat of the Night utiliza a investigação criminal como meio de examinar relações raciais, autoridade institucional e hierarquias sociais no Sul dos Estados Unidos durante a década de 1960.

A posição de Tibbs cria uma contradição fundamental: ele é simultaneamente alvo do racismo da polícia local e profissionalmente mais experiente que vários dos homens que o tratam como inferior. Seu conhecimento de investigação e medicina forense permite que desafie sucessivamente as conclusões de Gillespie e de seus subordinados.