A Batalha de Curupaiti (em espanhol Curupayty) foi uma das grandes batalhas da Guerra do Paraguai, travada no dia 22 de setembro de 1866 no Forte de Curupaiti, às margens do rio Paraguai. É lembrada por ter sido a maior derrota da Tríplice Aliança em toda a guerra, cujo confronto envolveu cerca de 25 mil soldados, sendo 20 mil soldados aliados e por volta de 20 navios da Armada Imperial contra 5 mil paraguaios entrincheirados. Animados, os aliados vinham de uma importante vitória conquistada em Curuzu, quando o exército do general Manuel Marques de Sousa, Visconde de Porto Alegre, apoiados pelo forte bombardeio da marinha brasileira, sob o comando do almirante Tamandaré, investiram contra o forte entre os dias 1 e 3 de setembro com mais de 8 mil soldados, logrando êxito na expulsão e captura do mesmo. Porto Alegre decidiu não perseguir o inimigo, que havia atingido Curupaiti, alegando, dentre outros motivos, não conhecer o local.
Neste meio tempo, houve divergências entre o comandante das forças aliadas Bartolomé Mitre e comandantes brasileiros, ameaçando até mesmo o andamento da guerra, sobre como o ataque a Curupaiti deveria ser realizado. O plano de Mitre prevaleceu, sendo organizado para o dia 16. Porém, o presidente paraguaio Francisco Solano López solicitou um encontro para o dia 12, com os líderes aliados, para discutirem uma proposta de paz que beneficiariam ambos os lados. Os líderes brasileiro e uruguaio não participaram, restando apenas Mitre como representante. Não se chegou a nenhum acordo entre os envolvidos. No dia 16 choveu incessantemente, atrasando o ataque aliado em vários dias, uma vez que Tamandaré alegou que um bombardeio ao forte sob chuva seria ineficaz.
Por causa disso, o ataque foi adiado para o dia 22 de setembro, quando se iniciou pela fuzilaria da esquadra imperial. Durante cerca de cinco horas, os navios lançaram tiros e bombas sobre Curupaiti, conseguindo atingir alguns alvos secundários. Porém, o ataque naval foi considerado inútil, pois devido ao plano elevado do forte, os navios tiveram de ajustar o ângulo de tiro, fazendo com que os projéteis passassem por cima das posições defensivas do complexo. Dessa maneira, os canhões paraguaios permaneceram intactos. Sem saber disso, Tamandaré sinalizou para que o exército avançasse. Os 20 mil soldados aliados foram divididos em quatro colunas principais e uma central, ainda debatida por alguns autores se esta, de fato, existiu. Duas colunas eram brasileiras e estavam sob o comando de Porto Alegre, e estas atacariam o flanco direito do forte. As outras duas colunas, argentinas, sob a liderança de Mitre, avançariam pelo flanco esquerdo. Uma quinta coluna, destinada a avançar pelo centro, era supostamente formada por unidades uruguaias, mas há divergências se estas participaram ou não. Convencidos da vitória, os aliados marcharam trajando uniformes a rigor ao som dos clarinetes e toques das bandas de música.
Durante o avanço, as tropas foram surpreendidas pela violência inesperada dos canhões inimigos. As colunas tiveram grandes dificuldades para avançar pelas direções planejadas. Os brasileiros com muito esforço, conseguiram romper a primeira trincheira e foram apanhados de surpresa quando descobriram que havia uma segunda trincheira a ser vencida. Mitre, acreditando que os brasileiros haviam cruzado o fosso principal, ordenou um segundo avanço argentino, só para serem massacrados pelos paraguaios. Após algumas horas de combate, as colunas aliadas começaram a fugir do campo de batalha em desordem, com Mitre ratificando a retirada ao anoitecer. Ao final da batalha os aliados perderam cerca de quatro mil homens contra apenas 250 dos defensores. Essa derrota repercutiu de maneira negativa nos aliados, fazendo com que alguns deles optassem por negociar a paz com os paraguaios. O imperador D. Pedro II, porém, recusou qualquer proposta de paz com Solano López e decidiu por continuar a guerra, sendo seguido pelos outros dois países da Tríplice Aliança. Mesmo após a vitória, muitos paraguaios desertavam de suas posições, obrigando López a decretar uma lei que puniria os familiares daqueles que desertassem. Os aliados continuaram a atacar o forte nos meses seguintes.
