O crioulo da Guiné-Bissau (em crioulo: kriyol, AFI: [kriˈjol]), também conhecido como crioulo bissau-guineense ou guineense, é uma língua crioula de base portuguesa falada principalmente na Guiné-Bissau, em comunidades migrantes no Gâmbia e no sul do Senegal, na cidade de Ziguinchor, onde é conhecido como crioulo de Casamansa. Constitui a língua franca da Guiné-Bissau, sendo utilizada por cerca de 60% da população como meio principal de comunicação. Em 2009, estimava-se que aproximadamente 70% das pessoas o utilizavam como primeira ou segunda língua no país, enquanto apenas 15% na zona rural e 46% na zona urbana falava o português.

A língua pertence ao grupo dos Crioulos da Alta-Guiné, juntamente com o crioulo de Casamansa (considerado dialeto do crioulo da Guiné-Bissau) e crioulo de Cabo Verde. Seu nome nativo é geralmente registrado como kriol ou kriyol, podendo também aparecer como ginensi ou guinensi, já que não há uma ortografia fixa. Seu vocabulário deriva majoritariamente do português, mas também apresenta grandes influências estruturais do wolof e do mandinka, bem como, em menor nível, de fula, biafada, nyun, mankanya, balanta, diola e pepel.

Há três principais variedades dialetais: Bissau–Bolama, Bafatá e Cacheu–Ziguinchor, esta última falada também na região senegalesa da Casamansa e marcada por influência adicional do francês. Dessas variedades, o Bissau-Bolama é o mais influente no país, por ser a variedade da capital (Bissau). Apesar de amplamente falado, a língua ainda não possui estatuto oficial. Entretanto, já houveram projetos de elevá-la à língua oficial da Guiné-Bissau (junto ao português).

O guineense utiliza o alfabeto latino, mas não apresenta uma ortografia única padronizada, apesar de propostas existentes desde a década de 1980. Do ponto de vista linguístico, mantém a ordem básica Sujeito-Verbo-Objeto (SVO) e apresenta características fonológicas e morfológicas próprias, como a tendência de correspondência de /e/ e /o/ do português para /i/ e /u/ em guineense. Além disso, seus verbos são classificados em dinâmicos ou estativos, tendo cada um desses seus próprios modos de indicar os tempos verbais. Etimologia

O nome crioulo da Guiné-Bissau é um exônimo em língua portuguesa, formado a partir do substantivo crioulo, usado historicamente para designar línguas surgidas em contextos coloniais de contato entre povos europeus e africanos, e do topônimo Guiné-Bissau, país onde a língua é majoritariamente falada.

Entre os endônimos, os falantes nativos utilizam principalmente as formas kriol (ou kriyol), que representam adaptações do termo, em português, “crioulo” ao sistema da própria língua. Outro endônimo registrado é ginensi (ou guinensi), termo que significa literalmente “guineense”, formado a partir do topônimo Guiné, mais o sufixo de gentílico da língua.

Distribuição

O guineense é falado principalmente na Guiné-Bissau, onde funciona como língua franca nacional, e no sul do Senegal, sobretudo na região da Casamansa (Ziguinchor). Também é utilizado por comunidades migrantes na Gâmbia e por membros da diáspora guineense em países europeus, especialmente Portugal, França e Espanha. Na Guiné-Bissau, a língua está presente tanto em áreas urbanas quanto rurais, sendo o meio de comunicação comum entre as diferentes etnias do país, que apresentam diferentes línguas entre si. As estimativas indicam mais de 800 mil usuários do guineense na Guiné-Bissau entre falantes nativos e de segunda língua, além de cerca de 47 mil falantes nativos no Senegal

Dialetos

Atualmente, o guineense apresenta três variantes dialetais, sendo eles: Bissau-Bolama, Batafá e Cacheu-Ziguinchor. Hoje, a primeira é a mais difundida na Guiné-Bissau, já que é a variante da capital (Bissau). Já no Senegal, a variante mais difundida é a Cacheu-Ziguinchor, também conhecida como crioulo de Casamansa, que tem influência do francês.

