A língua aquém, também chamada de acuen ou akwen, é uma língua ou grupo de línguas pertencente ao tronco linguístico macro-jê. A língua se divide em três dialetos: xavante (ativo), xerente (ativo) e xakriabá (extinta - em processo de resgate). Apesar de ser falada pelos xavantes, ela se difere da Língua otí, falada pelos oti-xavantes. O número de falantes total é desconhecido, principalmente pela falta de estudos recentes e de dados sobre falantes do dialeto xakriabá, mas estima-se que possua 2,570 falantes do dialeto xerente e 19,000 falantes do xavante.
A língua aquém é falada pelos xavantes, povo indígena que vive atualmente em reservas no centro-oeste do Brasil; pelos xerentes, que ocupam o território central do estado do Tocantins; e pelos xakriabás, residentes no norte do estado de Minas Gerais. Cada etnia possui seu próprio dialeto, o qual é inteligível pelos demais.
Etimologia Os povos xavantes, xerentes e xakriabás se autodenominam a'uwe (“gente”) e, a partir disso, acredita-se ter originado o nome da língua.
Distribuição Geográfica Atualmente, existem três povos que falam a língua aquém.
Povo Xavante
Foi contabilizado, em 2020, mais de 22 mil pessoas abrigadas em Terras Indígenas localizadas na região compreendida pela Serra do Roncador e pelos vales dos rios das Mortes, Kuluene, Couto de Magalhães, Batovi e Garças, no leste matogrossense. Estima-se ter 19.000 falantes (2010).
Povo Xerente
O território Xerente - composto pelas Terras Indígenas Xerente e Funil - localiza-se no cerrado do Estado do Tocantins, na banda leste do rio Tocantins, 70 km ao norte da capital, Palmas. Estima-se que a comunidade possua 3509 pessoas.
Povo Xakriabá alt=Foto de floresta do território indígena do povo xerente com incêndio sendo apagado por bombeiro de amarelo no canto direito.|miniaturadaimagem|398x398px|Terra Indígena Xerente, Tocantins Localizada em São João das Missões, município no norte de Minas Gerais, a Terra Indígena Xakriabá foi homologada em 1987, e posteriormente, em 2003, foi acrescentada em área contínua a TI Xakriabá Rancharia. Apesar da população estimada ser 8867 (Siasi/Sesai, 2014), é importante ressaltar que muitos xakriabás não falam a língua aquém fluentemente.
Todos os povos estão sofrendo pelos danos causados pela agropecuária e pelo desgaste ambiental de seus territórios, causando desde extinção dos animais de caça de subsistência até perda do território para construção de rodovias.
História da Língua
A história sobre a divisão desses povos é repleta de divergências entre os autores. Oswaldo M. Ravagnani sugere que “Xerente e Xavante são subdivisões de um único grupo que no início do século XIX formavam dois grupos distintos, mas culturalmente muito próximos”. Segundo a versão mais aceita, o nome Xerente lhes foi atribuído por não-indígenas, visando sua diferenciação dos demais Akwe, particularmente, em relação aos Xavante. Essa denominação foi criada devido aos considerados Xavantes se recusarem ao contato com os não-indígenas e, por isso, sendo descritos como ferozes e bárbaros. Já os Xerentes se mantiveram em seu território, sendo, supostamente, favoráveis ao convívio e desejosos do contato com os não-indígenas. No caso do povo Xakriabá, seu nome originou devido ao fato de que eles eram conhecidos por serem exímios remadores: xakriabás significa “bons de remo”.
Há algumas fontes que subdividem a língua aquém em línguas xavante, xerente e xakriabá. Outras consideram que é uma língua com três dialetos, em consonância ao modo como os próprios povos identificam sua língua: como sendo uma única língua, a língua aquém.NETO, M. G.;CAMPOS, I. S.; LEITE, H. A. L.; SOUZA, J. A.. A ÚNICA HERANÇA QUE UM ÍNDIO DEIXA PARA OUTRO ÍNDIO É A LUTA: A HISTÓRIA DA LÍNGUA AKWEN DO POVO XAKRIABÁ. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Formação Intercultural para Educadores Indígenas - habilitação Matemática) - Universidade Federal de Minas Gerais.
