O Centro Cultural São Francisco está localizado no centro histórico da cidade de João Pessoa no estado da Paraíba, no Brasil.

O Centro Cultural funciona em um complexo arquitetônico formado pela Igreja e Convento de Santo Antônio, a Capela da Ordem Terceira de São Francisco, a Capela de São Benedito, a Capela da Ordem Terceira (chamada de Capela Dourada) e também a Casa de Oração dos Terceiros, o Claustro da Ordem Terceira, uma fonte e um grande adro com um cruzeiro, constituindo um dos mais notáveis testemunhos do Barroco no Brasil. Por sua importância, foi tombado pelo IPHAN. Ao ser fundado, o convento e sua igreja eram dedicados a Santo Antônio, e a mudança no uso popular do nome do prédio se deu no início do século XX, devido às reformas na capela-mor, que encobriram as 20 pinturas de seu forro com os milagres do frade português, o que levou a que gradativamente se passasse a conhecer o conjunto como Convento de São Francisco, nome adotado pelo equipamento cultural. Contudo, o conjunto ainda é conhecido também pela antiga denominação.Moraes, Ronei Marcos de. Igreja de São Francisco - Convento de Santo Antônio. Departamento de Estatística - UFPB Centro Cultural São Francisco: O barroco e o seu esplendor. Folheto do Centro Cultural São Francisco, s/dOliveira, Carla Mary S. "Imagem, doutrinação, catequese e fé: representações da vida de Santo Antônio de Pádua na iconografia franciscana da Paraíba colonial". Fênix - Revista de História e Estudos Culturais, Uberlândia, Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura, Universidade Federal de Uberlândia, v. 9, ano IX, n. 2, mai./ ago. 2012. Publicação eletrônica.

História

Suas origens remontam à chegada ao local, entre fins de 1588 e começos de 1589, do custódio Frei Melchior de Santa Catarina (c.1546-1618), incumbido de instalar uma casa franciscana, a fim de atender as solicitações feitas pelos moradores da sede da Capitania da Paraíba aos frades de Olinda desde 1587.Mueller, Fr. Bonifácio (OFM). “Origem e desenvolvimento da Província de Santo Antônio (1584-1957)”. In: Prein, Fr. Serafim (OFM) et al. Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil (1657-1957): Edição Comemorativa do Tricentenário. Recife: Provincialado Franciscano, 1957, p. 69 Oliveira, Carla Mary S. O Barroco Franciscano na Paraíba colonial: Convento de Santo Antônio. Sevilha: Universidad Pablo de Olavide/EnRedARS; João Pessoa: Editora do CCTA-UFPB, 2026, p. 19-21. Em meados de 1590 a versão mais primitiva do convento estava pronta, e a casa teve seu primeiro prelado, Fr. Antonio de Campo Maior (?-1601), nomeado em junho daquele ano.Ilha, Fr. Manuel da (OFM). Narrativa da Custódia de Santo Antônio do Brasil (1584/1621). Texto Bilíngue. Introdução, notas e tradução do latim por Fr. Ildefonso Silveira (OFM). Petrópolis: Vozes, 1975 , p. 48 left|miniaturadaimagem|Capela-mor com altar barroco original sagrado em 1734, demolido em 1908

