Vitória Alice Isabel Júlia Maria de Battenberg (Windsor, – Londres, ) foi a esposa do príncipe André da Grécia e Dinamarca e mãe do príncipe Filipe, Duque de Edimburgo, sendo assim a sogra da rainha Isabel II e avó paterna do atual rei Carlos III. Durante a Segunda Guerra Mundial, ela ficou na Grécia e ajudou a esconder uma família judia do regime nazista, pelos quais foi honrada como Justa entre as Nações por Yad Vashem. Nos anos seguintes, ela fundou uma ordem de freiras ortodoxas gregas, a Irmandade Cristã de Marta e Maria, e passou a maior parte de sua vida em obras de caridade e serviço religioso. Alice viveu seus últimos anos no Palácio de Buckingham, onde faleceu em 1969.
Alice era bisneta da rainha Vitória do Reino Unido e cresceu na Alemanha, Inglaterra e no Mediterrâneo. Ela se casou em 1903 com o príncipe André da Grécia e Dinamarca e foi viver na Grécia até ser exilada junto com toda a família real em 1917. A seu marido foi atribuída culpa pela derrota da Grécia na Guerra Greco-Turca de 1919–1922, depois de voltarem para o país, alguns anos depois, com a família sendo forçada a se exilar novamente até a restauração da monarquia em 1935.
Portadora de surdez congênita, foi diagnosticada em 1930 com esquizofrenia e internada em um sanatório na Suíça; assim ela passou a viver separada de André. Ela se recuperou e dedicou o restante de seus anos realizando trabalhos de caridade na Grécia. Alice ficou em Atenas durante a Segunda Guerra Mundial protegendo judeus, sendo reconhecida postumamente pelo Yad Vashem como Justa Entre as Nações. Ela continuou na Grécia depois da guerra e fundou uma ordem de enfermagem ortodoxa de freiras, conhecida como a Irmandade Cristã de Marta e Maria.
Com a queda do rei Constantino II da Grécia e o fim da monarquia grega em 1967, por um golpe militar, Alice foi convidada por seu filho Filipe e a esposa a rainha Isabel II do Reino Unido a ir morar no Palácio de Buckingham em Londres, onde morreu dois anos depois. Seus restos mortais foram transferidos para Jerusalém na Igreja de Santa Maria Madalena no Monte das Oliveiras em 1988.
Início de vida thumb|left|upright=1.0|Quatro gerações em foto de 1886: Alice com sua mãe, sua bisavó a rainha Vitória (esquerda) e sua tia-avó Beatriz do Reino Unido (ao fundo) Vitória Alice Isabel Júlia Maria nasceu em no Castelo de Windsor, Berkshire, Reino Unido, na presença de sua bisavó, a rainha Vitória do Reino Unido. Era a filha mais velha do príncipe Luís de Battenberg e sua esposa, a princesa Vitória de Hesse e Reno. Sua mãe era a filha mais velha da princesa Alice do Reino Unido, a segunda filha menina da rainha Vitória com o príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gota. Seu pai era o filho mais velho do príncipe Alexandre de Hesse e Reno através de um casamento morganático com Julia de Hauke. Alice tinha três irmãos mais novos: Luísa, Jorge e Luís.
Ela foi batizada em 25 de abril na cidade de Darmstadt. Alice teve seis padrinhos: seus três avós ainda vivos, Luís IV, Grão-Duque de Hesse e Reno, o príncipe Alexandre e Julia de Hauke; suas tias a grã-duquesa Isabel Feodorovna e a princesa Maria de Battenberg; e sua bisavó a rainha Vitória.
Alice passou sua infância entre Darmstadt, Londres, Seenheim-Jugenheim e Malta (onde seu pai estava postado como oficial naval). Sua mãe percebeu que ela demorou muito para aprender a falar e ficou preocupada com sua pronúncia indistinta. Ela finalmente foi diagnosticada com surdez congênita, depois de sua avó ter identificado o problema e a levado para um otorrinolaringologista. Alice acabou aprendendo a ler lábios e escrever em inglês e alemão com a ajuda da princesa Vitória. Ela estudou em particular e também aprendeu francês e grego depois de seu noivado. Alice passou seus primeiros anos de vida na companhia de seus parentes reais, sendo em 1893 uma das damas de honra no casamento do príncipe Jorge, Duque de Iorque, com a princesa Maria de Teck. Ela compareceu ao funeral da rainha Vitória em 1901 na Capela de São Jorge, algumas semanas antes de seu aniversário de dezesseis anos, tendo sua crisma na Igreja Luterana pouco depois.
