O (), também conhecido como Principado de Moscou (), Moscóvia ou Grão-Principado de Moscou, foi a entidade política antecessora do Império Russo e sucessora da Rússia de Kiev nas suas terras nórdicas. Este período da história da Rússia costuma situar-se entre os princípios do até ao princípio do . Moscou era o local de origem dos czares russos.
Evolução e ascensão da Moscóvia Quando os mongóis invadiram as terras da Rússia de Quieve, Moscou não passava de um insignificante posto de comércio no principado de Vladimir-Susdália. No inverno de 1238, os mongóis incendiaram a cidade, além de, em um ataque punitivo, a terem saqueado, em 1293. Apesar disso, a localização remota, situada em uma área de florestas, oferecia certa segurança contra os ataques mongóis e a ocupação e muitos rios ofereciam acesso para os mares Báltico e Negro e a região dos montes Cáucasos. No entanto, o mais importante para o desenvolvimento de Moscou no que viria a ser o estado da Moscóvia, foi o papel desempenhado por uma série de príncipes ambiciosos, determinados e com muita sorte. O primeiro governante do principado de Moscou, Daniel (morto em 1303), assegurou o principado para seu ramo da Dinastia ruríquida. Seu filho Ivã I, que governou Moscou entre 1325 e 1340 e tornou-se conhecido como Ivã Calita, obteve de seus mestres mongóis o título de Grão-Príncipe de Vladimir, tendo colaborado com os mongóis e colecionado tributos de outros principados russos em seu nome. Tal relação proporcionou a Ivã uma maior projeção regional, em especial sobre o principal rival da Moscóvia, a cidade de Turóvia. Em 1327, a residência do metropolita ortodoxo foi transferida de Vladimir a Moscou, aumentando ainda mais o prestígio do novo principado sobre os demais. Em 1392, o cã da Horda Dourada concedeu Nijni Novgorod a Moscou em agradecimento a alianças militares.
No , os grão-príncipes da Moscóvia começaram a reunir as terras russas para aumentar a população e riqueza sob seu domínio. O mais bem sucedido foi Ivã III, o Grande, que governou Moscou entre 1462 a 1505. Em 1478, conquistou Novogárdia Magna e em 1485 Turóvia, e através de herança obteve parte da província de Resânia e os principados de Rostov e Jaroslávia subordinaram-se de forma voluntária à sua autoridade. Porém seu maior feito foi ter libertado os principados russos de quase dois séculos e meio de jugo tártaro-mongol, derrotando-os em 1480 na Batalha do rio Ugra. No início do todas essas terras estavam virtualmente unidas. Pescóvia nessa época continuou independente, porém seu filho Basílio III (reinou de 1505 a 1533) a conquistou.
Ivã III foi o primeiro governante moscovita a utilizar os títulos de czar e "Soberano de todas as Rússias", uma ideia inspirada no Império Bizantino, após a libertação do jugo da Horda. Ivã ainda competiu com a Lituânia, seu poderoso rival ocidental, pelo controle de alguns dos antigos principados semi-independentes da Rússia de Quieve no alto Dniepre e na bacia do Rio Donets. Através da deserção de alguns príncipes, atritos de fronteiras e uma longa e inconclusiva guerra contra a Lituânia, que terminou apenas em 1503, Ivã III foi capaz de avançar na direção oeste, e o território moscovita triplicou de tamanho sob seu reinado.
No começo do o estado Russo passou a ter como meta o retorno de todos os territórios russos perdidos por conta da invasão mongol e para proteger as terras fronteiriças contra ataques das hordas. O nobre, recebendo do soberano, ficou obrigado de servir no exército. Tal sistema tornou-se a base do exército de cavalaria nobre.
Evolução da autocracia russa
A consolidação A consolidação interna foi acompanhada no plano externo pela expansão territorial do Estado. No , os governantes da Moscóvia consideraram todo o território russo como sua propriedade coletiva. Vários principados semi-independentes da linhagem Ryurikida reivindicavam algum território em especial, porém Ivã III forçou os principados menores a reconhecer o grão-príncipe da Moscóvia e seus descendentes como governantes inquestionáveis com controle sobre assuntos militares, judiciais e externos.
