Fernando Pieruccetti, conhecido pelo pseudônimo de Mangabeira e ocasionalmente como Luís Alfredo (Belo Horizonte, 20 de outubro de 1910 – Belo Horizonte, 23 de novembro de 2004), foi um polímata brasileiro que atuou como pintor, cartunista, chargista, ilustrador, jornalista, professor, escritor, bacharel em filosofia e pesquisador da história da educação.
Figura central no processo de introdução e consolidação do modernismo nas artes visuais em Minas Gerais, Pieruccetti imortalizou-se na cultura popular brasileira ao criar, na década de 1940, a identidade fabulística e visual dos mascotes dos principais clubes de futebol do estado (Galo, Raposa, Coelho e Leão) e, posteriormente, ao figurar como o primeiro cartunista a dar vida ao icônico "Canarinho" para representar graficamente a Seleção Brasileira de Futebol.
Fernando Pieruccetti utilizou diferentes pseudônimos ao longo de sua carreira na imprensa mineira para segmentar suas facetas profissionais. Ficou amplamente conhecido como 'Mangabeira' alcunha adotada devido ao seu hábito de pintar paisagens na região do Alto das Mangabeiras, em Belo Horizonte, onde costumava pintar na companhia do colega Edgar Valter Heibhult e sob a qual imortalizou as mascotes dos clubes de futebol do estado.
Paralelamente, assinou crônicas, artigos e ilustrações sob o codinome 'Luís Alfredo', recorrendo a uma prática editorial que era comum entre intelectuais e artistas da metade do século XX para colaborar em diferentes seções e jornais sem saturar o próprio nome. Essa estratégia permitia-lhe preservar sua identidade civil e o nome de batismo para a atuação acadêmica e a produção em artes plásticas.
Biografia Primeiros anos e juventude Pieruccetti era descendente de imigrantes italianos. Seus pais, Péricles Ricci Pieruccetti e Emma Lazzari Baroni, desembarcaram no Brasil no final do século XIX, integrando o fluxo migratório operário e comercial que se estabeleceu em Minas Gerais para trabalhar no planejamento e na edificação da recém-inaugurada cidade de Belo Horizonte. Crescendo em meio aos canteiros de obras e à efervescência urbana da cidade, Pieruccetti demonstrou talento artístico precoce, registrando em cadernos de esboços as transformações da Avenida Afonso Pena e os contornos da Serra do Curral.
Durante seus estudos secundários no tradicional Colégio Arnaldo, costumava desenhar caricaturas satíricas de seus professores, o que chamou a atenção do corpo docente pela precisão anatômica e teor humorístico de seus traços. Com a morte prematura de seu pai, o jovem assumiu o sustento de sua mãe viúva, ingressando profissionalmente na imprensa mineira no início da década de 1930 para desenhar anúncios comerciais e vinhetas tipográficas.
Buscando fundamentação teórica e técnica, transferiu-se temporariamente para o Rio de Janeiro, onde estudou e se formou na Academia Imperial de Belas Artes (AIBA). Posteriormente, retornou a Belo Horizonte e graduou-se em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), formação que influenciou profundamente sua produção escrita e metodologias de ensino.
Atuação profissional e a crônica esportiva em charge miniatura|esquerda|180px|Fauna no Mineirão por Mangabeira Sua estreia formal na imprensa ocorreu como colaborador do jornal Estado de Minas entre os anos de 1931 e 1933. Nos seus primeiros anos na imprensa de Belo Horizonte, Pieruccetti atuou de forma polivalente na produção gráfica e jornalística. Desempenhava desde funções técnicas e comerciais — como a criação de anúncios publicitários, cartazes, letreiros e diagramação de páginas — até o trabalho criativo e editorial, que englobava a elaboração de ilustrações literárias, charges políticas, crônicas textuais e as caricaturas esportivas.
Pieruccetti também atuou como desenhista pericial para a polícia de Belo Horizonte, exercendo a função de ilustrador policial em uma época na qual os recursos da fotografia forense eram limitados. Seu trabalho consistia em realizar esboços técnicos e detalhados de cenas de crimes, acidentes e necrotérios para instruir laudos periciais, além de confeccionar retratos falados de suspeitos com base no depoimento de testemunhas. Essa experiência no ambiente policial influenciou diretamente sua produção artística subsequente, refinando seu olhar para a documentação de tipos populares e da realidade urbana que caracterizaram suas obras.
Na década de 1940, a convite da direção do matutino Folha de Minas, Pieruccetti revolucionou a linguagem da ilustração esportiva no estado. Influenciado pelo traço do argentino Lorenzo Molas, ele substituiu a sisuda cobertura jornalística da época por charges que utilizavam a fauna brasileira para traduzir a identidade sociológica dos clubes de futebol: O Galo (Clube Atlético Mineiro) Símbolo do espírito combativo e popular da equipe. Em depoimento histórico gravado em 1976, o artista justificou: "O Atlético era um time de garra, que jogava com o coração. Com essas características, só o galo de rinha, que não se entrega e luta até o fim";
A Raposa (Cruzeiro Esporte Clube) Concebida em homenagem à astúcia política e administrativa do icônico presidente cruzeirense Mario Grosso, célebre por antecipar-se aos rivals no mercado de transferências;
O Coelho (América Mineiro) Uma alusão à velocidade do jogo da equipe e à coincidência histórica de haver múltiplos dirigentes com o sobrenome "Coelho" na administração do clube;
O Leão (Villa Nova Atlético Clube) Criado para o clube de Nova Lima, representando a força industrial e a tradição da equipe da Região Metropolitana, apelidada de "Leão do Bonfim";
A Tartaruga (Esporte Clube Siderúrgica) Desenvolvida para a agremiação de Sabará, numa metáfora à sua sólida e intransponível linha defensiva.
