Mindelo é uma cidade que se localiza na ilha de São Vicente, é sede do concelho homónimo e é a segunda maior cidade de Cabo Verde. Ocupa uma área total de 67 km² a noroeste da ilha, na Baía do Porto Grande, porto natural formado pela cratera submarina de um vulcão com cerca de 4 km de diâmetro. O Ilhéu dos Pássaros, com 82 metros de altitude e que hospeda um pequeno farol, sinaliza a outra extremidade da cratera.
Esta cidade é geminada com Mafra.
Introdução Na cidade de Mindelo encontra-se um desenvolvimento e uma prosperidade raros nas outras ilhas, sobretudo graças ao seu porto de águas profundas — o Porto Grande — que serve de escala transatlântica para navios de todas as nacionalidades.
Em Mindelo respira-se uma atmosfera muito própria e um ar cosmopolita trazido pelo Porto Grande. Esta atmosfera única é indissociável do calor humano e da hospitalidade das suas gentes. É a sua faceta de cidade amante do lado divertido da vida que lhe confere o rótulo de capital da diversão do país: bons restaurantes, frequentes animações com música ao vivo e, sobretudo, uma agradável convivência que a sua gente procura e cultiva. Ao clima ameno, pautado por uma temperatura suave, juntam-se o arranjo cuidado dos lugares públicos, o património histórico bem preservado e um movimento cultural permanente. É talvez esta multiplicação de manifestações de vivacidade que levam a considerá-la a cidade mais acolhedora e atraente do país. Há quem diga que aqui nasceu a morabeza e aqui continua a ser a sua sede.
Mindelo é o resultado de duas grandes influências, a colonial portuguesa e a britânica, denunciadas ao virar de cada esquina nos seus arruamentos e na arquitectura dos seus belos edifícios. Destacam-se o Palácio do Governador, a Câmara Municipal, a Pracinha da Igreja – o berço da cidade, a partir da qual foram construídas as primeiras casas e traçadas as primeiras ruas –, a Avenida Marginal – com a réplica da Torre de Belém de Lisboa –, o Fortim d'el-Rei – a construção mais antiga existente em Mindelo e com uma soberba vista panorâmica sobre a cidade e a baía, – a Alfândega Velha – hoje Centro Nacional de Artesanato, único local instituído como guardião dos riquíssimos testemunhos da arte cabo-verdiana.
A cidade tem uma vida nocturna fervilhante. O ponto de encontro para a ronda de bares e discotecas é na Praça Nova de onde se parte para descobrir a riqueza e diversidade da música cabo-verdiana com mornas, coladeras, funanás e kizombas. Um dos pontos altos da animação da cidade é o Carnaval de Mindelo que ocorre na mesma data do Carnaval brasileiro e europeu. Perto de Mindelo realiza-se anualmente o famoso Festival de Música da Baía das Gatas.
Mindelo tem escolas primárias e secundárias, jardins, bancos e uma vida nocturna que nada fica a dever as grandes capitais europeias.
Mindelo foi a Capital Lusófona da Cultura em 2003. O aeroporto localiza-se 7 km a sudoeste da cidade, perto de São Pedro.
História Vista à distância, a história de São Vicente e da sua cidade pouco mais parece que uma sucessão de desastres, se se exceptuar o facto de o porto carvoeiro, e tudo que a ele ficou associado em termos de grandeza e miséria, ter tido o poder de criar nos filhos de todas as ilhas que ali se juntaram uma grande consciência de identidade que as crises, e também as desatenções do poder, mais não fizeram do que aprofundar.
O difícil arranque A falta de recursos naturais e os períodos de seca prolongada adiaram, por séculos, a fixação de povoações permanentes na ilha de São Vicente.
Várias tentativas de povoar São Vicente foram levadas a cabo, com o propósito de aproveitar os campos de pasto para a criação de gado e, principalmente, as potencialidades naturais oferecidas pela baía do Porto Grande. Com efeito, desde sempre que o generoso abrigo oferecido por esta baía foi cobiçado por outros países e frequentemente usado à revelia das autoridades portuguesas que não dispunham de meios suficientes para cuidar de todas as suas possessões. Assim, não poucos piratas e corsários se serviram dele como porto de descanso e de espera para as suas investidas. Em 1624 foi ali que se reuniu a armada holandesa de vinte e quatro velas e 3.300 homens, sob o comando do almirante Jacob Willekens, cujo objectivo era a conquista da Baía de Todos os Santos, no Brasil.
