As serpentes são sauropsídeos escamados carnívoros alongados e sem membros, pertencentes à subordem Serpentes. Também são conhecidas como cobras, bóias, víboras ou malacatifas.FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.421
Sendo sauropsídeos, as serpentes compartilham parentesco evolutivo com testudines, arcossauros, rincocéfalos e mais estritamente com os lagartos e anfisbenas, estes últimos com os quais partilham a ordem Squamata. Acredita-se que os ancestrais das serpentes tenham evoluído de lagartos fossoriais ou aquáticos no período Jurássico, com os primeiros fósseis conhecidos datando entre 143 e 167 milhões de anos. Os parentes vivos mais próximos das serpentes são lagartos anguimorfos e iguanianos com os quais compõe o clado Toxicofera. As sinapomorfias mais notórias que definem as serpentes são o alongamento extremo do corpo e ausência dos membros, além de diversas modificações cranianas que lhes confere alta mobilidade e capacidade ingerir presas muito maiores do a própria cabeça, que as distinguindo dos demais grupos de lagartos. Diversas linhagens de lagartos também evoluíram, de modo indepente, formas com corpos alongados sem membros ou com membros completamente reduzidos pelo menos vinte e cinco vezes via evolução convergente, se assemelhando superficialmente às cobras, no entanto, sem estarem relacionados diretamente com as mesmas (ver em Amphisbaenia, Anguidae, Dibamidae e Pygopodidae). Apesar de tudo, as serpentes são consideradas um grupo de lagartos altamente modificados, fato evidenciado por diversas similaridades anatômicas e estreita relação filogenética.
Como a maioria dos sauropsídeos, as serpentes são animais ectotérmicos, ou seja, dependem da temperatura e calor externo para regular a própria. Possuem o corpo recoberto por escamas sobrepostas. Certos grupos de serpentes, como escolecofídios, pítons e jibóias retêm resquícios da cintura pélvica, algumas com apenas um par de garras vestigiais em cada lado da cloaca. Tipicamente as serpentes são ovíparas, contudo há diversos grupos vivíparos ou com ambas modalidades reprodutivas.
Serpentes vivas são encontradas em todos os continentes e na maioria das ilhas, excetuando a Antártida, Irlanda, Islândia, Groenlândia, o arquipélago do Havaí e a Nova Zelândia, bem como muitas ilhotas dos oceanos Atlântico e Pacífico Central. Além disso, as serpentes marinhas são comuns nos oceanos Índico e Pacífico. Mais de 30 famílias são atualmente reconhecidas, compreendendo cerca de 520 gêneros e aproximadamente de 4,170 espécies que variam bastante em tamanho, desde a minúscula Tetracheilostoma carlae, com 10,4 cm de comprimento até a píton-reticulada (Malayopython reticulatus), medindo próxima de 7m de comprimento. Formas fósseis conhecidas podiam atingir grandes dimensões como a Titanoboa cerrejonensis, com 12,8 m e Vasuki indicus, com até 15,2m.
A maioria das espécies de cobras não é venenosa e aquelas dotadas de toxinas as utilizam principalmente no abate de suas presas e secundariamente usando na defesa contra predadores. Algumas espécies possuem veneno potente o suficiente para causar ferimentos dolorosos ou até a morte em animais de grande porte, incluindo humanos, despertando grande interesse para a medicina, farmácia e veterinária. Por outro lado, as cobras não venenosas costumar engolir as presas vivas ou as matam envolvendo-as em seus corpos e pressionando-as com grande força muscular, numa técnica denominada constrição.
Etimologia
O termo "serpente" tem sua provável raiz no Proto-Indo-Europeu, advindo da palavra serp- ("rastejar") ramificando-se para o sânscrito sarpá e o grego antigo hérpō (“ser rastejante”), consolidando-se no latim serpens e, posteriormente, no francês antigo serpent e no português "serpente".
Víbora provém do latim vipera que significa “parir vivo” (vivus= vivo; parere= parir) em referência a estas serpentes (família Viperidae) darem à luz a filhotes vivos completamente formados.
