thumb|Palácio dos Capitães-Generais, Angra do Heroísmo: alçado para o largo 22 de Junho. thumb|Palácio dos Capitães-Generais: edifício do "Colégio Novo", atual Direção Regional das Comunidades. thumb|Palácio dos Capitães-Generais: fachada da Igreja de Santo Inácio de Loyola. thumb|Palácio dos Capitães-Generais: monumento em homenagem a João Baptista Machado, mártir do Japão. thumb|Palácio dos Capitães-Generais: aspecto da "Sala dos Reis de Bragança". thumb|Palácio dos Capitães-Generais: aspecto dos corredores, com destaque para a restauração do teto, em madeira de mogno. thumb|Palácio dos Capitães Generais, uma sala de jantar. thumb|Palácio dos Capitães Generais, arcadas da pátio interior. thumb|Palácio dos Capitães-Generais: vista do jardim (fundos). thumb|Palácio dos Capitães-Generais: detalhe do jardim.
O Palácio dos Capitães-Generais, também designado por Colégio de Santo Inácio e Colégio da Companhia de Jesus, localiza-se na freguesia da Sé, no centro histórico da cidade e município de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, nos Açores.Ficha na base de dados SIPA
Trata-se de um conjunto edificado de apreciáveis dimensões onde primitivamente esteve instalado o Colégio da Companhia de JesusDe acordo com o "Modo Nostro" ditado por Inácio de Loyola, os jesuítas viviam em colégios e não em conventos ou mosteiros, marcando assim uma diferenciação que se pretendia das ordens regulares e sua vida conventual/monástica. Desse modo, "(...) os mosteiros eram substituídos pos casas, residências e colégios; as celas por cubículos (...)" (MARTINS, 2004:90) que, em 1595, foi crismado com o nome de "Colégio da Ascensão". Nesta época era constituído não apenas pelo atual edifício, mas também pelo do Colégio própriamente dito, o chamado "Pátio dos Estudos" (hoje desaparecido), o do chamado "Colégio Novo" (onde atualmente se encontra instalada a Direção Regional das Comunidades), e pela Igreja de Santo Inácio.
Enquanto a Fortaleza de São João Baptista personificou o poder militar, o Palácio dos Capitães-Generais personificou o poder civil no arquipélago. Ao longo de sua história, com mais de quatro séculos, serviu como sede do primeiro governo unificado do arquipélago (período da Capitania Geral dos Açores), como Palácio Real de Pedro IV de Portugal e de Carlos I de Portugal, como sede do Governo Militar dos Açores, e como sede da Presidência do Governo dos Açores e local de reunião do Conselho do Governo da Ilha Terceira, quando passa à posse da Região após a constitucionalização da autonomia política e administrativa dos Açores na sequência da Revolução dos Cravos no país. Entre as suas funções, na atualidade, é uma das sedes da Presidência do Governo Regional.
O Palácio dos Capitães-Generais está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1980.
História Antecedentes O estabelecimento dos Jesuítas nos Açores e na Madeira remonta a 1569, quando o regente D. Henrique instituiu dois colégios, custeados pelo erário real, em Angra e no Funchal.A Regência de D. Henrique terminara em 1568.
O Colégio dos Jesuítas de Angra foi mandado erguer por Alvará de D. Sebastião datado de 19 de fevereiro de 1570,"Apontamentos históricos relativos à parte do antigo Colégio dos Jesuítas em Angra do Heroísmo" pertencentes ao Ministério do Exército apud OLIVEIRA MARTINS, 1989:10. sendo a partida dos religiosos assim registada, no início do mesmo ano:
"Estes dias passados se partieron de aquí tres Padres y nueve Hermanos que van para la Isla de Madera a fundar el collegio (...). Cedo partirán otros tantos para la Isla de Angra y por ventura que algunos Hermanos más; partirán a quinze de Março poco más o menos"Carta do provincial Leão Henriques (natural da Madeira, e que viria a falecer em Lisboa a 27 de agosto de 1589) a São Francisco de Borja, em 28 de fevereiro de 1570. apud OLIVEIRA MARTINS, 2001:11.
