Enrico Ferri (1856 – 1929) foi um criminologista e político socialista italiano. Juntamente com Cesare Lombroso e Raffaele Garofalo, é considerado um dos fundadores da Escola Italiana de Criminologia Positivista. Estes pesquisadores causaram uma ruptura epistemológica nas Ciências Jurídicas ao propor que estas também deveriam utilizar o método positivo experimental próprio das ciências naturais. Ferri abordou o direito e ordem jurídica como uma ciência social que deveria ser estudada pela observação da sociedade. Concluiu com suas pesquisas que o objetivo do sistema penal deveria ser a neutralização dos criminosos através da prevenção dos delitos.STRONATI, Monica. Enrico Ferri - Il Contributo Italiano alla Storia del Pensiero – Diritto, 2012. Disponível em Treccani - L’Inciclopedia Italiana. Acessado em 14 de outubro de 2014. Foi autor de obras clássicas de criminologia como Sociologia Criminal de 1884 nas quais estudou os fatores econômicos e sociais que propiciavam o comportamento criminoso. Sua obra influenciou o código penal de diversos países europeus e latino-americanos. Foi também político filiado ao Partido Socialista Italiano e editor do jornal Avanti!, órgão oficial do partido. Embora tenha inicialmente rejeitado o fascismo, após a subida ao poder do ditador italiano Benito Mussolini, tornou-se um dos seus mais famosos apoiadores fora do Partido Fascista.

Biografia Nasceu em San Benedetto Po, perto de Mântua, Lombardia, em 25 fevereiro de 1856.Marxist Internet Archives. Disponível em Marxist Internet Archives. Acessado em 15 de outubro de 2014. De origens modestas, era filho de Eraclio Ferri e da Colomba Amadei.SIRCANA, Giuseppe. Enrico Ferri in Dizionario Biografico degli Italiani - volume 47, Roma, 1997. Disponível em Treccani - L'Inciclopedia Italiana - Dizionario Biografico. Acessado em 14 de outubro de 2014.

Frequentou o ensino médio no Liceo Classico Virgilio em Mântua, onde foi aluno do filósofo Roberto Ardigò, o maior expoente do positivismo italiano, que exerceu grande influência na sua formação.

thumb|Portici di Via Zamboni na Universidade de Bolonha Estudou Direito na Universidade de Bolonha em um ambiente acadêmico onde predominavam as ideias positivistas. Formou-se em 1877, sendo orientado por Pietro Ellero na tese de láurea denominada A Teoria da Imputabilidade e a Negação do Livre-arbítrio (La Teorica dell'Imputabilità e la Negazione del Libero Arbitrio) publicada em 1878. Completou sua educação com um curso de especialização em direito penal na Universidade de Pisa no qual teve aulas com o famoso jurista da escola clássica de criminologia Francesco Carrara. Em 1879 foi complementar seus estudos na Universidade de Paris-Sorbonne. Teve aulas de medicina legal com Cesare Lombroso.

Após obter a livre docência na Universidade de Turim em 1880, Ferri foi indicado por Pietro Ellero para ocupar a cátedra de direito penal que deixara vaga na Universidade de Bolonha. A sua palestra inaugural feita em Bolonha em 6 de dezembro de 1880 (I Nuovi Orizzonti del Diritto e della Procedura Penale, publicado em 1881) expôs os fundamentos da criação da escola positiva de criminologia, os quais foram anunciados formalmente ao assumir uma outra cátedra na Universidade de Siena em 18 de novembro 1882.

Em 1881 juntou-se à equipe editorial da revista fundada por Cesare Lombroso e outros denominada "Archivio di Psichiatria, Scienze Penali ed Antropologia Criminale per servire allo Studio dell’Uomo Alienato e Delinquente" (Arquivo de Psiquiatria, Ciências Penais e Antropologia Criminal para servir ao Estudo do Homem Alienado e Criminoso").

