A Barragem de Alqueva é uma barragem em arco portuguesa situada sobre o rio Guadiana próximo da localidade de Alqueva, que lhe deu o nome, da freguesia atual de Amieira e Alqueva, do município de Portel, e ligando, na margem oposta, à freguesia de Moura (Santo Agostinho e São João Batista) e Santo Amador, do município de Moura, na região do Alentejo. Começou a ser planeada a partir da segunda metade do século XX, ainda durante o período da Estado Novo, de forma a mitigar os problemas de falta de água na região, e desta forma desenvolver a produção agrícola. No entanto, só começou a ser construída após a Revolução de 25 de Abril de 1974, embora as obras tenham parado em 1978 devido aos elevados custos, que colocaram em causa a sua viabilidade do ponto de vista económico. Esta situação provocou protestos no Alentejo e no Algarve, as regiões que mais iriam ser beneficiadas pela barragem, mas só em 1995 é que os trabalhos foram reiniciados. Em 8 de Fevereiro de 2002 foram oficialmente fechadas as comportas na barragem, numa cerimónia que contou com a presença do primeiro-ministro, António Guterres, e em 5 de Maio de 2004 foi inaugurada a central eléctrica da barragem. No âmbito da construção da barragem, foi necessário transferir a aldeia da Luz para um novo local, por estar situada num ponto que iria ser alagado pela albufeira.

Descrição Barragem e central eléctrica A barragem represa principalmente o Rio Guadiana, embora o sistema do Alqueva receba igualmente as águas dos rios Degebe e Ardila, que têm a sua foz naquele tramo do Guadiana. Possui uma altura de 96 m acima da fundação e um comprimento de coroamento de 458 m.Structurae Database, Alqueva Dam Na margem esquerda, junto à central eléctrica, situa-se o sistema para mantém o caudal ecológico, correspondente à quantidade de água que seria normal, e o equipamento para a transposição dos peixes, de forma a tentar preservar os habitats naturais do rio. A cerca de 23 km a jusante, no Rio Guadiana, encontra-se a Barragem de Pedrógão, que funciona como complemento à de Alqueva, servindo principalmente para recuperar os caudais utilizados na produção eléctrica da barragem principal.

A central eléctrica, conhecida como Alqueva I, situa-se entre os canais de descarga de meio fundo, estando equipada, em 2011, com dois grupos reversíveis de eixo vertical, que permitem turbinar ou bombear a água. As turbinas eram de tipologia Francis, e cada uma possuía um circuito hidráulico independente. Assim, cada grupo contava com uma área de tomada de água e uma conduta forçada, com 7 m de diâmetro e 103 m de comprimento. A potência era de 259,2 MW, produzindo a um ritmo anual de 400 GW por hora. O sistema de descarga incluía três descarregadores de cheias de superfície, um dos quais de descarga de fundo e outros dois de meio fundo, sendo a capacidade total de 9960 m³ por segundo. Na margem esquerda do rio situa-se uma central eléctrica com dois grupos geradores, que em 2011 tinham uma potência total de 10,4 MW, e uma produção média anual de 45 GW por hora. Em 2012 entrou ao serviço a segunda central eléctrica, denominada de Alqueva II, possuindo então dois grupos geradores reversíveis, formados por turbinas-bomba, que permitiram a duplicação da potência, de 260 para 520 MW. Nessa época, previa-se que a nova central iria ter uma produção anual média de 381 GWh, que seria suficiente para suprir as necessidades dos concelhos de Évora, Beja, Portel, Moura e Vidigueira. A energia produzida no complexo do Alqueva é transportada através de uma linha própria até à rede eléctrica nacional, podendo ser fornecida até Espanha e ao resto da Europa.VIEIRA e RAMOS, 2011:50

thumb|left|170px|A paisagem em torno do grande lago do Alqueva. Albufeira e aldeia da Luz A albufeira atinge, à cota máxima, os 250 km², sendo então o maior lago artificial da Europa Ocidental.VIEIRA e RAMOS, 2011:17 Embora a maioria da albufeira esteja situada em Portugal, cerca de 35 km² localizam-se em território espanhol. Devido às suas grandes dimensões, a albufeira atinge os concelhos de Moura, Portel, Mourão, Reguengos de Monsaraz e Alandroal.

Embora a área inundada pela albufeira da barragem fosse principalmente composta por terrenos agrícolas, também ali se encontrava uma povoação, a aldeia da Luz, cujos 360 habitantes foram realojados numa nova povoação construída de raiz para este fim. O processo causou uma considerável polémica, tendo vários moradores criticado as novas casas, tanto do ponto de vista estético como em termos de dimensões. A arquitecta responsável pelo planeamento e coordenação das intervenções da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva na nova aldeia da Luz, entre 1994 a 2003, foi Maria João Gaudêncio Simões George.

Abastecimento de água De acordo com a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva, uma das principais finalidades da barragem é de criar «uma reserva estratégica de água», algo de grande importância no Alentejo, que é considerada como uma das regiões mais secas da Europa.VIEIRA e RAMOS, 2011:17-18 Assim, é considerado como o ponto principal de um vasto sistema de distribuição de água, tanto para abastecimento público como para a irrigação de campos agrícolas. Em 2011 o sistema de irrigação era composto por dezassete barragens intermédias, 326 km de canais e vários milhares de hidrantes de rega.VIEIRA e RAMOS, 2011:49 Em 2022 irrigava uma área de cerca de 130 mil hectares, e fornecia água a duzentos mil habitantes.

