Conde de Castro Daire foi um título de nobreza português criado por alvará de 30 de abril de 1625, assinado em Aranjuez por Filipe III de Portugal (IV de Espanha), em favor de D. António de Ataíde, que veio também a ser 5.º Conde da Castanheira."Nobreza de Portugal e do Brasil", Direcção de Afonso Eduardo Martins Zúquete, Edições Zairol, Volume Segundo, Lisboa, 2000, p. 521Sousa, António Caetano de, "Historia Genealogica da Casa Real Portugueza", Tomo II, Livro III, Officina de Joseph Antonio da Sylva, Lisboa Ocidental, 1736, pp. 531-540

História O primeiro titular era filho terceiro de D. António de Ataíde, 2.º Conde da Castanheira, e da sua segunda mulher D. Bárbara de Lara, filha de D. Pedro de Meneses, Marquês de Vila Real. Nasceu por volta de 1567 e morreu em Lisboa a 14 de dezembro de 1647, com mais de oitenta anos.Ramos-Coelho, José, "Historia do Infante D. Duarte, Irmão de El-Rei D. João IV", Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1889, p. 705, citando a Bibliotheca LusitanaBoxer, Charles Ralph, "From Lisbon to Goa, 1500-1750: Studies in Portuguese Maritime Enterprise", Taylor & Francis, 2024 Durante a crise sucessória tomou o partido do rei espanhol e integrou a expedição do Marquês de Santa Cruz contra a ilha Terceira, sendo depois sucessivamente capitão de cavalos, fronteiro-mor dos coutos de Alcobaça, coronel de infantaria, capitão-mor das naus da Índia e general das armadas de Portugal. Foi senhor de Póvos e Cheleiros e do morgado da Foz, alcaide-mor de Colares, comendador na Ordem de Cristo e, pelo casamento, senhor de Castro Daire e alcaide-mor de Guimarães.

Em 1621, a nau Nossa Senhora da Conceição regressava da Índia com valioso carregamento quando se perdeu em combate com navios argelinos, sem que a armada da costa, incumbida de a comboiar, a tivesse esperado. Acusado de não haver cumprido os seus encargos defensivos, foi julgado e absolvido, mas o processo valeu-lhe a prisão e o afastamento do comando da almiranta da Jornada dos Vassalos, a armada enviada em 1625 para restaurar a cidade da Baía.Magalhães, Pablo Antonio Iglesias, "A Jornada dos Vassalos, por D. Jerônimo de Ataíde em 1625", in Navigator: subsídios para a história marítima do Brasil, Vol. 12, n.º 24, Rio de Janeiro, 2016, pp. 101-112 O título de Conde de Castro Daire foi-lhe concedido em razão dos incómodos que o processo lhe causara, seguindo-se as nomeações de gentil-homem da boca, mordomo-mor da rainha D. Isabel de Bourbon, conselheiro de Estado do Conselho de Portugal e presidente das cortes do reino de Aragão.

Em 1629 foi enviado como embaixador extraordinário ao imperador Fernando II, viagem que o seu secretário Damião Ribeiro narrou na Embaixada de Alemanha."Catalogo dos Preciosos Manuscriptos da Bibliotheca da Casa dos Marquezes de Castello Melhor", Thomaz Quintino Antunes, Lisboa, 1878, p. 14, n.º 66 Dois anos depois foi designado governador do Reino, por efeito da saída de D. Diogo de Castro, Conde de Basto, que desobedeceu à ordem de aguardar o vice-rei anunciado por Filipe IV.Schaub, Jean-Frédéric, "Le Portugal au temps du Comte-Duc d'Olivares, 1621-1640: le conflit de juridictions comme exercice de la politique", Casa de Velázquez, Madrid, 2001, p. 165 Governou com D. Nuno de Mendonça, Conde de Vale de Reis, desde 26 de agosto de 1631 até à morte deste em março de 1632, e sozinho até 29 de abril de 1633; nesse tempo enviou a armada destinada a socorrer Pernambuco contra os neerlandeses.Teixeira de Aragão, Augusto Carlos, "Descripção Geral e Histórica das Moedas Cunhadas em Nome dos Reis, Regentes e Governadores de Portugal", Imprensa Nacional, Lisboa, 1875, pp. 324-325 Foi depois presidente da Mesa da Consciência e Ordens e sucedeu, por morte do sobrinho D. João de Ataíde, 4.º Conde, na Casa da Castanheira, que lhe cabia por não haver geração do segundo casamento daquele.Bouza, Fernando, "O qual eu vi. Escritura y mirada nobiliarias en el Discurso nas jornadas que fiz a Montserrate de Manuel de Ataíde, tercer conde de Castanheira (1602-1603)", Universidad Complutense de Madrid, 2006, pp. 277-304

