O Teatro Variedades (Lisboa, 1926) é o segundo teatro a abrir no Parque Mayer, Lisboa, Portugal. Durante décadas foi um espaço de referência cultural em Lisboa, em que se apresentaram revistas, farsa, operetas, comédias, zarzuelas e todas as formas de artes performativas.
A 5 de outubro de 2024 reabriu, sob gestão da EGEAC, depois de um longo período de obras de requalificação.
História
Antecedentes e inauguração O Teatro Variedades, situado no Parque Mayer, em Lisboa, partiu da iniciativa de Luís Galhardo em 1922. Foi o segundo edifício teatral criado neste recinto lisboeta, depois do Teatro Maria Vitória. As obras do projeto, realizado por Urbano de Castro começaram em janeiro de 1924 nos terrenos onde antes existira o lago dos jardins do Palácio Mayer (Prémio Valmor 1902)
A sua inauguração ocorreu no dia , com a revista Pó de Arroz, com encenação de Rosa Mateus sendo autores os "Troianos", pseudônimo da parceira formada por Ernesto Rodrigues e Luís Galhardo. Com um elenco composto por Vasco Santana (como primeira atração) e Augusto Costa (Costinha) como compère, Madalena Melo, Maria Campos, Armindo Machado, Alves da Costa, Júlia Burgo, Manuel Saraiva, Manuel Silva, Reinaldo de Azevedo e Sebastião Ribeiro.
O dia seguinte da inauguração o teatro ficou encerrado devido o Golpe de Estado do general Oscar Carmona.
1926-1960 esquerda|miniaturadaimagem|Beatriz Costa na revista "Arre Burro!" (1936)|290x290px Na revista O Mexilhão, de 1931, Beatriz Costa e Ribeirinho popularizaram a canção O Burrié, que se tornou um imenso sucesso. Em 1936, Beatriz foi acompanhada por um burro em palco na canção Arre Burro, da revista homônima.
No inicio da década de 40, em 1941, estreia da peça Bisbilhoteira foi adiada porque o dia previsto, ficou conhecido como o dia do grande ciclone, que devastou a cabine eléctrica do Parque Mayer o que levou a que os teatros ficassem sem luz. A estreia deu-se no dia 16 de Fevereiro, e apesar de continuarem sem luz.
Em 1958, Eugénio Salvador apresentou Pernas à Vela, com Raul Solnado, Humberto Madeira, Anita Guerreiro e Júlio Barroso Lopes no elenco, que se tornou uma das suas mais elaboradas pomposas revistas como produtor. Em 1969, Anita Guerreiro estreou Cheira a Lisboa, que se tornaria uma das mais célebres e emblemáticas canções sobre Lisboa, na revista Peço a Palavra!.
Incêndio de 1966 e declínio Nos anos sessenta, os empresários Giuseppe Bastos e Vasco Morgado asseguraram em conjunto, a sua exploração, tendo então promovido uma série de renovações no seu interior.
Em 22 de novembro de 1966 deflagrou um incêndio na zona do palco do Teatro Variedades quando estava em cena a peça "Descalços no Parque" tendo ficado destruída toda a caixa do palco. As obras de reconstrução decorreram durante o ano de 1967.
Antes da revolução de 25 de abril o teatro de revista fazia critica política velada para contornar a censura. Após a revolução e com o fim da censura foi possível representar textos de crítica política direta, como aconteceu logo em 1974 na revista Ó pá, pega na vassoura, do autor e actor José Viana.
Já na década de noventa, os empresários Hélder Freire Costa e Vasco Morgado Júnior, investiram na renovação do exterior e interior deste teatro.
Em 1992, o encenador Filipe La Féria gravou para a RTP1 o programa “Grande Noite”, uma série com 26 episódios que reunia artistas que se distinguiram no Parque Mayer. Acolheu a última Revista em 1995. miniaturadaimagem|304x304px|Antigo edificio do Teatro Variedades
Reabilitação A sua desativação no final da década 90 levou a uma enorme degradação, do edificio.
Em foi anunciado que a construtora Gabriel Couto, de Famalicão, iria reabilitar o Teatro Variedades numa empreitada com o valor de cerca de cinco milhões de euros. A requalificação do espaço foi assente num conceito de intervenção global de forma a reabilitar os espaços principais e completá-los com uma nova envolvente funcional, compreendendo o exterior, acessos e áreas técnicas de apoio.
