Hormisda Artaxer (; ), mais conhecido por seu nome dinástico de Hormisda I (; , Hormizd; , Ormisdas) e mencionado como o Audaz () e o Valente (, al-Baṭal) em fontes árabes tardias, foi o terceiro xainxá do Império Sassânida, que governou de maio de 270 a junho de 271. Era o terceiro filho de , sob quem foi governador-rei da Armênia, e também participou das guerras de seu pai contra o Império Romano. O breve período de Hormisda I como governante foi praticamente monótono. Construiu a cidade de Hormisda-Ardaxir (atual Avaz), que hoje continua sendo uma grande cidade no Irã. Promoveu o sacerdote zoroastrista Cartir ao posto de sacerdote principal (mobede) e deu ao profeta maniqueísta Maniqueu permissão para continuar sua pregação. Foi sob Hormisda I que o título de "xainxá de arianos e não arianos" foi regularizado na cunhagem do Império Sassânida; anteriormente, o título real era geralmente "xainxá dos arianos". Hormisda I foi sucedido por seu irmão mais velho, .
Nome
O nome de nascimento de Hormisda era "Hormisda-Artaxer", que foi registrado na inscrição Feitos do Divino Sapor presente no Cubo de Zaratustra (262) como Hormisdartaxir (, Hōrmisdartaxir) em grego e Ormasde-Ardaquexir () em persa médio. As formas Hormisde (, Hormizd), Ormasde (Ōhrmazd), Hormosde / Ormosde ((H)ormozd), Ormusde (Ormuzd) ou Oramasde (Ohramazd) são as grafias persas médias do nome da divindade suprema no zoroastrismo, cujo nome avéstico era Aúra-Masda (, Ahura-Mazdāh). Foi registrado em persa antigo como Auramasda (Auramazdā), em latim como Hormisda, em grego como Hormisdas (, Ormísdas), Hormisdes (, Ormísdēs), Horomazes (, Ōromázēs) e Hormisdates (, Ormisdátēs), em armênio como Oramasde (, Oramazd) e Ormisde (, Ormizd), em georgiano como Urmisde (, Urmizd), em árabe como Hormuz () e Hurmusde (, Hurmuzd), em túrquico antigo como Ormiste (), em siríaco como Hurmisde (, hwrmyzd [Hūrmizd]) e em copta como Gormessade (, Gormēsad / Gōrmēsad). Por conseguinte, Artaxer (, Artaxḗr), Adeser (, Adesēr), Artaser (, Artasḗr), Artaxes (, Artáxēs), Artaxares (, Artaxárēs), Artasires (, Artaseírēs), Artaxas (, Artáxas) e Artaxias (, Artaxías) são as formas gregas do parta e persa médio Ardaquexir ou Artaquexir (, Ardaxšīr ou Artaxšīr) e do armênio Artaxir (, Artašir) e Artaxes (, Artašēs; surgido da forma não atestada *Artašas). Esses nomes derivam do persa antigo Artaquexaça (, Artaxšaçā) ou do iraniano antigo Artaquexira (*R̥ta-xš-ira-), que significa "cujo reinado é através da verdade (Axa)". Sua grafia em persa antigo também foi helenizada e latinizada como Artaxerxes (, Artaxérxēs).
Vida
Família
Hormisda nasceu em data incerta ao longo do e era o terceiro filho de . Segundo a tradição posterior preservada no Livro dos Feitos de Artaxer, Filho de Pabeco (), e seguida por Atabari, Balami e Ibne Alatir, a mãe de Hormisda era a filha do dinasta parta Mitraces, mas é provável que essa afirmação seja inverossímil. Hâmeza de Ispaã sugeriu que a mãe dele era Curdezade, cujo nome não é mencionado nos Feitos, o que seria esperado, haja vista Sapor I mencionar as mães dos dinastas mais relevantes, inclusive a sua. Por conta da grande incerteza em torno dessa identificação, alguns estudiosos optaram por omiti-la, enquanto outros tentativamente a associam com Cornanzém, que é citada na inscrição. Por fim, alguns estudiosos preferem assumir que a mãe de Hormisda era sua irmã Aduranaíde, que é mencionada nos Feitos com o título de rainha de rainhas (bānbishnān bānbishn). A base dessa hipótese é o título pelo qual ela é identificada, bem como o casamento , favorecido no zoroastrismo por razões religiosas entre parentes consanguíneos.