Línguas relacionadas

O guineense é uma língua crioula de base portuguesa pertencente à família dos crioulos da Alta Guiné. Essas línguas foram derivadas do Protocrioulo Potuguês da Alta Guiné (Proto-UGPC) que se desenvolveu desde a colonização portuguesa na região. O crioulo da Guiné-bissau e de Casamansa são continentais, enquanto o crioulo cabo-verdiano e seus dialetos são falados nas ilhas de Cabo-Verde. Há também o papiamento, que é um crioulo de base portuguesa-espanhola, falado atualmente na região do Caribe, mas que a maioria dos linguistas acreditam que se originou na Alta Guiné, devido suas semelhanças ao guineense.

Tendo isso em vista, abaixo segue uma tabela que compara vocabulários entre alguns desses crioulos: Comparação entre alguns crioulos da Alta Guiné Português Crioulo da Guiné-Bissau Papiamento Crioulo de Cabo VerdeBom Dia Bon dia Bon dia Bon diaObrigado Obrigadu Danki ObrigaduComo vai? Kuma ku bu ta bai? Con ta bai? Módi ki bu sa ta bai?Muito bom I bon dimás Hopi bon Sabi dimásEu estou bem N' sta diritu Mi ta bon N sta dretuEu, Eu Sou Ami, ami i Mi, Mi ta (A)Mi, Mi eTenha um bom dia Pasa un bon dia Pasa un bon dia Pasa un bon diaVejo você depois, Até logo N' ta odja dipus Te aworo N ta odjâ-u dipôsComida Bianda; Kumida Cuminda KumidaPão Pon Pan PonSuco, Refresco, Sumo Sumu Refresco Sumu

História

História da língua

Ainda não há consenso sobre a formação inicial do guineense. Parte dos linguístas defende uma origem continental, associada diretamente ao contato entre portugueses e populações africanas no litoral da atual Guiné-Bissau outras propostas apontam para uma origem insular, ocorrida na ilha de Cabo Verde, sendo essa proposta mais aceita. De acordo com essa segunda hipótese, um protocrioulo de base portuguesa da Alta Guiné (Proto-UGPC) teria surgido entre o final do século XV e o início do século XVI em Santiago (Cabo-Verde), sendo posteriormente levado ao continente por cabo-verdianos que se estabeleceram na região de Cacheu no final do século XVI. Isso teria produzido um “efeito fundador”, responsável pela difusão da língua, a partir da qual se desenvolveriam as variedades atuais.

O contexto desse processo foi marcado pelo contato intenso entre navegadores portugueses e povos africanos falantes de diversas línguas. O primeiro europeu a alcançar a costa da região foi o navegador português Nuno Tristão, em 1446. A partir daí, foram criadas feitorias e, mais tarde, povoações permanentes, como Cacheu, que se tornaram centros de comércio. Antes da presença europeia, grande parte do território integrava o Reino de Gabu, ligado ao Império do Mali, e era habitada por grupos como balantas, fulas e mandingas, cujas línguas exerceram influência estrutural no crioulo formado.

Durante séculos serviu como a principal língua de comunicação cotidiana entre grupos étnicos distintos, enquanto o português permanecia restrito à administração colonial, à Igreja e a uma pequena elite letrada. Ao longo do tempo, o guineense expandiu-se geograficamente, alcançando áreas como Bissau, Geba e Ziguinchor, e desenvolvendo variedades regionais.

História da documentação

A presença do guineense em registros escritos é recente quando comparada à longa tradição oral da língua. Durante séculos, o guineense foi transmitido predominantemente por meio da oralidade, em narrativas, canções, provérbios e performances culturais, enquanto o português ocupava o espaço quase exclusivo da escrita formal. Apenas no século XX começaram a surgir, textos literários e registros que incorporam o guineense como meio de expressão.

Os primeiros textos de autoria guineense que incluem o guineense passaram a aparecer com maior visibilidade entre as décadas de 1920 e 1930, frequentemente em publicações com forte inspiração na paisagem, na vida cotidiana e na experiência colonial. Um marco inicial é o conto “Amor e trabalho”, de James Pinto Bull, publicado em 1952 no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, frequentemente citado como um dos primeiros contos guineenses a registrar o uso literário da língua.

