Canguçu é um município brasileiro do estado do Rio Grande do Sul, considerado o município com o maior número de minifúndios Audiência em Canguçu discute agroindústrias familiares do Brasil, possuindo cerca de 14 mil propriedades rurais, sendo reconhecida assim, como a Capital Nacional da Agricultura Familiar.O potencial de Canguçu para atrair novos investimentos O município tem uma população de 49.680 habitantes segundo o censo de 2022.IBGE: Panorama Canguçu/RS

Etimologia A denominação de Canguçu deriva da palavra indígena Caa-guaçu, significando mata grande ou mato grosso, de igual forma que já foi denominada primitivamente a região onde se situa a célebre Avenida Paulista em São Paulo, bem como outros locais, segundo se conclui ou lê-se em descrições mais antigas.

Caa-guaçu era uma alusão à milenar mata grande que encobriu primitivamente a encosta da Serra dos Tapes voltada para a lagoa dos Patos, e que daria o nome a ilha de Canguçu, mais tarde chamada de ilha da Feitoria como parte da estância Feitoria depois de adquirida por esta. Apesar disso, muitas fontes regionais apontam para a origem do nome do município como a derivação da palavra indígena acaanguaçu, nome dado pelos indios a uma pequena onça que habitava aquela região.

História Os primitivos habitantes de Canguçu foram os índios tapes, tapuias, guaranizados e subordinados aos guaranis, e que deram seu nome a região onde Canguçu se assenta. Vestígios deles ainda são encontrados nos traços de habitantes do Posto Branco, Canguçu Velho e Herval.

O povoamento da região onde hoje está a sede do município deu-se por volta de 1763. Os povoadores iniciais de Canguçu foram guerrilheiros das tropas de Rafael Pinto Bandeira, bem como deslocados portugueses de Colônia do Sacramento que passou definitivamente ao domínio de Espanha, após quase um século de acirrada disputa diplomática e militar com Portugal e açorianos e descendentes mandados vir em migração oficial para povoarem os Sete Povos das Missões e que com a guerra permaneceram nas regiões litorâneas de Mostardas, Estreito, São José do Norte e em Povo Novo e no vale do Jacuí. A área urbana de Canguçu, no período de 1780 a 1799, foi denominada Rincão do Tamanduá, fazendo parte de uma área maior, de mais de doze léguas de sesmarias, situado nas Serras do Sudeste, sendo proprietário o nobre português capitão-mor Dom Paulo Rodrigues Xavier Prates.

Canguçu foi caminho entre Rio Grande e Rio Pardo, as duas primeiras bases militares portuguesas existentes no Rio Grande do Sul. A localidade de Coxilha do Fogo, no terceiro distrito, e a sede do Município, foram bases de guerrilhas de Portugal, ao comando do mais tarde Brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, no período de 1763 a 1766, durante a dominação espanhola da Vila de Rio Grande e do Forte Santa Tecla.

O restante da zona rural do município foi sendo povoado só a partir de meados de 1850, sendo algumas regiões permanecendo virgens ao contato humano até a década de 1920. A Comissão de Demarcação de Limites do Tratado de Santo Ildefonso de 1777,pelo qual Canguçu foi fronteira de fato entre Portugal e Espanha por cerca de 24 anos, de 1777-1801, percorreu até 1784 as vertentes do rio Piratini e as encontrou bastante povoadas e, no espaço em branco hoje ocupado por Canguçu registrou em mapa o Cerro Partido, acidente geográfico característico de Canguçu que mergulha nas nascentes do arroio Pantanoso, no local conhecido como Banho do João Paulo Duarte.

De 1762 a 1777 houve violentos choques entre espanhóis e portugueses, visando ambos o domínio de que hoje constitui o Rio Grande do Sul e a República Oriental do Uruguai. Praticamente cessou a instituição de novos povoados, preferindo os que para o sul vinham, estabelecer-se nos núcleos anteriores, e destes, em especial nos mais resguardados de investidas castelhanas.

