thumb|upright|São Francisco Xavier convertendo os
Cristianização é o processo de conversão de indivíduos ao cristianismo. O termo pode descrever um fenômeno histórico, que provocou a conversão em massa de povos inteiros, incluindo a prática de converter práticas e culturas pagãs, além das imagens religiosas, locais de culto e calendários pagãos, para os usos cristãos, devido aos esforços dos fiéis desta religião no proselitismo cristão, baseados na tradição da Grande Comissão ().
O processo de cristianização foi, por vezes, relativamente pacífico, enquanto por outras foi muito violento, variando desde conversões políticas até campanhas militares que converteram à força povos nativos.
Na Antiguidade Clássica, a cristianização ocorreu apenas parcialmente, através de leis contra práticas religiosas indígenas, conversões oficiais de templos em igrejas cristãs, e com a construção de igrejas sobre antigos sítios religiosos. Também foi posta em prática através da demonização dos deuses pagãos indígenas, de suas práticas tradicionais como bruxaria. Esta cristianização 'parcial' evoluiu para um banimento declarado dos ritos existentes, sob pena de tortura e morte.
Reformatar as crenças e atividades religiosas e culturais nativas numa forma cristianizada foi sancionado oficialmente; na obra História Eclesiástica do Povo Inglês, de Beda, o Venerável, pode-se ler uma carta do a Melito de Cantuária, onde ele afirma que as conversões seriam mais fáceis se as pessoas pudessem manter as formas externas de suas tradições, enquanto afirmarem que estas tradições forem feitas em honra do Deus cristão, "para que, embora algumas gratificações sejam-lhes permitidas de maneira externa, possam consentir mais facilmente aos consolos internos da graça de Deus". Essencialmente, admitia-se que as tradições e práticas ainda existiam, porém a reflexão por trás destes atos já havia sido esquecida. A existência do sincretismo na tradição cristã também vem sendo reconhecida há muito pelos estudiosos.
Os estudos humanísticos da Antiguidade e a Reforma Protestante combinaram-se, no , para produzir obras acadêmicas marcadas por uma pauta que identificava as práticas católicas romanas com o paganismo, e as igrejas protestantes com uma "re-cristianização" purificadora da sociedade. O reformador alemão Filipe Melâncton detalhou, em sua obra De origine erroris libris duo (1539), as "origens pagãs dos erros católicos". Já o filólogo e classicista Isaac Casaubon, por sua vez, em sua obra intitulada De rebus sacris et ecclesiasticus exercitationes (1614), cita o exemplo familiar, onde o academicismo sadio acabou sendo bastante comprometido pelo parcialismo sectário; assim, os precedentes pagãos para a prática cristã tendem a ser tratados como insignificantes ou mesmo desprezados pelos apologistas cristãos, como uma forma de Apologética protestante.
Simbolismo thumb|O Batismo dos quievanosAfresco de Viktor Vasnetsov Embora a cruz seja, atualmente, o símbolo mais comum do cristianismo, no ela não era particularmente associada com a religião, só assumindo um lugar de como tal durante o , The Worship of the Dead (London, 1904), by Colonel J. Garnier, p. 226. até o a cruz seria tão estreitamente associada ao cristianismo, que Tertuliano designou os cristãos como crucis religiosi, ou seja "devotos da Cruz."Apology., chapter xvi. De acordo com a tradição cristã, a cruz é uma referência à crucificação de Jesus, e o crucifixo é a sua referência mais imediata. No entanto, devido à natureza altamente ambígua dos termos gregos utilizados na Bíblia para se referir à sua crucificação, já se levantou a hipótese de uma tradução mais específica do termo se referir à prática de execução onde o prisioneiro era amarrado a uma única estaca de madeira, em vez da cruz tradicionalmente retratada; a tradução comum na tradição cristã, pregado à cruz, poderia igualmente significar pregado a uma árvore e pregado a um poste de madeira, ambos métodos comuns de crucificação no Império Romano, onde o prisioneiro tinha suas mãos amarradas sobre sua cabeça, outras traduções possíveis para o termo incluem empalação, enforcamento e estrangulamento.