Reabriu em , após cerca de 30 anos de encerramento, com gestão da LISBOA CULTURA, e tendo como director Joaquim René.
Na reabertura são levadas a palco duas comédias do encenador e dramaturgo Ricardo Neves - Neves, nomeadamente Entraria nesta sala e The Swimming Pool Party.
Arquitetura O Teatro Variedades foi inaugurado a 8 de julho de 1926 (projeto do Arquiteto Urbano de Castro) com o espetáculo de revista “Pó de Arroz”, sendo o segundo edifício de espetáculos do Parque Mayer, espaço central da vida cultural e boémia lisboeta desde a década de 1920.
Vocacionado para o teatro de revista, afirmou-se como um dos principais palcos da comédia e revista à portuguesa, a par do Maria Vitória, Capitólio e ABC, integrando o conjunto conhecido como “Broadway lisboeta”.
O Teatro Variedades encontra-se classificado no Conjunto de Interesse Público da Avenida da Liberdade e inserido na Zona Especial de Proteção do Jardim Botânico, integrando o Plano de Pormenor do Parque Mayer.
Edifício original (1926) Implantado na face nascente do Parque Mayer, junto à Travessa do Salitre, com a fachada principal voltada ao interior do recinto. Integra um quarteirão limitado pelo Jardim Botânico e pela Praça da Alegria.
Edifício de planta regular e composição simétrica, com volumetria diferenciada em função das áreas funcionais:
caixa de palco zonas de audiência camarins
Os alçados seguem uma gramática Art Déco, visível em:
arco monumental do frontispício organização de vãos triplos verticalidade marcada por pilares frontão ziguezagueante (associado à estética dos zigurates)
A leitura original da fachada encontra-se hoje parcialmente descaracterizada pela uniformização cromática e alterações nos vãos.
Organização construtiva:
Corpo central: cobertura com respiradores e lanternim para ventilação natural Corpos laterais: mais baixos, com varandins abalaustrados Corpo sul: mantém maior autenticidade; inclui entrada de artistas e acesso técnico ao palco e oficinas Corpo norte: marquise moderna (1935) com estrutura em betão armado Corpo nascente: camarins autónomos com quatro níveis e acessos verticais
Interior
Espaço organizado em três pisos, com sucessivas alterações:
1938–39: criação de balcão e geral (Norte Júnior) 1965: ampliação da plateia e introdução de 2.º balcão
Estas transformações refletem a adaptação a novas exigências de público e espetáculo.
O Teatro Variedades foi concebido como teatro-bôite, implantado sobre um antigo lago dos jardins do Palácio Lima Mayer, integrando o projeto de transformação do Parque Mayer em espaço de entretenimento urbano.
Enquadramento no Parque Mayer
O Parque Mayer, fundado na década de 1920, afirmava-se como polo de lazer com teatros, cabarés, cafés e esplanadas, comparável a espaços internacionais de diversão como Tivoli Gardens ou Coney Island.
Evolução histórica
1924: início da construção 1926: inauguração com “Pó d’Arroz” 1927: introdução do cinema (diversificação de programação) Décadas de 1930–1960: auge da revista, com cerca de 5 espetáculos/ano 1964: acolhimento da Companhia Rey Colaço 1966: incêndio destrói a caixa de palco 1967: reconstrução com soluções técnicas modernas Décadas de 1970–1980: continuidade da revista e comédia 1990s: adaptação a televisão (ex.: “Grande Noite”, 1992) 1995: última revista Final dos anos 1990: encerramento e abandono
O declínio do teatro está associado à perda de centralidade do Parque Mayer e à transformação dos hábitos culturais urbanos.
Reformas do edifício original As principais intervenções refletem a evolução tecnológica e funcional do teatro:
1927–1932: adaptações a cinema e beneficiações iniciais 1934–1940: ampliação e modernização (cobertura metálica; novos lugares) 1938–1939: reorganização do auditório e circulações 1950: introdução de palco giratório (modernização cénica) 1965: remodelação da plateia (aumento de capacidade e visibilidade) 1966–1967: reconstrução após incêndio (materiais ignífugos, nova cobertura) 1990–1991: manutenção e adaptações técnicas
Estas intervenções contribuíram para a progressiva descaracterização do edifício original.
