O Corpo Nacional de Escutas - Escutismo Católico Português (CNE) é a maior organização escutista de Portugal. Foi fundado em 1923, como Corpo de Scouts Católicos Portugueses, passando a Corpo Nacional de Scouts (CNS) em 1925 e adquirindo a denominação atual em 1937.
Constitui uma associação de educação não-formal cuja finalidade é a formação integral de crianças e jovens de ambos os géneros tornando-os em cidadãos ativos, sempre com o apoio de voluntários e à luz do Evangelho de Jesus Cristo e segundo a doutrina da Igreja Católica Romana que a associação professa, assume e difunde.
O CNE baseia a sua ação num programa educativo adaptado aos desafios da nova era e nas finalidades e princípios do método escutista concebido por Baden-Powell — Fundador do Escutismo — atualmente protagonizado pela Organização Mundial do Movimento Escutista.
O CNE é uma instituição reconhecida de Utilidade Pública pelo Governo, desde 1983. É uma associação sem fins-lucrativos, apartidária, não-governamental e de reconhecida utilidade pública.
A Animação da Fé, característica do Escutismo do CNE, é feita naturalmente através do jogo escutista, vivido à luz de Jesus e do Evangelho, procurando contribuir para a formação humana e cristã dos seus associados, pelo testemunho da vida em comunhão eclesial.
O CNE está implementado em cerca de 1 030 agrupamentos locais em todos os concelhos do território continental e regiões autónomas dos Açores e da Madeira, dispondo de uma rede de animação e coordenação territorial apoiada em meia centena de estruturas de núcleo e regionais, tendo como executivo nacional a Junta Central, que assegura a gestão e a implementação das políticas gerais e sectoriais do CNE.
No CNE os associados distribuem-se pelo género feminino e masculino em proporções idênticas. A associação tem tido um crescimento contínuo do seu efetivo, o que, tendo em conta o decréscimo de natalidade, é revelador da aceitação do Escutismo na sociedade portuguesa.
História Fundação O que é atualmente o Corpo Nacional de Escutas - Escutismo Católico Português nasceu em Braga a 27 de maio de 1923. Foram seus fundadores o arcebispo D. Manuel Vieira de Matos e Dr. Avelino Gonçalves, que em Roma mantiveram os primeiros contactos com o Movimento, quando ali assistiram, em 1922, a um desfile de 20 000 scouts (escutas), por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional que esse ano se realizou na Cidade Eterna.
Depois de bem documentados regressaram a Braga e rodearam-se de um grupo de 11 bracarenses corajosos e valentes que, a 24 de maio de 1923, faziam a sua primeira reunião, no prédio n.° 20 da Praça do Município, para estudarem a possibilidade e oportunidade da criação de um grupo de scouts católicos em Portugal: assim nasceu o Corpo de Scouts Católicos Portugueses, cujos estatutos foram aprovados a 27 de maio desse mesmo ano pelo governador civil de Braga, e confirmados em 26 de Novembro pela portaria n.° 3 824 do Ministério do Interior, começando a partir desse dia a existir oficialmente, com legalidade e personalidade jurídica.
A 26 de maio de 1924, é publicado o Decreto-lei n.° 9 729, que confirma a aprovação dos estatutos e alarga a todo o território Português o âmbito da Associação. Em Janeiro de 1925, reuniu em Braga, pela primeira vez a Junta Nacional com: D. Manuel Vieira de Matos, diretor-geral; D. José Maria de Queirós e Lencastre, comissário nacional; Dr. Avelino Gonçalves, inspetor-mor; Cap. Graciliano Reis S. Marques, 1.°vogal e Álvaro Benjamim Coutinho, 2.° vogal.
O Movimento estende-se de Norte a Sul de Portugal e - como meio de informação entre todas as unidades - apareceu em fevereiro de 1925 o primeiro número do jornal Flor de Lis que mais tarde, em janeiro de 1945, se apresentaria em forma de revista.
Ainda em 1925, a 28 de fevereiro, o Decreto n.° 10 589, de 14 de fevereiro, publicado no Diário de Governo, ratifica a aprovação dos Estatutos do agora denominado Corpo Nacional de Scouts (CNS), cujo documento foi assinado por Manuel Teixeira Gomes, presidente do Ministério e Hélder Armando dos Santos Ribeiro, ministro da Guerra. A 15 de março foi aprovada a nova redação do Regulamento Geral e ainda nesse ano, alguns responsáveis do Movimento deslocaram-se a Roma e foram recebidos pelo Papa Pio XI, que lhes dirigiu palavras de muito apreço e encorajamento pelo progresso e expansão do Movimento, em Portugal.
