O Instituto de Artes (IA) é uma escola superior de arte do Brasil e uma unidade de ensino da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sua sede está na rua Senhor dos Passos, nº 248, em Porto Alegre. Fundado em 1908 com o nome de Instituto Livre de Belas Artes, por iniciativa do governo do estado e com a direção de Olinto de Oliveira, dividido nos departamentos de Música e Belas Artes, foi a primeira escola de artes de nível superior criada no estado e é uma das mais antigas do Brasil ainda em funcionamento.
Iniciando sua trajetória como uma escola independente, por quase trinta anos a partir de 1934 sucederam-se vários períodos de incorporação temporária à universidade, só encerrando esta fase de instabilidade em 1962 com sua integração definitiva, o que possibilitou a expansão e qualificação das suas atividades. Atualmente o IA é composto pelos departamentos de Artes Visuais, Música e Arte Dramática. Possui mais de cem professores e cerca de 1600 alunos. Mantém núcleos de pesquisa teórica, laboratórios de pesquisa em novos meios e tecnologias, um acervo permanente, galeria de exposições, biblioteca, auditório, salas de teatro, muitos programas de extensão universitária e convênios de intercâmbio e pesquisa com instituições e universidades nacionais e internacionais.
A instituição nasceu sob condições difíceis e levou décadas para se consolidar, mas desde o início assumiu o papel de principal instância de produção e consagração artística no Rio Grande do Sul, desenvolvendo um trabalho fundamental para a estruturação, sistematização e profissionalização do sistema de artes; formou gerações de alunos, muitos deles depois renomados, além de ser o principal centro de produção e difusão do pensamento sobre teoria e crítica de arte.
Origens
Ao longo do século XIX o Rio Grande do Sul investiu pouco em cultura e arte. Originalmente uma província colonial portuguesa conquistada em território espanhol, passou muito tempo envolvido em guerras de fronteira e tumultos militares internos, com um povoamento esparso, uma economia essencialmente agrária e relativamente estagnada, uma sociedade patriarcal conservadora e elevado índice de analfabetismo. A arte não era uma prioridade política quando ainda não havia condições sociais, financeiras e estruturais para sustentar a formação de um base institucional bem organizada e uma sociedade educada e interessada em arte. De todas as artes, a música foi a primeira a tomar corpo e consistência, sendo atividade maciçamente popular, com inúmeros praticantes profissionais e amadores e uma grande quantidade de grupos em atividade, possibilitando a inauguração em 1858 do suntuoso Theatro São Pedro, uma casa de ópera e teatro plenamente equipada. As artes visuais, no entanto, apenas começavam seu desenvolvimento, eram dominadas por amadores e estrangeiros, não havia espaços de exposição e o mercado consumidor era insignificante.
No final do século, um grupo de intelectuais, políticos e militares positivistas chegou ao poder estadual e local, onde permaneceria por mais de trinta anos, e animados por uma visão de progresso baseado na ciência, na educação e no cultivo da cidadania, e pelo desejo de equiparar o estado ao nível das civilizações mais avançadas e modernas da Europa, promoveram uma reorientação no pensamento dominante. Devido ao apoio e liderança das instâncias governamentais, e com a colaboração de uma burguesia endinheirada, começaram a surgir as primeiras escolas de educação superior na capital, e o Instituto de Artes seria uma delas.Silva, Rosângela Gomes da. Trabalho de gerações: um estudo sobre memória de famílias de servidores da UFRGS. Porto Alegre: CirKula, 2014, pp. 28-35 A criação dessas escolas era o resultado prático do interesse da elite em modernizar os sistemas produtivos agroindustriais e a indústria da infraestrutura pública (estradas, pontes, construções), e precisava de profissionais qualificados e conhecedores das novas tecnologias, materiais e métodos. A fundação das escolas cortou o antigo ciclo de dependência de escolas do centro do Brasil ou estrangeiras para a formação superior dos rio-grandenses.Hansen, Maria de Nazareth Agra. Escola de Engenharia - UFRGS: um século. Porto Alegre: Tomo Editorial, 1996, p. 32 thumb|left|Olinto de Oliveira
