Alabás ibne Abede Almotalibe (; Meca, c. 566 – Medina, 652/3), de cúnia Abu Alfadle (), foi um mercador, companheiro e tio paterno do profeta islâmico Maomé. Filho de Abede Almotalibe e , pertencia aos haxemitas, um clã dos coraixitas. Antes do Islã, dedicou-se ao comércio e às atividades financeiras e assumiu de seu irmão Abu Talibe a sicaia, função responsável pelo fornecimento de água aos peregrinos que visitavam a Caaba, sendo-lhe também atribuída a rifada, relacionada à sua alimentação. A época de sua conversão ao Islã é controversa. Tradições islâmicas atribuem-lhe uma conversão precoce e afirmam que permaneceu secretamente em Meca para proteger os muçulmanos e informar Maomé sobre os coraixitas, enquanto outra tradição situa sua adesão apenas na época da Batalha de Badre ou da Conquista de Meca.

Watt considera suspeitos os relatos que lhe atribuem apoio precoce a Maomé e observa que sua condição de ancestral da posterior dinastia abássida favoreceu seu engrandecimento pela historiografia do período abássida. Alabás combateu nas fileiras dos coraixitas em Badre, onde foi capturado pelos muçulmanos, e juntou-se publicamente a Maomé durante a marcha sobre Meca em 630. Participou posteriormente da Batalha de Hunaine e estabeleceu-se em Medina. Após a morte de Maomé, Alabás permaneceu uma figura de prestígio durante os califados de Abu Becre , Omar e Otomão , embora não tenha exercido cargos administrativos. Morreu em Medina por volta de 32 A.H. (652–653), aos 86 ou 88 anos. Teve treze filhos e tornou-se o ancestral epônimo dos abássidas, cujos califas descendiam de seu filho Abedalá. Entre seus outros filhos estavam Ubaide Alá e Alfadle. Também lhe são atribuídos 35 hádices.

Vida

miniatura|260px|Miniatura islâmica representando Abu Talibe (ao centro, na parte superior, com vestes azuis), Alabás ibne Abede Almotalibe (ao seu lado, com vestes verdes) e outros líderes coraixitas interrogando Maomé sobre a Isra e Miraje no Siyar-i Nabî

Alabás nasceu em Meca dois ou três anos antes de seu sobrinho Maomé, com quem cresceu. Era filho de Abede Almotalibe e de , pertencente aos anamiritas, e meio-irmão de Abedalá, pai de Maomé. Sua cúnia era Abu Alfadle. Desde jovem dedicou-se ao comércio e às atividades financeiras e alcançou uma situação econômica relativamente próspera. Era mais rico que seu irmão Abu Talibe, embora não se comparasse aos principais homens dos clãs abedexemecita e maquezumita, e possuía, entre outros bens, um jardim em Taife. Sua prosperidade permitiu-lhe assumir de Abu Talibe duas funções tradicionalmente relacionadas à peregrinação a Meca: a sicaia, isto é, o fornecimento de água aos peregrinos, e, segundo algumas fontes, também a rifada, relacionada à provisão de alimentos. Watt afirma que Abu Talibe lhe transferiu a sicaia em troca da extinção de uma dívida e considera menos certa a transferência da rifada, enquanto a tradição apresentada pela TDV atribui a Alabás ambas as funções. Em outra tradição, relacionada às dificuldades financeiras de Abu Talibe, Alabás tomou sob sua proteção o sobrinho Jafar, enquanto Maomé acolheu Ali em sua própria casa, reduzindo assim os encargos do irmão. As fontes transmitem versões divergentes sobre a época em que Alabás aderiu ao Islã e sobre sua relação com Maomé durante os primeiros anos da pregação. Uma tradição sustenta que se converteu muito cedo, mas manteve sua fé em segredo e permaneceu deliberadamente em Meca para utilizar sua influência em benefício dos muçulmanos e transmitir a Maomé informações sobre as decisões e atividades dos coraixitas. Outra versão, considerada mais amplamente aceita pela TDV, situa sua conversão apenas na época da Batalha de Badre ou mesmo pouco antes da Conquista de Meca, em 630. Watt adota uma posição mais cética em relação às tradições que atribuem a Alabás um apoio precoce a Maomé. Segundo ele, não há evidência clara de uma aproximação entre ambos antes de 7 A.H. (628–629), quando Alabás participou do casamento de Maomé com Maimuna binte Alharite, irmã materna de sua esposa, Lubaba. O autor observa ainda que a condição de Alabás como ancestral dos abássidas favoreceu, durante o califado dessa dinastia, a elaboração de tradições que o engrandeciam, tornando particularmente difícil distinguir elementos históricos de desenvolvimentos posteriores em sua biografia.