Crescimento O ano de 1926 foi de intensa atividade e projeção para o CNS. Durante ele foram criadas e aprovadas as juntas regionais de Portalegre, Açores, Coimbra e Lisboa e o Núcleo do Porto, que vieram juntar-se à de Leiria, criada no ano anterior. Prova inequívoca do interesse que o Escutismo Católico estava a despertar na população portuguesa foi também o 1.° Acampamento Nacional que em Agosto desse ano se realizou em Aljubarrota, durante o qual foi entronizada na capela de São Jorge a imagem do Beato Nuno, transportada para ali num impressionante cortejo de mais de 10 000 pessoas. Este acampamento serviu como rastilho para galvanizar os entusiasmos da juventude portuguesa de tal modo que, no ano seguinte, foram constituídas as juntas regionais da Guarda, Viseu e Madeira e os núcleos da Régua, Coimbra e Aveiro.
Os progressos do Movimento eram tais que, no conselho nacional reunido em Braga em Maio de 1927, o arcebispo fundador afirmava que "o escutismo é a maior obra católica no meu país" e a testemunhá-lo realizava-se logo em dezembro desse ano o 1.º Congresso de Assistentes do Movimento; em Março de 1928, após alguns meses de negociações foi aprovado o estatuto das várias associações de scouts de Portugal com vista à sua federação; em agosto realizou-se em Cacia o 2.° Acampamento Nacional. Ainda nesse ano o Movimento chega a Moçambique (cidade da Beira). A 5 de março de 1929, Baden-Powell visita Portugal e assiste em Lisboa a um desfile de 700 scouts que o aplaudem com entusiasmo; em abril desse ano realiza-se em Coimbra o 1.° Congresso Nacional de Dirigentes e a 2 de Maio o CNS é admitido no Bureau Mundial do Escutismo; em 16 de junho foi inaugurada a sede da Junta Central, na Rua da Boavista, em Braga, estando presentes o arcebispo-Fundador e as autoridades civis e militares da cidade; em agosto, 26 elementos tomam parte no 3.º Jamboree Internacional de Arrowe Park, merecendo o seu testemunho um ofício do próprio Baden-Powell, dirigido ao Presidente da República Portuguesa dizendo:"[…] distinguiram-se durante a sua estada no campo pela sua inteligência, disciplina e eficiência e sobretudo pela sua amabilidade, encantador espirito de amizade para com os seus irmãos escuteiros e para com quem estivessem em contacto."
Em agosto de 1930 realizou-se na praia da Granja o 3.° Acampamento Nacional; a 9 de julho do ano seguinte no regresso da sua viagem à África do Sul, Baden-Powell visitou os scouts da Madeira; a 29 de junho de 1932 foi publicado o Decreto que regularizava a Organização Escutista em Portugal; em Braga - berço do CNE -, teve lugar o 4.° Acampamento Nacional onde se levantaram 93 tendas e acamparam 464 Escutas. A 28 de Setembro de 1932, tombou o gigante; às primeiras horas desse dia D. Manuel Vieira de Matos rendeu a alma ao criador e partiu em direção ao Acampamento Eterno. Contava 71 anos de idade e o CNS sentiu por dentro a partida do seu fundador! No ano seguinte é a vez de Dr. Avelino Gonçalves deixar também o Movimento que ajudou a nascer e carinhosamente fez crescer, para se dedicar a outro múnus do seu Ministério. Sucede-lhe no CNE o Cónego Martins Gonçalves.
No ano de 1934 foi publicado o 1.° Regulamento que permite a entrada de senhoras para o CNS como dirigentes de alcateias e a 12 de abril do mesmo ano, Baden-Powell chega a Lisboa acompanhado de sua esposa e 700 dirigentes ingleses. Devido ao seu precário estado de saúde não pôde sair do barco, mas um garboso desfile com cerca de 2000 scouts foi ao cais saudar o Chefe Mundial que visitava o Portugal continental pela segunda vez. Em novembro, foi publicado o novo Regulamento onde aparece oficialmente a nova designação de "Escutas" em substituição de "Scouts", desaparecendo definitivamente o CNS para aparecer o CNE.