O Instituto nasceu com o nome de Instituto Livre de Belas Artes em 22 de abril de 1908 por iniciativa do presidente do estado, Carlos Barbosa, através de seu representante e primeiro diretor, o médico, músico e intelectual Olinto de Oliveira. Foi um passo importante, conforme diz Círio Simon, num "projeto civilizatório destinado à conquista da autonomia no campo simbólico estadual", numa época em que "Porto Alegre reforçava a sua posição de liderança regional" e sanava assim parte das deficiências culturais sentidas durante o Império, "num verdadeiro projeto compensatório civilizatório regional republicano", espelhando movimento semelhante em outras partes do país. A ideia de criar uma instituição artística também contemplava as aspirações dos ideólogos positivistas que dominavam o governo, como um complemento necessário da atenção que vinha sendo dada às ciências e à tecnologia, manifesta na criação de outras instituições de ensino superior no estado, as faculdades de Medicina, Farmácia, Química Industrial, Agronomia, Direito e sobretudo a Engenharia, que abriu por conta própria uma série de cursos e escolas técnicas e profissionalizantes em diversas especialidades voltadas para a aplicação industrial. Na propaganda divulgada na imprensa, ficava expresso que a fundação do Instituto era "o resultado lógico do evoluir da civilização rio-grandense".
Era um projeto com um fundo civilizatório, mas também político, pois servia como propaganda da "beneficência" da República em oposição à "negligência" do Império, que nunca havia mostrado interesse em apoiar uma escola superior de artes na província, e por isso as tentativas anteriores empreendidas por grupos privados haviam sido frustradas. Contudo, esse discurso não correspondia bem aos fatos, pois o próprio meio social local não se mostrara receptivo o bastante para sustentar uma iniciativa semelhante, e essa relativa inércia seria um dos principais obstáculos enfrentados pela novel instituição nos seus primeiros anos de atividade.Simon, Círio. Origens do Instituto de Artes da UFRGS: etapas entre 1908-1962 e contribuições na constituição de expressões de autonomia no sistema da artes visuais do Rio Grande do Sul. Doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2006, pp. 77-82
Os primeiros estatutos foram aprovados em 14 de agosto, publicados no dia 22, e registrados em cartório no dia 28. A Comissão Central responsável pela administração era composta por 25 membros, que representavam 65 comissões regionais de apoio criadas nos principais centros urbanos do estado. O presidente da comissão era o presidente do estado. Essa vinculação direta ao governo deu grande autonomia ao IBA, mas poderia representar também uma ameaça de sujeição ao ideário político dominante e uma possível causa de instabilidade em face às constantes disputas políticas de diferentes grupos de pressão. Para evitar isso os intelectuais reunidos na Comissão Central se preocuparam em criar uma estrutura baseada em uma sistematização disciplinar inspirada no modelo nas tradicionais academias de arte, que já haviam dado amplas provas de bom funcionamento ao longo de séculos, mais especificamente na Escola Nacional de Belas Artes do Rio, e com uma perspectiva de longo prazo. Também procuraram blindar a instituição contra uma interferência política direta, estabelecendo nos estatutos que deveria permanecer isenta de qualquer dogma, doutrina ou interesse alheios ao campo artístico, embora isso fosse mais um desejo do que uma possibilidade real, dada a vinculação da maioria dos membros da Comissão com partidos, o positivismo ou a Igreja Católica, ainda que nenhuma corrente política ou ideológica tivesse