Casamento thumb|upright=1.1|Alice em seu casamento, 1903 Alice conheceu e se apaixonou pelo príncipe André da Grécia e Dinamarca, o quarto filho do rei Jorge I da Grécia e sua esposa Olga Constantinovna da Rússia, em 1902 durante a coroação do rei Eduardo VII do Reino Unido. Eles se casaram em 6 de outubro de 1903, em uma cerimônia civil em Darmstadt. Houve duas cerimônias religiosas no dia seguinte: uma luterana e outra ortodoxa grega. Ela adotou o estilo de seu marido, se tornando "Princesa Alice da Grécia e Dinamarca". Os dois tinham relações familiares próximas com as famílias reais: britânica, alemã, russa, dinamarquesa e grega; seu casamento foi uma das grandes reuniões dos descendentes da rainha Vitória e do rei Cristiano IX da Dinamarca antes da Primeira Guerra Mundial. Alice e André tiveram cinco filhos: Margarida em 1905, Teodora em 1906, Cecília em 1911, Sofia em 1914 e Filipe em 1921.
André continuou sua carreira militar depois do casamento e Alice ficou envolvida em trabalhos de caridade. Ela visitou o Império Russo em 1908, para o casamento da grã-duquesa Maria Pavlovna com o príncipe sueco Guilherme, Duque de Sudermânia. Lá, ela conversou com sua tia Isabel Feodorovna, que estava criando planos para fundar uma ordem religiosa de freiras. Alice compareceu na cerimônia de colocação da pedra fundamental da nova igreja da tia. A grã-duquesa começou a doar suas posses no mesmo ano na preparação para uma vida mais espiritual. André e Alice descobriram ao voltarem que a situação política na Grécia estava piorando, já que o governo tinha recusado apoio ao parlamento da ilha de Creta, e que estava pedindo por uma união com a Grécia (na época, a ilha pertencia nominalmente ao Império Otomano). Um grupo de oficiais militares insatisfeitos formaram uma liga militar nacionalista que posteriormente fizeram o príncipe André renunciar seus cargos e levaram a ascensão de Elefthérios Venizélos ao poder.
Crises thumb|left|upright=1.0|Alice com suas filhas Margarida e Teodora c. 1912 André foi restaurado no exército com o advento da Primeira Guerra Balcânica e Alice atuou como enfermeira, auxiliando operações e estabelecendo hospitais de campo, trabalho pelo qual o rei Jorge V do Reino Unido lhe presenteou em 1913 com a Cruz Vermelha Real. Seu cunhado, o rei Constantino I da Grécia, seguiu uma política de neutralidade durante a Primeira Guerra Mundial, apesar do governo democraticamente eleito de Venizélos apoiar os aliados. Alice e seus filhos, foram forçados a se protegerem nos porões do palácio real durante o bombardeio francês de Atenas, em 1 de dezembro de 1916. A política de neutralidade do rei ficou tão insustentável em junho de 1917 que Constantino foi forçado a abdicar, em favor de seu filho Alexandre, forçando Alice e todos os outros membros da família real grega a partirem para o exílio na Suíça.
A primeira guerra mundial efetivamente acabou com o poder político de várias casas reais europeias. A carreira naval do príncipe Luís, pai de Alice, havia ruído no início do conflito por causa do sentimento anti-germânico no Reino Unido. Ele abriu mão em 14 de julho de 1917 de seu título de Príncipe de Battenberg, à pedido de Jorge V e anglicanizou seu nome familiar para Mountbatten. O rei lhe criou o título de Marquês de Milford Haven no dia seguinte. Alice nunca mudou seu nome para Mountbatten, ou assumiu o título de cortesia de uma filha de marquês, por estar casada com um membro da realeza grega. Suas tias Alexandra Feodorovna e Isabel Feodorovna foram assassinadas por bolcheviques, um ano depois durante a Revolução Russa de 1917. Com o fim da guerra os impérios russo, alemão e austro-húngaro caíram, com Ernesto Luís, Grão-Duque de Hesse e tio de Alice, sendo deposto.
