A Igreja Paroquial de São João de Deus é uma igreja situada na Praça de Londres, em Lisboa. Constitui uma das mais marcantes obras de arquitectura religiosa erigidas durante o Estado Novo, conjugando no interior painéis modernistas e elementos neogóticos.

História O terreno onde o monumento se implanta era primitivamente ocupado por uma vacaria explorada por João do Outeiro, num espaço sulcado pela Estrada das Amoreiras, pela Rua Alves Torgo e por diversos caminhos estreitos. Durante a primeira metade do século XX, a expansão urbana da capital portuguesa para Norte (Avenidas Novas) provocou um acentuado aumento demográfico, e os mais de 70 mil residentes de Arroios em 1950 justificariam, aos olhos do Cardeal Patriarca de Lisboa D. Manuel Gonçalves Cerejeira, a constituição de novas circunscrições paroquiais, entre as quais Santa Joana Princesa, Santo Anjo de Portugal, São João Evangelista, Santa Teresa, e São João de Deus.

A verba necessária à edificação da igreja veio essencialmente das compensações estatais devidas pela expropriação e subsequente demolição da Igreja de Nossa Senhora do Socorro, outrora localizada na praça do Martim Moniz, adjacente ao antigo Teatro Apolo. A concepção do complexo foi encomendada ao arquitecto António Lino, que pretendia conjugar sobriedade com algum vigor monumental necessários a "um grande bairro em pleno desenvolvimento". A construção foi executada por Diamantino Tojal e contou com os conhecimentos técnicos do Eng.º Gonçalo Leopoldo da Mota.

A cerimónia inaugural realizou-se a 8 de Março de 1953, coincidindo com dia do orago, São João de Deus. O momento solene teve a comparência de diversas entidades oficiais, designadamente o Cardeal Cerejeira, que abençoou a nova igreja, o Ministro das Obras Públicas José Frederico Ulrich, o Governador Civil de Lisboa Mário Gusmão Madeira, o Presidente da Junta de Província da Estremadura, o Coronel Santos Pedroso, e o vereador camarário Vasco Palmeiro.

A igreja foi alvo de uma renovação no decurso do ano 2000.

Descrição A volumetria do templo acusa do lado de fora a respectiva organização interna, estruturando-se em três naves autónomas que convergem de forma oblíqua para o altar-mor. A iluminação do núcleo emana de uma torre larga que se apresenta recuada em comparação com as duas torres esguias, de feição acastelada e coroadas em pirâmide, que ladeiam o pórtico principal. Cada nave possibilita o acesso a partir do exterior mediante grandes portas rasgadas com arcos ogivais.

O portal central assume-se como o único cujo arco ostenta uma ligeira ornamentação. Na parede lisa que o circunda encontram-se suspensas peças da autoria do escultor Leopoldo de Almeida, retratando dois arcanjos e, num plano superior ao centro, o santo tutelar, numa pose tal que sugere um movimento ascendente. Esta última efígie encontra-se flanqueada por relevos pétreos reproduzindo romãs, evocando o símbolo fundamental da iconografia de São João de Deus. Esta percepção visual alimentou a fantasia popular, gerando a invulgar denominação de Igreja dos Santos Enforcados.

O desenho arquitectónico do interior procurou encurtar a distância entre os celebrantes e os fiéis, mitigando um distanciamento que então vigorava por norma até ao Concílio Vaticano II realizado uma década depois. Apesar desse propósito de proximidade, o altar-mor mantinha originariamente uma configuração tridentina, implicando a celebração tradicional de costas para a congregação. Rodeando a mesa encostada ao muro, existia ainda um baldaquino dotado de uma cercadura esculpida em madeira.

Decoração interior Nas traseiras do altar ergue-se um tríptico de largas dimensões, executado a fresco no ano de 1953 pelo pintor Domingos Rebelo. A obra exibe múltiplos planos sobrepostos que desvendam os instantes cruciais da biografia do orago João Cidade, oriundo de Montemor-o-Novo, e o seu posterior labor dedicado ao povo de Granada: O quadro da esquerda relata o nascimento, o baptismo, a viagem para Espanha e o encontro com o Menino Jesus, que lhe oferta uma romã, cenário acompanhado de uma inscrição que vaticina o seu destino: "JOÃO DE DEUS GRANADA SERÁ A TUA CRUZ". Ilustra-se ainda a sua passagem a Beato com o nome de João d'Ávila, o internamento num asilo psiquiátrico, e a deliberação de dedicar a sua vida aos desamparados através da distribuição de alimento e compreensão, momento em que altera a sua designação para João de Deus. O painel intermédio retracta a entrega do seu próprio vestuário aos necessitados e a figura de Cristo, oculto sob o semblante de um enfermo, transmitindo-lhe as seguintes palavras: "O que julgas estar fazendo a um doente qualquer é a Mim que o fazes". Acima, a Virgem Maria coloca sobre a sua cabeça uma coroa de espinhos, numa alegoria ao sofrimento terreno, surgindo o seguinte texto: "JOÃO, DESEJA MEU FILHO QUE COM ESPINHOS E TRABALHOS ALCANCES GRANDES MERECIMENTOS". A tábua do lado direito mostra o protector já doente e enfraquecido em Granada, recolhendo manifestações de carinho e gratidão, culminando na sua morte e subsequente ascensão transportado por anjos, sob a epígrafe "DEUS CARITAS EST".

A estatuária interior inclui ainda as imagens de cerâmica policromada correspondentes ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, moldadas em 1953 pelo então principiante Domingos Soares Branco. Na pia baptismal, pontifica um relevo cerâmico colorido da autoria de Jorge Barradas, representando o baptismo de Cristo.

Muito espólio proveniente da demolida Igreja do Socorro veio para esta igreja. Diversas alfaias afectas ao culto e componentes de mobiliário repousam nas novas instalações, destacando-se um volumoso arcaz de madeira na sacristia. Este mesmo aposento serve de lugar de repouso a quatro figuras dos evangelistas, esculpidas em madeira policromada.

As caves ocupam uma superfície equivalente à área total do templo e comportam variados serviços, albergando igualmente duas salas com palco incorporado. Neste nível subterrâneo estão expostos dois altares marmóreos idênticos, provindos do santuário demolido, que servem presentemente de base a duas estátuas da mesma origem.

Ver também Jardim Irmã Lúcia

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