O tucuxi (Sotalia fluviatilis), também conhecido como pirajaguara ou boto-cinza, é uma espécie de golfinho de água doce existente na bacia do Amazonas.FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 725. Ele é encontrado em muitas das regiões habitadas pelos botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis), e, por isso, essas espécies são chamadas de simpátricas. Apesar disso, o tucuxi é geneticamente mais próximo dos golfinhos marinhos, como sua espécie-irmã, o golfinho-da-guiana (Sotalia guianensis). É o menor e o único delfinídeo (golfinho da família Delphinidae) de água doce do mundo. Pertence ao gênero Sotalia, do qual os golfinhos adultos desse gênero (boto-cinza e tucuxi) geralmente variam de 1 a 2 metros de comprimento.
Fisicamente, a espécie se parece com Tursiops, mas é diferente o bastante para ser situada em outro gênero, Sotalia. Sotalia guianensis, que abrange golfinhos de ambientes litorâneos e de estuários, anteriormente fazia parte de Sotalia fluviatilis, mas recentemente passou a formar uma espécie própria. Os tucuxis provavelmente vivem de 30 a 35 anos, com registro de a fêmea mais velha conhecida ter chegado aos 43 anos, e o macho mais velho ter chegado aos 26.
Tucuxis e botos-cor-de-rosa são considerados espécies indicadoras da qualidade da água de ecossistemas amazônicos por serem predadores topo de teia alimentar, e podem ser usados como indicadoras da degradação do ecossistema. Por serem parte da categoria popular chamada de "fofofauna" (animais considerados fofos pelo amplo público, como baleias, felinos e tartarugas), os tucuxi são considerados "espécie-bandeira" e "espécie-guarda-chuva", quando uma espécie é usada como um ícone para conscientizar a população da sua importância ambiental e sua conservação, protegendo, assim, o ecossistema em que está presente. O tucuxi e o boto-cor-de-rosa, por exemplo, conscientizam a população da importância de proteger a floresta Amazônica, principalmente seus rios.
Etimologia A palavra "tucuxi" vem de "tucuchi-una", da língua Tupi falada pelos indígenas Mayana na Amazônia. Quanto ao seu nome científico, Sotalia fluviatilis, "fluviatilis" vem do latim "do rio". Para "Sotalia", não se sabe a etimologia (origem da palavra).
No Brasil, esse golfinho é comumente chamado de tucuxi ou boto-cinza, sendo o termo tucuxi o mais usado, uma vez que “boto-cinza” é mais comumente designado à sua espécie-irmã marinha e estuarina, Sotalia guianensis. Na Colômbia e no Peru, é chamado de bufeo gris, bufeo blanco ou bufeo negro. Na Venezuela, seu nome varia regionalmente. Na região da Bacia Amazônica, é chamado de tonina de rio, delfin blanco ou soplón. Na região da Bacia do Orinoco, é chamado de bufeo negro, bufete ou soplón.
Segundo o Novo Dicionário de Língua Portuguesa (1986), "tucuxi" procede das línguas caribes e "pirajaguara" procede dos termos tupis pirá, "peixe", e ya'wara, "cão".FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 336.
Características morfológicas A espécie é semelhante aos golfinhos-roazes (Tursiops truncatus) e à sua espécie-irmã, o golfinho-da-guiana ou boto-cinza (Sotalia guianensis), mas o tucuxi costuma ser menor, crescendo até 1,5 m de comprimento. Os machos alcançam o comprimento de 1,4 a 1,5 m, e as fêmeas o comprimento de 1,3 a 1,5 metros. Seu peso varia de 35 e 45 kg, com o registro máximo de e 53 kg. Já um recém-nascido nasce com 71 a 83 centímetros de comprimento e 8 kg de massa.