representantes formais na Comissão. Apesar deste projeto invocar a participação de toda comunidade gaúcha, a inexistência de tradições artística e institucional anteriores bem consolidadas, o esvaziamento precoce da Comissão, o informalismo das carreiras artísticas na época, a fragilidade dos meios de comunicação, o fraco apoio inicial da comunidade, os recursos humanos e materiais escassos, entre outros fatores, tornariam o funcionamento do IBA difícil e precário por muitos anos, e sua sobrevivência nessa tumultuada fase inicial se deve em grande parte aos esforços incansáveis de Olinto de Oliveira, que permaneceria na direção até 1919.Simon, pp. 84-140
Primeira fase A Escola de Artes Em 5 de julho de 1909 o Instituto instalou o seu Conservatório de Música. Em 10 de fevereiro de 1910 foi a vez da instalação da Escola de Artes, começando a operar em 3 de março, tendo como primeiro diretor Libindo Ferrás. No mesmo ano foram adquiridas cópias em gesso, para estudo dos alunos, do Apolo Belvedere e da Vênus de Milo, e cópias de bustos antigos de Níobe, Ájax e Vênus, e modelos de mãos e pés. Em 1912 foi iniciada a formação da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo com a aquisição de 60 pinturas. A primeira sede própria na rua Senhor dos Passos foi adquirida em 4 de abril de 1913 por trinta contos de réis. Em 1915 a dotação orçamentária foi aumentada por Borges de Medeiros, possibilitando uma melhoria nas condições gerais de funcionamento da instituição, incluindo a construção de um pavimento adicional na sede. Os primeiros graduados foram Francisco Bellanca e Júlia Boeira, em 1919. thumb|Aula de desenho a partir de estudo de modelos de escultura, 1915. thumb|Aula de Anatomia em 1928, dirigida por Libindo Ferrás.
Além de dirigir a Escola de Artes, Libindo Ferrás foi o seu único professor até 1913, sendo depois auxiliado nas cátedras por professores contratados em caráter temporário ou pela colaboração de voluntários, mas sempre apenas um ou dois por vez. Passaram por ali como professores artistas de renome como Pedro Weingärtner, Eugênio Latour, Augusto Luiz de Freitas e Oscar Boeira. Apesar de uma variedade de disciplinas estar prevista desde o início, Libindo só paulatinamente pôde introduzí-las na prática, e nas primeiras décadas o ensino se concentrou no Desenho. Iniciou em 1910 com os cursos de Desenho Geométrico, Perspectiva e Sombras e Desenho de Anatomia Artística, remetendo a professores externos a disciplina de Desenho Figurado. Depois instituiu as demais cadeiras, como um curso noturno sintético em 1917 (que durou apenas três anos), Modelo Vivo em 1918, e estudos ao ar livre em 1919. Em 1922 foi contratado Francis Pelichek como estável, que permaneceria até 1936, encarregado primeiro das aulas de Noções de Pintura e Figura para o curso superior e Desenho de Gesso para o curso médio, e depois de 1926, quando a Pintura avançada se fixou no currículo, ministrou pintura a pastel e pintura a óleo em ateliê, enquanto Ferrás se ocupava da aquarela e pintura a óleo ao ar livre.
O ensino se caracterizava por aulas de frequência livre, só era obrigatória a aprovação nas bancas de fim de ano, regidas por artistas convidados. O espaço para as aulas era pequeno, os alunos não passavam de vinte por ano e muitos abandonavam o curso no meio do caminho. Poucos chegavam a se profissionalizar depois de formados. Em 1927 foram aprovados novos estatutos, dividindo o ensino nas áreas de Música, Pintura, Escultura, Arquitetura e Artes de Aplicação Industrial, deslocando a ênfase inicial no Desenho, que se tornou introdutório para as outras modalidades visuais, mas na prática apenas a Música e Pintura estavam ativas. Em 1929 inicia a prática de organização de salões de arte periódicos.Gomes, Paulo. "Cronologia do Instituto de Artes". In: Brites, Blanca et al. 100 anos de Artes Plásticas no Instituto de Artes da UFRGS: três ensaios. Editora da UFRGS, 2012, pp. 175-192Simon, pp. 163-195
O Conservatório de Música