O Principado Episcopal de Trento foi um Estado eclesiástico (governado pelo bispo de Trento) que existiu por cerca de oito séculos (de 1027 a 1802), vinculado ao Sacro Império Romano-Germânico no Círculo Imperial Austríaco e posteriormente ao Império Austríaco. Localizava-se no território da atual região italiana do Trentino-Alto Ádige (Trentino-Südtirol), no antigo Condado Principesco do Tirol. No início do , a administração foi secularizada e reunida ao restante governo do condado do Tirol, do qual o território de Trento já fazia parte como entidade semi-autônoma desde 1363.
História Idade Média
O Principado Episcopal de Trento Em italiano Principato Vescovile di Trento, em alemão Trientner Fürstbistum</ref> criado em 1027 pelo imperador romano-germânico Conrado II, juntamente com o vizinho Principado Episcopal de Bressanone.<ref group=nota>Em italiano Principato Episcopale di Bressanone, em alemão Brixner Fürstbistum Conrado II decidiu investir bispos com o poder temporal para estabilizar a região que com frequência era palco de batalhas entre os diversos príncipes laicos do império, assim como para facilitar a passagem do exército imperial entre o norte da península Itálica e a Alemanha, ao longo de duas antigas estradas romanas da região, a Via Cláudia Augusta e a Cláudia Augusta Altinate. A maior parte da área compreendida nos dois novos estados fazia parte anteriormente da Marca de Verona.
Os dois príncipes-bispos eram autênticos príncipes do Sacro Império Romano-Germânico, sujeitos somente à autoridade do imperador e do papa, e membros da dieta imperial. O bispo de Trento (Fürstbischof von Trient; principe vescovile di Trento) estabeleceu uma sólida ligação com o imperador, enquanto era crescente a influência do condado do Tirol sobre toda aquela região alpina. A maior parte dos bispos de Trento e Bressanone (Brixen) era de origem alemã, pertencente a nobres famílias do Tirol, Suíça, Baviera (Bayern), Boêmia (Böhmen), Suábia (Schwaben).
O condado do Tirol (originalmente Tyrol), surgido na Val Venosta (Vinschgau), no Castelo Tirol,Em italiano Castel Tirolo, em alemão Schloss Tirol mantinha grande influência sobre a cidade de Bolzano (Bozen), Arco (Arch) e Innsbruck e ampliou durante a Idade Média seu domínio sobre as terras da Bassa Atesina (Tiroler Unterland), territórios então pertencentes à Arquidiocese de Trento. thumb|left|Frederico Vanga
O bispo Adelpreto / Adelbrecht (1156-1172), da família dos Hohenstaufen (a mesma do imperador Frederico I), havia tentado impor o próprio poder temporal sobre todo o território da diocese; foi assassinado em Arco, em 30 de setembro de 1172 supostamente a mando dos condes de Appiano (Eppan). A autoridade do príncipe-bispo foi porém reafirmada pelo imperador Frederico Barbarossa e por seu filho Henrique VII: os bispos foram de fato autorizados a emitir moedas e instituir novos impostos.
O principado foi reorganizado por Frederico Vanga / Friederich Wanger (1205-1218), uma das figuras históricas mais importantes da Igreja tridentina, parente do imperador Oto IV. Aliado do bispo de Bressanone (Brixen) e apoiado pela ordem religiosa dos Cavaleiros Teutônicos, a quem doou grande patrimônio, conseguiu limitar a influência e a força dos nobres leigos e reconquistou grande parte dos territórios perdidos no passado. A fim de definir definitivamente a autoridade do bispo sobre o território da região, ele reuniu numa coletânea chamada Codex Wangianus todos os documentos históricos que certificavam o poder episcopal, anotada na origem com o título de Libro di San Vigilio, uma das principais fontes para a historiografia do principado na Idade Média. Frederico foi um grande mecenas de artistas e arquitetos, manteve o comércio ao longo da via dos Alpes e investiu notáveis capitais na mineração de prata. O estatuto de mineração que outorgou em 19 de junho de 1209 é considerado o mais antigo documento oficial sobre extração mineral nos Alpes. Nesse período, a cidade de Trento foi fortificada com a construção de novas muralhas e teve início a construção da Catedral de Trento. Tomasi, Michele. "Federico Vanga e i suoi pari: Sulla cultura e la committenza di un principe dell’Impero". In: Collareta, Marco & Primerano, Domenica (eds.). Un Vescovo, la sua Cattedrale, il suo Tesoro: La committenza artistica di Federico Vanga (1207-1218). Catálogo de exposição. Museo Diocesano Tridentino, 2012-2013Varanini, Gian Maria. "Trento". In: Enciclopedia Federiciana. Treccani, 2005 Ademais, com a instalação de tiroleses de língua alemã em Primiero (Primör), Valsugana (Suganertal), nesse período surgiu aquela que é atualmente a maior comunidade germanófona trentina, a de Valle dei Mocheni (Fersental), embora documentos atestam que o uso do idioma alemão era muito mais difuso em boa parte do território trentino.