A coloração varia conforme a região do corpo. No dorso (as "costas"), varia entre o cinza-azulado e o cinza-amarronzado, se tornando cinza claro a branco ao descer pelas laterais do corpo e chegar ao seu ventre (a "barriga"). O ventre é bem mais claro, podendo ter um um tom rosado quando estão muito ativos, com a intensidade variando conforme a intensidade da atividade que estão realizando.Body length. Disponível em http://www.bio-nica.info/biblioteca/Edwards2001.pdf. Acesso em 16 de março de 2018. Seu melão (órgão de ecolocalização localizado na cabeça) é relativamente pequeno e não se sobressai em relação ao crânio. O rostro (também chamado popularmente de "bico" ou "focinho", composto pela maxila e pela mandíbula) é bem definido, comprido e fino, sendo ligeiramente mais estreito que o do boto-cinza. As extremidades da boca se curvam ligeiramente para cima, e há uma linha escura e grossa dos olhos até a nadadeira, com uma linha fina clara dentro dela, dos dois lados do corpo. Suas nadadeiras peitorais são largas. Comparado com sua espécie-irmã, o boto-cinza, a nadadeira dorsal é menor, mais triangular e larga na base, podendo ser curva na ponta.
Nos golfinhos, a contagem dos dentes é curiosa. Não se conta a quantidade total de dentes na maxila e na mandíbula. Contam-se quantos dentes existem em cada metade de maxila (metade esquerda e metade direita, sendo que cada metade é chamada de ramo), pois a quantidade de dentes varia de cada lado da boca. Não existem necessariamente pares de dentes. Assim, cada ramo da maxila (ramo esquerdo e ramo direito) tem de 28 a 35 dentes, e cada ramo (esquerdo e direito) da mandíbula tem de 26 a 33 dentes.
Para visualizar melhor essas informações anatômicas, além de fotos disponíveis na internet, é possível observar a ilustração do tucuxi no Guia Ilustrado de Identificação de Cetáceos e Sirênios do Brasil, disponibilizado gratuitamente pelo ICMBio / CMA (governo brasileiro).
Taxonomia Dos naturalistas europeus a viajarem pela América, Alexander von Humboldt provavelmente foi o primeiro a documentar a presença de golfinhos na foz de rios na Venezuela. Ele registrou golfinhos há cerca de 130km da foz do rio Orinoco, na cidade de San Fernando de Apure, Venezuela. Pela descrição, principalmente pelo registro de sua nadadeira dorsal proeminente (muito diferente da do boto-cor-de-rosa), ele identificou um golfinho do gênero Sotalia.
A taxonomia desse gênero de golfinhos variou bastante nos últimos dois séculos. No início dos anos 1800, esses botos eram classificados em 5 espécies, duas costeiras (Delphinus guianensis e Sotalia brasiliensis) e três de água doce (Delphinus fluviatilis, Delphinus pallidus e Steno tucuxi). D. guianensis e S. brasiliensis passaram a integrar a atual espécie Sotalia guianensis, enquanto que D. fluviatilis, D. pallidus (posteriormente descoberta ser uma S. fluviatilis de coloração variante) e Steno tucuxi passaram a integrar a atual Sotalia fluviatilis. Sotalia fluviatilis foi descrito por Paul Gervais e Émile Deville em 1853. Sotalia guianensis foi descrito por Pierre-Joseph van Beneden em 1864.
Nos anos 1960, as cinco espécies estavam classificadas em apenas duas, Sotalia guianensis e S. fluviatilis. Contudo, nos anos 1990, passaram a ser apenas uma espécie com duas sub-espécies, Sotalia fluviatilis fluviatilis e S. f. guianensis. Por fim, desde os anos 2000 até atualmente, o gênero Sotalia possui duas espécies novamente, Sotalia guianensis e Sotalia fluviatilis, com base em aspectos morfológicos (das diferenças anatômicas dos bichos) e genéticos, principalmente dos genes mitocondriais (presentes na mitocôndria).Borobia, M.; S. Siciliano; L. Lodi & W. Hoek (1991). "Distribution of the South American dolphin Sotalia fluviatilis". Canadian Journal of Zoology. 69 (4): 1024–1039 O primeiro estudo a reevidenciar diferenças entre as duas espécies foi um estudo morfométrico tridimensional de Monteiro-Filho e colegas.Monteiro-Filho, E. L. D. A.; L. Rabello-Monteiro & S. F. D. Reis (2008). "Skull shape and size divergence in dolphins of the genus Sotalia: A morphometric tridimensional analysis". Journal of Mammalogy. 83: 125–134. Em seguida, uma análise molecular de Cunha e colegasCunha, H. A.; V. M. F. da Silva; J. Lailson-Brito Jr.; M. C. O. Santos; P. A. C. Flores; A. R. Martin; A. F. Azevedo; A. B. L. Fragoso; R. C. Zanelatto & A. M. Solé-Cava (2005). "Riverine and marine ecotypes of Sotalia dolphins are different species". Marine Biology. 148 (2): 449–457. inequivocamente demonstrou que Sotalia guianensis era geneticamente diferente de Sotalia fluviatilis. A descoberta foi confirmada por Caballero e colegas.Caballero, S.; F. Trujillo; J. A. Vianna; H. Barrios-Garrido; M. G. Montiel; S. Beltrán-Pedreros; M. Marmontel; M. C. Santos; M. R. Rossi-Santos; F. R. Santos & C. S. Baker (2007). "Taxonomic status of the genus Sotalia: species level ranking for "tucuxi" (Sotalia fluviatilis) and "costero" (Sotalia guianensis) dolphins". Marine Mammal Science. 23 (2): 358–386. com um maior número de genes. A existência das duas espécies foi, então, largamente reconhecida pela comunidade científica.