A planta definitiva do conjunto só seria desenhada já no começo do século XVII, por Fr. Francisco dos Santos (? - c.1612), que além de arquiteto também era escultor e foi guardião do convento paraibano entre 1602 e 1605.Willeke, Fr. Venâncio (OFM) [introdução, organização e notas]. “Livro dos Guardiães do Convento de Sto. Antônio da Paraíba”. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rio de Janeiro, SPHAN/MEC, n. 16, 1968, p. 253-309 (p. 255). Contudo, sua conformação presente é resultado de várias reformas efetuadas nos séculos XVII e XVIII. A pequena edificação original de taipa, com 12 celas e um claustro, foi logo ampliada nos anos seguintes, já em alvenaria de pedra calcária retirada do próprio terreno pertencente aos franciscanos. Em 1634 foi ocupado pelos invasores holandeses, e transformado em fortificação. Depois de recuperado pelos franciscanos, foi reformado, com as obras concluindo em 1661. Nos próximos dois séculos sofreria outras intervenções, até ter a fachada da igreja concluída em 1779, data gravada no frontispício. Os interiores foram ricamente decorados, destacando-se o trabalho de azulejaria, talha dourada e pintura. O convento se tornou o maior centro franciscano ao norte de Pernambuco, tendo um papel decisivo na exploração e ocupação da região através do trabalho missionário e cultural dos frades. Sua decoração interna apresenta várias alegorias referentes a esse papel.Convento e Igreja de Santo Antônio e Casa de Oração e claustro da Ordem Terceira de São Francisco (João Pessoa, PB). IphanHistória. Centro Cultural São Francisco

O altar-mor barroco estava concluído em 31 de dezembro de 1734, quando a igreja conventual foi consagrada pelo bispo de Olinda, D. José Fialho (1673-1741), e o cônego Florentino Barbosa (1881-1958) o descreveu em 1935 como uma estrutura coberta “por talhas douradas, com suas columnas em espiraes, seu throno, seus pelicanos, e folhas de acantho, tudo coberto de ouro de lei”.Barbosa, Cônego Florentino. “O Convento de São Francisco: estudo historico e critico comprehendendo todos os períodos, desde a sua fundação até a actualidade”. Revista do Instituto Historico e Geographico Parahybano, João Pessoa, IHGP, n. 8, 1935, p. 3-24. Entre 1885 e 1894 foi usado pelo governo provincial, que instalou no convento uma escola de aprendizes marinheiros e um hospital militar.Soares Junior, Azemar dos Santos & Cury, Cláudia Engler. “Para formar o viveiro de bons marinheiros”: as companhias de aprendizes marinheiros da Parahyba e do Rio Grande do Norte (1871-1890). Revista Educação & Formação, Fortaleza, UECE, vol. 4, n. 10, 2019, p. 112-130. A posse retornou para a igreja por intervenção do 1º Bispo da Paraíba, Dom Adauto de Miranda Henriques (1855-1935) que transformou o conjunto em seminário e colégio diocesano. A capela-mor foi descaracterizada em 1908, quando o altar barroco foi demolido. A desculpa do reitor do seminário, Monsenhor Manoel Antônio de Paiva (1873-1937), foi a de que não havia verba para recuperar a estrutura carcomida por cupins, e recebeu autorização da diocese e de D. Adauto para proceder a reforma, erguendo um altar neoclássico eclético que perdurou até 1979, quando foi demolido antes de o prédio ser entregue ao IPHAN para as obras de restauro que duraram 10 anos. O seminário funcionou até 1964, e o governo estadual novamente utilizou o convento para instalar algumas instituições: o Museu do Estado da Paraíba, o Colégio Estadual do Róger e a Escola de Teatro Piollin. Em 6 de março de 1990 foi reinaugurado como Centro Cultural.

