Trento (em italiano Trento, dialeto trentino Trènt, alemão Trient e em latim Tridentum) é uma comuna italiana, capital da Província autónoma de Trento (antigo Tirolo Italiano), e capital administrativa da região autônoma Trentino-Alto Ádige/Südtirol, com aproximadamente 116.386 habitantes.

Estende-se por uma área de 157,9 km², tendo uma densidade populacional de 737 hab/km². Faz divisa com Albiano, Aldeno, Altopiano della Vigolana, Besenello, Cavedine, Cimone, Civezzano, Garniga Terme, Giovo, Lavis, Madruzzo, Pergine Valsugana, Vallelaghi e Villa Lagarina.

Quem nasce em Trento é chamado tridentino, adjetivo que significa "pertencente a Trento" e do qual deriva o termo trentino, indicando "morador dos arredores de Trento".

História Origens e Período Romano Trento se desenvolveu a partir de um assentamento rético no vale do rio Ádige. A origem do nome tem algumas hipóteses e, provavelmente, a mudança de sentidos segue uma sequência histórica:

Deriva do nome céltico Trent em homenagem ao deus das águas, por causa do rio Ádige (também na Inglaterra existe um rio com o mesmo nome, que atravessa um antigo território céltico.) Deriva da palavra rética trent, indicando uma trifurcação do rio Ádige. Deriva do nome latino Tridentum ("tridente"), dado em homenagem ao deus romano das águas (Netuno) por causa das três colinas ao redor da cidade (Doss Trent, Dosso Sant'Agata e Dosso di San Rocco).

Já durante a Antiguidade, Trento constituía-se numa importante rota de passagem de vários povos. Conquistada pelos romanos em , torna-se município entre 50 e No ano 15, Druso e Tibério subjugaram os réticos e a região foi totalmente conquistada. Resquícios do período romano podem ser ainda encontrados no subsolo da cidade.

Idade Média

Em meados do é construída a catedral, cujo primeiro bispo foi Jovino. A diocese era importante e passou a ter maior relevância com São Vigílio (335 - 405), evangelizador e mártir, e considerado o patrono da cidade. A partir do , a região é dominada por vários povos germânicos. Inicialmente pelos Ostrogodos, sob o rei Teodorico, o Grande. Em 568, chegam os Lombardos, seguidos dos Francos e dos Baiuvares, que se estabeleceram em vários vales da região. O bispo Agnelo tratou de assumir compromissos com os Francos e Longobardos para preservar a cidade de saques.

Os Longobardos instituíram o Ducado de Trento e transformaram a região em Marca, estabelecendo em Trento a sede da administração local com a criação do Tridentinum Territorium. O primeiro duque foi Evino (Ewin), morto em 592. Em 982, Trento passa a fazer parte do Sacro Império Romano-Germânico por iniciativa de , primeiro imperador da nação germânica. O nome alemão da cidade, Trient, tem origem nesse período de domínio germânico.

thumb|Mapa do mostrando os muros da cidade e o curso original do Rio Ádige

Em 1027, Trento tornou-se a capital administrativa do Principado Episcopal de Trento, criado juntamente com o Principado Episcopal de Bressanone pelo imperador germânico . Os príncipes-bispos tinham direito de voto na escolha do imperador do Sacro Império e logo a cidade tornou-se um importante centro imperial. O território original do principado tridentino era mais extenso do que o atual território trentino e abrangia, inclusive, a cidade de Balsano (Bolzano). A partir do , os bispos de Trento e Bressanone passaram a administrar as terras episcopais com auxílio de vassalos, isto é, famílias nobres da região. Entre eles, estavam os Condes do Tirol, originários de Merano e senhores do Castelo Tirol. Seu nome, provavelmente de origem ladina, batizou toda a região a partir do momento em que a nobre família passou a defender (advocare) militarmente as terras dos príncipes bispos, englobando-as posteriormente num sistema administrativo que uniu o poder temporal do Condado do Tirol ao religioso dos principados episcopais (Foederatius Tyrolensis).