As cruzes, no entanto, foram também símbolos importantes de diversas religiões pré-cristãs, incluindo o hinduísmo, onde a suástica foi, originalmente, um dos principais símbolos sagrados, e o Antigo Egito, onde o ankh, figura com formato que lembra uma cruz, era tido como o símbolo da própria vida. As principais comunidades cristãs centraram-se em Alexandria e Roma, e pode ser provável que os cristãos alexandrinos tenham adotado o ankh, enquanto os cristãos que viviam em Roma adotaram a cruz de influências diversas, como as representações de Baco com sua cabeça coberta por cruzes. Aqueles que vêem Jesus como uma mera forma judaica da mitologia de Osíris e Dioniso consideram o uso do ankh como uma continuação óbvia, enquanto outros estudiosos consideram que a cruz teria sido adotado pelo cristianismo por seus próprios méritos, devido às suas conotações metafísicas.
esquerda|thumb|upright=0.5|Cristograma O antecessor da cruz como principal símbolo cristão era o lábaro, um símbolo formado pela superposição das primeiras duas letras da palavra grega para Cristo, Χριστός - Χ (khi) e Ρ (ro), no alfabeto grego. O imperador Constantino é tido como o introdutor deste símbolo à Cristandade, porém o símbolo em si precede este personagem, e era utilizado também pela religião do Sol Invicto devido ao seu uso ainda anterior, como símbolo que representava boa fortuna, tendo sido até mesmo usado para representar Cronos, divindade grega do tempo, cujo nome forma o mesmo monograma que o epíteto utilizado pelos cristãos para se referir a Jesus.
A tradição cristã argumenta que Constantino escolheu o lábaro depois de ter uma visão antes da Batalha da Ponte Mílvia que o converteu ao cristianismo. Porém a sua conversão é contestada por muitos historiadores, já que ele continuou a usar o simbolismo claramente relacionado ao Sol Invicto e apresentar os mesmos títulos nas moedas emitidas pelo resto de sua vida, permaneceu pontífice máximo da religião romana e do mitraísmo e só veio a ser batizado em seu leito de morte e até isso é contestado — já que suas únicas testemunhas foram as mesmas pessoas que alegavam que Constantino já era cristão há muito tempo. A maioria dos historiadores seculares vê os motivos de Constantino para adotar o lábaro mais como políticos que sobrenaturais ou religiosos, e sua decisão como uma escolha consciente de fazer de seu estandarte um que pudesse ser interpretado como apoiando qualquer uma das duas principais religiões do Império Romano na época; Constantino teria visto unidade e conformismo como a maneira para conseguir a estabilidade política, e passou um bom tempo tentando diminuir as divisões (por exemplo, realizado o Primeiro Concílio de Niceia para resolver a questão do arianismo).
Antes do lábaro, o principal símbolo cristão, e o primeiro, tinha o formato de um peixe, e é conhecido hoje em dia por Ichthys, transliteração de ιχθύς - "peixe" em grego antigo, e também um acrônimo para a frase Iesou Christos Theou Yios Sotiras, isto é, "Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador". Existem diversas outras ligações com a tradição cristã relacionadas à escolha deste símbolo: seria também uma referência ao milagre da multiplicação dos pães e peixes, a muitos dos apóstolos terem sido pescadores, entre outras.