Entre os episódios associados a esse problema está a Segundo Pacto de Ácaba, em 622. Segundo a tradição preservada pela TDV, Alabás acompanhou Maomé durante as negociações com os muçulmanos de Medina e exigiu deles garantias de que protegeriam seu sobrinho caso este emigrasse para a cidade. Watt considera suspeitos os relatos destinados a demonstrar que Alabás já apoiava Maomé nessa época. Embora admita como possível que tenha exercido alguma forma de proteção sobre o sobrinho durante seus últimos anos em Meca, observa que não há evidência de que os haxemitas tenham formalmente revogado a decisão de Abu Laabe de retirar a proteção do clã a Maomé. Por outro lado, durante sua permanência em Meca, Alabás não se opôs à conversão de sua esposa Lubaba nem à de seu filho Abedalá, circunstância apresentada pela tradição como indício de sua tolerância em relação à propagação da nova religião. Alabás participou da Batalha de Badre, em 624, nas fileiras dos coraixitas e foi capturado pelos muçulmanos. Segundo a tradição apresentada pela TDV, teria sido obrigado a acompanhar o exército de Meca e, depois de capturado, pagou o resgate de si próprio e de outros parentes antes de retornar à cidade. Watt confirma sua captura, mas observa que as fontes divergem quanto a ter sido ou não efetivamente exigido dele um resgate. Os relatos que lhe atribuem uma conversão secreta precoce afirmam ainda que, depois de Badre, continuou protegendo muçulmanos pobres em Meca e transmitindo a Maomé informações sobre as atividades dos coraixitas; a notícia que teria recebido do sobrinho acerca da conquista de Caibar é apresentada nessa tradição como evidência de uma comunicação secreta mantida entre ambos.

Alabás juntou-se publicamente a Maomé durante a marcha muçulmana contra Meca em 8 A.H. (630). Após a submissão da cidade, Maomé confirmou em sua família a função hereditária da sicaia. Pouco depois, na Batalha de Hunaine, Alabás permaneceu junto ao sobrinho quando parte do exército muçulmano se dispersou no início do confronto. Segundo os relatos tradicionais, sua voz excepcionalmente forte permitiu-lhe convocar os combatentes que haviam jurado fidelidade a Maomé nos pactos de Ácaba e de Riduão, contribuindo para que as forças muçulmanas se reorganizassem e retomassem o combate. Também contribuiu financeiramente para a Expedição de Tabuque, embora Watt considere incerto que tenha efetivamente participado das campanhas muçulmanas na Síria, como afirmam algumas tradições. Durante a última doença de Maomé, Alabás teria percebido a proximidade de sua morte e demonstrado preocupação com a futura direção da comunidade. Desejando que a autoridade permanecesse entre os haxemitas, sugeriu a Ali que perguntasse diretamente a Maomé quais eram suas intenções quanto à sucessão. Segundo uma tradição atribuída a Aixa, Ali recusou a proposta, argumentando que, caso Maomé se pronunciasse contra a pretensão dos haxemitas, ninguém lhes confiaria posteriormente o governo. Alabás esteve entre os parentes que participaram dos cuidados com o corpo e do funeral de Maomé após sua morte em 632.

Depois da morte do profeta, Alabás e Fátima reivindicaram perante o califa Abu Becre as terras que Maomé possuíra em e sua participação nas propriedades de Caibar. Abu Becre rejeitou a reivindicação com base na tradição segundo a qual os profetas não deixavam seus bens como herança. Alabás continuou a desfrutar de elevado prestígio durante os califados de Abu Becre, Omar e Otomão . Em períodos de seca durante o governo de Omar, o califa recorria a ele nas orações por chuva, invocando sua condição de tio de Maomé. As relações pessoais entre Alabás e Omar, contudo, não parecem ter sido sempre harmoniosas. Watt afirma que ambos não mantinham boas relações, embora Alabás tenha cedido sua casa para possibilitar a ampliação da Mesquita do Profeta, em Medina. Maomé teria anteriormente lhe concedido uma renda proveniente da produção de Caibar e, quando Omar reorganizou o sistema de estipêndios, colocou Alabás na mesma categoria dos participantes da Batalha de Badre. Apesar de sua posição dentro dos haxemitas e do prestígio de que desfrutava, Alabás não recebeu qualquer cargo administrativo durante esse período. Alabás teve três esposas e treze filhos, dos quais dez eram homens. Entre seus filhos estavam Abedalá, Ubaide Alá, Alfadle, , , , Cutame e Ume Cultume. A dinastia abássida, que tomou dele seu nome, descendia de seu filho Abedalá. Descrito como alto, de pele clara e voz excepcionalmente forte, Alabás perdeu a visão nos últimos anos de vida. Era conhecido por libertar escravos e por empregar parte de sua riqueza em benefício da comunidade muçulmana. Morreu em Medina por volta de 32 A.H. (652–653), aos 86 ou 88 anos. São-lhe atribuídos 35 hádices. Entre seus principais transmissores estavam seus filhos Abedalá, Ubaide Alá e Catir, sua filha Ume Cultume, além de Jabir ibne Abedalá, e outros companheiros e tabis.

Bibliografia

Categoria:Tios de Maomé Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Muajiritas Categoria:Haxemitas (clã coraixita) Categoria:Pessoas sepultadas no Cemitério de Albaqui Categoria:Juramento de Riduão