William John Charles, CBE (Swansea, 27 de dezembro de 1931 — Wakefield, 21 de fevereiro de 2004) foi um futebolista galês.
Se o norte-irlandês George Best foi eleito em pesquisa o melhor jogador do Reino Unido de todos os tempos, John Charles é considerado por muitos o melhor futebolista nascido na ilha da Grã-Bretanha - ambos à frente do inglês campeão mundial Bobby Charlton. Charles esteve na única Copa do Mundo FIFA disputada pela seleção galesa, a de 1958, sendo exatamente o grande desfalque, machucado, para a partida da eliminação de 1-0 frente o Brasil. Participou daquele torneio junto do irmão, Mel Charles.
Charles também é considerado o maior jogador britânico a ter atuado no futebol italiano, sobretudo pelo desempenho na Juventus, que por ele pagou uma soma recorde para a época. Destacava-se por ser alto e ainda assim bastante ágil e habilidoso, com grande impulsão e força no jogo aéreo, sabendo também jogar com bola no chão, complementando-se a Omar Sívori e Giampiero Boniperti - trio que fez história na equipe de Turim. Em seu site, a Juve descreve o galês como "o maior - e não apenas em tamanho - centroavante da história" dos bianconeri. Era o estrangeiro com mais gols pela Juventus, superado depois por Michel Platini e David Trezeguet.
Conhecido também pelo cavalheirismo, foi apelidado de Il Gigante Buono ("O Gigante Gentil"), jamais tendo sido expulso ou advertido em vinte anos de carreira.
Carreira em clubes Primeira passagem pelo Leeds Nascido em Cwmbwrla, no distrito de Swansea, era filho de um ex-futebolista que precisou encerrar precocemente a carreira. Charles ingressou aos 14 anos nos juvenis do Swansea City (então Swansea Town). Ainda juvenil, aos 16 anos, foi descoberto por um olheiro do Leeds United, onde teve a contratação efetivada após duas semanas de testes. Estreou no time adulto do Leeds já no ano seguinte, em 1949. Na ocasião, enfrentou o Queen of the South, sendo-lhe ordenado pelo treinador a marcar Billy Houliston, adversário que duas semanas antes havia marcado dois gols pela Escócia em vitória de 3-1 no clássico com a Inglaterra. Ao fim da partida, Charles foi elogiado por Houliston como o melhor centromédio que enfrentara. Inicialmente, disputava a segunda divisão inglesa.
Foi na temporada 1952-53 que Charles passou a jogar como centroavante, marcando então 26 gols em 40 partidas. Na seguinte, em 39 partidas, marcou 43 vezes, no que ainda é um recorde individual no clube. Na seguinte, marcou 39. O acesso à elite viria na temporada 1955-56, despertando interesses de Arsenal e Manchester United no galês. Os Whites, porém seguraram seu destaque, que, na primeira temporada na primeira divisão, terminaria como artilheiro - com 38 gols, em 40 jogos, no que foi um grande assombro na época, além de melhor marca de um artilheiro do torneio em relação aos vinte anos anteriores, tudo por um clube que terminou a competição em oitavo. Porém, um incêndio em ainda em setembro de 1956 em um dos setores do estádio de Elland Road comprometia as finanças do Leeds.
Em abril de 1957, Charles já era observado em pessoa por Umberto Agnelli, presidente da Juventus, presente na primeira vez em que o atacante foi capitão da seleção galesa, naquela ocasião. Iniciou-se uma longa negociação de três meses, intermediada pelo comentarista Kenneth Wolstenholme, fã do futebol italiano, mais tarde célebre pela narração do título da Inglaterra na Copa do Mundo FIFA de 1966;SAVARESE, Maurício; FARINA, Allan; MOORE, Nick; ALLEN Matt; FRY, Simon (março de 2008). Eles pensam que já acabou...agora acabou!. FourFourTwo n. 5. Editora Cádiz, p. 36 e por Gigi Peronace, empresário italiano que se instalara no Reino Unido, iniciando um intercâmbio intenso de jogadores britânicos à Serie A. Charles seria precisamente o primeiro dessa leva, após a presença britânica, marcante entre os pioneiros do futebol na Itália, ter se escasseado ainda no começo do século XX, antes do profissionalismo ser adotado por lá.