A morte de Vanga na Terra Santa durante uma cruzada parou as reformas. Em 1236, o imperador Frederico II depôs os bispos da região e suas insígnias de autoridade sobre uma vasta região em torno de Trento, anexada pela marca de Treviso: a administração do novo feudo foi confiada ao fiel companheiro Ezzelino da Romano de Verona.
No , os condes do Tirol ampliaram seus domínios por meio de acordos de união com os bispos. Uma vez que a igreja de Trento não poderia manter uma defesa militar própria der Pfaffe ist nicht wehrhaft = "o pastor não é munido de arma" e não poderia aplicar penas capitais,ecclesia non sitit sanguinem = "a Igreja não tem sede de sangue" coube aos condes tiroleses a defesa militar do território do condado e das dioceses de Trento e Bressanone.
Com o conde Mainardo II de Tirol-Gorizia, considerado o "criador" do Tirol, cresceu a influência política do condado tirolês nas dioceses de Coira, Salzburgo, Bressanone (Brixen) e Trento.
O poder temporal do bispo foi reafirmado em 1310, quando o papa Clemente V nomeou como chefe da igreja tridentina o abade Henrique de Metz (Heinrich von Metz), chanceler do rei da Germânia, Henrique VII de Luxemburgo: em 1338, assumiu a cátedra episcopal um outro chanceler, o boêmio Nicolau de Bruna, estreitamente ligado à dinastia real. Nicolau tentou limitar o poder dos nobres nas terras do episcopado, organizando um pequeno exército episcopal e oferecendo à diocese um novo brasão unitário, a "águia de São Venceslau" - padroeiro da Boêmia.
No curso da segunda metade do , durante a luta entre os imperadores rivais Carlos IV e Luís IV, o principado foi objeto de diversas devastações e foi temporariamente anexado ao território da Baviera, que procurava ampliar seu domínio na região tirolesa.
Neste período, o bispo Alberto de Ortenburg (Albert von Ortenburg) formou uma aliança exclusiva e perpétua com os poderosos condes de Tirol, já da família dos Habsburgo (futuros imperadores austríacos), mediante os tratados feitos pela condessa Margareth Maultasch em 1363 (que unia definitivamente o Tirol à Casa real da Áustria) e na reconfirmação do acordo de união do Tirol com a Áustria em 1365. Esses estabeleceram definitivamente uma espécie de confederação entre o Condado do Tirol e a Diocese Tridentina e o fim de uma política externa e militar para esta última.
Século XV e XVI
thumb|300px|left|A catedral de Trento
No início do século XV, o bispo tridentino Jorge I de Liechtenstein (Jörg I von Liechtenstein - 1390-1419) procurou diminuir a influência política do condado tirolês sobre sua diocese, mas reconhecendo a aliança e colocando-se diretamente sob a autoridade do imperador. Porém, neste período a morte do duque de Milão Gian Galeazzo Visconti em 1402 desencadeou instabilidade no norte da Itália, e tropas de Galeazzo de Mântua percorreram o principado em 1405. Uma preocupação mais séria veio da expansão da República de Veneza, obrigando ao reforço militar das fronteiras do sul. Neste contexto, em abril de 1407 ocorreu uma revolta de cidadãos de Trento contra o bispo, liderados por Negro de Nigris, reivindicado direitos e invocando a proteção do conde do Tirol. Entre as causas da rebelião estavam uma pesada carga fiscal imposta pela diocese aos camponeses, a ingerência oficiais estrangeiros e negação de direitos. Os revoltosos exigiam a criação de um conselho cívico com poderes administrativos e de fiscalização do vigário episcopal, e a instalação de um referendário dotado de funções militares. Rodolfo Belenzani foi eleito capitão do povo. Essas medidas visavam criar uma administração cívica independente da jurisdição dos bispos e vinculada diretamente aos condes do Tirol.