Por indicação de Filippo Serafini, foi convidado para ocupar a cátedra anteriormente ocupada por Francesco Carrara na Universidade de Pisa.POZZOLINI, Alfredo. Lezione Commemorativa di Enrico Ferri: Detta in Pisa nell'aula III dela sapienza, il XVI aprile MCMXXIX. Pisa: Arti-Grafiche Pacini-Mariotti, 1929. 19 p. Disponível em Centro Servizi Archivio Storico Universitario di Bologna . Acessado em 14 de outubro de 2014.

Foi livre docente de direito penal e depois de direito civil na Universidade de Roma “La Sapienza”, onde em 1912 fundou a Escola de Aplicação Jurídico-Criminal (Scuola di Applicazione Giuridico–Criminale). De 1895 a 1905, ministrou cursos na Universidade Livre de Bruxelas e Universidade de Paris-Sorbonne. thumb|Igreja de Sant'Ivo alla Sapienza, sede da Universidade de Roma La Sapienza até 1935.

Atuou como advogado de defesa em vários processos famosos, tais como o de Tullio Murri (advogado socialista acusado de homicídio em 1905BABINI, Valeria. Il caso Murri - Una Storia Italiana. Il Mulino, 2004, pag. 309. Disponível em Donne e conoscenza storica. Acessado em 16 de outubro de 2014.), o de Violet Gibson (que tentou matar Benito MussoliniCARNEY, Phil. Enrico Ferri in Fifty Key Thinkers in Criminology, edited by Hayward, Keith; Maruna, Shadd and Mooney, Jayne. New York, Routledge, 2010, pp. 36-41.), até o seu último caso, o julgamento de Vincenzo Saponaro (padre acusado de parricídio em 1928).Noicattaroweb - La Voce del Paese - Presenta il libro Missa Est. Acessado em 16 de outubro de 2014.

Foi através da reputação obtida como advogado de defesa que Ferri entrou na política. Os líderes da revolta de camponeses assalariados conhecida como La Boje foram levados a julgamento em Veneza em 1886. Contra todas as expectativas, Ferri conseguiu a absolvição dos camponeses de MântuaPASSANITI P. Diritto, Lavoro e Sciopero. Il Processo ai Contadini Mantovani de “La Boje!”, in Processo Penale e Opinione Pubblica, 2008, pp. 343-76, apud STRONATI, Monica. Enrico Ferri - Il Contributo Italiano alla Storia del Pensiero – Diritto, 2012. Disponível em Treccani - L’Inciclopedia Italiana. Acessado em 14 de outubro de 2014. expondo a condição social dos réus como motivante do crime. Com isto angariou fama de socialista e prestígio político entre operários e camponeses.SIRCANA G. Enrico Ferri in Dizionario Biografico degli Italiani, Instituto della Enciclopedia Italiana, 47° vol., Roma, 1997, p. 139. Disponível em [Treccani - L’Inciclopedia Italiana, Dizionario-Biografico, Enrico Ferri]. Acessado em 14 de outubro de 2014.

Foi eleito deputado para o parlamento italiano em 1886 pelo distrito eleitoral de Gonzaga em Mântua como radical sem partido.

Em 1893, Ferri uniu-se ao recém-formado Partido Socialista Italiano. Assumiu em 1898 provisoriamente o cargo de editor do jornal Avanti!, órgão oficial do Partido Socialista Italiano, atuando com coragem em um momento de grande repressão política aos socialistas. Posteriormente foi editor definitivo do Avanti! de 1903 a 1908, aumentando a influência e circulação deste diário de notícias. Em 1908, seu prestígio político no Partido Socialista Italiano tinha diminuído, mas ainda tinha muito prestígio como jurista. Renunciou então ao cargo de editor do Avanti! e partiu para realizar uma série de conferências sobre criminologia e Direito na América Latina.

Ferri declarou-se a favor da guerra na Líbia em 1912, o que causou a sua renúncia ao mandato de deputado e desfiliação do Partido Socialista Italiano. Posteriormente voltou a ser eleito deputado como socialista independente. Defendeu de maneira dúbia a neutralidade italiana durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1919 foi reeleito deputado e, em 1921, filiou-se ao Partido Socialista Unitário.

Em 1919, o Ministro da Justiça Lodovico Mortara nomeou-o presidente da comissão para a reforma do Código Zanardelli, o código penal italiano de 1899, em vigor no Reino da Itália desde 1890.