Em relação a prosa, o romance Eterna Paixão (1994), de Abdulai Silla, é considerado um marco na literatura guineense contemporânea, sendo amplamente reconhecido como o primeiro romance publicado por um autor da Guiné-Bissau. Apesar disso, a obra foi escrita em português.

A poesia em crioulo também ganhou espaço a partir da década de 1990. Um exemplo importante é o livro "Kebur – Barkafon di poesia na kriol", publicado em 1996 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP). Desde então, observa-se a ampliação de produções literárias, bem como o surgimento de registros em áudio, vídeo e meios digitais, incluindo músicas, programas de rádio, redes sociais e plataformas online, que contribuem para a documentação e circulação da língua.

Fonologia Consoantes O sistema consonantal do guineense apresenta um inventário relativamente estável, composto por fonemas que, em grande parte, correspondem a consoantes também presentes no português, língua que fornece a maior parcela do léxico do idioma. Ao mesmo tempo, o sistema reflete influências de línguas africanas da região, tanto em aspectos fonéticos quanto fonológicos. A seguir, apresenta-se a tabela de consoantes do guineense, organizada segundo o Alfabeto Fonético Internacional (AFI).

Vogais

O sistema vocálico do guineense tem sido objeto de debate na linguística, especialmente no que se refere ao número e ao estatuto fonológico das vogais médias. Há consenso quanto à existência das vogais altas /i, u/ e da vogal baixa /a/, enquanto divergências permanecem acerca da distinção entre vogais médias-altas e médias-baixas. Alguns estudos propõem a presença de apenas um grau de abertura para as vogais médias, enquanto outros defendem a oposição fonológica entre /e, o/ e /ɛ, ɔ/. Diante dessa variação de análises, adota-se aqui a descrição mais abrangente, conforme apresentado na tabela a seguir.

Ortografia

A ortografia do guineense utiliza o alfabeto latino, e ocorre da esquerda para a direita, e, em geral, cada grafema corresponde a um fonema específico, ainda que haja algumas variações. A tabela a seguir apresenta os grafemas do guineense, seus respectivos fonemas no Alfabeto Fonético Internacional (AFI), exemplos em guineense e aproximações em português brasileiro quando possível, se não, as aproximações se fazem em inglês.

+Ortografia do guineense GrafemaFonema (AFI)Exemplo (guineense)Aproximação (pt/en)ppapepaibbatatabatatattiutatuddanadadokkusacoisaggéragatommamémãennóbunovonhnhanhoquen’N'singer (en)ffatufatovviviviversséku secozizamiexamexxa chájbéju beijotxtxubatchaudjdjudabadge (en)llibrulivrolhbilhalhamarremacarowwaga wine (en)yyaguyes (en)imisamissaeseraceraésérapéakala calaróbótabotaobota botarupuspustudo

Gramática Artigos O guineense não apresenta distinção de artigos definidos e indefinidos como há no do português. Em línguas como o inglês e o português a distinção entre artigos definidos e indefinidos é relacionada com a introdução de informações novas e a introdução de informações já pressupostas. Em guineense, por sua vez, substantivos aparecem sem qualquer determinante, caso sejam uma informação pressuposta (o que em português requereria um artigo definido). Já se forem uma informação nova, faz-se necessário, como no português, o uso do artigo indefinido. Seguem os exemplos abaixo:

N' kumpra libru (1SG.PPe comprar livro) - Eu comprei o livro N' kumpra un libru (1SG.PPe comprar INDF livro) - Eu comprei um livro

Nota-se que não há flexão de número nem gênero, sendo guineense a única partícula responsável pelo artigo indefinido. Entretanto, na maioria dos casos essa partícula não é usada, mesmo para informações novas, sendo o contexto o principal indicador de substantivos definidos ou indefinidos. Ex:

N' kumpra libru (1SG.PPe comprar livro) - Eu comprei o/os/um/uns livro(s) Nesse caso, como não há contexto, não é possível para determinar propriamente a definição ou indefinição do substantivo.

Pronomes Pronomes pessoais