Joan Fontaine, nome artístico de Joan de Beauvoir de Havilland (Tóquio, — Carmel Highlands, ), foi uma atriz britânico-estadunidense, nascida no Japão. Foi a única intérprete que conseguiu levar um Oscar de atuação - melhor atriz principal - por um filme do diretor Alfred Hitchcock, o chamado mestre do suspense, que a dirigiu em Rebecca (1940) e Suspicion (1941), tendo sido este último o que lhe rendeu o prêmio.Oito famílias que colecionam estatuetas do Oscar na estante Portal BOL

Filha mais nova da também atriz Lillian Fontaine, sua irmã mais velha, Olivia de Havilland, tornou-se, tal como a própria Joan se tornaria logo em seguida, uma das mais admiradas estrelas do cinema - ambas são, até os dias de hoje, as únicas irmãs a vencerem um Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas nas categorias de atuação. Em 1999, foi nomeada umas das 500 mais importantes estrelas do cinema americano segundo o American Film Institute.

Por sua contribuição à indústria do cinema, Fontaine possui uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, localizada no número 1645 da Vine Street. Em 26 de maio de 1942 ela deixou o seu autógrafo e a marca de suas mãos e de seus pés na Calçada da Fama, em frente ao Grauman's Chinese Theatre.

Contexto familiar e primeiros anos de vida

Batizada como Joan de Beauvoir de Havilland, tendo nascido a 22 de outubro de 1917, em Tóquio, no Japão, seus pais eram naturais do Reino Unido. Seu pai, Walter Augustus de Havilland (31 de agosto de 1872 - 23 de maio de 1968), era filho do Reverendo Charles Richard de Havilland, que viera de uma família de Guernsey, nas Ilhas do Canal. Walter graduou-se na Universidade de Cambridge e trabalhou como professor de inglês da Universidade Imperial de Tóquio, antes de se tornar um advogado de patentes com prática no Japão. A mãe de Joan, Lilian Augusta de Havilland (nascida Lilian Augusta Ruse; 11 de junho de 1886 - 20 de fevereiro de 1975), estudou na Academia Real de Artes Dramáticas, em Londres, e se tornou atriz de teatro, deixando a carreira após ir para Tóquio com o marido. Sua mãe voltaria a trabalhar com o nome artístico de Lillian Fontaine na década de 1940. direita|thumb|upright|Olivia de Havilland (1916-2020), irmã mais velha de Joan Fontaine, em foto de 1938. Sua irmã mais velha, Olivia Mary de Havilland (1 de julho de 1916 - 26 de julho de 2020), foi quem primeiro seguiu os passos da mãe ao escolher a profissão de atriz; Fontaine e de Havilland são, até hoje, as únicas atrizes a serem irmãs a terem vencido o Oscar de melhor atriz.

thumb|upright|left|Sir Geoffrey de Havilland (1882 - 1965), pioneiro da aviação britânica, era primo de Joan Fontaine. Fontaine era prima de Sir Geoffrey de Havilland (27 de julho de 1882 – 21 de maio de 1965), que era filho de um meio-irmão de seu pai. Geoffrey foi pioneiro da aviação britânica e projetista de aeronaves, tendo sido responsável pela criação do avião De Havilland Mosquito, e também fundador da empresa de aviões que levava seu nome.

Sua mãe saíra da Inglaterra para o Japão a fim de visitar um irmão que trabalhava como professor na Universidade de Tóquio; foi quando acabou conhecendo seu pai, então professor na Universidade, com quem se casou em 1914. Mas essa não foi uma feliz união, devido às infidelidades de Walter. Em fevereiro de 1919, Lilian convenceu o marido a levar a família de volta à Inglaterra, pois lá encontrariam um clima mais adequado para a saúde das filhas. A família parou na Califórnia, nos Estados Unidos, para tratar Olivia, com saúde fragilizada devido à uma bronquite. Quando Joan contraiu pneumonia, Lilian decidiu permanecer com as filhas na Califórnia, onde se estabeleceram na cidade de Saratoga, a cerca de 80 km ao sul de San Francisco. Seu pai abandonou a família e voltou para a amante japonesa, que se tornaria a segunda esposa dele. O divórcio de seus pais não foi finalizado até fevereiro de 1925.