A situação da língua diverge entre os povos. Enquanto os xerentes e o xavantes a mantêm com vitalidade, os xakriabás correm risco do apagamento do seu dialeto. Esses dois primeiros povos possuem uma atmosfera cultural, na qual a língua é mantida e retransmitida para as novas gerações até mesmo por meio da escola. A língua é usada em todos os contextos cotidianos da vida nas aldeias. O risco sofrido pelo dialeto xakriabá tem como causa a grande repressão que seu povo sofreu, o que provocou o apagamento da língua na comunidade."Nosso povo Xakriabá teve várias ameaças pelos não índios para que nosso povo não praticasse a linguagem, ameaça de morte aqueles que se identificasse que sabia falar a língua xakriabá, aqueles já era retirado do grupo se abrisse a boca pra falar alguma coisa que referisse a nossa cultura, falasse na língua, aquele índio era executado não deixava ele sobreviver. Então nesse tempo muitos que saía em busca dos nossos direitos já não voltava mais devido eles chegar lá e apresentar uma atividade que era da cultura, aí fomos obrigados a falar o português, não por causa que nos achou interessante o português e quis aprender, e deixar de falar nossa linguagem." (Entrevista José Araújo/Deda Xakriabá 17/04/2017) Por isso, o dialeto xakriabá está em risco de extinção e considerado por algumas fontes já extinto. Isso fez com que a comunidade se organizasse para a revitalizar o dialeto."Percebendo a necessidade de trabalhar a nossa língua dentro da sala de aula, os professores procuraram meios de registrar palavras na nossa língua, onde conseguiram registrar 32 palavras, faladas por Zé Alves que estão escritas em um livro produzido pelo nosso povo Xakriabá “O tempo passa e a história fica” sendo o autor Zé Nunes, o atual prefeito do nosso município São João das Missões e também aluno da primeira turma. Com essas palavras, os professores começaram a trabalhar nas escolas a nossa língua de várias formas para que os alunos se dedicassem para aprender. Uma delas mais trabalhada até hoje, é através das músicas na língua, muitas delas produzidas pelos próprios alunos com a ajuda dos professores."
Língua oficial alt=Foto com 5 pessoas em primeiro plano se cumprimentando (uma mulher indígenas com adereços típicos da cultura, um homem indígena com adereços típicos da cultura, uma mulher branca na faixa dos 60 anos e dois homens brancos entre 60 a 70 anos). Ao fundo, automóvel van branca e terreno não asfaltado com vegetação.|miniaturadaimagem|290x290px|Visita do Programa Criança Feliz em aldeia indígena Xerente no município de Tocantínia-TO (16-10-2017) Em abril de 2012, foi aprovada, na câmara de vereadores de Tocantínia, em Tocantins, a oficialização da língua indígena akwén xerente como a segunda língua oficial no município.http://conexaoto.com.br/2012/04/25/tocantinia-passa-a-ter-akwe-xerente-como-lingua-co-oficial-e-recebe-centro-de-educacao-indigena Nesta cidade, estima-se que aproximadamente 50% de seus 6 598 habitantes sejam indígenas da etnia xerente. Com a aprovação, o município passou a ser o quarto do Brasil a ter línguas indígenas do Brasil como línguas oficiais. Na justificativa do projeto, os vereadores alegaram que ele, na prática, significa que a prestação de serviços públicos básicos na área de saúde, campanhas de prevenção de doenças e tratamentos, passaram a ser realizados em akwén e em português.
Dialetos Como citado anteriormente, a língua aquém é dividida entre os três dialetos: xavante, xerente e xakriabá. Entretanto, como comentado no tópico anterior e percebido na tabela abaixo, algumas referências separam os dialetos como línguas independentes. +Códigos de línguaDialetoISO 639-3GlottocodeXavantexavxava1240Xerentexerxere1240Xakriabaxkrxakr1238 +Tabela Comparativa Xavante-Xerente-XakriabáMOTA, Liliane Rodrigues. Estudo sobre o léxico Akwe Xakriabá: uma proposta de escrita e uma chamada para a revitalização da língua. 2020. XavanteXerenteXakriabáPortuguêsti'atkatikaterramisismi*sihemeretongumda'rakrai*(gra)filhoda'rada(i)krdaangrataavôtebetbetupepeixewedewdeode*árvore
Fonologia
Os dados abaixo se referem ao dialeto Xavante. Vogais
Há doze fonemas vocálicos em xavante, quatro dos quais são nasalizados.Pickering, William Alfred. A fonologia xavante: uma revisitação. (2010).
