miniatura|direita|Odômetro eletrônico com mostrador digital, abaixo do velocímetro.
Odómetro, em Portugal, ou odômetro, no Brasil, também grafado hodómetro e hodômetro, é um instrumento usado para medir a distância percorrida por um veículo, como uma bicicleta ou um automóvel."odómetro / odômetro". Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Consultado em 14 de setembro de 2026. O dispositivo pode ser eletrônico, mecânico ou uma combinação dos dois, de natureza eletromecânica. Também recebe o nome de odógrafo. A palavra deriva do grego antigo ὁδόμετρον, hodómetron, formado por ὁδός, hodós, "caminho" ou "via", e μέτρον, métron, "medida". Formas antigas do odômetro existiam no mundo greco-romano e na China antiga. No inglês britânico, o instrumento também é chamado de milometer ou mileometer."milometer". Cambridge Dictionary. Consultado em 14 de setembro de 2026.
História
Antiguidade clássica miniatura|Reconstrução do odômetro de Vitrúvio, do século I a.C., no Centro de Ciência e Museu de Tecnologia de Tessalônica. esquerda|miniatura|Reconstrução do odômetro de Heron de Alexandria, do século I d.C., no Museu de Tecnologia da Grécia Antiga, em Atenas.
Uma possível primeira evidência do uso de um odômetro está nas obras do romano Plínio (NH 6.61-62) e do grego Estrabão (11.8.9). Os dois autores dão as distâncias de rotas percorridas por Alexandre, o Grande (r. 336-323 a.C.), medidas por seus bematistas Diogneto e Baeton. A elevada precisão dessas medições aponta para o possível uso de um dispositivo mecânico. O trecho entre Hecatômpilos e Alexandria Areion, que mais tarde passou a integrar a Rota da Seda, foi medido pelos bematistas de Alexandre em cerca de 851 km, com desvio de 0,2% em relação à distância real, de aproximadamente 855 km. Das nove medições de bematistas preservadas na Naturalis Historia de Plínio, oito têm desvio inferior a 5% da distância real e três ficam dentro de 1%. Pequenas mudanças nos traçados das estradas ao longo de cerca de 2.300 anos podem explicar essas diferenças. A precisão geral das medições levou à hipótese de que os bematistas já usavam um dispositivo elaborado para medir distâncias, embora nenhum desses textos mencione diretamente um aparelho desse tipo.
Um odômetro para medir distâncias foi descrito por Vitrúvio no século I a.C. André Wegener Sleeswyk atribuiu a possível invenção a Arquimedes (c. 287-212 a.C.).SLEESWYK, André Wegener. "Vitruvius' Odometer". Scientific American, v. 245, n. 4, 1981, p. 188-201. DOI 10.1038/scientificamerican1081-188. JSTOR 24964584. ISSN 0036-8733. Philippe Fleury considerou essa atribuição sem fundamento, pois os tratados preservados de Arquimedes não tratam do odômetro.FLEURY, Philippe. "Odomètre terrestre de Vitruve". Le Plan de Rome, Université de Caen Normandie, 2021. Consultado em 7 de maio de 2025. Heron de Alexandria (10-70 d.C.) descreveu um dispositivo semelhante no capítulo 34 de sua Dioptra. A máquina também foi usada na época do imperador romano Cômodo, por volta de 192 d.C. Depois disso, há uma lacuna entre seu uso no período romano e seu reaparecimento na Europa Ocidental no século XV.Needham, 1965, p. 285. Também foi proposta a possibilidade de que o dispositivo empregasse tecnologia semelhante à da Máquina de Anticítera.
O odômetro de Vitrúvio usava rodas de carruagem com 1,18 m de diâmetro, que completavam 400 voltas a cada 1.480 m. A cada volta, um pino no eixo engatava uma roda dentada de 400 dentes, fazendo-a completar uma volta a cada 1.480 m. Ela acionava outra engrenagem com orifícios ao longo da circunferência, nos quais ficavam pequenos seixos, os calculi, que caíam um a um em uma caixa. A distância percorrida podia ser obtida contando-se os seixos. Discute-se se o instrumento chegou a ser construído na Antiguidade. Leonardo da Vinci tentou construí-lo mais tarde a partir da descrição, mas não conseguiu fazê-lo funcionar. Em 1981, Sleeswyk produziu uma réplica na qual substituiu o desenho de dentes quadrados usado por Leonardo pelos dentes triangulares e pontiagudos encontrados na Máquina de Anticítera. Com essa alteração, o odômetro de Vitrúvio funcionou corretamente.
