A Biblioteca de Babel (do original espanhol: La biblioteca de Babel) é um conto do escritor e bibliotecário argentino Jorge Luis Borges (1899–1986), imaginando um Universo sob a forma de uma vasta biblioteca, cujo conteúdo é formado por todos os livros de 410 páginas possíveis, desde que estes sejam escritos num certo formato e com um conjunto fixo de caracteres.

A história foi originalmente publicada em língua espanhola por Borges em sua coletânea El jardín de senderos que se bifurcan (Espanhol: O jardim dos caminhos bifurcantes). Esta coletânea, por sua vez, foi incluída no interior de sua obra muito mais conhecida Ficciones (Ficções), publicada em 1944.

Enredo O narrador de Borges descreve como seu universo é formado por um imenso espaço, que por sua vez é constituído por salas hexagonais adjacentes umas as outras. Em cada sala, há uma abertura que dá acesso às salas acima e abaixo da atual e quatro paredes formadas por estantes, com as duas paredes restantes contendo, cada uma, uma latrina, uma cama-armário e uma escadaria. Embora a ordem e o conteúdo dos livros sejam completamente aleatórios e aparentemente sem sentido algum, os seus habitantes acreditam que eles contenham todas as combinações possíveis de 25 caracteres (22 letras, o ponto final, a vírgula e o espaço). Além disso, embora a vasta maioria dos livros deste universo sejam completamente sem sentido, as leis probabilísticas implicam na existência, no interior da Biblioteca, de todos os livros coerentemente escritos ou que venham a ser escritos, além de toda versão levemente errônea de cada um destes livros. O narrador ressalta que a Biblioteca deve conter toda a informação útil existente, incluindo previsões sobre o futuro, biografias de qualquer pessoa e traduções de todos os livros em todas as línguas. Reciprocamente, para muitos dos textos, alguma língua poderia ser construída de modo que tornaria seu conteúdo legível.

Apesar de todas estas teorias, todos os livros da Biblioteca são praticamente inúteis para o leitor, já que todo texto legível (e correto) existe apenas por pura probabilidade, ao lado de inúmeros escritos completamente incorretos. Essa realidade leva a várias superstições, seitas e heresias no interior da religião organizada da Biblioteca, como os "Purificadores", que arbitrariamente destroem todas as cópias julgadas como "sem sentido" enquanto procuram, no interior da Biblioteca, o chamado "Hexágono Vermelho", com todos os seus livros ilustrados e mágicos. Um outro grupo acredita que, como todos os livros possíveis existem no interior da Biblioteca, em algum lugar deve existir um índice perfeito de seus conteúdos; alguns vão ainda mais além, crendo e buscando uma espécie de figura messiânica, o "Homem do Livro", que conhece o índice. O narrador finaliza sua exposição ao relatar que a população da Biblioteca foi, ao longo dos tempos, dizimada por séculos de doenças e conflitos religiosos, embora este narrador matenha sua fé na beleza e na organização da Biblioteca como uma prova inegável da existência de um deus ou de outro demiurgo, reafirmando suas próprias tentativas em busca de sentido para a existência da Biblioteca e de seus habitantes.

Temas e interpretações A história repete o tema do ensaio La Biblioteca Total, de Borges, publicado em 1939. Neste ensaio, ele reconhece um desenvolvimento temático anterior ao seu pelo alemão Kurd Lasswitz em seu conto Die Universalbibliothek ("A Biblioteca Universal"), publicado em 1901.

Escreve Borges:

Vale notar que a citação do livro de Wolff está errada, sendo na verdade publicado em 1929. Além disso, Lasswitz (1904) usa um alfabeto de 100 símbolos, ao contrário do que menciona Borges.

Muitos dos elementos recorrecentes empregados por Borges em seus escritos aparecem nesta história, incluindo o infinito, a realidade, a Cabala e os labirintos. O conceito da Biblioteca é frequentemente comparado ao teorema do macaco infinito de Émile Borel. Embora não há nenhuma referência a macacos ou máquinas de escrever em seu livro, Borges mencionou a analogia n'A Biblioteca Total. Nesta história, o mais próximo equivalente é o trecho que menciona um dos grupos "blasfemos" da Biblioteca, que sugeriu embaralhar letras e símbolos até que livros fossem escritos. Além disso, o argentino faz uma referência à ideia de reproduzir alguma obra de Shakespeare, já que a única frase inteligível em um dos livros é o começo do soneto 123 do poeta inglês.

Borges iria examinar uma ideia similar em seu conto "O Livro de Areia", em que há um livro infinito (ou, de forma mais específica, um livro com um número indefinido de páginas) ao invés de uma biblioteca infinita. Ademais, o Livro de Areia do conto é escrito num alfabeto desconhecido, com seu conteúdo não sendo aleatório. Na Biblioteca, o argentino integra em seu enredo a sugestão do matemático italiano Bonaventura Cavalieri de que qualquer sólido poderia ser construído como a superposição de um número infinito de planos.

O conceito da biblioteca é, também, abertamente análogo à visão do universo como uma esfera tendo seu centro em todo lugar e sua circunferência em lugar algum. Essa metáfora foi previamente utilizada pelo polímata Blaise Pascal, com Borges destacando que o manuscrito de Pascal chamou a esfera de "amendrontadora".

A citação no começo da história ("Por meio desta arte você poderá contemplar a variação de vinte e três letras") provém do livro de 1621 A Anatomia da Melancolia, de Robert Burton.

Um trabalho explora a Biblioteca de Borges como uma metáfora para a sociedade da informação, comparando-a como uma "transfiguração do mundo real para o virtual".

Implicações filosóficas

Extensão infinita Nas principais teorias da síntaxe da linguagem natural, toda palavra sintaticamente válida pode ser estendida indefinidamente por um processo recursivo. Entretanto, pela natureza limitada dos livros da Biblioteca de Babel, pode-se concluir que a estrutura armazena um número finito de livros distintos. O narrado de Borges assente esse fato, mas mesmo assim acredita que a Biblioteca é infinita, especulando que esta se repete periodicamente, dando uma eventual "ordem" à "desordem" aleatória dos livros. O matemático William Goldbloom Bloch confirma esta intuição do narrador em seu livro The Unimaginable Mathematics of Borges' Library of Babel, deduzindo que a estrutura deveria ter, necessariamente, pelo menos uma sala cujas estantes não estariam completamente cheias — pois não é possível dividir igualmente o número total de livros pelo número de livros por sala —, além de que as salas em cada andar da Biblioteca devem estar conectadas de forma que um ciclo hamiltoniano seja formado, ou que estejam desconectadas em subconjuntos inacessíveis entre si.

Redução de Quine Willard van Orman Quine ressalta que a Biblioteca de Babel é finita e que qualquer texto que não cabe em um único livro pode ser reconstruído a partir de um segundo livro que possua sua continuação. Além disso, o tamanho do alfabeto pode ser reduzido pela utilização de código Morse, mesmo que isso faça os livros mais prolixos. O tamanho de cada livro pode ser reduzido pela sua divisão em vários volumes e pelo descarte de duplicatas.

Escreve Quine:

Comparações biológicas O conjunto de todas as sequências possíveis de proteínas (espaço sequencial) foi comparado com a Biblioteca de Babel.

Na Biblioteca, encontrar qualquer livro coerente é uma ação quase impossível pela grande quantidade de livros existentes e a total ausência em sua organização. Uma situação análoga acontece em relação as proteínas, que, se não fosse pela seleção natural, não iriam existir em pares coerentes. Além disso, cada sequência proteica é circundada por um conjunto de vizinhos (mutações pontuais) que possuem uma probabilidade de possuírem pelo menos uma função. O livro de Daniel Dennett, A Ideia Perigosa de Darwin, lançado em 1995, inclui uma elaboração deste conceito para o campo de todas as possíveis sequências genéticas, com o autor batizando este conjunto de "Biblioteca de Mendel", com o objetivo de ilustrar a matemática da variabilidade genética. Num ponto mais tardio do livro, o autor reutiliza este conceito para imaginar todos os possíveis algoritmos que poderiam ser incluídos em seu computador Toshiba, batizando este conjunto de "Biblioteca de Toshiba". Por fim, ele descreve como ambos os conjuntos são apenas subconjuntos da imensa Biblioteca de Babel.

Influência em trabalhos posteriores

Érik Desmazières realizou gravuras para uma edição de 1997 do conto. Nestas gravuras, a Biblioteca é retratada literalmente na forma da Torre de Babel, mais precisamente, na forma como retratada por Pieter Bruegel, o Velho. A novela pós-moderna de Umberto Eco, O Nome da Rosa, publicada em 1980, inclui uma biblioteca labirintíntica cujo guardião é um monge cego de nome Jorge de Burgos. A sala é, entretanto, em formato octogonal. A Teoria do Nada de Russell Standish utiliza o conceito da Biblioteca de Babel para ilustrar como um conjunto final contendo todas as possíveis descrições iria conter uma quantidade nula de informação e, por conseguinte, ser a epxlicação mais simples para a existência do Universo. Essa teoria, portanto, implica na realidade de todos os universos. O livro The Unimaginable Mathematics of Borges' Library of Babel, escrito em 2008 pelo matemático William Goldbloom Bloch, analiza o conto a partir de uma perspectiva matemática. Bloch explora a biblioteca hipotética apresentada por Borges utilizando ideias de topologia, teoria da informação e geometria. No romance City at the End of Time, escrita em 2008 pelo escritor de ficção científica americano Gregory Dale Bear ("Greg Bear"), os dispositivos carregados pelos protagonistas possuem a função de, combinados, formarem uma "Babel", uma biblioteca "infinita" contendo toda permutação possível de todo caractere possível em todo idioma concebível. O autor declarou que iso foi inspirado por Borges, que também é mencionado na novela como um "argentino desconhecido" que encomendou a criação de uma enciclopédia de coisas impossíveis. O website The Library of Babel, criado por Jonathan Basile, emula uma versão em língua inglesa da biblioteca concebida por Borges. Esta biblioteca foi produzida por um algoritmo, que gerou "livros" únicos marcados por coordenadas que os identificam. Por exemplo, um livro de coordenada "389fj39l-w4-s5-v32" estaria no hexágono "389fj39l", na parede 4, estante cinco e no volume 32. O feito de Basile inspirou outros projetos com imagens e áudio. A novela A Short Stay in Hell, de Steven L. Peck, escrita em 2009, inclui um protagonista que deve encontrar um livro que contém sua história de vida no interior de uma biblioteca que, embora explicitamente finita, possui um tamanho com milhões de ordens de magnitude acima do universo observável. Nesta história, Borges é mencionado diretamente. O artista turco Refik Anadol criou uma instalação chamada Archive Dreaming, em 2017, inspirado pelo conto original de Borges. O trabalho de Anadol emprega algoritmos de aprendizado de máquina para criar um imenso arquivo digital interativo, que possibilita a exploração visual de combinações de dados e memória, refletindo os temas de Borges.

Ver também

Enciclopédia Galáctica, enciclopédia fictícia de Asimov em sua série de livros Fundação O Aleph, coletânea de Contos por Jorge Luis Borges Cem Mil Bilhões de Poemas, livro por Raymond Queneau Registros akáshicos, registros místicos que conteriam todo o conhecimento da realidade para os adeptos da Teosofia Teorema do macaco infinito Lei dos números realmente grandes Número normal The Library of Babel, website inspirado no conto de Borges Biblioteca universal, conceito de uma biblioteca hipotética Cérebro Mundial, coleção de escritos de H. G. Wells

Ligações externas

Ilustrações do conto por Érik Desmazières https://libraryofbabel.info/, website inspirado no conto de Borges

Biblioteca Babel