Após o término dessas lutas, foram concedidas sesmarias para a região onde hoje está constituído o município de Canguçu. Por volta de 1793, os sesmeiros Paulo Rodrigues Xavier de Prates e João Francisco Teixeira de Oliveira, que até então viviam disputando a posse do "Rincão do Tamanduá", e visando solucionar o litígio, doaram o sítio para a construção de uma capela. A 26 de dezembro de 1799, cento e quarenta moradores da região dirigiram ao governador Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Câmara, uma petição requerendo a concessão do rincão para erigir a capela e fundar a povoação. A 30 do mesmo mês e ano era a permissão concedida, com a ressalva de que enquanto não se formasse uma irmandade legalmente constituída, coubesse ao cura e a dois homens bons do lugar a administração dos ditos terrenos.

Seguindo este critério, seis dias após a petição, ou seja, a 10 de janeiro de 1800, era lançada a pedra fundamental da capela de Nossa Senhora da Conceição, sendo seu primeiro cura o padre Pedro Rodrigues Tourem.

Ergueram-se as casas quase que imediatamente, e logo florescia uma povoação de tamanho considerável e bem organizada. Tais foram os méritos, que a capela curada era em doze anos levada à categoria de freguesia. Tal se deu por carta régia do príncipe regente D. João, assinada a 31 de janeiro de 1812, sendo a décima sétima freguesia da Capitania de São Pedro. Havia então, no Rio Grande do Sul, apenas quatro municípios, sendo que a freguesia de Canguçu fazia parte de Rio Grande, passando somente em 1830 ao de Piratini, do que se constituiu distrito. O desenvolvimento da povoação foi tão louvado, que mereceu a visita do bispo do Rio de Janeiro dom José Caetano da Silva Coutinho de 25 a 27 de novembro de 1815.

A proveniência das famílias que de 1800 a 1812 deram origem a povoação, conforme os registros de batismos e casamentos paroquiais do bispado, são: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná (à época pertencente à São Paulo), Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Pernambuco, além do reino de Portugal, ilhas, dentre elas Açores, Uruguai, Argentina e Paraguai.

A atividade predominante por essa época era a pecuária, muito embora se notasse o crescente surto agrícola, então em fase inicial.

Chegariam depois os anos da Revolução Farroupilha, e o solo de Canguçu seria cruzado muitas vezes por tropas tanto imperiais como revolucionárias. Nesta revolução os canguçuenses tiveram grande participação e projeção, pois as tropas que integraram a Brigada Liberal de Antônio de Sousa Neto, que o apoiaram em 10 de setembro de 1836 no vitorioso combate do Seival e, no outro dia na proclamação da República Rio-Grandense, era constituída por canguçuenses na proporção de cerca de ¼.

Ao ser instalada a República Rio-Grandense em Piratini, em 6 de novembro de 1836, quem carregou o pavilhão tricolor pela primeira vez foi o canguçuense major de lanceiros Joaquim Teixeira Nunes – o Coronel Gavião, considerado pelo general Tasso Fragoso como "a maior lança farrapa", e que se tornou célebre no comando do Corpo de Lanceiros Negros Farroupilhas, personagem abordado com grandeza e simpatia na minissérie A Casa das Sete Mulheres pelo ator Douglas Simon.

Somente em 1843, ou seja, oito anos após iniciada as hostilidades, trava-se um combate em suas terras. A 2 de outubro, na localidade de Coxilha do Fogo, uma luta violenta é encetada, entre farrapos e imperiais. Da parte dos legalistas, comandando 250 caçadores, estava Francisco Félix da Fonseca Pereira Pinto junto com 60 homens do esquadrão de cavalaria da Guarda Nacional sob comando de Francisco Pedro Buarque de Abreu, o Chico Pedro. Não obstante os imperiais estarem em menor força, logram desfazer uma coluna farroupilha de 400 homens, comandada por Bento Gonçalves e Antônio de Sousa Neto, capturando muitas armas, cavalos e estandartes.Batalhas Farroupilhas. Doma Racional.BENTO,Claudio Moreira. Canguçu, reencontro com a História. e perseguem os revolucionários até a povoação da sede, em cujas proximidades surpreende, com seus 310 homens, os 300 de Antônio de Souza Neto, que não podendo oferecer resistência, retira-se em 26 de outubro de 1843.