Antecedentes
miniaturadaimagem|upright=1.0|O interior do Forte de Curuzu, por Cándido López Em meio a discussão sobre quem comandaria e quem se sujeitaria no alto comando aliado, confirmou-se, no dia 28 de agosto de 1866 em um conselho onde participaram o general Bartolomé Mitre, Presidente da Argentina e comandantes dos aliados, o general Manuel Marques de Sousa, Visconde de Porto Alegre, o general Polidoro Jordão, Visconde de Santa Teresa, e o almirante Tamandaré, a ação sobre Curupaiti, já decidida desde o dia 18 de agosto. A frota imperial bombardearia Curuzu e Curupaiti e desembarcaria as tropas do general Porto Alegre próximo aos fortes, de onde atacariam, pela retaguarda, o flanco direito das fortificações.
No dia 1º de setembro, às 07h30, a frota formada pelos couraçados Bahia, Brasil, Barroso, Lima Barros (capitânia de onde o chefe Elisiário Antônio dos Santos comandava o ataque), Rio de Janeiro e Tamandaré; canhoneira Magé e os navios a vapor de madeira Beberibe, Belmonte, Araguaia, Araguari, Ipiranga, Parnaíba, Ivaí e Greenhalgh, se aproximou da fortificação paraguaia de Curuzu, iniciando o bombardeio. Durante o dia, os navios trocaram tiros com os 12 canhões e 2800 espingardas do forte, causando danos mútuos. Os navios de madeira levaram 800 soldados para a margem do Chaco, para destruírem uma posição de onde os paraguaios faziam descer brulotes e torpedos em direção da esquadra. Somente com o anoitecer o duelo cessou, tendo o Rio de Janeiro sido atravessado por duas balas, matando 6 marinheiros.
No dia 2, o Rio de Janeiro enfrentou novamente o forte, mas foi atingido por dois torpedos, afundando logo em seguida e levando consigo 53 homens. A bordo dos navios da frota imperial, havia soldados, sob o comando de Porto Alegre, que foram desembarcados, às 15h00, em um terreno à uns quatro quilômetros de Curuzu, de onde avançaram até lá dando combate a seus defensores e fixando posições. Essa coluna se preparou para o ataque ao forte na manhã do dia seguinte.
No dia de 3 setembro, a frota iniciou um forte e prolongado bombardeio a Curuzu havendo, em seguida, o início do ataque terrestre das forças de Porto Alegre. Contra os aliados, estavam 13 canhões e, novamente, os 2,8 mil homens, sob o comando do coronel Jimenez. O terreno, por onde a coluna aliada avançaria, era formado por lagunas, espinheiros e pântanos. Contudo, apesar desta desvantagem, a coluna rumou com sucesso sobre os defensores do forte, pela direita e esquerda, sendo tomada de assalto e os paraguaios perseguidos até as proximidades de Curupaiti, caindo 832 deles. George Thompson, engenheiro britânico de Francisco Solano López, afirmou que os brasileiros avançaram “com bravura sob fogo contínuo da artilharia, marchando com água quase até o pescoço”.
Um grupo de soldados brasileiros, comandados pelo coronel Astrogildo Pereira, em perseguição dos soldados paraguaios, alcançou as baterias de Curupaiti, e constatou que seu flanco esquerdo não possuía trincheira e poderia ser facilmente tomado. Se Porto Alegre continuasse a perseguição com suas tropas e atacasse Curupaiti poderia destruir seu parapeito e jogar seus canhões no rio, o que poderia facilitar o ataque do dia 22 de setembro ou mesmo conseguir ocupá-la. Porém, Porto Alegre não atacou, alegando não conhecer as condições dessa posição, a natureza do terreno e a distância a ser percorrida. A imobilidade de Porto Alegre permitiu aos paraguaios se reagruparem, fortificando-se.