Vitrúvio também descreveu uma versão destinada à medição de distâncias no mar. Nesse modelo, um eixo atravessava o casco da embarcação e sustentava rodas de pás que giravam em contato com a água. A rotação era transmitida a um mecanismo contador semelhante ao da versão terrestre, permitindo registrar a distância percorrida.VITRÚVIO. De architectura, livro X, capítulo 9.
China imperial miniatura|direita|Decalque em pedra da Dinastia Han que mostra uma carruagem odométrica puxada por cavalos.
Dinastia Han e período dos Três Reinos O odômetro também foi inventado de forma independente na China antiga,Needham, 1965, p. 280-286. possivelmente pelo inventor e estudioso Zhang Heng (78-139 d.C.), da Dinastia Han. No século III, durante o período dos Três Reinos, os chineses chamavam o dispositivo de jì lǐ gǔ chē (記里鼓車), ou "carruagem de tambor que registra li". Na definição moderna, um li equivale a cerca de 500 m.Needham, 1965, p. 281. Textos chineses do século III explicam que, após a carruagem percorrer um li, uma figura de madeira acionada mecanicamente batia em um tambor. A cada dez li, outra figura de madeira tocava um gongo ou sino com um braço movido pelo mecanismo.
Embora o aparelho tenha sido relacionado a Zhang Heng e também a Ma Jun (c. 200-265), há indícios de que sua invenção foi um processo gradual na China Han, concentrado entre os huang men, grupo da corte que reunia eunucos, funcionários palacianos, assistentes, pessoas próximas ao palácio, atores e acrobatas, entre outros, e que acompanhava a procissão musical da "carruagem-tambor" real.Needham, 1965, p. 283. O historiador Joseph Needham considerou plausível que esse grupo estivesse envolvido na criação do aparelho, pois há outros indícios de seu trabalho com brinquedos mecânicos feitos para entreter o imperador e a corte. Foi proposto que, em algum momento do século I a.C., na dinastia Han Ocidental, tambores e gongos passaram a ser acionados mecanicamente pela rotação das rodas da carruagem. Esse desenho pode ter sido obra de Luoxia Hong, por volta de 110 a.C. Em 125 d.C., a carruagem odométrica mecânica já era conhecida na China e foi retratada em um mural da tumba de Xiaotangshan.
O odômetro continuou a ser usado em outros períodos da China. O Jin Shu, compilado em 635 d.C., contém na sua parte mais antiga, conhecida como Cui Bao e datada de cerca de 300 d.C., um registro do uso do aparelho e o atribui ao período Han Ocidental, de 202 a.C. a 9 d.C.Needham, 1965, p. 282. O Jin Shu acrescenta que ele tinha forma semelhante à da carruagem que aponta para o sul, inventada por Ma Jun entre 200 e 265, mecanismo relacionado à engrenagem diferencial. A História da dinastia Sung relata que engenheiros dos séculos IX, XI e XII combinaram o odômetro e a carruagem que aponta para o sul em um único veículo com rodas. O Sunzi Suanjing, manual matemático datado entre os séculos III e V, apresenta um problema para estudantes que envolve um odômetro. O exercício fornece a distância entre duas cidades, a distância percorrida a cada rotação da roda da carruagem e pergunta quantas rotações seriam necessárias para a viagem entre os dois pontos.
