As missões jesuíticas na América, também chamadas de reduções, foram os aldeamentos indígenas organizados e administrados pelos padres jesuítas no Novo Mundo, como parte de sua obra de cunho civilizador e evangelizador. O objetivo principal das missões jesuíticas foi o de criar uma sociedade com os benefícios e qualidades da sociedade cristã europeia, mas isenta dos seus vícios e maldades. Essas missões foram fundadas pelos jesuítas em toda a América colonial e, segundo Manuel Marzal, sintetizando a visão de outros estudiosos, constituem uma das mais notáveis utopias da história.Marzal, Manuel M. Las Misiones Jesuitas, una Utopia Posible?. IN Marzal, Manuel María & Tua, Sandra Negro (1999). Un reino en la frontera: las misiones jesuitas en la América colonial. Fondo Editorial Pontifícia Universidad Católica del Perú, 1999. pp. 489-495

Para conseguirem seu objetivo, os jesuítas desenvolveram técnicas de contato e atração dos indígenas e logo aprenderam suas línguas e, a partir disso, os reuniram em povoados que, por vezes, abrigaram milhares de indivíduos. Eram, em larga medida, autossuficientes, dispunham de uma completa infraestrutura administrativa, econômica e cultural que funcionava num regime comunitário, onde os nativos foram educados na fé cristã e ensinados a criar arte às vezes com elevado grau de sofisticação, mas sempre em moldes europeus. Depois de um início assistemático marcado por tentativas frustradas, em meados do século XVII, o modelo missioneiro já estava bem consolidado e disseminado por quase toda a América, mas teve de continuar enfrentando a oposição de setores da Igreja Católica que não concordavam com seus métodos, do restante da população colonizadora, para quem os indígenas não valiam a pena o esforço de cristianizá-los, e os bandos de caçadores de escravos, que aprisionavam os indígenas para submetê-los ao trabalho forçado na economia colonial exploradora e destruíram diversos povoados, causando muitas mortes. Mesmo com vários problemas a vencer, as missões, como um todo, prosperaram a ponto de, em meados do século XVIII, os jesuítas se tornarem suspeitos de tentar criar um império independente, o que foi um dos argumentos usados na intensa campanha difamatória que sofreram na América e na Europa e que acabou por resultar na sua expulsão das colônias a partir de 1759 e na dissolução da sua Ordem em 1773. Com isso, o sistema missioneiro entrou em colapso, causando a dispersão dos povos indígenas reduzidos.Salcedo, S.J. Jorge Enrique. Las Misiones Jesuitas en Colombia: las regiones de Casanare y el Meta en el siglos XVII y XVIII. IN Marzal, Manuel María & Tua, Sandra Negro (1999). Un reino en la frontera: las misiones jesuitas en la América colonial. Fondo Editorial Pontifícia Universidad Católica del Perú, 1999. pp. 163-166

O sistema missioneiro buscou introduzir o cristianismo e um modo de vida europeizado, integrando, porém, vários dos valores culturais dos próprios indígenas, e estava baseado no respeito à sua pessoa e às suas tradições grupais, até onde estas não entrassem em conflito direto com os conceitos básicos na nova fé e da justiça. O mérito e a extensão do sucesso dessa tentativa têm sido objeto de muito debate entre os historiadores, mas o fato é que foi de importância central para a primeira organização do território e para o lançamento das fundações da sociedade americana como hoje ela é conhecida. Vários monumentos missioneiros são hoje Patrimônio Mundial.Alvero, Luis Alejandro. Realidad Social y Pensamiento Económico en el Rio de la Plata colonial. IN Marzal, Manuel María & Tua, Sandra Negro (2005). Esclavitud, economía y evangelización: las haciendas jesuitas en la América virreinal. Fondo Editorial Pontifícia Universidad Católica del Perú, 2005. pp. 407-409

Origens e evolução do sistema missionário

thumb|Inácio de Loyola com um livro onde se lê o lema da sua Ordem: Ad maiorem Dei gloriam (Para a maior glória de Deus)