No decorrer dos séculos XIII e XIV, os condes "de" Tirol passaram a condes "do" Tirol e toda a região, outrora chamada em latim Terra in Montibus passou a chamar-se Tirol. Trento teve maior prestígio quando o controle do condado tirolês passou para os Habsburgo, duques da Áustria, tornando-se uma "ponte" que unia a Europa germânica ao mundo latino. No decorrer dos séculos, Trento foi governada por 52 príncipes bispos. Em sua maioria, os bispos eram de origem germânica (Lichtenstein, Thun, Wanger/Vanga, Hinderbach, Clesio/Glöss, Madruzzo/Madrutz).

O centro velho da cidade é também chamado "bairro alemão" porque ali habitava sobretudo a antiga população de língua alemã da cidade. Durante a Idade Média, os tridentinos alemães representavam cerca de 20 a 30% da população total da cidade (sempre de maioria italiana), número que caiu gradativamente chegando a cerca de 4% no .

Em meados de 1200, Trento foi um centro minerário (sobretudo de prata), com minas no Monte Calísio (Calisberga), nas proximidades de Cortesano. Os mineiros eram, na sua maioria, alemães vindos dos vales do atual Tirol austríaco e Baviera, muitos dos quais se instalaram em Val dei Mòcheni/Fersental, um vale a poucos quilômetros de Trento onde o idioma principal é ainda o alemão O. primeiro estatuto sobre extração de minério da região alpina foi escrito em Trento, atribuído ao bispo Federico Vanga (Friederich Wanger).

Renascença Durante a Renascença, Trento sofre várias modificações arquitetônicas inspiradas nas cidades italianas. Muitas construções em estilo gótico alemão foram modificadas, assumindo caracteres "mistos". Durante esse período, Trento constituiu-se efetivamente enquanto "ponto de encontro" das culturas latina e germânica e podia ser considerada uma cidade bilíngue porque, além do italiano, falado pela grande maioria da população local, o uso da língua alemã era ainda bastante difuso na cidade, como se atesta em documentos da época.

Em 1475, o desaparecimento do pequeno Simão de Trento tornou-se o motivo de grande preocupação na cidade e de difamação da pequena comunidade judaica de Trento, originária sobretudo do Leste Europeu. Durante a passagem do Beato Bernardo da Feltre, pregador franciscano itinerante, este previu um doloroso acontecimento na cidade, que caiu sobre os judeus. O garoto, de três anos, desapareceu durante a páscoa judaica e foi encontrado no riacho que passava por baixo da sinagoga da cidade, com o corpo repleto de marcas de tortura ritual. Os líderes da comunidade foram presos e dezessete deles confessaram sob tortura. Quinze foram sentenciados à morte na fogueira. Simão logo tornou-se símbolo de veneração e seu caso era muito parecido com outros da Europa, como o de André de Rinn (Anderl von Rinn). O culto ao beato foi reprimido (não suprimido) durante o Concílio Vaticano Segundo e seu culto foi removido do calendário canônico, mas não do martirológio católico.

Em 1508, Maximiliano I de Habsburgo foi coroado imperador na catedral de Trento (Duomo di Trento) e, em 1511, instituiu o Landlibell (Landlibello), o sistema de defesa territorial tirolês que ficou em vigor até o . Alguns afrescos do imperador ainda podem ser vistos na cidade.

Entre 1545 e 1563, a cidade teve grande relevância por causa do Concílio de Trento que deu origem à Contra-Reforma e estabeleceu a padronização do Rito romano enquanto ritual oficialmente aprovado para toda a Igreja latina, suprimindo as variações locais não antiguas e estabelecendo a Missa Tridentina.

O período napoleônico Em 1802, as tropas francesas de Napoleão Bonaparte invadem o Império Austríaco, obrigando o imperador Francisco I a abdicar da coroa do Sacro-Império. O Tirol é inicialmente invadido através da região trentina (principalmente pelo Val di Sole) e, posteriormente, pelo norte, através da Baviera (aliada de Napoleão). A fortificada Trento não resiste e é invadida; o príncipe-bispo, Pietro Vigilio Thun, foge e se exila.