Dinastia Sung A História da dinastia Sung, de 1345, que reúne pessoas e acontecimentos da Dinastia Sung, também menciona o odômetro usado nesse período. Ao contrário de textos anteriores, traz uma descrição bem mais detalhada do aparelho em sua forma antiga. O trecho usa a romanização Wade-Giles:
O odômetro. [A carruagem medidora de li] é pintada de vermelho, com figuras de flores e pássaros nos quatro lados, e construída em dois andares, ricamente adornados com entalhes. Ao completar cada li, a figura de madeira de um homem no andar inferior bate em um tambor. Ao completar cada dez li, a figura de madeira no andar superior toca um sino. O varal da carruagem termina em uma cabeça de fênix, e a carruagem é puxada por quatro cavalos. A escolta era antes composta por 18 homens, mas, no quarto ano do período de reinado Yung-Hsi (987 d.C.), o imperador Thai Tsung aumentou-a para 30. No quinto ano do período de reinado Thien-Sheng (1027 d.C.), o camareiro-chefe Lu Tao-lung apresentou as seguintes especificações para a construção de odômetros:
Segue-se uma longa exposição do camareiro-chefe Lu Daolong sobre as medidas e dimensões das rodas e engrenagens, encerrada por uma explicação do funcionamento do aparelho:
O veículo deve ter um único varal e duas rodas. Sobre a carroceria há dois andares, cada um contendo uma figura de madeira entalhada que segura uma baqueta. As rodas da carruagem têm 1,83 m de diâmetro e 5,49 m de circunferência, e uma volta cobre três passos. Pelos padrões antigos, o passo equivalia a 1,83 m e 300 passos formavam um li. Agora, o li é calculado como 360 passos de 1,52 m cada.
A extensão do li mudou ao longo dos séculos, e o li da dinastia Sung não tinha a mesma medida usada no período Han.
A roda do veículo (li lun) é presa à roda esquerda da carruagem. Tem 0,42 m de diâmetro e 1,26 m de circunferência, com 18 dentes (chhih) espaçados em 5,84 cm. Há também uma roda horizontal inferior (hsia phing lun), com 1,26 m de diâmetro e 3,79 m de circunferência, com 54 dentes separados pela mesma distância dos dentes da roda vertical, 5,84 cm. Esta engrena com a anterior.
Em um eixo vertical que gira com essa roda, é fixada uma "roda que gira como o vento" de bronze (hsuan feng lun), que tem apenas três dentes separados por 3,05 cm. Ela faz girar a roda seguinte. No meio há uma roda horizontal de 1,22 m de diâmetro e 3,66 m de circunferência, com 100 dentes, separados pela mesma distância dos dentes da "roda que gira como o vento", 3,05 cm.Needham, 1965, p. 284.
Depois, no mesmo eixo, é fixada uma pequena roda horizontal (hsiao phing lun) de 8,38 cm de diâmetro e 30,48 cm de circunferência, com dez dentes separados por 3,81 cm. Engrenada nela há uma roda horizontal superior (shang phing lun) com 1,01 m de diâmetro e 3,05 m de circunferência, com 100 dentes separados pela mesma distância dos dentes da pequena roda horizontal, 3,81 cm.
Quando a roda horizontal do meio completa uma volta, a carruagem percorreu um li e a figura de madeira no andar inferior bate no tambor. Quando a roda horizontal superior completa uma volta, a carruagem percorreu dez li e a figura no andar superior toca o sino. O número de rodas usadas, grandes e pequenas, é oito ao todo, com um total de 285 dentes. O movimento é transmitido como pelos elos de uma corrente, com os "dentes de cão" engrenando uns nos outros, de modo que, pela rotação adequada, tudo retorna ao ponto inicial (ti hsiang kou so, chhuan ya hsiang chih, chou erh fu shih).
Desenvolvimentos posteriores direita|miniatura|Carruagem com odômetro de Colorni, em Euthimetria, da Biblioteca Herzog August.TOAFF, Ariel. Il prestigiatore di Dio: avventure e miracoli di un alchimista ebreo nelle corti del Rinascimento. Rizzoli, 2010. ISBN 978-88-17-03996-3. miniatura|Um hubodômetro instalado na roda de um semirreboque. miniatura|direita|Velocímetro Smiths da década de 1920 com odômetro e odômetro parcial.
Odômetros foram desenvolvidos no século XVII para carroças e outros veículos puxados por cavalos, com o objetivo de medir as distâncias percorridas.
Abramo Colorni (m. 1599) ilustrou uma carruagem com odômetro em Euthimetria, tratado de engenharia.
Levinus Hulsius publicou um odômetro em 1604 na obra Gründtliche Beschreibung deß Diensthafften und Nutzbahrn Instruments Viatorii oder Wegzählers, So zu Fuß, zu Pferdt unnd zu Fußen gebraucht werden kann, damit mit geringer mühe zu wissen, wie weit man gegangen, geritten, oder gefahren sey: als auch zu erfahren, ohne messen oder zehlen, wie weit von einem Orth zum andern. Daneben wird auch der grosse verborgene Wegweiser angezeiget und vermeldet.Kern, 2010, p. 470.