Juventus thumb|left|250px|Entre os colegas Omar Sívori e Giampiero Boniperti, trio histórico na Juventus
O negócio tardou até agosto para ser assinado. A Juventus concorria com Lazio e Real Madrid, mas conseguiu obter Charles pelo valor de 65 mil liras, um recorde para a época, o qual também representava o dobro do recorde já pago por um futebolista britânico. O próprio jogador teria direito a 10 mil libras e regalias como carros da FIAT, convencendo-se. Charles marcou nas três primeiras rodadas, mas em duas delas o clube perdeu, chegando a inicialmente sofrer ameaça de rebaixamento na temporada 1957-58 - gerando assim ceticismo quanto ao êxito do galês, visto como improvável pela imprensa britânica. A chegada do argentino Omar Sívori, pouco depois, ajudou a mudar o cenário. Ambos iniciaram grande trio com o já ídolo Giampiero Boniperti, figura desde a década de 1940. Ao fim de 1957, a Ballon d'Or premiou o galês como o sexto melhor jogador europeu do ano, já considerando seu desempenho inicial na Juventus.
A Juve terminara campeã no que foi precisamente o décimo título italiano do clube de Turim, que assim se tornou a maior campeã isolada, superando o Genoa, além de tornar-se a primeira equipe do país a poder ostentar uma estrela no peito (honrara concedida a cada dez títulos vencidos). O grande destaque foi precisamente Charles, que terminou o torneio na artilharia, com 28 gols em 34 jogos. Dentre seus gols, o único em vitória como visitante no clássico com o Torino, dois em 3-1 de virada contra a Internazionale, um em 3-1 sobre a Lazio, os três de 3-0 sobre a Atalanta, outros três em 4-1 sobre a Sampdoria, dois em 4-1 no reencontro com o rival Torino no segundo turno, um cada sobre Milan (1-0) e Inter (2-2) e três em 4-1 em reencontro com a Lazio, em plena Roma. Os sete gols que marcou nas primeiras dez rodadas foram um recorde só igualado por Cristiano Ronaldo, na temporada 2018-19. O galês acabou eleito o melhor jogador da temporada na Serie A, cativando também por sempre exibir um sorriso a despeito de dificuldades iniciais de adaptação extracampo. Posteriormente, ficou em terceiro na Ballon d'Or de 1958, abaixo de Raymond Kopa e Helmut Rahn.
Na temporada seguinte, a Juve ficou apenas em 4º na Serie A, mas o galês marcou 19 vezes, suficiente para fazer dele o artilheiro do elenco bianconero. Um foi sobre o próprio campeão Milan, em derrota de 5-4 em Turim. Também marcou em vitória de 3-1 em Milão sobre a Internazionale, em 2-0 sobre a Roma, três em 4-3 sobre o Genoa e em derrota de 3-2 no clássico com o Torino; nessa ocasião, perdeu de propósito outra chance, após machucar acidentalmente com o cotovelo em disputa aérea com seu marcador, o que o deixara a princípio livre contra o goleiro. O fair play em pleno dérbi com resultado negativo fez com que uma romaria de torcedores rivais aparecessem na residência de Charles na madrugada para convencê-lo a jogar no rival. Ele recusou, mas convidou-os a adentrarem para tomarem vinho. Já na Copa da Itália, a equipe de Turim foi campeã pela primeira vez desde 1942. Charles abriu o placar na decisão, vencida por 4-1 sobre a Inter. Pela segunda temporada seguida, o galês ficou em terceiro na Ballon d'Or]], dessa vez abaixo de Alfredo Di Stéfano e Raymond Kopa.