As novas ideias advindas do Iluminismo francês descontentaram a população tirolesa, que pegou em armas para combater as tropas napoleônicas formadas por franceses, alemães (bávaros e saxões) e italianos. Atiradores voluntários chamados Bersaglieri ou Sizeri (termo originário do alemão Schützen, significando "protetor") organizaram pequenas guerrilhas que se uniram a partir de 1807. O líder máximo da insurreição tirolesa contra Napoleão foi o taberneiro e vendedor de cavalos Andreas Hofer, originário de S. Leonardo (localizada na atual Província de Bolzano). Profundamente católico e líder carismático, viveu anos de sua juventude no Tirolo Italiano (ou Welschtirol, atual Trentino), onde aprendeu o idioma italiano e o ofício de vendedor. Hofer liderou a partir de 1809 um levante popular que não obteve a prometida ajuda do exército imperial austríaco (apesar da ajuda financeira do irmão do imperador) e, por várias, vezes defendeu o Tirol do exército invasor. Durante a liberação de Trento, Andreas Hofer foi recebido com júbilo pela população local. Contudo, após a derradeira batalha de Bergisel, nos arredores de Innsbruck (que marcou a queda do "invencível" general francês), os tiroleses perderam batalhas sucessivamente e Hofer foi capturado, sofrendo o fuzilamento em Mântua a pedido pessoal de Napoleão. Cerca de 4.000 trentinos caíram em batalha.

O Tirol foi dividido e o território de Trento passou para o controle do Reino napoleônico da Itália, sendo chamado Dipartamento dell'Alto Adige, enquanto a parte norte passou para o controle do Reino da Baviera com o nome de Südbayern (Sul da Baviera). Durante esse período, houve consideráveis modificações no sistema administrativo da cidade de Trento e uma primeira tentativa de italianização dos sobrenomes de origem alemã.

Com a queda de Napoleão e o Congresso de Viena, em 1816, a cidade de Trento retorna para o domínio austríaco, que não refaz o principado episcopal, mas agrega a administração da região trentina juntamente com o governo Condado Principesco do Tirol (Gefürstete Grafschaft Tirol). Ao bispo é mantido o título de "príncipe", que será abolido apenas em 1953 pelo papa Pio XII.

Século XIX thumb|500px|O Império Austríaco de 1816 a 1867. A união do Império Austríaco e do Reino da Hungria com a coroação do imperador Francisco José I marcou o nascimento do Império Austro-húngaro, um Estado multiétnico e multilíngue da Europa. Os trentinos tinham apreço pela figura do imperador, sendo comum que as famílias possuíssem retratos de Francisco José e de sua esposa Isabel da Áustria, popularmente conhecida como Sissi.

Em 1866, durante as incursões de Giuseppe Garibaldi, a Áustria perde o Reino Lombardo-Vêneto para o Reino de Itália. Garibaldi também tentou anexar o Tirol Italiano, mas não obteve sucesso. Na Batalha de Bezzeca, as tropas italianas são expulsas pelos soldados tiroleses que por pouco não capturam Garibaldi (mais tarde o acontecimento será indicado como sendo o Obbedisco ao rei italiano).

A guerra de anexação do Vêneto e da Lombardia trouxe fome e pobreza para a população camponesa e os vênetos começam a emigrar quatro anos depois. A tensão aumenta e a Itália cria um forte embargo aos produtos tiroleses, ocasionando a crise no capo que culminou com a grande imigração trentina a partir de 1875. A imigração não era apoiada oficialmente pela monarquia austríaca, que tentou freá-la inclusive com decretos. Contudo, a crise no campo e o temor de uma nova guerra no Tirol obrigaram famílias inteiras a abandonar sua terra natal e seguir para a América e para outros países da Europa.

thumb|Monumento a Dante nos jardins públicos da cidade. Financiado por abastadas famílias da cidade e construído em 1896 come símbolo da italianidade linguística de Trento sem, contudo, reivindicar qualquer separatismo.