Evolução do gênero Sotalia Com base nas diferenças genéticas entre Sotalia guianensis (boto-cinza) e Sotalia fluviatilis (tucuxi), essas duas espécies surgiram entre 1,2 milhão e 750 mil anos atrás. Isso coincide com uma série de mudanças que ocorreram na Bacia Amazônica durante o período do final do Plioceno e durante o Pleistoceno, de 3,4 milhões de anos atrás até 125 mil anos atrás. Com base nas evidências geológicas, o nível da água era mais alto que o atual e a Bacia Amazônica esteve submersa até cerca de 750 mil anos atrás. Pela movimentação tectônica, mudanças climáticas de resfriamento do planeta e mudanças ambientais, a Bacia Amazônica mudou de um grande lago para um sistema de rios de água doce. Isso deve ter isolado a população de Sotalia em duas, uma dentro dos rios e outra na costa, formando as duas espécies atuais. Atualmente, essas duas espécies vivem separadamente, com pouca área possível de encontro na foz do rio Amazonas. Infelizmente, não existe registro fóssil do ancestral do gênero Sotalia.
Comparado com o boto-cor-de-rosa, o tucuxi não é tão bem adaptado às típicas condições fluviais das águas da região tropical sulamericana, tais como canais pequenos e floresta inundada. Isso sugere que a espécie ancestral, que deu origem ao atual tucuxi, surgiu bem mais recentemente que o ancestral do boto-cor-de-rosa, que migrou para a água doce há cerca de 15 milhões de anos.
Distribuição e abundância O tucuxi ocorre no Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e também na Guiana Francesa. No Brasil, a espécie está presente nos estados do Amazonas, Pará, Amapá, Roraima, Rondônia e Acre.
O tucuxi, assim como o boto-cor-de-rosa, é endêmico da Bacia do Rio Amazonas, a maior bacia hidrográfica do mundo, e da Bacia do Rio Orinoco. Juntas, essas bacias formam o maior sistema de rios do mundo. Ambas as espécies são mais recorrentes no rio Amazonas que o Orinoco, mas não se sabe a razão disso. Algumas hipóteses especulam que sua ocorrência seja limitada pelos diferentes impactos humanos e/ou pela quantidade de peixes disponíveis em cada local. As duas espécies de golfinho não nadam grandes distâncias, mantendo-se por muitos anos, possivelmente a vida inteira, nas áreas onde nasceram.
A ocorrência do tucuxi na Bacia Amazônica atravessa Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Guiana Francesa, enquanto que a ocorrência na Bacia do Rio Orinoco inclui Venezuela e Colômbia. Na Colômbia, ele é encontrado no rio Negro (até certa altura do rio, parando na altura da cidade de Barcelos), rio Putumayo e rio Caquetá, e no sistema de lagos El Correo. No Equador, nos rios Napo, Cuyabeno, Yasuni, Lagartococha e Aguarico. No Peru, nos rios Tigre, Ucayali e Marañón. E, no Brasil, nos rios Negro, Madeira, Purus, Xingú e Tapajós e no lago de Tefé. Esses são apenas os rios e lagos mais conhecidos ocupados pelo tucuxi. No entanto, avanço da espécie para outros rios ou partes dos rios citados ainda não ocupadas é bloqueado por quedas d’água e represas de hidroelétricas.A. Berta, ed. (2015). Whales, Dolphins, and Porpoises: A Natural History and Species Guide. University of Chicago Press.
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