Canarinho da Seleção Brasileira miniatura|direita|160px|Primeiro Canarinho da Seleção Brasileira (1954)
Em 1954, após o trauma do Maracanaço na Copa do Mundo de 1950, a Seleção Brasileira abandonou o uniforme branco e adotou a camisa amarela desenhada por Aldyr Garcia Schlee. Pieruccetti foi o primeiro artista gráfico do país a humanizar o epíteto "Canarinho". Em suas charges para a Folha de Minas durante as coberturas das Copas do Mundo de 1954 e 1958, ele desenhou um pássaro canário antropomórfico vestindo o uniforme nacional, conceito que décadas mais tarde viria a ser oficializado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) como a identidade oficial da seleção.
Artes plásticas e o Salão de 1936 miniatura|esquerda|220px|Jornaleiros Dormindo por Pieruccetti, obra premiada em 1936 Como pintor, Pieruccetti rompeu com o academicismo vigente no início do século XX. Em 1936, participou da "1ª Exposição de Arte Moderna de Belo Horizonte", também conhecida como Salão do Bar Brasil, evento de vanguarda organizado no subsolo de um café por intelectuais alinhados ao movimento modernista nacional. Suas telas pintadas a óleo, caracterizadas pelo uso expressionista da luz, paleta de cores puras e temáticas voltadas ao trabalho operário e paisagens urbanas ásperas, foram laureadas com prêmios de estímulo e menções honrosas pelo júri técnico, consolidando seu nome ao lado de expoentes da modernidade pictórica mineira.
Nessa mostra — considerada um marco para a introdução do modernismo e da temática social nas artes plásticas mineiras —, o artista conquistou o prêmio principal com desenhos em técnica de crayon que retratavam a realidade urbana da capital. Entre as obras premiadas e celebradas pela crítica da época, figuram os trabalhos Miséria e Jornaleiros Dormindo, ambos pautados pela representação expressionista de tipos populares e populações vulneráveis.
Magistério e pesquisa acadêmica Dedicou cerca de quarenta anos de sua vida ao magistério, atuando como professor titular de desenho no Instituto de Educação de Minas Gerais (IEMG) e no Colégio Estadual Central, antigo Ginásio Mineiro. Defensor de reformas pedagógicas que estimulassem a livre expressão infantil através da arte, Pieruccetti publicou livros didáticos e infanto-juvenis, além de ensaios e monografias dedicados à preservação documental da história da educação pública mineira.
Vida pessoal e morte Pieruccetti foi descrito por seus contemporâneos como um homem de hábitos simples, intelectualmente rigoroso e avesso às dinâmicas de autopromoção. Casou-se com Enícia Magalhães Pieruccetti, com quem constituiu família e teve quatro filhos: Luiz Fernando Magalhães Pieruccetti, Edmundo Clovis Magalhães Pieruccetti, Yedda Carmelita Magalhães Pieruccetti e Eduardo Carlos Magalhães Pieruccetti. Permaneceu residindo e produzindo em sua cidade natal até sua morte, ocorrida em novembro de 2004, aos 94 anos de idade.
Prêmios e homenagens 1936 - Prêmio de Estímulo do Salão do Bar Brasil - concedido por suas primeiras telas a óleo modernistas;
1999 - Galo de Prata - a mais alta honraria institucional outorgada pelo Clube Atlético Mineiro, entregue em solenidade pública em reconhecimento à criação do símbolo do clube, elemento indissociável da cultura de massa de Minas Gerais;
Medalha da Inconfidência - concedida pelo Governo do Estado de Minas Gerais por seus méritos educacionais e preservação da memória histórica mineira.
Impacto cultural As criações de Mangabeira são frequentemente tematizadas em pesquisas de comunicação e cadernos de cultura.
Em fevereiro de 2017, a TV Globo Minas produziu e exibiu no programa Globo Esporte a série documental "Mascotes do Mineiro", que resgatou os traços originais de Pieruccetti por meio de animações digitais seguindo a ordem cronológica de transmissão: Episódio do "Galo" - recuperou entrevistas em áudio do próprio Mangabeira sobre a psicologia do animal de rinha e a bravura da equipe nas primeiras décadas do futebol mineiro;
Episódio dedicado à origem da "Raposa" do Cruzeiro - foi narrado pelo ator Jackson Antunes, evidenciando as metáforas zoológicas e a astúcia do dirigente Mario Grosso;
Episódio do "Coelho" - analisou a velocidade do jogo e o crescimento institucional aristocrático do América Futebol Clube nos anos 1940;
Episódio focado no "Leão" - contou com a narração da dupla sertaneja César Menotti & Fabiano, homenageando a força e a tradição operária de Nova Lima e do Villa Nova Atlético Clube.
Ver também Lorenzo Molas
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