A palavra "cobra" tem origem no latim clássico colubra (ou colobra no latim vulgar), derivando no galego-português para coobra Seoane, Ernesto Xosé González ; Granja, María Álvarez de la ; Agrelo, Ana Isabel Boullón (2006–2022 ) , “coobra”, in Dicionario de Dicionarios do galego medieval, Santiago de Compostela: Instituto da Lingua Galega até alcançar a grafia moderna. Embora o termo seja usado genericamente para designar qualquer espécie de serpente, ele ganhou fama internacional ao ser associado as serpentes do gênero Naja.
Na África Lusófona, os termos "cobra" e "víbora" são frequentente empregados para desiginar espécies locais, por exemplo: cobra-preta de São Tomé (Naja peroescobari), cobra-da-Floresta-Africana (Naja melanoleuca), víbora-de-Angola (Bitis heraldica).
No Brasil, além do termo portugês “cobra”, os termos mboi ou mboîa (“serpente”) advindos do tupi antigo foram amplamente assimilados pelos populares originando o sufixo "-bóia", utilizado popularmente para se referir à diversas espécies de ofídios sul-americanos.FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.983.
Exemplos:
Jibóia (Boa constrictor) Macarabóia ou Boicininga (Crotalus durissus) Cutimbóia (Chironius spp) Boiúna ou Boiguaçu (Eunectes murinus) Suaçubóia (Corallus hortulanus) Ararambóia ou Periquitambóia (Corallus caninus)
Evolução Há duas ideias concorrentes e ferozmente contestadas sobre a transição de lagartos para cobras. A primeira diz que as cobras evoluíram no oceano, e só mais tarde recolonizaram a terra. Esta hipótese depende da estreita relação entre cobras e répteis marinhos extintos chamados mosassauros.
A segunda hipótese diz que as cobras evoluíram de lagartos escavadores, que estendiam seus corpos e perderam seus membros para melhor escorregar no seu caminho através do solo. Nesta versão, cobras e mosassauros evoluíram ambos de forma independente a partir de um ancestral arrastador de terra, provavelmente algo parecido com um lagarto monitor. Descrito em 2015, um pequeno espécime com um corpo sinuoso longo, da formação brasileira Crato, Tetrapodophis amplectus, apoia a última ideia.A Fossil Snake With Four Legs por Ed Yong na "National Geographic Society" Além disso, as comparações entre tomografias computadorizadas de fosseis e répteis modernos indicam que as cobras perderam suas pernas quando seus ancestrais evoluíram para viver e caçar em tocas.Mystery of how snakes lost their legs solved by reptile fossil - "University of Edinburgh" (2015)H. Yi, M. A. Norell. The burrowing origin of modern snakes. "Science Advances", 2015; 1 (10): e1500743 DOI: 10.1126/sciadv.1500743
Embora existam alguns pesquisadores que acreditam que as serpentes estão mais profundamente relacionadas a lagartos varanoides, não há uma identificação mais clara sobre qual seria o grupo de varanoide mais relacionado evolutivamente. Eles também acreditam que os grupos de lagartos varanoides mais provavelmente relacionados com serpentes são os das famílias Lantanotidae e Mossassauridae.
Biologia
Esqueleto O esqueleto da maioria das serpentes consiste apenas do crânio, maxilares, coluna vertebral e costelas.
A coluna vertebral possui aproximadamente entre 200 e 400 (ou mais) vértebras. Destas, em torno de 20% (às vezes menos) são da cauda e não possuem costelas. Já as vértebras do corpo possuem, cada uma, duas costelas articuladas a elas. As vértebras também possuem projeções às quais se fixam os fortes músculos que as serpentes usam para se locomover.
Pele
A pele das cobras é coberta por escamas. As escamas do corpo podem ser lisas ou granulares. As suas pálpebras são escamas transparentes que estão sempre fechadas. Elas mudam a sua pele periodicamente (em um processo conhecido como ecdise ou muda). Pensa-se que a finalidade primordial desta é remover os parasitas externos. Esta renovação periódica tornou a serpente num símbolo de saúde, como por exemplo no símbolo da medicina (o bastão de Esculápio). Nos Caenophidia, as escamas ventrais e as fileiras largas de escamas dorsais correspondem às vértebras, permitindo que os cientistas contem as vértebras sem ser necessária a dissecação.
