Plínio Salgado (São Bento do Sapucaí, 22 de janeiro de 1895 – São Paulo, 8 de dezembro de 1975) foi um escritor, jornalista, poeta e político conservador brasileiro que fundou e liderou a Ação Integralista Brasileira (AIB), partido nacionalista católico de extrema-direita inspirado nos princípios do movimento fascista italiano.GONÇALVES, Leandro Pereira. Plínio Salgado: um católico integralista entre Portugal e o Brasil (1895-1975). Rio de Janeiro: FGV Editora, 2018.Plínio Salgado .Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001. Acessado em 28 de novembro de 2010.

Inicialmente um adepto da ditadura de Getúlio Vargas, posteriormente foi preso e obrigado a se exilar em Portugal, acusado de promover levantes contra o governo. Após retornar ao Brasil, lançou o Partido de Representação Popular (PRP), sendo eleito para representar o Paraná na Câmara dos Deputados em 1958 e reeleito em 1962, desta vez para representar São Paulo. Foi também candidato à presidência da República no pleito de 1955, obtendo 8,28% dos votos. Após o Golpe de Estado de 1964, que acabou por extinguir os partidos políticos, se juntou à Aliança Renovadora Nacional (Arena), obtendo mais dois mandatos na Câmara. Se aposentou da vida política em 1974, apenas um ano antes de sua morte. Foi membro da Academia Paulista de Letras,Patronos de Escolas Municipais de Ensino Fundamental em São Paulo . Site da Prefeitura de São Paulo. Página visitada em 28 de novembro de 2010. tendo também fundado alguns jornais.

Biografia Nascido na pequena cidade de São Bento do Sapucaí, Plínio Salgado era filho do coronel Francisco das Chagas Salgado (positivista) e da professora Ana Francisca Rennó Cortez, com quem aprendeu as primeiras letras. Sua família era de origem portuguesa.Costa, Evaldo. "Crônica de uma viagem entre os extremos - Agitados verdes anos". Página de Andrade Lima Filho no site da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco. Acessada em 28 de novembro de 2010. Seu avô paterno, Manuel Esteves da Costa, era filho dum partidário do miguelismo no contexto das Guerras Liberais. Plínio era uma criança muito ativa na escola, tendo desenvolvido gosto por matemática e geometria. Aos dezesseis anos de idade, seu pai morreu — fato que, de acordo com alguns relatos, o transformou num jovem amargo. Após o acontecimento, Plínio demonstrou grande interesse por filosofia e psicologia.Albuquerque, Carlos de Faria - Plínio Salgado: resumo biográfico - Editora Gazeta dos Municípios, 78 páginas, 1951

Aos 20 anos de idade, Plínio fundou o jornal semanal Correio de São Bento. Dois anos mais tarde, em 1918, ele começou sua carreira na política, ao participar da fundação do Partido Municipalista (PM), ao lado de Antônio Gama Rodrigues, e que congregava líderes municipais de cidades do Vale do Paraíba, atuando como representante do partido em sua cidade. No mesmo ano, Plínio casou-se com Maria Amélia Pereira e, no dia 6 de julho de 1919, nasceu sua única filha, Maria Amélia Salgado.Loureiro, Maria Amélia Salgado. Plínio Salgado, meu pai. Edições GRD. 2001 Quinze dias mais tarde, sua mulher, Maria Amélia Pereira morreu. Deprimido, rejeitou o estudo de filósofos materialistas e buscou conforto na doutrina católica, se interessando por escritos de autores brasileiros como Raimundo de Farias Brito e Jackson de Figueiredo. Mais uma vez, a morte de um ente querido traria grande impacto à vida de Plínio. Ele só se casaria novamente 17 anos depois, com Carmela Patti.

Através de seus artigos no Correio de São Bento, Plínio se tornou conhecido entre os jornalistas da cidade de São Paulo, fato que levou-o a ser convidado para trabalhar no Correio Paulistano, jornal oficial do Partido Republicano Paulista (PRP), em 1920. Ali, onde atuou primeiro como revisor e depois como redator, se tornou amigo do poeta e escritor Menotti del Picchia. Em 1922, Plínio participou discretamente da Semana de Arte Moderna. Em 1924, deixou o Correio Paulistano e empregou-se no escritório de advocacia de Alfredo Egídio de Sousa Aranha, com quem manteria vínculos duradouros, mesmo não sendo formado em Direito.