thumb|right|250px|Juventus da temporada 1960-61. Charles, o jogador mais alto, é o terceiro em pé, da esquerda para a direita
Na temporada 1959-60, Charles e a Juventus retomaram o título no campeonato italiano, com o galês marcando 23 vezes em 34 partidas, incluindo o único no 1-0 sobre a Internazionale, o do empate em 2-2 a doze minutos do fim contra a Roma na capital, uma tripletta (contra a SPAL, em 6-3 fora de casa) e diversas dopiettas, contra Vicenza (4-1), Alessandria (7-0), Bologna (tanto na derrota de 3-2 fora de casa como na vitória por 3-0 em Turim) e Genoa (6-2 fora de casa). A Juve também foi bicampeã seguida na Copa da Itália, com o galês destacando-se na decisão com a Fiorentina: abriu o placar e, após a virada adversária para 2-1, o empatou no minuto 73. Na prorrogação, a Juventus conseguiu assinalar o 3-2. Foi a primeira vez em que o clube conseguiu em uma mesma temporada os dois troféus nacionais. O clube só voltaria a repetir o feito na temporada 1994-95.
Em 1960, Charles foi votado o 7º melhor jogador europeu da temporada na Ballon d'Or. Na temporada seguinte, a de 1960-61, o título italiano virou um bicampeonato seguido. Charles contribuiu com 15 gols em 31 jogos, incluindo dois em vitória de 4-1 sobre a Lazio em Roma, marcando também sobre a Roma, Fiorentina (em ambas, em vitórias de 3-0), Milan (em derrota de 4-3 em Turim) e uma dopietta contra o Bologna (3-0). Charles permaneceu considerado entre os dez melhores jogadores europeus, ficando em oitavo na Ballon d'Or, vencida pelo colega Omar Sívori.
thumb|left|250px|Juventus antes de partida contra o Real Madrid pelas quartas-de-final da Liga dos Campeões da UEFA de 1961-62. Charles, capitão dos italianos, é o jogador alvinegro mais à frente, à esquerda na foto. A Juve provocaria naqueles duelos a primeira derrota do Real dentro de Madrid na história da competição
Como campeã italiana, a Juventus avançou até as quartas-de-final da Liga dos Campeões da UEFA de 1961-62, quando enfrentou o Real Madrid, após eliminar o Partizan em placar agregado de 7-1. Em Turim, os espanhóis venceram por 1-0 e ficaram extremamente confiantes no jogo de volta, pois jamais haviam perdido em casa em partidas válidas pela competição, na qual haviam sido recentemente pentacampeões seguidos (entre as temporadas 1955-56 e 1959-60). A Juventus conseguiu o feito de encerrar a invencibilidade adversária em Madrid, repetindo o 1-0, forçando uma terceira partida no neutro Parc des Princes, em Paris. Nesse jogo, John Charles jogou mais recuado para reforçar a contenção aos craques do oponente. Porém, lesionou-se aos 15 minutos de jogo, condicionando o restante da partida: como não eram permitidas substituições, precisou ficar até o fim. O Real venceu por 3-1, com dois gols após os 20 minutos do segundo tempo.
Charles, uma vez mais, ficou entre os dez primeiros da Ballon d'Or, em nono ao fim do ano de 1962. Contudo, em paralelo ao avanço na competição continental, no campeonato italiano o clube ressentiu-se da aposentadoria de Giampiero Boniperti em 1961, terminando-o apenas em 12º, colocação mais baixa até o rebaixamento nos tribunais em 2006. Charles marcou nos clássicos contra Milan, Internazionale e Torino, mas só o jogo contra o Toro foi vencido - os resultados foram, respectivamente, duas derrotas de 4-2 em Turim e vitória de 3-1 como visitante. Foi a última temporada do galês em Turim. Ao todo, foram 93 gols em 155 partidas pela Vecchia Signora, que negociou-o de volta com o Leeds United. Charles era àquela altura o estrangeiro com mais gols pela Juventus, sendo depois superado por Michel Platini e David Trezeguet.
Últimos anos
O Leeds estava na segunda divisão, mas Charles tinha também razões familiares para voltar a seu país, pois preocupava-se que o filho fosse alfabetizado em inglês. O retorno foi acertado em 53 mil libras. Charles, porém, não se readaptou, e em novembro de 1962 já estava novamente no futebol italiano, dessa vez para defender a Roma - em negócio de 70 mil libras. Charles começou bem, marcando quatro vezes entre a 9ª e a 14ª rodadas. Porém, lesões e problemas pessoas impediram êxito na capital, atuando somente dez vezes pelo novo clube.