Processo de cristianização Locais sagrados thumb|upright|Cristianização física: o coro da Igreja de São Salvador, em Espoleto, ocupa a cela de um templo romano
Poucas igrejas cristãs construídas durante os primeiros quinhentos anos em que a Igreja Cristã esteve estabelecida não foram construídas sobre sítios anteriormente consagrados como templos pagãos ou mitreus; a igreja de Santa Maria sopra Minerva (literalmente "Santa Maria [construída] sobre Minerva"), em Roma, é um dos exemplos mais imediatos. Sulpício Severo, em sua Vita de Martinho de Tours, um contumaz destruidor de templos e árvores sagradas, afirmou que "onde quer que ele destruísse templos pagãos, ele costumava construir imediatamente igrejas ou mosteiros",Vita, ch xiii e quando São Bento se apoderou do sítio de monte Cassino, sua primeira atitude foi quebrar a escultura de Apolo, e o altar que adornava aquelas alturas.
As ilhas Britânicas e outras áreas da Europa do Norte, anteriormente druídicas, possuem até hoje numerosos poços e fontes sagradas, que passaram a ser atribuídas a algum santo, quase sempre um santo local, pouco conhecido noutras regiões; em tempos antigos, muitos destes locais eram vistos como sítios guardados por forças sobrenaturais, como a Melusina, e muitos dos poços sagrados pré-cristãos parecem ter sobrevivido como batistériosBarnish, Samuel J. "Town, Country, and the Christianization of Italy in Cassiodorus' Variae" (1999) - Societas internationalis pro Vivario Nem todos estes sítios sagrados anteriores ao cristianismo foram respeitados, no entanto; a maioria dos antigos bosques sagrados da Europa — como o grande Irminsul, cuja localização é desconhecida atualmente, mas que possivelmente localizava-se em Externsteine — foi destruída pelas forças de cristianização.
Durante a Reconquista e as Cruzadas, a cruz desempenhou mesma a função simbólica que uma bandeira ocupa nos dias de hoje. No Cerco de Lisboa, em 1147, quando um grupo de cristãos tomou a cidade, descreveu-se a reação popular ante a sua visão: "Que grande alegria e grande abundância houve de lágrimas devotas quando, para o louvor e a honra de Deus e da santíssima Virgem Maria, a cruz da salvação foi colocada sobre a mais alta torre, para ser vista por todos como um símbolo da submissão da cidade."De expugnatione Lyxbonensi
Mitos e imaginário thumb|upright|esquerda|Díptico em marfim de uma sacerdotisa de Ceres, desfigurada e danificada por cristãos
A historicidade de diversos santos freqüentemente foi tratada com ceticismo pela maioria dos acadêmicos, seja porque existe pouca evidência histórica a seu respeito, ou devido às grandes semelhanças que muitos apresentam às deidades pré-cristãs. Em 1969, a Igreja Católica Romana descanonizou oficialmente alguns santos cristãos, rebaixou outros , e declarou a historicidade de outros como sendo dúbia. Embora altamente popular na Idade Média, muitos destes santos acabaram sendo esquecidos desde então, e seus nomes podem parecer pouco familiares hoje em dia. Um dos mais famosos é Santo Eustáquio, que foi extremamente popular durante tempos antigos, porém atualmente é visto pelos estudiosos como uma "quimera", composta por detalhes de diversos outros santos.
Muitas destas figuras que têm uma historicidade dúbia parecem se basear em figuras de mitologias e lendas pré-cristãs, como Santa Sara, por exemplo, também conhecida como Sarah-la-Kali, que seria uma cristianização de Kali, uma divindade hindu.
Outras figuras cristãs mais óbvias, como determinados bispos cujas existências são amplamente atestadas na literatura histórica, e até figuras centrais como Maria, o arcanjo Miguel e Satã sofreram interpolações posteriores às suas narrativas históricas. Além de escritos apócrifos, como o que narra a morte de Maria, existe toda a iconografia que originalmente se destinava a outros personagens, não-cristãos. A similaridade dos retratos cristãos de demônios com diversas das deidades pré-cristãs, e de figuras relacionadas, como os sátiros, levou diversos estudiosos a argumentar que a descrição estereotípica de Satã, e dos demônios em geral, foi fruto de uma demonização consciente de figuras até então benignas, de religiões "rivais".
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