Desse modo, a 1 de junho de 1570, após uma viagem tormentosa, o grupo de doze religiosos entrou solenemente em Angra, sob a liderança daquele provincial. No grupo destacavam-se ainda os nomes de Luís de Vasconcelos (reitor e mestre - ou leitor - dos casos de consciência), Pêro Gomes e Baltasar Barreiros.OLIVEIRA MARTINS, 2001:11. SOUSA (2000) compreende que o grupo era liderado pelo padre Luís de Vasconcelos.
José da Silva do Canto, que fundara na rua da Rocha (posteriormente rua de Jesus, em homenagem à Companhia) o Recolhimento e Ermida de Nossa Senhora das Neves, disponibilizou-lhes essas facilidades para nelas se instalarem. Sendo essas acomodações reduzidas, buscaram-se novas instalações, que foram encontradas numa casa no local do atual palácio, que se tornou a segunda casa da Companhia em Angra. Por Alvará passado em Almeirim a 20 de março de 1572, D. Sebastião concedeu as licenças necessárias para a construção de uma nova edificação, com traça do jesuíta Tinoco,Este arquiteto era filho do Arquiteto-mor do Reino, Pedro Nunes Tinoco. Os autores divergem, entretanto, acerca de seu nome: Souza Viterbo regista um "André Ribeiro Tinoco", filho de Pedro Nunes Tinoco, que "entrou na Ordem de Jesus" (Dicionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses); José Augusto Nogueira Sampaio refere um padre "Bento Tinoco", filho de Pedro Nunes Tinoco, como autor da traça da Igreja do Colégio dos Jesuítas em Angra(Notícia sobre a Igreja do Real Collegio dos Jesuítas em Angra do Heroísmo, Ilha Terceira dos Açores (1899). apud OLIVEIRA MARTINS, 2001:12.) e atribuiu 600$00 reis anuais para o estabelecimento e sustento dos padres da Companhia, pagos a partir desse ano pelo Provedor da Fazenda Real na Terceira, através dos rendimentos da Coroa naquela ilha SOUSA, 2000:172. As obras foram dirigidas pelo jesuíta Francisco Dias, com recurso das esmolas das principais famílias da ilha.
Na mesma época, em Ponta Delgada, João Lopes, um cristão-novo oriundo do Porto que enriquecera no comércio, legou em testamento o rendimento de trinta moios de trigo à Companhia, com a condição de também ser aberto um Colégio naquela cidade, o que aconteceria em 1592.O terceiro e último Colégio da Companhia no arquipélago foi posteriormente instalado na cidade da Horta, na ilha do Faial, em 1719.
Da Dinastia Filipina à Restauração da Independência De acordo com alguns autores, as obras do Colégio só terão sido iniciadas no contexto da Dinastia Filipina, em 1608-1609, tendo a sua ocupação se registado por volta de 1620.
Por outro lado, os "Apontamentos históricos relativos à parte do antigo Colégio dos Jesuítas em Angra do Heroísmo" pertencentes ao Ministério do Exército, referem que o conjunto foi utilizado militarmente a partir de agosto de 1582, pouco depois do desembarque das forças de António I de Portugal efetuado em 26 de julho. Aquele soberano ordenou desentaipar o imóvel, tendo feito embarcar para a Inglaterra os jesuítas que ali estavam prisioneiros desde fins de julho, substituindo-os por outros que consigo levava. O edifício foi então utilizado como enfermaria por soldados franceses do efetivo de D. António e como paiol de munições.OLIVEIRA MARTINS, 1989:10.
Com a Restauração da Independência, a partir de 21 de abril de 1641 aqui tiveram lugar as reuniões do Conselho de Guerra presididas pelo padre jesuíta Francisco Cabral, coordenando-se o assédio ao Castelo de São Filipe (atual Fortaleza de São João Baptista) até à sua capitulação, a 4 de março de 1642. A mesma fonte refere que a inauguração do Colégio deu-se em 17 de junho de 1651.OLIVEIRA MARTINS, 1989:9-10; OLIVEIRA MARTINS, 2001:27-28.