Aos poucos, o governante moscovita emergiu como um governante poderoso, autocrático, um czar. Ao assumir tal título, o governante moscovita assumiu que era um grande governante ou imperador à altura do imperador bizantino ou do "khan" mongol. Após o casamento de Ivã III com Sofia Paleóloga, a sobrinha do último imperador bizantino, a corte moscovita adotou títulos, rituais e costumes bizantinos, além de símbolos como a águia de duas cabeças. De início, o termo bizantino autocrata indica apenas o significado literal de um governante independente, porém, no reinado de Ivã IV, o Terrível (1533-1584) passou a significar governo ilimitado. Ivã IV foi coroado czar e foi reconhecido, pelo menos pela Igreja Ortodoxa Russa, como imperador. Um monge ortodoxo reivindicou que, quando Constantinopla caiu diante do Império Otomano em 1453, o czar moscovita era o único governante legítimo ortodoxo e que Moscou era a Terceira Roma porque era o sucessor final da Antiga Roma e Constantinopla, os centros da cristandade nos primeiros períodos. Tal conceito ressoou na auto-imagem dos russos nos próximos séculos.
Os boiardos Os boiardos eram nobres hereditários em três categorias: Príncipes Ryurikidas de cidades do Alto Oka, Suzdal, Rostov, Yaroslav e outras que viviam em Moscou após seus principados hereditários serem incorporados na Moscóvia (e.g., Shuisky, Vorotynsky, Repnin, Romodanovsky); Príncipes estrangeiros da Lituânia e da Horda de Ouro, reivindicando serem descendentes tanto do Grão Duque Gediminas ou de Genghis Khan (e.g., Belsky, Mstislavsky, Galitzine, Trubetskoy); Antigas famílias da nobreza moscovita que foram lembradas em serviço de Grão-Duques do (e.g., Romanov, Godunov, Sheremetev).
Boiardos Ryurikidas e Gediminidianos, cujos pais e avôs eram príncipes independentes, sentiram que eles eram parentes do czar e portanto igual a ele. Durante o período de perturbações dinásticas, como por exemplo os anos da menoridade de Ivã IV, os boiardos constituíram-se uma força interna que se tornou um perigo permanente ao trono. Uma forma inicial de conflitos entre os boiardos e o czar foi a Opríchnina de Ivã IV, o Terrível.
Durante tais conflitos, Ivã IV, o Terrível, Boris Godunov, e alguns czares posteriores viram a necessidade de se contrapor os boiardos criando um novo tipo de nobreza, baseada na devoção pessoal ao czar e méritos de serviço, por hereditariedade. Depois tais novos nobres foram chamados de dvoryans (singular: dvoryanin). O nome vêm da palavra russa dvor que significa o dvor do czar, i.e., a corte. Daí a expressão pozhalovat ko dvoru, i.e., ser chamado a (servir) a corte.
Ivã IV, o Terrível
O desenvolvimento do poder autocrático do czar alcançou seu apogeu durante o reinado de Ivã IV, que se tornou conhecido como a Terrível (seu epíteto russo, Groznyy, significado ameaçador ou aterrador). Ivã assumiu a posição de czar a um nível sem precedentes, demonstrando os riscos de um poder nas mãos por um indivíduo mentalmente instável. Apesar de aparentemente ser inteligente e enérgico, Ivã sofria de paranóia e depressão, e seu governo foi marcado por atos de extrema violência.
Ivã IV tornou-se o grão-príncipe da Moscóvia em 1533 aos três anos de idade. As facções boiardas Shuisky e Belsky disputavam o controle da regência até Ivã assumir o trono em 1547. Refletindo as novas reivindicações imperiais da Moscóvia, a coroação de Ivã como czar foi um elaborado ritual modelado após começar seu reinado com uma série de reformas úteis. Nos anos 1550 promulgou um novo código de leis, reestruturou o exército e reorganizou o governo local. Tais reformas sem dúvida foram feitas com o intuito de fortalecer o Estado diante das guerras contínuas.