Novo edifício (2020–2024, Manuel Aires Mateus) A reabilitação insere-se numa estratégia de revitalização do Parque Mayer, após décadas de abandono e múltiplos planos urbanísticos não concretizados.
Projeto de Manuel Aires Mateus, baseado num conceito de: preservação dos elementos identitários simplificação formal adaptação a exigências contemporâneas
Características arquitetónicas
Preservação do pórtico, foyer, auditório e palco Integração de novos volumes funcionais discretos Reorganização das circulações e infraestruturas técnicas
Programa funcional Lotação variável (~300 lugares)
Auditório com diferentes tipologias (plateia, balcão, frisas) Palco com dimensões originais Foyer com triplo pé direito (elemento espacial central) Espaços de apoio (camarins, instalações técnicas, lounge) Acessibilidade universal
Edificio após a reabilitação
Artistas, autores, compositores e outros que passaram pelo Variedades
Espectáculos que se destacaram
1926 - Pó de arroz (revista) "Pó de Arroz" foi a célebre revista à portuguesa que inaugurou o Teatro Variedades, no Parque Mayer em Lisboa, a 8 de julho de 1926. Escrita pelos "Troianos" (pseudónimo da sociedade de Ernesto Rodrigues, José e Luís Galhardo), a peça marcou a estreia em grande destaque de figuras lendárias como Vasco Santana.
1931 - O Mexilhão (revista) "O Mexilhão" (1931) foi uma célebre peça de teatro de revista portuguesa. Estreada a 6 de novembro no Teatro Variedades, no Parque Mayer (Lisboa), ficou na história do teatro nacional e popularizou canções emblemáticas que marcaram a época.
1932 - Pim! Pam! Pum! (revista) esquerda|miniaturadaimagem|284x284px|Beatriz Costa na revista "Pim!Pam!Pum!", em 1931. A revista "Pim! Pam! Pum!" estreou em 1931. Escrita por Lino Ferreira, Lourenço Rodrigues e Fernando Santos, com música do maestro Raúl Ferrão, celebrizou-se pelo êxito nacional "O Cochicho", interpretado originalmente pela atriz e cantora Beatriz Costa.
1936 - Arre, burro! (revista) Arevista "Arre Burro!" estreou a 10 de setembro de 1936 no Teatro Variedades, no Parque Mayer em Lisboa. Tornou-se um marco do teatro de revista português, notabilizando-se por ter colocado um burro em palco ao lado da atriz principal, Beatriz Costa.
1941 - Opereta Lisboa 1900 (opereta) A opereta "Lisboa 1900" estreou em maio de 1941 no Teatro Variedades, localizado no Parque Mayer. Escrita por Francisco Ribeiro, Vieira Pinto e Alberto Reis, a peça marcou a estreia da atriz Laura Alves neste género teatral, ao lado de grandes nomes como António Silva e Ribeirinho.
1941 - Espera de Toiros (revista) A revista "Espera de Toiros" estreou a 1 de novembro de 1941 no Teatro Variedades. Produzida por Piero — bailarino, coreógrafo e mestre de encenação — a peça contou no seu elenco com grandes nomes da época como Vasco Santana, Mirita Casimiro e a participação inicial de Amália Rodrigues.
1950 - A Canção da Felicidade (peça) Em setembro de 1950, a Companhia de Comédia Brasileira estreou a peça "A Canção da Felicidade" no palco do Teatro Variedades, que chegou a dispor de um inovador palco giratório para a época.
1965 - Lições de Matrimónio (peça) Estreou a 14 de Maio de 1965, o espetáculo "Lições de Matrimónio", da autoria de Leslie Stevens e com a emblemática atriz Eunice Muñoz no papel principal, enquadrando-se no género de teatro declamado e marcando uma época áurea do teatro português.
1969 - Peço a Palavra (revista) A revista estreou a 4 de dezembro de 1969, de Paulo da Fonseca, César de Oliveira e Rogério Bracinha, com produção de Giuseppe Bastos e Vasco Morgado. Foi nesta revista que a atriz e cantora Anita Guerreiro interpretou pela primeira vez a canção intemporal "Cheira a Lisboa", da autoria de César de Oliveira e Carlos Dias.
1974 - Ó Pá, Pega na Vassoura (revista)