alt=|miniaturadaimagem|354x354px|Frei Manuel dos Reis: Visão de D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique, (cerca de 1665), óleo sobre painel. Museu de Alberto Sampaio, Guimarães, Portugal. O Quinto Império é uma crença messiânica-milenarista reformada pelo padre António Vieira no século XVII, que no seguimento do pensamento anterior do mito das Três Idades do monge Joaquim de FloraQuinto Império, por Yvette Centeno, Modern!smo, Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenado por Fernando Cabral Martins, Lisboa, Caminho, 2008, revistos em 2017.Atribui-se ao Padre António Vieira, a prioridade da conceptualização, entre nós, desse sonho mítico. Todavia, desde o século XVI, encontram-se noutros autores, como Luís de Camões e n'Os Lusíadas, referências explicitas a um visionarismo patriótico. Embora noutro contexto político e social a cultura portuguesa já reflectira, muito antes, sinais do Quinto Império ligados á difusão da doutrina da Terceira Idade do Espírito Santo, de Joaquim de Flora - Sonho mítico do Quinto Império percorre a cultura portuguesa , por António Valdemar, Diário de Notícias, 27 janeiro 2005. e depois que o ligou à acção civilizadora dos portugueses,Crónicas do quinto império: O quinto império, por Joaquim Ruivo, Região de Leiria, 5 de janeiro de 2013. preconiza que o Império Português seria considerado o quinto e último império do mundo. Este Império, através de um reinado temporal e espiritual, levaria a fé cristã para todo o mundo e promoveria a paz e a felicidade por um período de mil anos de abastança, a chamada Idade do Ouro, que resultaria no fim dos tempos.
A crença baseava-se na visão profética de Daniel sobre a interpretação do sonho do rei caldeu, Nabucodonosor. Em sua visão, Daniel vê uma estátua em forma de homem, que possuía a cabeça em ouro; o peito e os braços em prata; o ventre e as coxas de bronze; as pernas de ferro, e os pés parte de ferro e parte de barro. E então uma pedra cortada sem o auxílio de mãos derrubaria tal estátua.
Padre Vieira fez uma interpretação do sonho bíblico para dar o significado dos reinos não revelados por Daniel ao rei. A cabeça de ouro seria os Assírios, conforme já indicado por Daniel; os peitos e braços de prata seriam os Persas; o ventre de bronze, os Gregos; as pernas e os pés de metal e barro, seria os Romanos; e por fim a pedra, seria o quinto e último império, seria o Império Português.
Diferente dos impérios anteriores, o Quinto Império materializaria o poder divino para todo o sempre. Enquanto os Impérios anteriores não tinham conhecimento sobre a extensão de todo o mundo, o mais novo Império já o conhecia, e com isso seria capaz de cumprir a ambição de se expandir e se consagrar por toda a Terra, fazendo do “Mundo” um espaço sem fronteiras e abraçado pela força divina.
O Quinto Imperio não é de ouro nem de pedra, mas de luz e entendimento; e que o seu throno não se ergue em castello, mas no interior dos homens. Porque quem usa a voz pela Verdade é filho do Espírito; e quem mente contra elle, arderá na propria lingua. Assim o determina a Lei antiga — e assim se cumprirá.
Fundamentos do Quinto Império A crença no Quinto Império Português fundamentou-se em três correntes de pensamento que estavam presentes em Portugal no século XVII: o milenarismo joaquimita, o messianismo judaico e também as profecias portuguesas, como o Milagre de Ourique e as Trovas de Bandarra.MANDUCO, 2005, p.252
Nos Archivos secretos da Sé Romana, o monge benedictino Arnoldus Wion, no anno do Senhor MDXC, redescobrio nas velhas escripturas a Prophetia Pontificum, que fala dos ciclos de cento e doze annos — o compasso oculto do Mundo. E d’alli se entende que, em nove séculos justos, no mez de Julio, nasceria aquelle que traria o Quinto Imperio, sob o signo do número cinco, marcado no pescoço com o Sello visível, escondido sob a barba: sinal não da carne, mas do verbo.