No final dos anos 1550, Ivã tornou-se hostil a seus conselheiros, o governo e os boiardos. Os historiadores ainda não determinaram se tais rixas foram ocasionadas por diferenças políticas, ódio pessoal ou desequilíbrio mental. Em 1565 dividiu a Rússia em duas partes: seu domínio pessoal e o domínio público. Para seu domínio privado, Ivã escolheu os mais prósperos e importantes distritos da Rússia. Nessas área os agentes do czar atacaram boiardos, mercadores e por vezes pessoas comuns, executadas sumariamente com suas propriedades e bens confiscadas.
Isso começou uma década de terror na Rússia. Como resultado desta política, chamada a oprichnina, Ivã destruiu o poder político e econômico das principais famílias boiardas, deste modo destruindo precisamente estas pessoas que construíram Moscóvia e eram as mais capacitadas a administrá-las. Isso refletiu com a diminuição do comércio, e os camponeses, diante de taxas enormes e ameaças de violência, começaram a deixar a Rússia. Esforços para a estimular mobilidade dos camponeses para mantê-los em suas terras levou a Rússia a uma situação próxima a servidão legalizada. Em 1572, Ivã abandonou as práticas da oprichnina.
Apesar da turbulência interna do final do período de Ivã, a Rússia continuou com suas guerras de expansão. Em 1552 anexou o Canato de Cazã no médio Volga e em 1556 foi a vez do Canato de Astrakhan cair sob seu domínio. Assim a Rússia ganhou acesso ao Mar Cáspio e o Rio Volga, estendendo suas fronteiras às proximidades da Sibéria e da Ásia Central. Na direção leste a expansão russa encontrou pouca resistência. Em 1581, a família mercantil Stroganov, interessada no comércio de peles, patrocinou o líder cossaco Yermak Timofeyevich para liderar uma expedição na Sibéria Ocidental. Como resultado desta campanha Yermak derrotou o Canato da Sibéria e reivindicou os territórios a oeste dos rios Ob e Irtysh para a Rússia.
Porém a expansão ao noroeste, em direção ao mar Báltico, provou ser muito mais difícil. Em 1558 Ivã invadiu a Livônia, que levou a uma guerra que durou 25 anos contra Polônia, Lituânia, Suécia e Dinamarca. Apesar de alguns sucessos, o exército de Ivã, e a Rússia falhou em assegurar uma posição no Mar Báltico, coisa que só viria a conseguir com Pedro, o Grande. Em 1571 Devlet-Giray, cã da Crimeia, com um exército de 120 mil cavaleiros devastou Moscou e capturou uma grande quantidade de escravos. As fronteiras da Moscóvia passaram a ser invadidas praticamente que anualmente pela Horda Nogai e o Canato da Crimeia, vitimando milhares de russos. Diante de tal situação a fronteira sul passou a ser protegida por milhares de soldados -- um pesado fardo para o Estado que enfraqueceu seu desenvolvimento social e econômica. As guerras prejudicaram a Rússia. Alguns historiadores acreditam que Ivã criou a oprichnina para mobilizar recursos para suas guerras e calar a oposição quanto a isso. Independente do motivo, as políticas interna e externa de Ivã tiveram um efeito devastador na Rússia, levando-a a um período de guerra civil e lutas civis, como foi caracterizado o Período dos Problemas.
Período de confusão esquerda|miniaturadaimagem|Pintura do artista russo Sergei Miloradoviche: “Defesa da Lavra da Trindade de São Sérgio” (A imagem descreve um episódio do Tempo de Dificuldades - o cerco da Lavra da Trindade-São Sérgio pelas tropas de Sapieha). Ivã IV foi sucedido por seu filho Teodoro, que era mentalmente deficiente. O poder então nas mãos do boiardo Boris Godunov, cunhado de Teodoro. Talvez o mais importante acontecimento do seu reinado foi a proclamação do patriarcado de Moscou em 1589. A criação do patriarcado culminou na criação de uma Igreja Ortodoxa Russa separada e totalmente independente do Estado.