Importância artística

O conjunto arquitetônico foi considerado por Germain Bazin como o mais perfeito representante da escola franciscana de arquitetura do nordeste brasileiro.Bazin, Germain. "Uma tradição arquitetônica: a Escola Franciscana do Nordeste". In: Bazin, Germain. A Arquitetura Religiosa Barroca no Brasil - Vol. I: Estudo Histórico e Morfológico. Tradução de Glória Lúcia Nunes. Rio de Janeiro: Editora Record, 1983 , p. 137-156. Seu estilo é Barroco-Rococó. O teto da igreja é decorado com uma das mais importantes pinturas de arquitetura ilusionística do Barroco brasileiro, mostrando a cena da Glorificação dos Santos Franciscanos. A tradição a atribui a José Joaquim da Rocha (1737-1807), fundador da Escola Baiana de Pintura, mas ainda há muita polêmica a este respeito. A pesquisadora Carla Mary S. Oliveira, professora titular do Departamento de História da UFPB, em dois estudos tratando especificamente do assunto defendeu a teoria de que seu autor deve ser Manuel de Jesus Pinto (?-c.1815/1817), artífice recifense que prestou serviços à Ordem 3ª franciscana em Pernambuco, mas também já foi proposto o nome de José Teófilo de Jesus (1758-1847), outro expoente da Escola Baiana de Pintura do século XVIII e discípulo de José Joaquim da Rocha. Outros espaços também possuem importantes tetos pintados.Oliveira, Carla Mary S. [https://www.revistafenix.pro.br/revistafenix/article/view/794 "A "Glorificação dos Santos Franciscanos do Convento de Santo Antônio da Paraíba: algumas questões sobre pintura, alegoria barroca e produção artística no período colonial"]. In: Fênix – Revista de História e Estudos Culturais'', 2006; 3-III (4) Oliveira, Carla Mary S. "Circulação de artífices no Nordeste colonial: indícios da autoria do forro da igreja do convento de Santo Antônio da Paraíba". In: Fênix – Revista de História e Estudos Culturais, 2009; 6-VI (4) ''

Atualmente o claustro é a parte mais antiga, terminado em torno de 1730. Moura Filha, Maria Berthilde. "Registros dos franciscanos em Pernambuco e Paraíba: arquitetura e identidade". In: Ferreira-Alves, Natália Marinho (coord.). III Seminário Internacional Luso-Brasileiro "Os Franciscanos no Mundo Português: Artistas e Obras". vol. I. CEPESE - Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade, Rio de Janeiro, 24 a 26 de Novembro de 2008, p. 184 Revela influência mourisca e é constituído por um pátio quadrado cercado de uma galeria coberta, para onde se abrem as celas. Seus azulejos das paredes laterais são decorados com motivos fitomórficos policromos do século XVII, considerados por João Miguel dos Santos Simões (1907-1972) como, provavelmente, os mais antigos existentes no BrasilSimões, João Miguel dos Santos. Azulejaria portuguesa no Brasil: 1500-1822. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1965, p. 211. No interior da igreja e no grande adro também há vários painéis azulejados. Na nave retratam a história de José do Egito, atribuídos ao mestre português Teotónio dos Santos (1688-1762),Meco, José. "A expansão da azulejaria portuguesa". In:Oceanos, Lisboa, out. 1998/mar. 1999 (36/37): 08-17Meco, José. Azulejaria portuguesa. 3. ed. Lisboa: Bertrand, 1989.Oliveira, Carla Mary S. "Kunstwollen, alegoria e cultura histórica barroca: José do Egito e o franciscanismo nos azulejos portugueses do convento de Santo Antônio da Paraíba (século XVIII)". In: Honor, André Cabral (org.). Estudos de Azulejaria na Monarquia Pluricontinental Lusitana. Sevilha: Universidad Pablo de Olavide/ EnRedArs, 2024, p. 94-112. e no adro, cenas da Paixão de Cristo, de autoria de Policarpo de Oliveira Bernardes (1695-1778). A fachada, em triângulo escalonado, com uma galilé de cinco arcos na base, é ornamentada com motivos vegetais, predominando o caju, uma árvore comum no nordeste. O púlpito da igreja foi considerado pela Unesco único no mundo pelo esplendor da sua talha. alt=Azulejos - Saga de José do Egito - Convento de Santo Antônio da Paraíba|miniaturadaimagem|Painel de azulejos com a cena José interpreta os sonhos do copeiro e do padeiro, Teotónio dos Santos, c. 1730

Muito já foi escrito sobre a construção, considerada uma obra de arte desde o início, e Carla Mary Oliveira afirmou que já foram usados os adjetivos de "harmonia, formosura, graciosidade, grandiosidade" para louvá-la. E para ela, "é certo que até hoje ela emociona quem chega aos pés do cruzeiro monumental, à entrada do adro". Mário de Andrade, admirado, assim o descreveu: