Jiu-jítsu brasileiro (, Burajirian jūjutsu) ou BJJ (do inglês, Brazilian Jiu-Jitsu) é uma arte marcial brasileiraCanto, Tiago (2022). Mindfighter: Neurociência e Psicologia do Esporte para o Boxe, MMA e outras lutas. Porto Alegre: Clio. p. 21. ISBN 9786500467079 e esporte de combate, desenvolvido pela família Gracie, no início do , que se tornou a forma mais difundida e praticada do "Jiu-jitsu" (após o judô) no mundo, principalmente depois das primeiras edições dos torneios de Vale Tudo e artes marciais mistas (MMA), principalmente no UFC, nos idos da década de 1990 e no Pride FC durante o final da década de 1990 e começo da década de 2000.

É uma arte marcial de luta agarrada, onde o objetivo é imobilizar o oponente no chão por meio de uma "finalização", colocando o oponente em uma torção de um membro do corpo (como por exemplo uma chave de braço ou chave de perna) ou estrangulamento (como o mata-leão ou triângulo), forçando o oponente a desistir. O jiu-jitsu brasileiro tem um apreço em focar na luta de solo onde a luta em pé tem papel secundário, ao contrário de outras marciais de luta agarrada.

Apesar do nome da modalidade ser "jiu-jitsu", na verdade, a modalidade não se aplica como o tradicional ju-jutsu, foi desenvolvida a partir do Judô, como especialização e ênfase das técnicas de controle e luta no chão, ne waza e katame waza, e com menos ênfase às técnicas de luta executadas de pé, tate waza de Mitsuyo Maeda, representante direto do Instituto Kodokan. Por não serem o foco principal da modalidade, os golpes de ate waza e kansetsu waza, acabam tendo papel coadjuvante e/ou intermédio para a execução de um golpe final de submissão do adversário. O nome do estilo de luta da família Gracie permaneceu como jujutsu, porque na época em que os irmãos Carlos e Hélio Gracie, principalmente, finalizaram seu repertório, o nome "judô" ainda não era de uso comum mas Kodokan jujutsu ou Kano jujutsu, transliterado no Brasil como "jiu-jitsu". Posteriormente recebeu a denominação "Brasileiro" após a arte marcial chegar nos Estados Unidos para se diferenciar de escolas de jujutsu tradicionais.

O criador do estilo foi, em princípio, Carlos Gracie, que adaptou o judô com especial apreço à luta de solo, haja vista que seu porte físico punha-lhe em severa desvantagem contra adversários de maior porte. Partindo do princípio de que numa luta de solo, quando projeções ou mesmo chutes e socos não são eficientes, mas alavancas, sim, o porte físico dos contendores torna-se de menor importância. Nessa situação, aquele que tiver mais técnica possuirá consequentemente a vantagem.

Se não foram originais em adaptar uma arte marcial provecta, haja vista que no Japão isso já há muito ocorrera com o aiquidô e o próprio judô, oriundos do ju-jutsu, com o caratê, oriundo do te-jutsu de Okinawa, ou mesmo no resto do mundo como o krav maga (Israel) ou a capoeira regional (Brasil), Carlos Gracie e depois Hélio Gracie foram originais em criar um paradigma que prima pela efetividade. Comprovado o seu sucesso em competições, o jiu-jitsu brasileiro serviu de cerne do que viria a ser a modalidade artes marciais mistas.

História

Origem Existem diversas histórias que o jiu-jitsu é uma das artes marciais mais antigas do mundo, uma dessas histórias conta que a arte marcial surgiu a mais de 2000 anos atrás na Índia, quando os monges budistas eram atacados por bandidos e tribos mongóis, durante as suas caminhadas entre os templos. Como os monges monastérios indianos eram proibidos pela religião, de se defender com armas, criaram a arte marcial desenvolvendo uma técnica baseada nos princípios do equilíbrio, do sistema de articulação do corpo e das alavancas, assim evitando o uso da força e de armas para poder se defender dos agressores. Com a expansão do budismo na Ásia, o jiu-jitsu também percorreu o sudeste asiático chegando até a China e depois ao Japão, onde se desenvolveu e se popularizou. No Japão, chamado de ju-jutsu era uma das principais artes marciais praticadas pelos guerreiros samurais que caso em um combate perdessem as suas espadas, usavam o combate corpo a corpo como último recurso. Após vários anos o jiu-jitsu chegou ao Brasil, quando Mitsuyo Maeda, conhecido como "Conde Koma", veio para cá e ensinou Gastão Gracie e seu filho Carlos Gracie, Maeda também ensinou Luiz França, futuro professor de Oswaldo Fadda. O jiu-jitsu se desenvolveu ainda mais no Brasil, após Carlos Gracie ensinar a arte marcial ao seu irmão Hélio Gracie que aprimorou as arte marcial para adaptar as técnicas ao seu corpo franzino.