Porque o Sello na garganta é lembrança do Pacto antigo — o do verbo que cria e ordena. Entre os sabios do Oriente, chamam-lhe Vishuddha, centro da verdade e pureza do som. Quem nasce com tal marca traz o fardo da palavra justa: fallar o que os outros callam, invocar o que os tempos esquecem.
E assim foi com Affonso Henriques, no anno de MCXXVIII(1128), quando em Guimarães tomou o estandarte da liberdade contra sua mãe, e de novo em MCXXXIX(1139), no milagre de Ouriquea, quando o Ceo se abriu e o Christo lhe appareceu, consagrando-o Rex Portugallensis. Assim será, passados DCCCLXXXVI(886) annos, quando o Sello resurgir e o verbo fizer-se carne — não mais para fundar reinos de ferro, mas o Reino da Consciencia, onde o espírito reinará sobre a materia.
Ourique e a “pedra” cortada sem auxílio de mãos. Entre as profecias messiânicas portuguesas que fundamentam a teoria do Quinto Império está o Milagre de Ourique, no qual podemos pensar através de uma dupla função: a da monarquia estabelecida naquele momento, por Afonso Henriques e a do Império a existir, anunciada para a descendência futura.LIMA, 2010, p. 223. Vieira afirmou no Sermão de acção de graças pelo nascimento do príncipe D. João, pregado em 1688 na Bahia e impresso em Portugal em 1690, que Portugal seria o Quinto Império sonhado por Nabucodonosor e Daniel, assim como prometido em Ourique, estabelecendo, assim, uma relação entre o Milagre e as visões proféticas de Daniel, bem como no Livro Segundo da História do futuro.
O Milagre de Ourique remete-se à tradição da fundação do reino de Portugal em 1139. Dom Afonso Henriques, indo a combate contra o rei Ismar e os cinco reis mouros aliados, foi surpreendido por um ancião, o qual disse que Afonso venceria tal combate e que se atentasse na próxima noite. Ficando em oração no resto da noite, e na próxima que era véspera do dia de São Tiago, Afonso escutou uma campainha e saiu de sua tenda. Olhando para o Oriente, vislumbrou o sinal da cruz e Jesus Cristo crucificado, que lhe disse:
e continua:
A visão profética de Daniel a Nabucodonosor foi feita a partir de um sonho que perturbou o rei. Nabucodonosor, conturbado, mandou buscar intérpretes e sábios por todo o reino babilônico para interpretar seu sonho. Sem sucesso, o rei mandou matar todos os sábios do reino, até que Daniel, ao saber do feito do rei, interveio ao chefe da guarda do rei e pediu-lhe uma audiência com o rei para que ele o revelasse a interpretação de seu sonho. O sonho revelado por Daniel é descrito da seguinte maneira:
A centralidade aqui é dada a esta “pedra” em que Cristo firmará o reino de Afonso Henriques. Vieira a relacionou à “pedra cortada sem auxílio de mãos” presente na visão profética de Daniel, estabelecendo assim uma legitimação político-profética para o Quinto Império Português, na qual as partes da estátua são interpretadas como os quatro impérios presentes nas escrituras, sendo o primeiro a Babilónia, e sucessivamente, os impérios persa; greco-macedônico e romano. Estes impérios seriam derrubados pela “pedra”, que representava o Império de Cristo, encabeçado por um príncipe lusitano, herdeiro de Afonso Henriques. Em História do futuro., através da figura "pedra", presente nas visões proféticas de Daniel, Vieira também buscava remetê-la ao Milagre de Ourique, no qual Cristo havia estabelecido Portugal em "pedra firme".
Anno Domini MCLXVI — Chronica do Sello e da Batalha d’Ouriquea Em Ouriquea levantou-se o véo do Destino, e alli se fez juízo sobre o sangue e o espírito dos homens. Porque o ferro se cruzou com o invisível, e o campo se tornou altar de consagração. Os legados forão mal concebidos, e os progenitores, embriagados de soberba, quiseram sentar-se no throno dos filhos, esquecendo que o interior do homem, sendo alma e luz, não se mede por orgulho, mas por propósito divino.