Publicou seu primeiro romance, O Estrangeiro, em 1926. Depois disso, na companhia de Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e Cândido Mota Filho, alinhou-se ao movimento Verde-Amarelo, vertente nacionalista do modernismo. No ano seguinte, ao lado de Ricardo e del Picchia, fundou o Grupo da Anta,Albuquerque, Carlos de Faria - Plínio Salgado: resumo biográfico. Editora Gazeta dos Municípios, 78 páginas, 1951. que exaltava os indígenas, em particular os tupis, como verdadeiros portadores da identidade nacional brasileira. No mesmo ano, lançou Literatura e política, livro no qual defende ideias nacionalistas de cunho fortemente antiliberal e pró-agrário, inspirando-se nas obras de Alberto Torres e Oliveira Viana. No livro, se declara anticosmopolita, defensor de um Brasil agrário e contrário ao sufrágio universal. Essa sua guinada ao conservadorismo fez com que Ricardo fundasse, em 1937, ao lado de del Picchia, o Grupo da Bandeira, uma resposta social-democrata ao Movimento Verde-Amarelo e ao Grupo da Anta. Entrevistado sobre a Semana de 22, movimento artístico no qual tomou parte, em 1972, Salgado destacou seu discurso no Tiro de Guerra, em que fazia apologia à Ordem, à Hierarquia e à Autoridade.Salgado, Plínio e Dorea, Augusta Garcia - O pensamento revolucionário de Plínio Salgado: uma antologia - Editora Voz do Oeste, 1983

Integralismo

thumb|300px|Sessão de encerramento do Congresso Integralista. Plínio Salgado encontra-se sentado ao centro. Blumenau, 1935.

Em 1928 foi eleito deputado estadual em São Paulo pelo PRP. Em 1930, apoiou a candidatura de Júlio Prestes contra Getúlio Vargas. Em seguida, sem terminar o mandato de deputado, viajou à Europa como tutor do filho de Sousa Aranha, tendo se impressionado com a Itália fascista de Benito Mussolini. De volta ao Brasil em 4 de outubro de 1930, um dia após o início da Revolução de 1930, que depôs o presidente Washington Luís, escreveu dois artigos no Correio Paulistano defendendo o governo dele. Contudo, com a vitória dos revolucionários, passou a apoiar o regime instaurado por Vargas, tendo inclusive redigido o manifesto da Liga Revolucionária de São Paulo, organização de apoio a Vargas liderada por Miguel Costa e João Alberto.

Em junho de 1931, cofundou com Augusto Frederico Schmidt na capital paulista o jornal diário A Razão, tornando-se seu redator. Nele, desenvolveu campanha intensa contra a constitucionalização do Brasil. Como resultado, atraiu a ira de ativistas contra a ditadura, que atearam fogo à sede do jornal pouco antes da eclosão da Revolução Constitucionalista de 1932.

Em fevereiro de 1932, Plínio fundou a Sociedade de Estudos Políticos (SEP), que congregava, dentre outros, alguns dos principais intelectuais simpáticos ao fascismo. Meses depois, ele lança o Manifesto de Outubro, que apresentava as diretrizes para a fundação de um novo partido político, a Ação Integralista Brasileira (AIB). Em fevereiro de 1934, no I Congresso Integralista, em Vitória, Plínio confirmou sua autoridade absoluta sobre a entidade recém-fundada, tendo recebido o título de "chefe nacional" da AIB.

thumb|esquerda|Foto famosa de Plínio Salgado, em 1935. Era afixada nas casas de integralistas

Plínio adaptou amplamente o simbolismo do fascismo italiano, incorporando uniformes padronizados para os militantes, manifestações de rua disciplinadas e de caráter paramilitar, além de uma retórica fortemente combativa. O movimento recebia apoio financeiro direto, em parte, da Embaixada da Itália no Brasil.Bertonha, João Fábio. "Entre Mussolini e Plínio Salgado: o Fascismo italiano, o Integralismo e o problema dos descendentes de italianos no Brasil". In: Revista brasileira de História. vol 21. número 40. São Paulo, 2001. Como características próprias do movimento, a saudação romana era acompanhada pelo grito da palavra tupi Anauê, que significa Eis-me aqui, enquanto a letra do alfabeto grego sigma (Σ) servia como símbolo oficial da AIB.