Sentidos A visão das serpentes não é particularmente notória (geralmente sendo melhor na espécie arborícola e pior na espécie terrestre), o que não impede a detecção do movimento. Para além dos seus olhos, algumas serpentes (crotalíneos - ou cobras-covinhas - e pítons) têm receptores infravermelhos sensíveis em sulcos profundos chamados de fossetas que lhes permite sentir o calor emitido pelos corpos. Isto é extremamente útil em lugares com pouca luminosidade. Como as serpentes não têm orelhas externas, a audição consegue apenas detectar vibrações, mas este sentido está extremamente bem desenvolvido. A maioria das serpentes usa a sua língua bifurcada para captar partículas de odor no ar e enviá-las ao chamado órgão de Jacobson, situado na sua boca, para examiná-las. A bifurcação na língua dá à serpente algum sentido direccional do cheiro.
Órgãos internos O pulmão esquerdo é muito pequeno ou mesmo ausente, uma vez que o corpo em forma tubular requer que todos os órgãos sejam compridos e estreitos. Para que caibam no corpo, só um pulmão funciona. Além disso muitos dos órgãos que são pares, como os rins ou órgãos reprodutivos estão distribuídos ao longo do corpo de modo que um esteja à frente do outro, sendo um exemplo de excepção da simetria bilateral .
Tipos de dentição
Comportamento
Alimentação Todas as serpentes são carnívoras, comendo pequenos animais (incluindo lagartos e outras cobras), aves, ovos ou insetos. Algumas cobras têm peçonha para matar as suas presas antes de as comerem. Outras matam as suas presas por constrição. As cobras não mastigam quando comem, elas possuem uma mandíbula flexível, cujas duas partes não estão rigidamente ligadas. Isso se dá graças ao osso quadrado que funciona como uma peça de encaixe, que quando necessário desarticula sua mandíbula para se adaptar ao tamanho de sua presa (ao contrário da crença popular, elas não desarticulam as suas mandíbulas), assim como numerosas outras articulações do seu crânio, permitindo-lhes abrir a boca de forma a engolir toda a sua presa, mesmo que ela tenha um diâmetro maior que a própria cobra.
thumb|esquerda|Serpente da espécie Pantherophis guttatus a engolir um rato. As cobras ficam entorpecidas, depois de comerem, enquanto decorre o processo da digestão. A digestão é uma atividade intensa e, especialmente depois do consumo de grandes presas, a energia metabólica envolvida é tal que na Crotalus durissus, a cascavel mexicana, a sua temperatura corporal pode atingir 6 graus acima da temperatura ambiente. Por causa disto, se a cobra for perturbada, depois de recentemente alimentada, irá provavelmente vomitar a presa para tentar fugir da ameaça. No entanto, quando não perturbada, o seu processo digestivo é altamente eficiente, dissolvendo e absorvendo tudo excepto o pelo e as garras, que são expelidos junto com o excesso de ácido úrico.
Normalmente, as serpentes não costumam atacar seres humanos, mas há relatos envolvendo serpentes grandes, como pythons. Apesar de serem dóceis, existem algumas espécies particularmente agressivas, mesmo assim, a maioria não ataca seres humanos, a menos que sejam assustadas ou molestadas, preferindo evitar este contato.
Locomoção thumb|Jararacuçu-do-brejo se locomovendo na areia da estrada (comprimento 2 metros). thumb|Jararacuçu-do-brejo, sequencia da locomoção. As cobras usam quatro métodos de locomoção que lhes permitem uma mobilidade substancial mesmo perante a sua condição de "répteis sem pernas".
Todas as serpentes têm a capacidade de ondulação lateral, em que o corpo é ondulado de lado e as áreas flexionadas propagam-se posteriormente, dando a forma de uma onda de seno propagando-se posteriormente.