Hormisda tinha dois irmãos mais velhos, chamados Vararanes (o mais velho) e Sapor, e um mais novo, chamado Narses. Tinha também duas irmãs, Aduranaíde e Saburductace. Seu avô foi , o fundador do Império Sassânida, que suplantou o Império Arsácida ao derrotar e matar o último xainxá arsácida na Batalha de Hormusgã. Os Feitos mencionam o futuro xá pelo nome Hormisda-Artaxer, ao passo que as demais fontes mencionam-no apenas como Hormisda. A escolha desse nome duplo pode ter sido uma escolha deliberada, ou seja, fazia alusão ao deus Aúra-Masda, que nos relevos de investidura de Sapor I e seu pai Artaxer I entrega-lhes a coroa, bem como fazia alusão ao fundador do império, mantendo sua memória viva. É igualmente possível que o nome Artaxer, neste caso, se deva à semelhança física que Hormisda tinha com seu avô, como explicitado em fontes árabes tardias; de todo modo, quando ascendeu anos depois, aparentemente escolheu Hormisda como seu nome régio, e ficou mais conhecido por ele nas fontes. Os Feitos relatam que alguns dos filhos de Sapor I foram homenageados com templos de fogo construídos em seus nomes; eram eles: Aduranaíde (Cusrave-Adur-Anaide), Hormisda (Cusrave-Hormisde-Ardaxir), Sapor (Cusrave-Xapur) e Narses (Cusrave-Narse).
miniaturadaimagem|upright=1.05|Dracma de miniaturadaimagem|upright=1.05|Dinar de
Ascensão
Hormisda é citado pela primeira vez durante as guerras de Sapor I contra o Império Romano. Em 252, Sapor conquistou o Reino da Armênia ao expulsar o arsácida e nomeou seu filho Hormisda como "grão-xá dos armênios" (Wuzurg Šāh Arminān), um título prestigioso criado para aplacar os armênios. O historiador armênio Agatângelo, do , afirmou que este título só foi dado ao herdeiro do xainxá. Muitos historiadores modernos acreditam que Hormisda tenha participado na segunda expedição romana de Sapor I, que ocorreu nas províncias romanas da Síria, Cilícia e Capadócia, e que durou de 253 a 256. Isto é apoiado pelos relatórios das conquistas da Capadócia. Nos Feitos, o xainxá registro uma sucessão de cidades conquistas ao longo da guerra:
A informação disponível indica que foram ocupadas numa sucessão de campanhas, com Antioquia como objetivo final, e a ordem que aparecem pode indicar a rota. A julgar pelo provável caminho seguido pelas tropas de Sapor, as cidades capadócias listadas foram incluídas sob a forma de apêndice na inscrição, pois é mais plausível supor que foram conquistadas por Hormisda a partir da Armênia. A Capadócia não parece ter sido a única área em que Hormisda lutou: de acordo com a História Augusta, o rebelde romano Ciríades ajudou Sapor I e certo Odomastes na conquista de Antioquia. O nome Odomastes é uma transliteração incorreta de Hormisda e pode, portanto, sugerir que depois de saquear a Capadócia, Hormisda participou do cerco de Antioquia em 253. Os epítetos de Audaz (, al-Ǧarī) e Valente (, al-Baṭal) pelos quais ficou conhecido nas fontes árabes tardias podem refletir seus méritos nas campanhas de seu pai; segundo o iranólogo Werner Sundermann, ao menos uma fonte parta utiliza esses epítetos, o que pode implicar que já fosse conhecido por eles antes disso.
Reinado
miniaturadaimagem|uprightr=1.05|esquerda|Inscrição de Cartir em
Quando Sapor I estava em seu leito de morte, coroou Hormisda como o novo xainxá dos arianos, em maio de 270. Sua escolha como herdeiro gerou debate entre os historiadores, haja vista não ter sido o filho mais velho do xainxá morto. Nos Feitos, seu nome é registrado em duas listas diferentes. Na primeira, que menciona-o junto de seu título de grão-xá da Armênia, aparece em primeiro lugar, seguido de seus irmãos Sapor, ali descrito como xá de Mesena (mexanxá), e Narses, descrito como xá do Sacastão (sacanxá); nessa lista, Vararanes é omitido. Na segunda ocorrência, entretanto, aparece em terceiro lugar, seguido de Vararanes (descrito como xá do Guilão) e Sapor, e então Narses. Assume-se que a segunda listagem pretendia organizá-los por ordem de nascimento, ao passo que a primeira por precedência na seleção como sucessor. Nesse sentido, a menção, nessa ordem, dos irmãos Sapor e Narses indica que, em caso da morte de Hormisda, eles seriam selecionados como seus sucessores. Isso sugere que, ao menos nesse período, o princípio da primogenitura não era de primeira importância na escolha do príncipe herdeiro, sendo preferível a escolha pelos méritos pessoais do príncipe. Essa sugestão aparentemente é corroborada pela inscrição de Paiculi, produzida sob ordens de Narses, na qual se afirma que a razão pela qual ele entrou em conflito com seu sobrinho pelo trono se devia a sua maior dignidade para ocupar a posição; entretanto, diz Narses, se houvesse alguém mais digno que ele para governar, ele cederia o trono.