direita|thumb|200px|Joan Fontaine (sentada no chão) com sua mãe, Lillian Fontaine, e irmã, Olivia de Havilland (na cadeira), circa 1922. Embora tivesse abandonado a carreira de atriz, Lilian ensinava as filhas a apreciarem as artes, sempre lendo Shakespeare para as crianças (o próprio nome de Olivia fora escolhido por causa da personagem Lady Olivia, da peça Noite de reis, de Shakespeare), e também ensinando-lhes música e declamação. Em abril de 1925, depois de o divórcio com Walter ter sido finalizado, Lilian casou-se novamente, desta vez com um proprietário de uma loja de departamentos chamado George Milan Fontaine, um homem severo e detestado por ambas as garotas. O sobrenome deste, que fora adotado por Lilian em razão de seu segundo casamento, seria usado por Joan quando, ao virar atriz, decidira criar um nome artístico. A infância de Joan e Olivia seria marcada por desentendimentos entre ambas, desentendimentos estes que por sua vez gerariam uma rivalidade entre as irmãs que se estenderia ao longo de suas vidas.

Joan e Olivia estudaram na Los Gatos High School e na Notre Dame Convent Roman Catholic Girls School em Belmont, Califórnia.

Aos 15 anos ela voltou ao Japão onde viveu com seu pai durante dois anos. Quando voltou aos Estados Unidos, seguiu os passos de sua irmã e começou a aparecer em filmes.

Carreira

Início em Hollywood Ao voltar para os Estados Unidos em setembro de 1934, foi apresentada à atriz May Robson, iniciando a seguir sua carreira com a peça "Kind Lady" e, logo depois, com sua participação em "Call it a Day". Foi durante uma das apresentações dessa peça no Duffy Theatre, em Hollywood, que ela foi vista pelo produtor Jesse Lasky, resultando num contrato para filmes com a RKO Pictures. Sua estreia no cinema ocorreu com uma pequena participação no filme Adeus, senhoras ("No More Ladies", 1935), estrelado por Joan Crawford. Mais tarde ela apareceria na Broadway em "Forty Carats".

Também foi selecionada para aparecer no primeiro filme de Fred Astaire sem Ginger Rogers pela RKO: Cativa e cativante ("A Damsel in Distress", 1937), mas o filme foi um fracasso.

Continuou aparecendo em pequenos papéis numa dúzia de filmes, mas não conseguiu deixar uma forte impressão, e seu contrato não foi renovado quando terminou, em 1939.

Estrelato Em uma noite de uma festa na casa de Charlie Chaplin, onde jantava sentada ao lado do produtor David O. Selznick, responsável por E o vento levou, que havia se tornado a maior bilheteria da história do cinema (a própria Joan esteve cogitada para integrar o elenco do filme, mas sua irmã, Olivia de Havilland, foi quem ficou com o papel), ela e Selznick começaram a discutir sobre a novela Rebecca, de Daphne du Maurier, e ele a convidou para fazer um teste para a versão cinematográfica do romance, que no Brasil recebeu o título de Rebecca, a mulher inesquecível. O filme marcou a estreia americana do diretor inglês Alfred Hitchcock. Fontaine enfrentou uma cansativa série de testes para o filme durante 6 meses, junto a centenas de outras atrizes, entre elas Vivien Leigh e Anne Baxter, antes de finalmente ser escolhida para o papel. Em 1940, o filme foi lançado com críticas brilhantes, e, por sua performance, Fontaine foi indicada ao Oscar de melhor atriz, embora não tenha vencido (Ginger Rogers que levou o prêmio naquele ano pela atuação no filme Kitty Foyle).

thumb|upright|esquerda|Joan Fontaine e Alfred Hitchcock em 1963 Depois de Rebecca, Fontaine voltou a ser dirigida por Hitchcock no filme Suspeita (1941). Ela tornou-se, junto com Madeleine Carroll, Ingrid Bergman, Grace Kelly, Vera Miles e Tippi Hedren, uma destas únicas que estrelaram mais de um filme do diretor.