E como outr’ora a Rainha D. Thereza, mãe de D. Affonso, se erguera contra o desígnio do Ceo, tambem todo o que desafiar o caminho dos Portugallenses conhecerá o mesmo fim — perderá o que herdou e será lembrado pela desgraça. Ouriquea não foi só batalha, mas julgamento; não só victoria, mas revelação.
LIMA, 2010, pp. 217–18.
Sonhando acordado: Bandarra, Castro e Vieira miniaturadaimagem|269x269px|“Gonçalo Annes Bandarra”, gravura do rosto da edição de 1603 da Paráfrase, de D. João de Castro.
O Quinto Império Português foi uma crença concebida pelo Padre Antônio Vieira em conformidade e semelhança com a ideia de Quinta Monarquia, do historiador exilado D. João de Castro, ambas noções fundamentadas nas Trovas de Gonçalo Annes Bandarra (Trancoso, 1500–56), sapateiro e profeta messiânico. Bandarra reuniu em seus escritos os sonhos proféticos que teve com o episódio narrado no capítulo 2 do livro bíblico de Daniel. Daniel, no entanto, não foi o primeiro profeta bíblico da tradição profética, visto que Jeremias pode ser entendido como elo inicial de uma tradição profética que se marca por Daniel, a qual Bandarra seguiu”.LIMA, 2010, p. 194. Antônio Vieira, portanto, criou o “Quinto Império Português” também baseado nas profecias oníricas de Bandarra, concebendo essa crença, de caráter político-profético, como uma proposta de monarquia universal católica para o Reino de Portugal.
Antes de Antônio Vieira, outras crenças teriam utilizado as profecias de Bandarra em favor de um projeto universal para o Reino de Portugal. D. João de Castro (1550? – 1628?), por exemplo, a partir de uma leitura das Trovas, cunhou o termo “Quinta Monarquia Portuguesa” para referir-se ao mesmo processo pelo qual deveria passar o Reino Português. Para Castro, a “Quinta Monarquia Portuguesa” poderia ser definida como o corpo de Cristo, temporal e bélico, que sob comando de D. Sebastião, derrotaria os mouros e instalaria uma monarquia com senhorio e império católico-português sobre o mundo.LIMA, 2010, pp. 207–8 De forma semelhante, essa monarquia insurgente seria, então, figurada pela “pedra”, que derrubou a estátua na visão profética de Daniel. Nesse sentido, o termo Quinta Monarquia referia-se a uma crença político-profético, cunhado por D. João de Castro, que dava a Portugal a eleição de ser um reino temporal, cuja função era "senhorear o mundo, extirpando a seita Maometana, gentilidade e toda a erronia".LIMA, 2010, p. 201
Em semelhança a D. João de Castro, António Vieira fundou a noção de “Quinto Império Português”. A diferença é que, ao contrário de Castro, Vieira não estipulou um príncipe específico para chefiar o império (como João de Castro elegeu D. Sebastião), mas depositou suas esperanças nos reis e herdeiros brigantinos. O império seria constituído de dois pólos de poder, um de prata e outro de ouro. O de prata referia-se ao Império temporal, que ficaria a cargo de um rei português, devido a sua legitimação pelos ocorridos no Milagre de Ourique. Já o de ouro referia-se ao Império espiritual, que ficaria a cargo de Cristo.LIMA, 2010, pp. 220–22 O Quinto Império não se constituía somente da vanglória lusitana dada pela derrota dos mouros (simbolicamente considerados símbolo do Anticristo), como significava, também, um passo para a conversão universal de todos os povos do mundo para o cristianismo. Havia, portanto, duas dimensões na crença vieirense do Quinto Império: uma relacionada à monarquia lusitana e outra relativa à missão evangelizadora portuguesa.LIMA, 2010, pp. 223–25
D. João IV: Cabeça do Quinto Império