A sua posição na Restauração de dezembro de 1640 é objeto de leituras divergentes. A tradição nobiliárquica portuguesa dá-o como tendo tomado o partido do Duque de Bragança e conta-o entre os fidalgos que aclamaram D. João IV."La Lengua Portuguesa, Vol. I: Estudios sobre Literatura y Cultura de Expresión Portuguesa", Ediciones Universidad de Salamanca, Salamanca, 2014, p. 199"Epistolario político de don Luis de Haro (Aragón, Cataluña y Andalucía, 1644-1647 – Extremadura y Portugal, 1658-1659)", Boletín Oficial del Estado, Madrid, 2024, p. 419, nota 888 Boxer sustenta que foi afastado do governo por se suspeitar das suas simpatias castelhanas, atentas as honras recebidas de Filipe IV e a permanência do filho primogénito em Madrid; para Bouza, foi a casa, e não o indivíduo, que se manteve fiel ao Portugal dos Filipes desenhado nas Cortes de Tomar de 1581. É certo que foi preso no verão de 1641, por suspeita de envolvimento na conjura pró-castelhana do Arcebispo de Braga, e libertado no inverno seguinte, provada a sua inocência.Cordeiro, António Xavier Rodrigues, "Serões de Historia: Factos da Historia Portugueza", A. M. Pereira, Lisboa, 1890, pp. 195-196

Homem aplicado às humanidades e de grande inclinação à filosofia, traduziu em português um tratado de Séneca e foi poeta, contando-se entre os seus amigos Lope de Vega e o cronista da Índia Portuguesa Diogo do Couto. Da sua erudição dá testemunho o Borrador de hua arte poética que se intentava escrever, manuscrito de crítica literária tido como um dos primeiros do género no contexto ibérico, e foi por seu intermédio que se imprimiram, em 1605, as Sentenças de D. Francisco de Portugal, 1.º Conde do Vimioso. Imprimiu em 1622 a resposta aos cargos que lhe foram imputados pela perda da nau da Índia e reuniu, do tempo em que servira como capitão-mor, roteiros de viagem de que saiu a compilação sobre as viagens do Reino para a Índia entre 1608 e 1612, publicada em 1957–1958."Select List of Recent Publications", East-West Center Library, Honolulu, 1963, entrada "Ataíde, Antonio de, conde de Castro Daire" Não foi, porém, isento de críticas: um relatório confidencial dirigido ao Conde-Duque de Olivares, por volta de 1634, descrevia-o como ministro inteligente mas desonesto, acusação que Boxer não considera comprovada.

Casou por volta de 1600 com D. Ana de Lima, filha herdeira de D. António de Lima, senhor de Castro Daire, e de D. Maria de Vilhena, irmã de D. Paulo de Lima e autora de poesias hoje desaparecidas.Chagas, Manuel Pinheiro, "Diccionario Popular: Historico, Geographico, Mythologico, Biographico, Artistico, Bibliographico e Litterario", Lallemant Frères, Lisboa, 1880, entrada "Lima (D. Anna de)" Dos nove filhos, D. Jerónimo sucedeu no título; D. Ana de Lima e Ataíde foi 7.ª Condessa da Castanheira e D. Bárbara Estefânia de Lara casou em 1637 com D. Álvaro Pires de Castro e Noronha, 1.º Marquês de Cascais e 6.º Conde de Monsanto; D. Bernardo, prior de Guimarães, foi bispo de Astorga e de Ávila; e D. Álvaro, inquisidor de Lisboa, manteve-se fiel a Filipe IV, deixou Portugal depois do golpe restaurador e morreu em Saragoça em 1642.López-Salazar Codes, Ana Isabel, "Inquisición y política: el gobierno del Santo Oficio en el Portugal de los Austrias, 1578-1653", Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2011, pp. 360-361 e nota 186