Em 16 de abril, chamado pelos cidadãos trentinos, Frederico IV, conde do Tirol, tomou posse da cidade de Trento. O bispo foi preso e membros de seu séquito, assassinados. Frederico IV concedeu aos revoltosos o que eles pediam e ampliou a jurisdição do conselho para todo o principado. O bispo teve de renunciar ao poder temporal. Contudo, Belenzani acabou rompendo com Frederico IV, teve de fugir e os direitos cívicos há pouco concedidos foram cancelados. O estado de guerra continuou ao longo de 1408. Em 1409 Belenzani reconquistou Trento, mas em julho Henrique de Rottenburg, capitão de Frederico IV, entrou na cidade com suas tropas, e Belenzani foi morto.Curzel, Emanuele. I canonici e il Capitolo della cattedrale di Trento dal XII al XV secolo. Istituto di Scienze Religiose in Trento, 2001, pp. 180-189 Os revoltosos esperavam obter o apoio militar da República de Veneza, mas o apoio não veio, e foram derrotados em 5 de julho de 1409. Em dezembro o bispo foi reinstalado, mas no ano seguinte foi despojado de seus direitos novamente e acabou se refugiando no castelo de sua família.
Com a morte de Jorge I de Liechtenstein, a cátedra episcopal foi confiada ao sobrinho do rei da Polônia, Alexandre da Mazóvia (1423-1444]). Patrocinador de uma política de reforço do poder episcopal, o bispo buscou aproximar-se da República de Veneza e do Ducado de Milão. O despotismo do bispo polonês provocou uma outra revolta sanguinária com a intervenção das tropas tirolesas (1435). Com sua morte, previamente alçado a cardeal, a administração do principado caiu num cisma interno: o capítulo da catedral e o Império nomearam um bispo que operava ao norte da diocese, enquanto o papa Eugênio IV e Veneza apoiaram um ex-abade que governava o sul do episcopado.
Em junho de 1511, Trento e Bressanone afirmaram um acordo com o qual os dois principados tornavam-se perpetuamente confederados com o Condado de Tirol. O Tirol era, portanto, um condado unido a duas dioceses, formando a Confoederatio Tyrolensis. Durante a vitoriosa guerra contra Veneza, em 1519, o território trentino foi invadido por lanceiros de retorno de uma expedição fracassada contra Vicenza. Na cidade e no campo houve diversos episódios de peste (1510 e 1512), carestia (1512, 1519-1520) e um terremoto em 1521: estes episódios trágicos marcaram o início de uma forma de resistência ao poder dos bispos e dos nobres.
Uma revolta armada foi organizada em 1525, a revolução camponesa ou guerra rústica. Os rebeldes eram guiados por Michael Gaysmair (1490-1532), que inspirado nas ideias protestantes advindas dos reinos alemães, procurou estabelecer a instituição de uma "república" camponesa no Tirol, com nacionalização das terras e dos minérios (tirando seu controle dos bispos e nobres) e abolição do poderio excessivo da nobreza dos bispos. Gaysmair aliou-se a Veneza, o que foi considerado um ato de traição pelos tiroleses. Os revoltosos careciam de organização e foram facilmente derrotados na batalha do Valle Isarco e de Vipiteno pelas tropas tirolesas e austríacas, com o apoio do bispo trentino Bernardo Clesio. O próprio Gaysmair foi morto por um sicário do arquiduque Fernando, em Pádua, em 1532. Um milhar de rebeldes tiroleses se refugiaram na Morávia, próximo a Auspitz, onde organizaram "as fábricas fraternas" (Bruderhöfe). thumb|O bispo Bernardo Clesio