História Ditadura Em meados do século XX, o governo da ditadura procurou desenvolver consideravelmente a produção agrícola do Alentejo, de forma a transformar a região no celeiro de Portugal, mas os programas estatais tiveram pouco sucesso, principalmente devido à pobreza dos solos e à falta de água, provocada pelas condições meteorológicas adversas na região. De forma a mitigar este último problema, foi lançado um ambicioso programa de regadio através de um sistema de barragens, baseado no Rio Guadiana. Assim, em 1957 iniciou-se o Plano de Rega do Alentejo, e em 1968 foi assinado o Convénio Luso-Espanhol para a utilização dos rios internacionais, que permitiu a instalação de uma barragem naquele curso de água. Porém, os elevados custos impediram o arranque das obras até à Revolução de 25 de Abril de 1974.VIEIRA e RAMOS, 2011:16

Década de 1970 Assim, após o regresso à democracia continuou a ser organizado o Plano de Rega do Alentejo, incluindo a Barragem do Alqueva. A construção foi autorizada em 1975 pelo Conselho de Ministros, tendo os trabalhos preliminares começado no ano seguinte. A barragem teria sido a maior infraestrutura abrangida por aquele programa, que na década de 1970 previa o abastecimento de água a 140 mil hectares, aumentando consideravelmente a área total irrigada em território nacional. O programa de obras iria incluir a barragem hidro-eléctrica em si, situada na área do Outeiro da Palha, no concelho de Portel, além das infraestruturas acessórias, como a central elevatória, canais de rega e tomada de água. Seria a base de um complexo sistema de abastecimento de água, que também iria ser constituído por onze barragens suplementares e outras infraestruturas. O primeiro bloco de rega a ser beneficiado seria o do Baixo Alentejo, com ligação à Barragem de Odivelas, e depois o de Évora, com comunicação à Barragem do Monte do Seixo e ao Rio Divor, para ampliar a área de regadio em Arraiolos. Finalmente seria abastecida a área de Évora, através de um açude no Rio Degebe, e parte do Distrito de Portalegre. A produção de energia eléctrica seria feita, numa primeira fase, por três grupos turbina-bomba, com uma potência unitária de 110 MW, e numa fase final seriam acrescentados outros três grupos. A central elevatória para a rega contaria igualmente com cinco grupos, cada um com uma potência de 14 MW. Previa-se que a capacidade de produção seria de 490 GWh num ano médio, durante a fase inicial do regadio, mas que poderia decrescer para cerca de 300 GWh na quota correspondente à sua valia eléctrica. Iria igualmente formar a maior albufeira em toda a Europa, que teria 2 milhões de m³ de água, 98 km de comprimento e 1000 km de costa. Os seus benefícios não se iriam cingir à irrigação, tendo também um papel regulador nos recursos aquáticos, e iria permitir igualmente o abastecimento de energia eléctrica e de água às povoações e indústrias, tanto nas imediações como a maior distância, principalmente em Sines. Com efeito, tinha como principal finalidade resolver os graves problemas de falta de água na região, cujos recursos hídricos, incluindo os subterrâneos, eram manifestamente insuficientes para a procura agrícola, urbana e industrial. Desta forma, poderia-se fazer a introdução em larga escala de novas culturas, principalmente a beterraba-açucareira, e expandir a criação de gado.

O Decreto-Lei n.º 203-C/75, de 15 de Abril, determinou as bases gerais dos programas de medidas económicas de emergência, incluindo a designação de equipas técnicas para estudar vários grandes empreendimentos nacionais ou regionais, como o pólo industrial de Sines e a Barragem do Alqueva, no âmbito do Programa Nacional de Emprego.PORTUGAL. Decreto-Lei n.º 203-C/75, de 15 de Abril. Ministério para o Planeamento e Coordenação Económica - Gabinete do Ministro. Publicado no Diário do Governo n.º 88/1975, 2º Suplemento, Série I, de 15 de Abril. Em Janeiro de 1976, Manuel Faria criticou o empreendimento da Barragem do Alqueva numa carta enviada ao Jornal do Algarve, tendo questionado «se a Barragem de Alqueva, com um custo aproximado de vinte milhões da contos, à volta de 100 contos por cada hectare irrigável, tem a sua justificação. É que há várias razões a considerar: o terreno, naquelas zonas, não se presta a certas sementeiras de regadio, por influências climatéricas, o rural alentejano não está apto a tais sementeiras e, por outro lado, o País está com dificuldades financeiras». Em Maio desse ano, a revista 25 de Abril noticiou que o Ministro das Obras Públicas, Álvaro Veiga de Oliveira, tinha anunciado a implementação de um grande programa de obras públicas, que no campo dos aproveitamentos hidráulicos, iria incluir o início dos trabalhos preliminares para o Plano do Alqueva e a construção do açude do Degebe. Em Junho, a obra estava orçada em nove milhões de contos, dos quais a barragem em si custava cerca de quatro milhões de contos. Ainda nesse ano, foi formada a Comissão do Alqueva e iniciaram-se as obras preliminares da barragem.