Pouco se sabe sobre o reinado de Hormisda. Supostamente deu ao sacerdote zoroastrista Cartir roupas que eram usadas pela classe alta, o boné e o cinto (culafe e camarbande) e o nomeou sacerdote principal (mobede). Tal como o seu pai, também concedeu ao profeta maniqueísta Maniqueu permissão para continuar a sua pregação. Não está claro por que Hormisda apoiou Cartir e Maniqueu, ambos representando uma religião diferente. O iranólogo Touraj Daryaee sugeriu que isso possivelmente fazia parte de sua tentativa de controlar ambas as religiões, que buscavam se tornar a principal religião do império. De acordo com o iranólogo Prods Oktor Skjaervo, Hormisda era como seus dois antecessores, um "zoroastrista morno". Geralmente recebeu o epíteto de nēw ou yaxī/yaxē (ambos significando "corajoso") em fontes maniqueístas do Médio Irã, possivelmente indicando suas realizações na guerra. Foi aparentemente sob Hormisda que os dois festivais de Ano Novo (Noruz) no mês de Faruardim foram unidos para criar um festival que durou seis dias. Em fontes primárias, é creditado como o fundador da cidade de Hormisda-Ardaxir (atual Avaz), no entanto, em alguns casos, Artaxer I também é atribuído como seu fundador. Historiadores modernos (citando As Capitais Provinciais do Irã) geralmente consideram-no como o verdadeiro fundador. Também fundou a cidade de Rã-Hormisda-Ardaxir (que significa "paz de Hormisda de Ardaxir"), abreviada como . Fundou novamente a cidade de Artemita como Dastaguirde, cuja residência real serviria mais tarde aos xainxás e . Hormisda não foi sucedido por seu filho , mas por seu irmão Vararanes (que ficou conhecido como ), que ascendeu ao trono com a ajuda de Cartir. De acordo com o folclore local, Hormisda foi enterrado em Rã-Hormisda.
Cunhagem e ideologia imperial
miniaturadaimagem|Dracma de Hormisda
Enquanto Artaxer I e Sapor I geralmente usavam o título de "xainxá [rei dos reis] dos (arianos)" em suas moedas, Hormisda teve o título ligeiramente modificado, adicionando a frase "e não arianos". Seu título completo era, portanto, "o divino Hormisda, adorador de Masda, xainxá dos arianos e não arianos, cuja imagem/brilho vem dos deuses" (Mazdēsn bay Ōhrmazd šāhān šāh Ērān ud Anērān kēčihr az yazdān). A frase "e não arianos" já havia sido usada nas inscrições de Sapor I, e em casos raros em suas cunhagens, mas foi regularizada pela primeira vez sob Hormisda. O título estendido demonstra a incorporação de novo território ao império, porém o que foi precisamente visto como "não ariano" (aneran) não é certo. O reverso da cunhagem de Hormisda retratava dois atendentes, um acréscimo que foi feito pela primeira vez por Sapor I, em cuja cunhagem ambos os atendentes são retratados usando coroas murais, enquanto desviam o olhar do templo do fogo entre eles. Eles provavelmente representavam o xainxá. Na cunhagem de Hormisda, os atendentes ficam de frente ao templo e usam coroas diferentes. A figura do lado esquerdo representa Hormisda, enquanto a figura da direita - dependendo da sua representação - representa as divindades iranianas Mitra ou Anaíta.
Ver também
Bibliografia
Categoria:Xás do Império Sassânida Categoria:Persas do século III Categoria:Filhos de Sapor I Categoria:Oficiais de Sapor I Categoria:Feitos do Divino Sapor Categoria:Reis sassânidas da Armênia