No segundo combate, em 6 de novembro, os rebeldes voltam à Canguçu, e Chico Pedro com 300 soldados do 8.º Batalhão, junto com a cavalaria da Guarda Nacional, com invulgar heroísmo, resistem ao ataque de Bento Gonçalves, Antônio Neto e Camilo dos Santos Campelo com 600 homens, até a aproximação de reforços, ante os quais retiram-se os farrapos.

Os combates de 25, 26 de outubro e 6 de novembro de 1843, deu-se nas localidades de Pedra das Mentiras e Cerro do Ataque, nos fundos do atual Colégio Franciscano Nossa Senhora Aparecida, em ambas as margens do arroio.

Foi em Canguçu que o maior cronista farrapo – Manuel Alves da Silva Caldeira, veterano farrapo, escreveu cartas-depoimentos aos historiadores Alfredo Varela, Alfredo Ferreira Rodrigues, Alcides Lima e a Piratinino de Almeida, que lhes permitiram resgatar expressivamente a memória do Decênio Heróico.

A vila de Canguçu, em momentos difíceis da revolução, abrigou por diversas vezes Bento Gonçalves até agosto de 1843, conforme se concluiu de ofício do Barão de Caxias ao ministro da Guerra.

Isto até que Canguçu fosse ocupado pela ala esquerda do Exército ao comando de Caxias, de setembro de 1843 em diante. Comandou a referida ala esquerda o célebre guerrilheiro Francisco Pedro Buarque de Abreu, o futuro Barão de Jacuí.

Finda a guerra civil, novos dias viriam para a freguesia, que em 1848 teria criada uma aula para meninas, sendo assim atendida uma reivindicação dos dias de luta .

A Lei provincial n.0 340, de 28 de janeiro de 1857, vai criar o município de Cangussu, (hoje grafado Canguçu) elevando o povoado à vila, e anexando os distritos que constituíam a freguesia de Nossa Senhora do Rosário do Cerrito, com o que decairia o povoado de mesmo nome. A 27 de junho do mesmo ano era instalado o município. A primeira Câmara foi constituída pelos vereadores José Joaquim Rodrigues Soares, Manoel Carvalho de Abreu, Domingos José Borges, Antônio Joaquim Caldeira, Ignácio Francisco Duarte, e Manoel de Jesus Vasques. Ainda no mesmo ano foi criada a primeira aula para meninos, assim como os ofícios de Escrivão Geral, Tabelião de Notas, Escrivão de Órfãos, Contador e Partidor do Juiz, Coletorias das Rendas Gerais e das Rendas da Província e Agência de Correio.

Canguçu, antes distrito da capital farroupilha Piratini, foi o 22.º município gaúcho a ser criado, por desmembramento do município de Piratini, do qual foi o distrito de 1831 a 1857. Em ata da sessão de 1857, assinada pelo líder farrapo Vicente Ferrer de Almeida, deu-se a emancipação. Canguçu foi criado município junto com Passo Fundo por sugestão do simbolista farrapo major Bernardo Pires, autor do desenho da bandeira da República Rio-Grandense e, desde 1891, adotada como a bandeira do Rio Grande do Sul.

Desde cinco anos antes da criação de Canguçu, seus filhos já eram batizados na pia batismal construída em 1851 pelo francês Marcelino Tolosan (Marcellin Tholozan), seis anos depois da pacificação farroupilha.

Em 1858 era nomeado o primeiro delegado de Polícia; em 1866 foi nomeado o primeiro Juiz Municipal; em 1878, instalada Agência do Telégrafo Nacional. Passaram-se os anos, e com eles desenvolvia-se o município, inclinando-se fortemente para a agricultura. Seus cidadãos de maior porte mostraram-se favoráveis à emancipação dos escravos e à República. A 2 de abril de 1888 o município é declarado livre, isto é, são libertados todos os escravos. Vinda a República, o primeiro intendente sob o novo regime seria Bernardino da Silva Motta.