Em março de 1927, Ferri voltou às manchetes como defensor de Violet Gibson, inglesa de família nobre que tentou matar Benito Mussolini. O processo terminou com a absolvição da ré por razões de insanidade, embora o próprio Ferri considerasse que as suas tendências ao suicídio e criminalidade a tornassem perigosa o suficiente para ser privada de sua liberdade pessoal.

Com a ascensão do fascismo, passou a apoiar o regime de Benito Mussolini. Não se filiou ao Partido Nacional Fascista, mas redigiu obras em louvor do fascismo e de Benito Mussolini.

Seu prestígio perante os fascistas italianos era tanto que foi nomeado para o cargo honorário de senador em 2 de março de 1929. Entretanto morreu em Roma em 12 de abril de 1929 antes de tomar posse.

Pensamento Jurídico Ferri, juntamente com Cesare Lombroso e Rafaele Garofalo, é considerado um dos fundadores das escola positivista de criminologia.

Os estudos de Ferri levaram-no a postular teorias de que os métodos de prevenção de crimes deveriam ser o pilar para o cumprimento da lei, em oposição à punição de criminosos após haverem cometido seus crimes.

Compartilhou com Lombroso a crença nas características fisiológicas de criminosos, contudo, concentrou-se no estudo das suas características psicológicas, as quais acreditava contribuírem para o desenvolvimento do crime em um indivíduo. Essas características incluíam gírias, grafia, símbolos secretos, literatura e arte, assim como a insensibilidade moral e "uma certa falta de repugnância à ideia de execução da ofensa, antes de cometê-la, e a falta de remorso após realizá-la".

Ferri argumentou que religião, amor, honra e lealdade não contribuem para evitar o comportamento criminoso, pois são ideias muito complexas para terem um impacto definitivo no senso moral básico de uma pessoa. Ferri argumentou que outros sentimentos, tais com ódio, busca do amor e vaidade têm maior influência, pois têm maior poder sobre o senso de moral da pessoa.

Ferri resumiu sua teoria definindo a psicologia dos criminosos como uma "resistência defeituosa às tendências e pecados criminais, devido a essa impulsividade mal controlada que caracteriza crianças e animais".

Quanto às escolas de criminologia, Ferri se colocava entre Francesco Carrara, que foi "o ponto de chegada, embora altíssimo, de uma tradição agora esgotada"SBRICCOLI, M., Storia del Diritto Penale e della Giustizia - Scritti editi ed inediti (1972-2007), Milano, 2009, p. 907, apud STRONATI, Monica. ‘‘Enrico Ferri - Il Contributo Italiano alla Storia del Pensiero – Diritto’’, 2012. Disponível em Treccani - L’Inciclopedia Italiana. Acessado em 14 de outubro de 2014. (a escola clássica de criminologia), e o avanço tecnicista de Arturo Rocco, segundo o qual "a tarefa principal (se não exclusiva) da ciência do direito penal deveria ser elaboração técnico-jurídica de um direito penal positivo e vigente, o conhecimento científico, e não meramente empírico, do sistema de direito penal como é em virtude das leis que nos governam".FERRI, Enrico. Principii di Diritto Criminale. Delinquenti e delitto nella scienza, legislazione, giurisprudenza: in ordine al codice penale vigente, progetto 1921, progetto 1927, Torino 1928, p. 573, apud STRONATI, Monica. ‘‘Enrico Ferri - Il Contributo Italiano alla Storia del Pensiero – Diritto’’, 2012. Disponível em Treccani - L’Inciclopedia Italiana. Acessado em 14 de outubro de 2014.</ref>

Formação do Pensamento Jurídico de Ferri

As aulas que teve ainda jovem no Liceo Classico Virgilio com o filósofo Roberto Ardigò foram uma grande influência para que aderisse desde a juventude à corrente de pensamento positivista. A outra grande influência inicial foram as aulas de Pietro Ellero no curso de Direito da Universidade de Bolonha. o qual defendia que a pena aplicada na condenação de criminosos tinha como o objetivo de prevenção de novos crimes, e não a expiação destes.