Começo no Brasil miniaturadaimagem|Quadro de uma tira publicada na revista O Malho em 1909, mostrando Ciríaco contra Sada Miyako. Arte de Alfredo Storni No século XIX, mestres de artes marciais japonesas migraram do Japão para outros continentes, vivendo do ensino dessas artes e de lutas que realizavam.

A primeira apresentação do Jiu-jitsu no Brasil aconteceu no ano de 1906 na cidade de Manaus, capital do Amazonas. Em novembro daquele ano aportava em Manaus o navio "Jerome", trazendo a bordo dois lutadores japoneses que vinham fazendo uma turnê de exibição de sua arte marcial pelo continente americano: o mestre de Jiu-jitsu (japonês) Akishima Sadashi e seu assistente Suiotos Ki. Assim que se alojaram na cidade, os dois japoneses logo publicaram uma nota na imprensa desafiando qualquer um que estivesse disposto a enfrentá-los em duelos públicos. Foi então armado uma arena improvisada no circo "Coliseu Metálico Brasileiro", na Praça da Saudade, onde em 18 de Novembro o mestre Akishima e seu discípulo Suiotos enfrentaram mais de uma dúzia de desafiantes locais, vencendo todos eles em menos de cinco minutos em uma noite com grande presença de público. E assim eram realizadas as primeiras lutas de Jiu-jitsu em território brasileiro. Após alguns meses continuando a apresentar suas lutas no circo, Akishima e Suiotos deixaram o Amazonas e seguiram para Liverpool (Inglaterra) no navio "Antony".FIGUEIREDO, A. Samurais da selva - A presença japonesa no Amazonas. Manaus: Editora Muiraquitã, 2012. 59 p e 60 p.

Já em 1908 o navio Benjamin Constant, da marinha brasileira, recolheu um grupo de náufragos numa ilha do Pacífico, sendo que entre eles estava o professor japonês de Jiu-jitsu Sada Miyako, sendo ele aceito junto com um discípulo conterrâneo chamado Kakiara, para ficarem a bordo e seguirem viagem ao Brasil. Durante a viagem de retorno os dois japoneses ensinaram o Jiu-jitsu para os marinheiros. Os lutadores chegavam ao Rio de Janeiro a bordo do Benjamin Constant e logo Sada Miyako foi contratado pela marinha para ensinar as técnicas do Jiu-jitsu aos oficiais da instituição, na Fortaleza de Villegagnon, e depois para os militares do exército. Miyako continuou no Brasil por mais algum tempo, fazendo demonstrações e dando aulas particulares de sua arte marcial no Rio e participando de duelos com lutadores locais, como a célebre luta que ele teve com o capoeirista Ciríaco, em 1909.

Mitsuyo Maeda, conhecido como "Conde Koma", foi um praticante notável de Judô, sendo aluno de Jigoro Kano, o fundador do Judô. Em 1904, junto com outros praticantes de Judô, Maeda saiu em uma viagem pelo mundo para disseminar o Judô, passando pelos Estados Unidos, demonstrando na Academia de West Point, continuando para Cuba, México e América Central, em suas viagens também aprendeu o Catch Wrestling (predecessor da Luta Livre Olímpica e Pro Wrestling) e chegou ao Brasil em 1915; uma excursão de lutadores nipônicos aportou em Manaus para dar início à missão liderada por Maeda, de disseminar o judô no Brasil; um dos japoneses, Sanshiro "Barriga Preta" Satake, ficou-se em Manaus e abriu a primeira academia de Judo do Brasil que foi no Atlético Rio Negro Clube, Maeda foi para Belém do Pará, onde fixou residência, existindo até hoje nessa cidade a Academia Conde Koma. Um ano depois, conheceu Gastão Gracie. Gastão era pai de oito filhos, sendo cinco homens, tornou-se entusiasta do judô e levou seu filho Carlos Gracie para aprender a luta japonesa.

Maeda ensinou um grupo que incluía Luiz França, futuro professor do mestre Oswaldo Fadda. Ambos deram início a outro ramo do Jiu-Jitsu no Brasil.