+Fonemas vocálicos orais e nasais da língua aquémAnteriorCentralPosteriorFechadai; Semifechada MédiaSemiaberta ʌ̃Aberta, +Relação entre Fones e Fonemas com Diferentes Grafias FonemaFoneGrafia MSMGrafia SIL atual/i/[i]ii/ĩ/[ĩ]ĩĩ/e/[e]ee/ɛ/[ɛ]éé/ẽ/[ẽ]ẽẽ/ɜ/[ɜ]öâ/a/[a]aa/ɐ̃/ [ɐ̃] ãã/u/[u]uu/o/[o]ôô/ʌ/[ʌ]oo/ʌ̃/[ʌ̃]õõ
Consoantes O Xavante tem onze fonemas consonantais e três fones. (William Alfred) + Inventário consonantal da língua aquémBilabialAlveolarPalatalGlotalPlosiva NasalVibranteFricativa Lateral ̃j +Relação entre Fones e Fonemas com Diferentes Grafias FonemaFoneGrafia MSMGrafia SIL atual/p/[p]pp/b/[b]bb[m]mm/t/[t]tt/d/[d]dd[n]nn/s/[s]tss/z/[z]dzz[̃j]nhnh/j/[j]ii/ɾ/[ɾ]rr/w/[w]ww/h/[h]hh/ʔ/[ʔ]''
Tons Existe algumas características específicas do tom no dialeto xavante. As locuções declarativas têm entonação cadente, ou seja, o tom ou nível da voz é mais baixo ao final da locução do que ao princípio. As locuções ativas descrevem uma configuração entonacional nível baixo-alto-baixo. Cai o nível no marcador interrogativo e em princípios da pergunta; depois sobe e finalmente desce progressivamente até ao fim da pergunta. Outro ponto é que, para fins enfáticos, prolonga-se a penúltima sílaba de uma locução. Quanto mais prolongada a sílaba, maior a ênfase. Tal característica não é indicada na grafia. Além disso, as vogais i, ĩ e u são pronunciadas com tom mais alto que as outras.
Ortografia A forma do alfabeto latino usada pela língua xavante tem as vogais i; ĩ; e; é; ẽ; â; a; ã; u; ô; o; õ, y e as consoantes p; b; m; t; d; n; s; z; nh; i; r; w; h; '.
Vogais
i: pronuncia-se como em ‘tia’
é: pronuncia-se como em ‘pé’
a: pronuncia-se como em ‘lá’
o: pronuncia-se como em ‘avó’ (Quando prolongada, esta vogal se fecha ligeiramente)
ô: pronuncia-se como em ‘avô’
u: pronuncia-se como em ‘tu’
e: pronuncia-se como em ‘você’
y: pronuncia-se semelhantemente à vogal da palavra inglesa ‘just’ quando atônica
â: pronuncia-se semelhantemente a vogal ‘a’ da locução inglesa 'a boy'
Vogais com "~" são nasalizadas e todas elas possuem nasalizações bem definidas. Toda vogal após m, n, mr ou nh inicial na sílaba é nasalizada mesmo que a nasalização não se indique por escrito.
Consoantes
p,t: quando iniciais na sílaba são mais aspirados que em português
': pronuncia-se como a interrupção na interjeição inglesa 'oh-oh'
t,d: pronuncia-se com a mesma posição da língua que em português
s: pronuncia-se como em português; em alguns ambientes com um pouco de fricção, por exemplo, antes da vogal i
z: pronuncia-se como em 'zangado'
r: pronuncia-se como em ‘caro’
w: antes da letra ‘i’ é pronunciado como o ‘w’ inglês, sem arredondamento dos lábios e com um pouco de fricção. Em outros ambientes não há fricção e os lábios se arredondam mais
h: pronuncia-se como na palavra inglesa ‘ahead’ (i.e. -rr- português em frouxo)
b, d, m, n, nh: pronunciados como em português
Gramática Todas as informações abaixo são do dialeto xavante.
Pronomes Pronomes Pessoais
A língua Xavante possui dois pronomes pessoais (o de primeira pessoa "wa" e o de segunda pessoa "a"). Os demonstrativos õ, ta e õhõ, suprem a falta de pronomes pessoais para terceira pessoa. A partícula enfática hã é usada para marcar quando pronomes pessoais ocorrem como sujeito e como objeto direto.Tsipré, Eliseu Waduipi. "Concordância de número em Xavante: contribuições de um falante nativo para o conhecimento linguístico de sua própria língua." (2019).
Exemplos:
Singular
Wa hã a'uwẽ 'sou Xavante'
A hã a'uwẽ 'você é Xavante'
Ta hã a'uwẽ 'ele é Xavante'
Plural
Wa norĩ hã a'uwẽ 'nós somos Xavante'
A norĩ wa'wa hã a'uwẽ 'vocês são Xavante'
Ta norĩ hã a'uwẽ 'eles são Xavante'
Dual
Wa zahuré a'uwẽ 'nós dois somos Xavante'