A criação do sistema das missões deve ser estudado no contexto da política colonial desenvolvida pelas potências europeias para a recém-descoberta América, que originalmente era habitada por inúmeras etnias de povos indígenas, que mostravam ter desenvolvido graus variáveis de civilização. Apesar de alguns contatos preliminares entre europeus e indígenas terem sido pacíficos, logo os colonizadores começaram a empreender uma conquista belicosa e sanguinária, submetendo os nativos pela força das superiores armas e técnicas militares europeias, e despojando-os de quaisquer tesouros que fossem encontrados. Em vista das atrocidades que estavam sendo cometidas, reis e papas legislaram a favor dos indígenas, mas com pouco efeito, pois o controle sobre as províncias transoceânicas era muito difícil. Os abusos continuariam ao longo de toda a história da colonização. Junto com os primeiros colonizadores, chegaram religiosos de várias Ordens missionárias, principalmente franciscanos e dominicanos. Sua presença se justificava porque entre os objetivos da Conquista estava a cristianização dos povos dominados, mas muitos desses missionários foram complacentes com o uso da violência e se beneficiaram da exploração dos indígenas. Pouco depois, preocupado com os rumos descontrolados que tomava a Conquista espanhola, Carlos I de Espanha chamou os jesuítas para intervirem no processo, enquanto que Dom João III de Portugal dava as primeiras ordens para que a evangelização dos indígenas fosse entregue aos cuidados da Companhia de Jesus.Huonder, A. Reductions of Paraguay. In The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company, 1911. Retrieved November 10, 2009 from New AdventImbruglia, Girolamo. Il Missionario Gesuita nel Cinquecento e i "Selvaggi" Americani. IN Cuturi, Flavia. In nome di Dio. L'impresa missionaria di fronte all'alterità. Meltemi Editore srl, 2004. pp. 65-71Chambouleyron, Rafael (1999). El manto del Ordem: el plan evangelizador del P. Manuel da Nóbrega. IN Marzal, Manuel María & Tua, Sandra Negro (1999). Un reino en la frontera: las misiones jesuitas en la América colonial. Fondo Editorial Pontifícia Universidad Católica del Perú, 1999. pp. 37-46

A Companhia de Jesus foi fundada em 1534 por Santo Inácio de Loyola. A confiança que os jesuítas inspiraram nos reis ibéricos se deve ao grande prestígio que em poucos anos adquiriram pelo dinamismo e pelo sólido preparo teológico e cultural de seus membros, que ascenderam a posições de destaque no clero e nos conselhos de reis e príncipes. A Ordem se tornou a principal força da Igreja Católica no processo da Contra-Reforma, renovou a pedagogia na Europa, e de fato representou a vanguarda religiosa em seu tempo, contando com privilégios especiais e grande independência da estrutura hierárquica da Igreja, mas votando uma obediência total ao papa.Marzal, Manuel María & Tua, Sandra Negro (2005). Esclavitud, economía y evangelización: las haciendas jesuitas en la América virreinal. Fondo Editorial Pontifícia Universidad Católica del Perú, 2005. pp. 9-11Reff, Daniel T. Plagues, priests, and demons: sacred narratives and the rise of Christianity in the Old World and the New. Cambridge University Press, 2005. pp. 214-215

No Brasil

thumb|Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu, por Benedito Calixto (1927). Acervo do Museu do Ipiranga