O 2.º Conde, D. Jerónimo de Ataíde, foi também 6.º Conde da Castanheira e senhor de Póvos, Cheleiros e da restante casa e comendas do pai. Nasceu em Lisboa por volta de 1597 e morreu na mesma cidade a 12 de dezembro de 1669.Sousa, António Caetano de, "Historia Genealogica da Casa Real Portugueza", Tomo I, Officina de Joseph Antonio da Sylva, Lisboa Ocidental, 1735, p. LXVIII Sucedeu na casa por morte dos irmãos mais velhos, D. Paulo e D. Jorge, tendo servido antes como capitão nas armadas do pai e como capitão de aventureiros na defesa de Lisboa. Em dezembro de 1631, durante o governo interino do pai, apresentou na Corte expedientes financeiros que asseguravam receitas de quinhentos mil cruzados anuais, competindo com idêntica diligência de D. Francisco de Mascarenhas, filho do presidente da câmara de Lisboa.

Encontrava-se em Castela quando D. João IV foi aclamado e lá se deixou ficar, entre os nobres de primeira ordem que tomaram o partido de Castela.Luz Soriano, Simão José da, "Historia de Reinado de El-Rei D. José e da Administração do Marquez de Pombal", Typographia Universal de T. Quintino Antunes, Lisboa, 1867, p. 28 Foi mordomo da rainha D. Isabel de Bourbon e aio do príncipe D. Baltasar, recebendo a 21 de janeiro de 1643 o título de Marquês de Colares, que já não lhe podia ser concedido em Portugal, e a promessa do Ducado de Benavente caso o Reino fosse recuperado; contra ele nunca tomou armas. Na década de 1650 manteve estreita relação com o filho de D. Luís Méndez de Haro, valido de Filipe IV, e continuou a receber a correspondência dos portugueses austracistas de Madrid; regressando a Portugal depois de feita a paz, durou pouco tempo.

Escreveu, na década de 1630, uma defesa para provar que, como Marquês em Portugal, devia preceder no Conselho de Portugal aos Grandes de Espanha, impressa em Madrid, e mandou encadernar em 1633 o nobiliário manuscrito Linhagens dos fidalgos de Portugal, deixado incompleto pelo avô materno D. António de Lima Pereira."Arquivo Historico Português", Lisboa, 1914, p. 184, nota 145 Colecionador de tudo quanto lhe chegava às mãos a título de papelito de gusto, na sua própria expressão, reuniu uma imponente colecção documental e bibliográfica e abriu os seus arquivos a quem escrevia história: com papéis do tempo do bisavô, o 1.º Conde da Castanheira e valido de D. João III, pôde o cronista Frei Luís de Sousa compor os Anais de D. João III.Bouza Álvarez, Fernando J., "Papeles y opinión: políticas de publicación en el Siglo de Oro", Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Madrid, 2008, p. 69 É-lhe ainda atribuída a autoria dos Capítulos da Relação, relato anónimo em castelhano da invasão neerlandesa da Baía e da Jornada dos Vassalos que visava justificar a ausência do pai e do próprio autor na armada de 1625, e que ficou incompleto e inédito.

Casou por volta de 1620 com D. Helena de Castro, filha de D. João de Castro, senhor de Reriz, Penela e Resende, de quem teve D. Jorge de Ataíde, terceiro Conde de Castro Daire, e D. António de Ataíde, que morreu menino. Do enlace resultou a integração da Capitania dos Ilhéus, no Brasil, no morgado que D. Helena de Castro instituiu por ocasião do casamento, cuja carta de confirmação lhe foi passada em Lisboa a 17 de outubro de 1645 por D. João IV."Catálogo dos Manuscriptos da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro", extraído dos Annaes da mesma Biblioteca, Rio de Janeiro, 1878, pp. 496-497

O 3.º e último Conde de Castro Daire foi D. Jorge de Ataíde, filho dos segundos condes. Ficando seu pai em Castela, o Rei deu-lhe a administração da Casa, que não logrou muito tempo, morrendo moço. Casou com D. Guiomar de Castro e Távora, que pouco depois de recebida ficou viúva e grávida de um filho que nasceu póstumo e morreu brevemente. Teve fora do matrimónio filhos naturais, entre os quais D. João de Ataíde e Castro, enviado extraordinário a Luís XIV de França em 1684 e morto em 1704.