thumb|upright|Joan Fontaine e Gary Cooper na noite em que foram premiados, respectivamente, com o Oscar de Melhor atriz e Melhor ator, em 1942. Pelo desempenho em Suspeita, a atriz foi novamente indicada para o Oscar de melhor atriz, e o ganhou; ela estava concorrendo com sua irmã, indicada pela atuação em "Hold Back the Dawn" (A porta de ouro, no Brasil). O crítico brasileiro de cinema Rubens Ewald Filho avalia a situação da seguinte forma: "Joan Fontaine foi premiada com o Oscar por sua atuação em Suspeita, mas foi uma espécie de prêmio de consolação por ela não ter levado a estatueta pelo papel em Rebecca, do mesmo Alfred Hitchcock, que a tinha transformado em estrela. […] Mas ela realmente funciona em papéis de vítima, como a mulher apaixonada, frágil e desorientada que não sabe como lidar com a suspeita de que o marido (Cary Grant) seja um assassino […]". Fontaine tornou-se o único intérprete a ganhar um Oscar de atuação por um filme dirigido por Alfred Hitchcock. Em 1961, Janet Leigh, num filme de Hitchcock, seria indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante pela atuação no filme Psycho (1960), mas não o ganharia.

Fontaine e de Havilland são, até os dias de hoje, as únicas atrizes a serem irmãs que foram premiadas com o Oscar. Somente em 1966 outras duas irmãs voltariam a ser indicadas ao mesmo prêmio, na mesma categoria: Vanessa Redgrave e Lynn Redgrave. Vanessa conseguiu arrebatar uma estatueta anos mais tarde, como Melhor Atriz Coadjuvante; Lynn, no entanto, nunca chegou a ganhar o prêmio.

Ao longo da década de 1940 Joan Fontaine continuou a fazer sucesso, destacando-se sobretudo em dramas e romances. Entre seus trabalhos memoráveis durante este tempo também estão De amor também se morre ("The Constant Nymph", 1943), pelo qual recebeu sua terceira e última indicação ao Oscar), Jane Eyre (Idem, 1944), Ivy, a história de uma mulher ("Ivy", 1947), e Carta de uma desconhecida ("Letter from an Unknown Woman", 1948), tendo este último sido em 1992 selecionado para preservação no National Film Registry pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos como sendo "culturalmente, historicamente, ou esteticamente significante".

No cinema, a atriz contracenou com sua mãe, Lillian Fontaine, em duas ocasiões: em 1947, no filme Ivy, a história de uma mulher, e em 1953, em "The Bigamist" (intitulado O bígamo, no Brasil).

Após 1950 thumb|Fontaine ao lado do estilista franco-americano Oleg Cassini e da atriz americana Joan Crawford em 1962. Em meados dos anos 50, quando seu sucesso no cinema diminuiu um pouco, ela passou a dar mais vez ao teatro e também se voltou para a televisão, onde participou de inúmeros episódios de séries de sucesso. Em 1954, atuou na Broadway, ao lado de Anthony Perkins, na peça Chá e Simpatia, que foi um sucesso e lhe rendeu vários elogios.

Em 1956, ela apareceu com Eduard Franz na antológica série da NBC "The Joseph Cotten Show". Ela apareceu como ela mesma, em 1957, no sitcom da CBS "Mr. Adams and Eve", estrelado por Howard Duff e Ida Lupino.

Nos anos 60, continuou a fazer sucesso na Broadway com diversas peças, entre as quais "Dial M for Murder", "Private Lives", "Cactus Flower" e uma produção austríaca de "The Lion in Winter". Nessa mesma década, começou a investir em frutas cítricas, fazendas de gado, petróleo e imóveis. Ela se tornou presidente da Oakhurst Enterprises, uma Corporação da Califórnia formada para gerir suas diversas empresas. Tirou brevê de piloto, foi campeã de balonismo, fez decoração de interiores como profissional, ganhou prêmio em torneio de pesca e ainda ganhou um título de Cordon Bleu em culinária.

Fontaine fez uma participação na ABC no sitcom "The Bing Crosby Show", na temporada 1964 - 1965. Seu último trabalho no cinema foi no filme Bruxa - a face do demônio ("The Witches", 1966), que também co-produziu. Ela passou a aparecer na TV durante os anos subsequentes, até 1994.

Em 1980, foi nomeada para um Emmy pela atuação na série "Ryan's Hope".

Sua última atuação se deu no filme para a TV O bom Rei Venceslau ("Good King Wenceslas", 1994).

Vida privada