Isabel do Brasil (Rio de Janeiro, – Eu, ), cognominada "a Redentora", foi a Princesa Imperial e herdeira presuntiva ao trono do Império do Brasil, que serviu como regente do Império em três ocasiões diferentes — numa delas, assinou a Lei Áurea, que declarou extinta a escravidão no Brasil. Era a filha mais velha do imperador D. Pedro II e da imperatriz D. Teresa Cristina, que após a morte de seus dois irmãos homens na infância, foi reconhecida como herdeira presuntiva de seu pai. O fato de ser mulher, seu forte catolicismo e casamento com um príncipe estrangeiro foram vistos como impedimentos contra ela, juntamente com a emancipação dos escravos, que gerou descontentamento entre ricos fazendeiros.
A princesa serviu três vezes como regente do império enquanto seu pai viajava pelo exterior. Isabel promoveu a abolição da escravidão durante sua terceira e última regência e acabou assinando a Lei Áurea em 1888. Apesar da ação ter se mostrado amplamente popular, houve forte oposição contra sua sucessão ao trono. A própria personalidade de Isabel a distanciou da política e de quaisquer confrontos com seu pai, ficando satisfeita com uma vida calma e doméstica. Casou-se em 1864 com o príncipe francês Gastão de Orléans, Conde d'Eu, com quem teve quatro filhos: Luiza Vitória, Pedro de Alcântara, Luiz e Antonio.
A monarquia brasileira foi abolida em 1889 e ela e sua família foram exilados por um golpe militar. Após a morte de seu pai em 1891 (dois anos após a proclamação da República) Isabel foi reconhecida pelos monarquistas brasileiros como a pretendente ao extinto trono do Brasil até sua morte em 1921 (período correspondente aproximadamente às três primeiras décadas da República Velha, do Governo Floriano Peixoto ao Governo Epitácio Pessoa). Isabel passou seus últimos trinta anos de vida vivendo calmamente na França.
Início de vida Nascimento thumb|left|Isabel c. 1851. Esta provavelmente é a primeira fotografia da princesa. Isabel nasceu às 6 horas e 25 minutos do dia no Palácio de São Cristóvão, Rio de Janeiro, Império do Brasil. Era a segunda filha, a primeira menina, do imperador D. Pedro II e sua esposa a imperatriz D. Teresa Cristina das Duas Sicílias. Ela foi batizada em 15 de novembro de 1846 durante uma elaborada cerimônia na Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Seus padrinhos foram seu tio paterno o rei D. Fernando II de Portugal e sua avó materna a infanta Maria Isabel da Espanha. Ela foi oficialmente batizada como "Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga", Seus nomes são parte de tradição familiar, Micaela, Gabriela e Rafaela são os três Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael; Isabel e Cristina sendo dados em homenagem a sua avó materna e sua mãe, respectivamente.
Através de seu pai ela pertencia ao ramo brasileiro da Casa de Bragança, sendo referida desde seu nascimento com o prefixo honorífico de "Dona". Isabel era neta do imperador D. Pedro I do Brasil (que também brevemente reinou Portugal e Algarves em 1836 como rei Pedro IV) e sobrinha da rainha D. Maria II de Portugal, esposa de Fernando II. Por sua mãe também era neta do rei Francisco I das Duas Sicílias e sobrinha do rei Fernando II das Duas Sicílias.
Ao nascer, a princesa tinha um irmão mais velho chamado D. Afonso Pedro, que era o herdeiro aparente do trono brasileiro. Seguiram-se outros dois irmãos: D. Leopoldina em 1847 e D. Pedro Afonso em 1848. A morte de Afonso Pedro em 1847 com apenas dois anos e meio fez com que Isabel se tornasse a herdeira presuntiva de seu pai. Ela brevemente perdeu o posto com o nascimento de Pedro Afonso. A morte deste em 1850 deixou Isabel definitivamente como a herdeira do imperador e lhe fez receber o título de Princesa Imperial, o título normalmente dado para o primeiro na linha de sucessão. O início de vida de Isabel foi um período de paz e prosperidade no Brasil. Seus pais lhe deram um crescimento feliz e saudável. Ela e Leopoldina "cresceram em um ambiente seguro e estável dramaticamente diferente daquele que seu pai e tias tinham conhecido, e anos-luz longe do caos da infância de D. Pedro I".