Neste período, o conjunto era integrado não apenas pelo atual edifício, então com função residencial - cuja entrada principal se dava pelo lado do atual largo do prior do Crato -, mas também pelo edifício do Colégio própriamente ditoOnde se localizavam as salas de aula e uma biblioteca com mais de dois mil volumes. - no lugar do atual largo do prior do Crato, definindo o chamado "Pátio dos Estudantes" -, e pela Igreja do Colégio. Posteriormente, em 1709, a este conjunto foi acrescentado o edifício do chamado "Colégio Novo", onde atualmente se encontra instalada a Direcção Regional das Comunidades, no largo 22 de Junho de 1828.
Com relação ao plano de estudos, seguia a parte IV das Constituições da Companhia redigidas por Inácio de Loyola no tocante às disciplinas e obras que deveriam ser estudadas. Posteriormente, a "Ratio Studiorum" foi promulgada para o Colégio de Angra, por Circular de 8 de janeiro de 1599. Os cursos aqui ministrados cobriam desde o ensino fundamental (então as primeiras letras) ao superior. Nesta última modalidade eram oferecidos os cursos de:
Letras - o mais elementar, com duração de três anos, compreendendo Gramática (latina), Humanidades e Retórica; Filosofia ou Artes - com duração de três anos e sete meses, compreendendo Dialética, Lógica, Física e Metafísica; e Teologia - o mais avançado, com duração de quatro anos, compreendendo Teologia Escolástica, Sagrada Escritura, hebraico, línguas orientais e sul-americanas (indígenas), e Casuística.
As reformas Pombalinas: a Capitania-Geral
Séculos mais tarde, no contexto das reformas Pombalinas, diante da expulsão dos jesuítas do reino de Portugal (1759), os religiosos foram expulsos dos Açores no ano seguinte (1760), tendo o Colégio da Terceira sido o último a ser abandonado, em 15 de agosto.14 de agosto cf. "Apontamentos históricos relativos à parte do antigo Colégio dos Jesuítas em Angra do Heroísmo" pertencentes ao Ministério do Exército apud OLIVEIRA MARTINS, 1989:10.Daqui partiram, na ocasião, doze religiosos, além daqueles que vinham dos Colégios no Faial e em São Miguel. Todos foram levados para a Inglaterra. Aqueles que possuíam objetos de prata de valor superior a cem mil cruzados, tiveram-nos confiscados, tendo Pombal mandado recolhê-los à Casa da Moeda de Lisboa onde foram fundidos para cunhar moeda. Desta, uma pequena parte foi remetida ao Provedor da Real Fazenda nos Açores para custear diversas obras então em curso em Angra, como o Cais da Alfândega e melhorias nas muralhas da Fortaleza de São João Baptista (OLIVEIRA MARTINS, 2001:13). Foram confiscados pela Fazenda Nacional o edifício do Colégio, o Pátio dos Estudos, a Igreja e os respectivos anexos.
Com a nova organização administrativa, civil e judicial para o Arquipélago - a Capitania Geral dos Açores -, centralizada na cidade de Angra e personificada na figura de um Capitão-General (Alvará régio de 26 de julho de 1766),2 de agosto cf. COSTA, 1867, apud OLIVEIRA MARTINS, 1989:7. o edifício da ala residencial do antigo Colégio da Ascensão passou a servir de residência aos novos governadores (Carta Régia de 26 de setembro de 1766).COSTA, 1867, apud OLIVEIRA MARTINS, 1989:7.
Por essa razão, o primeiro Capitão-general dos Açores, D. Antão de Almada (1766-1774), começou a adaptar esse edifício às funções de palácio, transformando as celas conventuais em quartos e estabelecendo algumas salas para a secretaria do Governo Geral e para a Junta da Real Fazenda na capitania, esta última instaurada em 24 de novembro de 1766 (COSTA, 1867:127). Foi encarregado do projeto dessas obras de adaptação o Sargento-mor com exercício de Engenheiro, João António Júdice, conforme planta atualmente no Ministério do Exército em Lisboa (Plantas dos Dois Pisos da Casa da Companhia de Jesus, 1767).
O segundo Capitão-general, Dinis Gregório de Melo Castro e Mendonça (1774-1793), considerando insatisfatórias as obras promovidas pelo seu antecessor no palácio, preferiu residir no palácio do Governador da Fortaleza de São João Baptista (COSTA, 1867:127).