Para evitar que o porto continuasse a ser usado por piratas, em 1781, foram dadas ordens expressas para o rápido povoamento de São Vicente. No entanto, só em 1795 chegariam os primeiros colonos: vinte casais e cinquenta escravos, levados do Fogo pelo recém-nomeado capitão-mor de São Vicente, João Carlos da Fonseca Rosado, homem abastado natural de Tavira. Uma dúzia de barracas e cabanas, erguidas no local onde hoje se localiza a Pracinha da Igreja, constituíam a Aldeia de Nossa Senhora da Luz.
Em 1819, não tendo São Vicente mais de 120 habitantes, o governador António Pusich, apercebendo-se das potencialidades do Porto Grande, leva para lá mais 56 famílias de Santo Antão. Sonhando com a criação de uma cidade, rebaptiza a povoação com o pomposo nome de Leopoldina, em homenagem à imperatriz Maria Leopoldina de Áustria, esposa de D. Pedro IV.
Em 1821 a ilha tinha 295 habitantes, no entanto, a seca extrema que a assolou nos anos subsequentes viria a reduzir a um ínfimo o número de habitantes da ilha. Apesar de todas as dificuldades, as autoridades mantinham-se resolutas a criar uma grande cidade na baía do Porto Grande. Com a ascensão dos liberais ao poder na metrópole, em Setembro de 1835 é nomeado governador Joaquim Pereira Marinho. No ano seguinte, o inglês John Lewis visita a ilha com o objectivo de avaliar as condições do porto para servir de escala aos navios da inglesa Companhia das Índias.
Apesar de contar com apenas 340 habitantes, Marinho defende acerrimamente a ideia de criar uma nova capital para Cabo Verde em torno do Porto Grande. Por decreto ministerial e portaria régia de 11 de Junho de 1838 é autorizada a mudança da capital da Praia para São Vicente.
Há, porém, atrasos a impedir a concretização desse acto político, nomeadamente uma grande resistência dos defensores da continuação da capital na Praia, de modo que a transferência acabará por nunca se concretizar, em parte também por arrefecimento do entusiasmo do próprio governador Marinho.
De todo o modo, em 1838 a companhia inglesa East India estabelecia em São Vicente o primeiro depósito de carvão, ao mesmo tempo que na metrópole o Marquês de Sá da Bandeira decretava que a povoação na baía do Porto Grande adoptasse o nome de Mindelo, em memória do desembarque do exército expedicionário de D. Pedro IV nas praias perto da localidade do Mindelo em Portugal. E para mostrar que, desta vez, não se ia ficar pelas intenções, de Lisboa seguem também os planos da futura urbe.
O ciclo do carvão A carvoeira East India teria uma presença efémera em Mindelo. Porém, em 1850 a Royal Mail Steam Packet inicia a instalação de depósitos de carvão para abastecimento da navegação que ali passa com destino ao Atlântico Sul. Por causa disso, logo se torna necessário dotar a ilha de alfândega própria, e em Março de 1852 o Governo desanexa São Vicente de Santo Antão, constituindo um concelho independente, tanto mais que no ano seguinte a companhia inglesa Visgent Miller instala novo depósito de carvão de pedra. Patent Fuel, Thomas & Miller e MacLoud & Martin são outras empresas carvoeiras em actividade.
Desde Julho de 1851 que ficaram isentos de pagamento de direitos os diversos materiais para edificação de prédios urbanos que ali dessem entrada para esse efeito. Para proteger militarmente Mindelo e o Porto Grande, constrói-se em 1852 o Fortim d'el-Rei, dotado de guarnição militar e sete bocas-de-fogo. Por portaria de 10 de Março de 1857, é abolida a escravatura em São Vicente e, no ano seguinte, em São Nicolau e Santo Antão. No ano seguinte, Mindelo já possuía quatro ruas, quatro travessas, dois largos e 170 habitações, e a sua população estava calculada em 1400 habitantes, sendo elevada à categoria de vila.