Os jesuítas aportaram no Brasil em 1549, no Peru chegaram em 1567, no México em 1572 e na Nova França em 1611, mas o sistema missioneiro levou várias décadas para se estruturar e consolidar. Dessa forma, as primeiras tentativas de evangelização foram informais, itinerantes, pouco coerentes e sem resultados significativos. Entre as principais dificuldades que encontraram estavam a ausência de instituições jurídicas e administrativas de apoio eficazes, a pouca colaboração das outras Ordens religiosas — quando não sua conivência com as práticas predatórias dos colonizadores, como lamentou no Brasil Manuel da Nóbrega — e a oposição dos colonizadores que já estavam instalados, para quem os indígenas eram tão desprezíveis quanto os negros e só lhes pareciam úteis como trabalhadores braçais. A primeira iniciativa de fundação de povoados especiais para os indígenas cristianizados partiu de Dom João III, que em Regimento ao primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa, ordenou que eles vivessem em grupos nas proximidades das vilas para que pudessem entrar em mais íntimo contato com os cristãos e pudessem ser melhor doutrinados. A ideia foi louvada por Nóbrega, pois ele sem demora percebeu a ineficiência das missões itinerantes, pouco antes de o padre espanhol José de Acosta fazer a mesma constatação no Peru. Os primeiros jesuítas que Inácio enviou para a América foram o espanhol José de Anchieta e o português Manuel da Nóbrega.Homilia do Papa Francisco

Nóbrega escreveu aos seus superiores solicitando que os jesuítas obtivessem, do papa, o poder de erigir altares onde bem lhes aprouvesse e, assim, consolidar seus povoados, ao mesmo tempo em que recomendou paciência para com o processo de aculturação, prevendo que uma transformação autoritária, súbita e radical nos costumes indígenas não daria frutos positivos. Também reconheceu, em seu Diálogo da Conversão do Gentio (1556-57), que os indígenas não eram essencialmente maus, apesar de suas práticas religiosas "abomináveis", e que podiam ser gradualmente conduzidos a uma vida mais digna, pois se sua religião era errônea, a raiz do mal estava mais no ter um caráter supersticioso, que podia ser encontrado em qualquer povo ignorante, e não por ser intencionalmente maligna, a opinião mais corrente.

Na América Espanhola thumb|esquerda|O massacre dos incas em Cajamarca, na conquista espanhola do Peru thumb|esquerda|Redução de Nossa Senhora de Loreto Conchó, Baixa Califórnia, México Em 1576, José de Acosta viajou para o Peru no cargo de Provincial da Ordem e, inspecionando o trabalho até então desenvolvido entre os indígenas, o considerou insatisfatório. Na assembleia provincial de 1576 e no concílio de Lima de 1582-83, reunidos para examinar as causas do fracasso, Acosta recolheu os elementos necessários para compor a obra De procuranda indorum salute (1588), onde sintetizou suas experiências e apresentou as contradições da evangelização no Novo Mundo. Nessa altura, as pilhagens, escravizações e assassinatos em massa já se haviam tornado um escândalo condenado na Europa, a despeito de o papa Paulo III ter publicado, já em 1532, uma bula em que proclamava a liberdade dos indígenas nas possessões espanholas. As ideias de Acosta eram, em suma, as mesmas de Nóbrega, e apareceram como uma alternativa viável de criação de uma obra missionária baseada no respeito aos indígenas e mais independente de um Estado que se revelara cruel e imoral, preservando os costumes nativos que não se opusessem diretamente à fé cristã e à justiça, ainda que não abandonasse, de todo, a ideia da imposição doutrinal forçada em alguns casos. Homens de seu tempo, Nóbrega e Acosta consideravam a cristianização do indígena um imperativo para seu próprio bem (pro sua salute), e viam com maus olhos sua religião, mas encontraram um caminho para a sua reforma, e não sua supressão total, identificando pontos de semelhança com o catolicismo, como a crença na vida após a morte e em um deus supremo. Combateram o método de erradicação completa dos símbolos religiosos e culturais nativos acreditando que, apesar de sua idolatria, os indígenas poderiam conhecer a "verdadeira fé" através da razão. Essas ideias liberais tinham longa história, pois o papa Gregório I no século VI já recomendara para Agostinho de Cantuária, o evangelizador da Inglaterra, que trabalhasse sobre os costumes locais e preservasse tudo que fosse positivo na fé autóctone.