Em 1935, reunido no Porto, o Conselho Nacional substitui o termo de "diretor" por "assistente" e "inspector" por "secretário (Nacional)". 1936 é um ano difícil para o CNE, talvez o mais crítico de toda a sua existência. A Organização Escutista de Portugal é extinta pela Portaria n.° 8488, publicada no Diário do Governo de 13 de agosto de 1936, e o CNE volta a regular-se pelo Decreto n.° 10 589, de 14 de fevereiro de 1925. A situação é crítica porque a oficialização dos movimentos juvenis por parte da Igreja e do Estado deixaram o escutismo como que ao abandono, mas a coragem, dedicação e espírito escuta de um bom punhado de Dirigentes afastaram o perigo e evitaram o naufrágio, e assim, em agosto desse ano, já se realizava em Leiria o 6.° Acampamento Nacional. Em agosto de 1939 teve lugar na Madeira o 2.° Congresso Nacional de Dirigentes. No ano das Comemorações Centenárias (1940), o CNE quis assinalar a sua presença neste jubileu da nacionalidade. O Conselho Nacional da Figueira da Foz delibera levantar o seu cruzeiro da independência na cidade berço, Guimarães, solenemente inaugurado a 8 de dezembro, Dia da Imaculada. Em 1941, como os escutas de todo o mundo, o CNE sente profundamente a morte de Baden-Powell que faleceu no Quénia a 8 de janeiro desse ano, com 83 anos de idade e uma extensa e brilhante folha de serviços prestados à Humanidade.
No meio das dificuldades surgem notas de apreço e reconhecimento de dois amigos do CNE: suas Santidades Pio XII e Paulo VI."E que a Associação Portuguesa de Escutas Católicos pelos seus muitos e grandes serviços prestados […] bem merece da Igreja. Mais de 60.000 jovens ele procurou formar no Amor e na Prática da Fé, da Piedade, da Caridade e das outras virtudes."E em 1934, em nome de Pio XII, escreve ainda J. B. Montini: «É também digno de todo o louvor o espírito que tem animado o CNE: fidelidade e obediência à Hierarquia, para "bem servir" e "da melhor vontade"».
No momento de tantas dúvidas e no meio de tanta esperança e Fé, as palavras do fundador, D. Manuel Vieira de Matos:«Queridos rapazes, metade do meu coração é vosso, levai-o convosco» E acrescentava às palavras de Pio XI: «Deveis ser os primeiros na profissão de fé cristã, os primeiros na dignidade da vida, os primeiros na pureza, os primeiros em todas as manifestações da vida cristã». «Depois de Deus, a dedicação até ao sacrifício dos seus dirigentes, e o seu magnifico órgão, a "Flor de Lis" encerram certamente o segredo do extraordinário progresso desta que consideramos a mais benéfica instituição juvenil ».Sucedem-se pois os 7.° e 8.° Acampamentos Nacionais em Tomar (1946) e em Braga (1948). E, em 1950, procede-se à aprovação de novos Estatutos e publica-se novo Regulamento Geral. Aliás, estas duas décadas que se vão seguir (50/60) parecem ter dado origem a uma pequena "revolução" após as vicissitudes atrás referidas. Com efeito, ainda em 1950 (a 5 de Novembro) a Junta Central transfere-se para Lisboa e nos anos seguintes vários dirigentes deslocam-se ao estrangeiro (nomeadamente a Gilwell Park, em Londres) para frequentarem Cursos de Formação de Dirigentes. Sucedem-se os Campos-Escola e os Acampamentos Nacionais que continuam a reunir já não centenas, mas milhares de Escutas. Foi assim com os 9.°, 10.° e 11.° Acampamentos Nacionais que reuniram em Coimbra (1952), Porto (1956) e Lisboa (1960). É também em Lisboa que, no ano seguinte, se realiza, de 19 a 25 de Setembro, a Conferência Internacional do Escutismo. O CNE cresce a olhos vistos e assiste, em1963, à inauguração, em Fraião, de um Campo-Escola permanente que incrementará, sem dúvida, as possibilidades de Formação de Dirigentes. Logo, no ano seguinte, novoAcampamento Nacional, o 12.º, desta feita na Covilhã, evidenciando-se assim uma preocupação pelo desenvolvimento do Escutismo no interior do pais.