Herdeira thumb|Isabel em 1858 A morte de ambos os seus filhos homens em uma idade tão jovem teve um enorme impacto em D. Pedro. Além de sua dor pessoal, a perda dos filhos afetou sua conduta como monarca e acabaria por décadas depois afetar o destino do Brasil. A morte dos filhos parecia aos olhos do imperador prever o eventual fim do sistema imperial. O futuro da monarquia como instituição não mais o preocupava, com ele cada vez mais durante o restante da vida vendo sua posição como nada além do que um Chefe de Estado.
As palavras de D. Pedro revelavam sua convicção interna. Ele escreveu ao saber sobre a morte de seu filho Pedro Afonso: "Este tem sido o golpe mais fatal que eu poderia receber, e certamente eu não teria sobrevivido não fosse que ainda tenho uma esposa e duas crianças quem eu preciso educar para que elas possam garantir a felicidade do país em que nasceram". Sete anos depois em 1857, quando estava mais do que claro que ele e Teresa Cristina não teriam mais filhos, o imperador escreveu: "Quanto à educação só direi que o caráter de quaisquer das princesas deve ser formado tal como convém a senhoras que talvez poderão ter que dirigir o governo constitucional de um império como o Brasil".
Apesar de legalmente D. Pedro ainda ter uma sucessora em Isabel, a sociedade da época dominada por homens lhe deixou com poucas esperanças de que uma mulher pudesse governar o país. Ele gostava e era respeitoso com as mulheres de sua vida, porém não considerava possível que a filha conseguisse sobreviver como monarca dadas as realidades políticas. Para o historiador Roderick J. Barman, o imperador "não conseguia conceber mulheres, suas filhas inclusas, tendo qualquer papel no governo [...] Consequentemente, apesar de valorizar D. Isabel como sua filha, ele simplesmente não podia aceitar ou vê-la em fria realidade como sua sucessora ou como um governante viável". A principal razão disso era a atitude com o gênero feminino. "Pedro II acreditava, como a maioria dos homens de seu tempo", escreveu Barman, "que uma única mulher não poderia lidar com os problemas de vida por conta própria, mesmo que ela possuísse os poderes e autoridade de uma imperatriz".
Educação Isabel começou sua educação em 1 de maio de 1854 quando foi ensinada a ler e escrever em português por um professor homem, que também era um republicano confesso. As tradições da corte portuguesa e depois brasileira exigiam que o herdeiro do trono tivesse um aio (supervisor, tutor ou governante) que ficaria encarregado da educação a partir dos sete anos de idade. Luísa Margarida de Barros, Condessa de Barral, filha de um nobre brasileiro e esposa de um nobre francês, foi eventualmente escolhida por D. Pedro depois de uma longa procura. Ela oficialmente assumiu sua posição em 9 de setembro de 1856, quando Isabel tinha dez anos de idade. Barral tinha então quarenta anos de idade e era uma mulher charmosa e vivaz que logo conquistou o coração da princesa, tornando-se uma espécie de modelo para a jovem menina.
Nas palavras do próprio D. Pedro, a educação de suas duas filhas "não deve diferir da que se dá aos homens, combinada com [o que convém] a do outro sexo: mas de modo que não sofra a primeira". Ele "deu às filhas uma educação ampla, democrática e rigorosa, através tanto do currículo quanto dos professores que o ensinavam". Isabel e Leopoldina estudavam por mais de nove horas e meia por dia e durante seis dias por semana. Os assuntos estudados incluíam literaturas portuguesa e francesa, astronomia, química, a história de Portugal, Inglaterra e França, desenho, dança, piano, economia política, geografia, geologia e a história da filosofia. Quando adulta, além de seu nativo português, Isabel também era fluente em francês, inglês e alemão.