Alexandre morreu em 1920 e Constantino foi restaurado ao trono, com Alice e sua família voltando para a Grécia e assumindo residência na vila de Mon Repos em Corfu. O exército helênico foi derrotado na Guerra Greco-Turca de 1919–1922 e um comitê revolucionário liderado pelos coronéis Nikólaos Plastíras e Stilianós Gonatás, assumiram o poder e novamente forçaram o exílio de Constantino. André tinha servido como comandante do Segundo Corpo do Exército no confronto e acabou preso. Vários antigos ministros e generais presos na mesma época foram executados, com diplomatas britânicos presumindo que o príncipe estava em perigo mortal. Um julgamento de fechada o sentenciou ao banimento, com André, Alice e seus filhos deixando a Grécia abordo do cruzador britânico HMS Calypso sob a proteção do adido britânico, o comandante Gerald Talbot.
A família se estabeleceu em Saint-Cloud, em uma pequena casa alugada da princesa Maria Bonaparte, onde Alice passou a ajudar uma organização de caridade para refugiados gregos. Ela tornara-se profundamente religiosa e entrou para a Igreja Ortodoxa Grega em 20 de outubro de 1928. A princesa traduziu para o inglês durante aquele inverno a defesa de André de suas ações na Guerra Greco-Turca. Logo depois começou a afirmar que estava recebendo mensagens divinas e que possuía poderes de cura. Alice sofreu uma crise nervosa em 1930 e foi diagnosticada com esquizofrenia paranóide, primeiro pelo psiquiatra Thomas Ross e depois por sir Maurice Craig, que tratou o príncipe Alberto, Duque de Iorque, antes dele passar por terapias para fala. O diagnóstico foi confirmado no sanatório do dr. Ernst Simmel em Berlim. Ela foi retirada à força de sua família e internada no sanatório do dr. Ludwig Binswanger em Kreuzlingen na Suíça. Era uma instituição famosa e bem respeitada com vários pacientes célebres, como o bailarino e coreógrafo Vaslav Nijinski, que ficou lá durante o mesmo período que Alice. Binswanger também diagnosticou o distúrbio como esquizofrenia. Tanto ele quanto Simmel consultaram Sigmund Freud, que acreditava que os delírios da princesa eram causados por frustração sexual. Ele recomendou um "raio-x de seus ovários para poder acabar com seu libido". Alice protestou sua sanidade e tentou deixar o sanatório várias vezes.
thumb|upright=1.0|Alice em 1922 por Philip de László Ela e André permaneceram separados durante sua longa convalescência, com suas filhas todas se casando com príncipes alemães em 1930 e 1931 (ela não compareceu a nenhum dos casamentos) enquanto seu filho o príncipe Filipe foi para o Reino Unido ficar com seus tios, Luís Mountbatten e Jorge Mountbatten, 2.º Marquês de Milford Haven, e sua avó, a Viúva Marquesa de Milford Haven.
Alice ficou durante dois anos em Kreuzlingen, porém foi liberada depois de um breve período em uma clínica de Merano e começou uma vida incógnita na Europa Central. Ela manteve contato com sua mãe, porém cortou contato com o resto de sua família por volta do final de 1936. Sua filha Cecília morreu em 1937, junto com o marido e dois de seus filhos em um acidente aéreo; Alice e André se encontraram pela primeira vez em seis anos durante o funeral (o príncipe Filipe, Luís Mountbatten e Hermann Göring também compareceram). A princesa voltou a ter contato com a família e voltou sozinha para Atenas em 1938, para trabalhar com os pobres, vivendo em um apartamento de dois dormitórios perto do Museu Benaki.
Segunda Guerra Mundial