Líderes negros como Abdias do Nascimento e João Cândido participaram do movimento, embora este mantivesse uma base social majoritariamente branca e de classe média. Ainda que Plínio Salgado evitasse, em seus discursos públicos, adotar abertamente o racismo ou o antissemitismo, tais ideias eram difundidas entre muitos militantes e, sobretudo, por dirigentes como Gustavo Barroso, cujos escritos expressavam de forma explícita um antissemitismo inspirado em teorias conspiratórias europeias. O jornalista Leandro Narloch chegou a relatar, sem apresentar fontes, que em 1936, durante um desfile integralista, centenas de negros teriam sido espancados no centro do Rio de Janeiro.

A base social da AIB incluía imigrantes italianos, parte expressiva da comunidade portuguesa, membros das classes média e alta urbanas e setores das Forças Armadas, especialmente da Marinha.Bertonha, João Fábio. O Fascismo e os Imigrantes Italianos no Brasil. São Paulo: Editora da UNESP, 2001. À medida que o partido crescia, tornava-se a principal força política organizada à direita, e Getúlio Vargas via no integralismo um apoio mobilizado e disciplinado em contraposição à esquerda brasileira.Trindade, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 1930. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1979.

Em 1937, Plínio lançou sua candidatura à eleição presidencial prevista para janeiro de 1938. Já ciente dos planos de Vargas de cancelar o pleito e instaurar um regime autoritário, o líder integralista apoiou o golpe do Estado Novo, acreditando que o integralismo serviria de base ideológica para o novo governo. Esperava, segundo relatos, ser recompensado com o Ministério da Educação, mas Vargas, uma vez consolidado no poder, decretou a dissolução da AIB, estendendo-lhe a mesma repressão aplicada aos demais partidos políticos.

No ano de 1938, militantes integralistas tentariam por duas vezes, nos meses de março e maio, promover levantes contra o governo.Waak, William. Camaradas. Companhia das Letras, 1993. Apesar de negar participação nos eventos, Plínio foi preso após o levante de maio — sendo aprisionado na Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói —, e cerca de um mês depois enviado para um exílio de seis anos em Portugal. Durante o período de exílio forçado, procurou reabilitar sua imagem com o governo Vargas, elogiando-o em alguns manifestos, inclusive quando da declaração de guerra do Brasil à Alemanha e à Itália.

miniaturadaimagem|Código de Ética do Estudante do Brasil, Plínio Salgado, 1947. Após o exílio Plínio retornou ao Brasil em 1945, com o fim do regime do Estado Novo, quando fundou o Partido de Representação Popular (PRP), com o intuito de reformular a doutrina integralista. Para o historiador Gilberto Calil, em matéria publicada na Revista de História da Biblioteca Nacional, durante essa época "os integralistas fizeram um enorme esforço para esconder seu passado fascista e passaram a se apresentar como defensores da democracia".Calil, Gilberto. "A nova face do movimento". Revista de História da Biblioteca Nacional. 1° de outubro de 2010. Nesse contexto, o PRP foi o primeiro partido brasileiro a reivindicar explicitamente o rótulo de “populista”, utilizando-o como eufemismo diante da impopularidade das ideias fascistizantes no pós-guerra.Zicman de Barros, Thomás, e Miguel Lago. Do que falamos quando falamos de populismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

Ainda impulsionado pela ambição de se tornar presidente, Plínio concorreu no pleito de 1955 sob sua nova sigla, obtendo apenas 714 mil votos (cerca de 8% do total). Após o pleito, Plínio apoiou a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek, o que era contestado pela União Democrática Nacional (UDN), sendo nomeado por ele diretor do Instituto Nacional de Imigração e Colonização.