thumb|Princesa Isabel tocando piano.|direita Dentre seus professores estavam alguns que tinham ensinado seu pai quando criança, além do próprio Dom Pedro, que dava aulas de latim, geometria e astronomia. Entretanto, a educação dada a Isabel mostrou-se deficiente. Tudo que ela assimilava eram ideias abstratas que não lhe ensinaram "como integrá-las com a aplicação prática". Seus professores e parentes não a prepararam para governar o Brasil ou entender suas questões sociais e políticas. Um modo de prepará-la para seu futuro papel de imperatriz "teria dado a ela desde cedo a experiência pessoal das tarefas que enfrentaria e relacioná-las com o que ela estava aprendendo na sala de aula". Isso não ocorreu e D. Pedro "não lhe mostrava documentos de estado. Ele não discutia política com ela. Ele não a levava consigo em suas constantes visitas aos escritórios governamentais. Ele não a incluiu no despacho, as reuniões semanais com membros do gabinete, nem permitiu que ela comparecesse a audiências públicas que ocorriam duas vezes por semana". Isabel podia ser oficialmente a herdeira do trono, "porém por seu tratamento com ela, D. Pedro II lhe tirou a honra de qualquer significado".
Crescimento Vida doméstica O comportamento de D. Pedro como pai era completamente diferente de seu como imperador. Um "homem notável por seu autocontrole, estava no seu mais carinhoso e mais extrovertido com as crianças, acima de tudo suas filhas". Isabel e Leopoldina, "que amo extremosamente" como ele escreveu em 1861 em seu diário, tanto o amavam quanto o admiravam. O imperador "era um pai rígido que exigia obediência", porém ao mesmo tempo era bondoso e preocupado com as filhas. Entretanto, ele "achava difícil senão impossível" desenvolver alguma intimidade com Isabel ou "com qualquer outro membro de sua família".
240px|thumb|Leopoldina, D. Pedro, Da. Teresa Cristina e Isabel c. 1863. Isabel, durante seu crescimento, "assimilou de seus professores a obediência às regras tradicionais. Ela aceitava que as mulheres fossem dependentes e obedientes, e de fato o comportamento de sua mãe e de sua governanta não indicavam o contrário". Ela "não era desprovida de poder de observação e certa perspicácia, mas aceitava bem a vida como ela era e certamente não era dada a questionar a justificativa da ordem estabelecida". Tudo isso significou que a princesa não tentaria "uma posição na vida que fosse independente da de seu pai".
Tudo isso ocorreu porque Isabel "estava em fundamental desvantagem em relação ao pai. Ela tinha uma personalidade forte, mas não podia tirar proveito disso. Quando criança ela não compartilhava a seriedade de D. Pedro II, sua perseverança ou seu interesse pelo mundo. O advento da adolescência não melhorou a situação". Faltava-lhe introspecção e ela tinha uma "tendência para adotar uma visão alegre da vida". Além disso, a princesa "não possuía naturalmente muita paciência ou notáveis poderes de tolerância. Ela ia de um assunto de interesse para outro enquanto cada um chamava sua atenção. Ela não tinha medo de falar o que pensava, e mantinha opiniões fortes. Entretanto, quando encontrava algo que não gostava, tinha dificuldades de se focar e organizar sua resistência para que sua visão prevalecesse. Ela tinha a tendência de incendiar-se e, em seguida, submeter ou perder o interesse".
Teresa Cristina "vivia para sua família e encontrava realização ao fazer seu esposo e filhas felizes". A imperatriz "criou para sua família uma vida caseira que era protegida, segura e previsível". Isabel e Leopoldina "amavam sua mãe gentil e idolatravam seu pai exigente mas emocionalmente distante". De ambos os pais ela herdou a falta do racismo. D. Pedro se cercava com homens "independentemente da sua raça". O historiador James McMurtry Longo afirmou que "a estudante, filha e herdeira de seu pai a Princesa Isabel seguiu seu exemplo. Raça nunca teve um papel em sua vida social, relações políticas, alianças ou desacordos", concluindo "que talvez tenha sido a mais importante lição que ela aprendeu dele".