Carlos começou a praticar o judô (na época, ainda conhecido como "Kano jiu-jitsu"). Com dezenove anos de idade, transferiu-se para o Rio de Janeiro com a família, sendo professor dessa arte marcial e lutador. Viajou por outros estados brasileiros, ministrando aulas e vencendo adversários mais fortes fisicamente.

Em 1925, voltando ao Rio de Janeiro e abrindo a primeira Academia Gracie de jiu-jítsu, convidou seus irmãos Osvaldo e Gastão para assessorá-lo e assumiu a criação dos menores George, com quatorze anos, e Hélio Gracie, com doze. A partir daí, Carlos transmitiu seus conhecimentos aos irmãos, adequando e aperfeiçoando a técnica à condição física franzina, usando o seu próprio peso ou o do adversário para conseguir lutar.

Com o objetivo de provar a superioridade do jiu-jitsu e formar uma tradição familiar, Carlos Gracie desafiou grandes lutadores da época e passou a gerenciar a carreira dos irmãos. A família Gracie lutava em combates de Vale-tudo, onde não havia regras, lutas terminando pelo nocaute ou finalização.

Lutando contra oponentes muito mais pesados, os Gracies logo construíram fama e notoriedade nacional. Atraídos pelo novo mercado que se abriu em torno do jiu-jitsu, com uma formação que enfatizava a especialização: após a queda, levava-se a luta ao chão e se usavam os golpes finalizadores.

Ao modificar as regras internacionais do judô e jiu-jítsu japonês nas lutas que ele e os irmãos realizavam, Carlos Gracie iniciou o primeiro caso de estilo, ou esporte, reconhecido na história de modalidades brasileiras exportadas para o mundo anos depois, a arte marcial passou a ser denominada de Gracie Jiu-jitsu e depois veio a surgir o Brazilian Jiu-jitsu, sendo exportada para o mundo todo, até mesmo para o Japão.

Hélio Gracie passa a ser o grande nome e difusor do jiu-jítsu, formando inúmeros discípulos, dentre eles Flavio Behring. George Gracie foi um desbravador, viajou por todo o Brasil, no entanto estimulou o jiu-jitsu principalmente em São Paulo, tendo como alunos nomes como Nahum Rabay, Candoca, Osvaldo Carnivalle, Romeu Bertho, Otávio de Almeida, e o grande percursor no Estado de Pernambuco Jurandir Moura e dentre outros.

Royce Gracie e Rickson Gracie, filhos de Hélio Gracie, foram pioneiros a levar ao Jiu-Jitsu para os Estados Unidos e Japão, nos primeiros torneios de Vale-tudo/MMA: o UFC, Vale Tudo Japan, Pancrase e Pride FC.

Paralelamente, Luiz França também fixou-se no Rio de Janeiro onde ensinava a "arte suave" na zona norte da cidade.Associação Fernandes de Jiu-Jitsu - HISTÓRIA DO JIU-JITSU - A ARTE DAS TÉCNICAS SUAVES. (Acessado em 31/07/2013). Em 1937, começou a ensinar a arte para Oswaldo Fadda, que conquistou a faixa (obi) de cor preta cinco anos depois. Fadda abriu sua academia em Bento Ribeiro em 1950.BJJ Heroes - Biografia de Oswaldo Fadda. (Acessado em 31/07/2013). Em 1954 desafiou os Gracie e foram organizadas lutas entre os alunos das duas escolas. Os alunos de Oswaldo Fadda venceram a maioria destas lutas.Fadda Jiu-Jitsu - The History of Fadda Jiu-Jitsu. (Acessado em 31/07/2013).

Com a criação da Federação de Jiu-Jítsu Brasileiro, as regras e o sistema de graduação foram sistematizados, mas hoje outras foram criadas por outros membros da família Gracie e por pessoas que se desligaram, dando início a era dos campeonatos esportivos nas mesmas regras. Hoje mais organizado, o Jiu-Jítsu Brasileiro já conta com diversas Confederações e Federações Internacionais, mas a referência foi a fundada por Carlos Gracie Jr. como presidente (da CBJJ e IBJJF) e José Henrique Leão Teixeira Filho como vice-presidente da CBJJ.

O Jiu-Jitsu também é uma das principais disciplinas da Abu Dhabi Combat Club Submission Wrestling World Championship, maior competição que engloba diferentes formas de submission wrestling.