Proposta de paz
esquerda|miniaturadaimagem|upright=1.0|Encontro de Yatayti-Corá, entre Mitre e LópezPor Francisco Fortuny, 1865-1942
No dia 8 de setembro, reuniram-se Bartolomé Mitre, Polidoro Jordão e Venancio Flores, presidente e comandante uruguaio. Nesta reunião foi decidido que o ataque a Curupaiti ocorreria no dia 16 de setembro sob a vanguarda das tropas do general Manuel Marques de Sousa, Visconde de Porto Alegre, cavalaria de Flores, 20 mil soldados de Polidoro ficariam de prontidão em Tuiuti, e nove mil soldados argentinos de Mitre com 12 canhões. As tropas aliadas estavam animadas com a vitória em Curuzu e não perceberam que as posições defensivas de Curupaiti eram melhores, uma vez que López ordenara a construção de novas trincheiras, um considerável fosso ao redor destas e havia novas peças de artilharia.
Antes do início das operações, no dia 11 de setembro, o marechal Francisco Solano López enviou uma carta a Mitre solicitando um encontro com os representantes das forças aliadas em Yataytí-Corá para discutir uma proposta de paz. Polidoro foi convidado, mas recusou em respeito à ordem do governo imperial e de seus superiores militares de não negociar com o chefe de estado paraguaio. Flores se retirou logo no início da conferência, após ter discutido com López, por este tê-lo classificado como o responsável pela guerra. Tal situação comprometeu seriamente qualquer tentativa de paz.
Durante o encontro, Lopez argumentou com Mitre que só entrou na guerra contra o Império do Brasil por achar que este dominaria o Uruguai com a intenção de ameaçar os outros, e que não teria nada contra o povo argentino. Também disse que os argentinos deveriam deixá-los sós com os brasileiros, que seriam facilmente derrotados mesmo que duplicassem seus exércitos. Após 5 horas de reunião foi redigido, a mando de Lopez, um protocolo do encontro onde foi destacado que o líder paraguaio tinha por objetivo encontrar uma solução conciliatória e honrosa para ambos os lados. O documento informava que Mitre limitou-se a ouvir a proposta, que qualquer decisão seria tomada por seu governo e dos outros aliados, além de não oferecer condições de paz além das estabelecidas pelo Tratado de 1º de Maio. Alguns jornais, como o brasileiro Jornal do Commercio e o paraguaio El Semanario divulgaram na íntegra o documento. Neste encontro não foi acertado nenhum acordo para o fim d guerra, tendo as hostilidades sido retomadas.
Operações retomadas Após o encontro, foram programadas as ofensivas em Curupaiti para o dia 16 de setembro. Neste dia, porém, choveu incessantemente e assim perdurou por dias. Tamandaré argumentou que as fortes chuvas poderiam atrapalhar o bombardeio do forte. O terreno do acampamento aliado se transformou em um lodaçal. Além disso, as trilhas por onde os atacantes avançariam se apagaram. Neste meio tempo, o general Manuel Marques de Sousa, Visconde de Porto Alegre, por achar que seu poder havia sido minado pelo comandante argentino, teve desentendimentos com Bartolomé Mitre. Porto Alegre desejava que o ataque partisse de Tuiuti, onde as tropas de Polidoro Jordão estavam, por achar que de lá poderiam atingir o ponto mais fraco da fortificação. Tal informação era baseada no informe de um desertor paraguaio. Mitre manteve-se firme em continuar com o plano ofensivo original, recebendo apoio de Flores. O almirante Tamandaré e o próprio Porto Alegre acabaram por concordar com o plano.
Forte de Curupaiti miniaturadaimagem|upright=1.8|Trincheira de Curupaiti, por Cándido López Curupaiti era um conjunto de fortificações e trincheiras que estava cerca de 5,5 quilômetros ao sul da fortaleza de Humaitá, sendo parte deste complexo defensivo. Sua ala direita estava sobre o rio Paraguai, cuja margem estava forrada de vegetação fechada, encobrindo o terreno alagado, inviabilizando um desembarque das tropas aliadas. Havia 32 ou 35 canhões apontados para o rio, que poderiam causar grandes danos aos navios que tentassem ultrapassá-la para tentar um desembarque acima da fortificação. Além destes, havia outros 58 apontados para terra, incluindo o El Cristiano ("O Cristão"), um canhão de 12 toneladas construído a partir dos sinos de bronze das igrejas do Paraguai, daí o seu nome.