Tudo parecia estar a caminhar pelo melhor, com Mindelo aberto ao mundo e ao progresso, quando subitamente, em 1861, a ilha é atingida por um surto de febre amarela que a flagela com tanta violência ao ponto de, por falta de mão-de-obra, praticamente cessar o abastecimento de carvão aos vapores que demandavam o Porto Grande. Crê-se que a febre amarela tenha reduzido a população de Mindelo a metade.
Passada que foi essa crise terrível, Mindelo vai lentamente regressando ao seu anterior ritmo de crescimento e pouco tempo depois, com a ajuda da emigração das ilhas vizinhas, voltava a atingir os seus 1400 habitantes. Em 1862 já se construíra o edifício da alfândega, diversos outros estavam em construção e a vila já tinha uma bonita igreja com a invocação de Nossa Senhora da Luz. Outros progressos iam também acontecendo: a 18 de Março de 1874 seria amarrado na praia da Matiota o primeiro cabo submarino do telégrafo ligando a ilha à Europa e ao Brasil e, com a instalação no Porto Grande dos depósitos da Cory Brothers & C.ª em 1875, Mindelo passa a ser considerado o maior porto carvoeiro no Atlântico médio.
Em 1884 a India Rubber Gutta Percha estende um cabo submarino até à cidade da Praia e, pouco depois, até à África Ocidental e Austral e aos Estados Unidos. Mindelo manteve, assim, uma grande importância nas comunicações telegráficas do Império Britânico. Mais de cem cidadãos britânicos e muitos mais cabo-verdianos trabalhavam na empresa do telégrafo. Com apenas com 9% da população do arquipélago, Mindelo contribuía com um quatro de todos os impostos da colónia.
left|thumb|Antigo brasão da cidade de Mindelo
Nessa época, Mindelo já era uma vila requintada, iluminada por 100 candeeiros de petróleo, e dotada não só de belos edifícios públicos – igreja, palacete do governo, paços do concelho, quartel, alfândega com seu cais, ponte de madeira e caminho-de-ferro, para além de um mercado em construção – mas também de algumas casas particulares onde não faltava o conforto. Já em Janeiro de 1873 o Conselho da Província tinha estabelecido a obrigatoriedade de os habitantes de Mindelo plantarem uma árvore por cada três metros quadrados de terreno de quintal. Assim, em 1879, época em que já tinha 27 ruas, 1 praça – a célebre Praça D. Luís, iluminada por um bonito candelabro –, 5 largos, 11 travessas, 1 beco e 2 pátios, quase todos calcetados, arborizados e iluminados por um total de 120 candeeiros de petróleo e uma população de 3300 habitantes, foi formalmente elevada à dignidade de cidade.
A nível do comércio e dos serviços a cidade estava provida de 1 armazém de venda por grosso da Casa Millers que fornecia não só aos negociantes da terra como também a muitos das ilhas; 3 lojas de fazendas, mercadorias e bebidas, com venda por atacado e a retalho; 11 lojas de fazenda de primeira ordem com venda a retalho; 15 lojas de fazenda de segunda ordem; 108 tabernas; 7 padarias; 2 talhos; 5 casas de comida; 3 hotéis com casa de pasto e 2 botequins com bilhares. O grande problema de São Vicente era realmente a água, na maior parte importada do Tarrafal de Santo Antão, ou feita através de poços, sendo 13 públicos e 22 particulares.
Mas não só em infra-estruturas crescia a cidade. A instrução era também objeto de atenção e funcionavam escolas de instrução primária para o sexo masculino e para o sexo feminino, para além de ensino particular de francês, inglês e escrituração comercial, tendo mesmo os alunos da escola municipal formado uma filarmónica de música marcial. A 10 de Junho de 1880, dia do tricentenário da morte do épico Camões, inaugurou-se a escola de seu nome e também a biblioteca pública com mais de mil volumes, todos adquiridos através de donativos dos munícipes. Nessa data de 1880 foi também lançada a primeira pedra para a construção do hospital da ilha.