Borobudur ou Barabudur é um templo budista maaiana situado na ilha de Java, Indonésia, no kabupaten (regência) de Magelang, Java Central. O edifício é frequentemente apontado como o maior templo budista e um dos mais importantes monumentos budistas do mundo. Desde 1991 que o sítio designado Conjunto de Borobudur, do qual fazem também parte os templos vizinhos de Mendut e Pawon, está inscrito na lista do Património Mundial da UNESCO.
O templo é constituído por nove plataformas sobrepostas, seis quadradas e três circulares, sobre as quais se ergue uma abóbada central. O edifício é decorado com painéis em relevo, totalizando perto de 2,5km de narrativas esculpidas, e 504 estátuas de Buda. A abóbada central está rodeada por 72 estátuas, cada uma delas sentada numa estupa perfurada.
Construído no , durante o reinado da Dinastia Sailendra, o templo é de estilo budista javanês, o qual mistura elementos do culto indígena dos antepassados com o conceito budista do nirvana, apresentando também influências da arte do Império Gupta, que reflete as influências indianas na região. No entanto, há muitos aspetos na arquitetura do edifício e nas cenas representadas nos relevos que tornam Borobudur distintamente indonésio. O monumento é um santuário dedicado a Buda e um local de peregrinação budista. O caminho de peregrinação tem início na base do templo e segue em volta dele, subindo até ao cimo através dos três níveis simbólicos da cosmologia budista: o ("mundo do desejo"), o ("mundo das formas") e o ("mundo sem formas"). O monumento guia os peregrinos através de um extenso sistema de escadarias e corredores com painéis narrativos em relevo nas paredes e nas balaustradas. Borobudur possui o maior e mais completo conjunto de relevos budistas do mundo.
Há evidências que sugerem que Borobudur foi construído no e abandonado no , na sequência do declínio dos reinos hindus de Java e da conversão dos javaneses ao islão. O templo tornou-se conhecido mundialmente a partir de 1814, quando Thomas Stamford Raffles, então o governador britânico de Java, foi informado da sua existência por nativos. Desde então o monumento passou por várias restaurações, o maior delas levada a cabo entre 1975 e 1982 pelo governo da Indonésia e pela UNESCO.
O templo ainda é usado como local de peregrinação. Uma vez por ano, os budistas da Indonésia celebram em Borobudur o Vesak, um importante festival que comemora o nascimento de Sidarta Gautama. O monumento é a atração turística mais visitada da Indonésia, atraindo mais de 3 milhões de turistas por ano.
Etimologia
Em indonésio e javanês, os templos antigos são chamados candi, pelo que localmente o monumento é conhecido como Candi Borobudur. De forma mais genérica, o termo candi também se aplica a outras estruturas arquitetónicas antigas, como portões e balneários. Contudo, as origens do nome Borobudur são incertas, pois como acontece com a maior parte dos antigos templos indonésios, o nome original é desconhecido. O nome Borobudur foi escrito pela primeira vez por Thomas Raffles no seu livro A História de Java, publicado em 1817. Segundo Raffles, o monumento chamava-se Borobudur, mas esse nome não é sugerido em escritos mais antigos. O único manuscrito javanês que menciona um monumento chamado Budur é o , escrito em 1365 por , um académico budista da corte de Majapait. Nessa obra, Budur é descrito como um santuário sagrado budista.
O nome de muitos candis é o de uma aldeia vizinha. Se Borobudur seguisse as convenções da língua javanesa e tivesse o nome da aldeia próxima de Boro, o templo deveria chamar-se Budurboro. Raffles pensou que Budur poderia corresponder à palavra javanesa buda ("antigo"), ou seja, "antiga Boro". Ele também sugere que o nome pode ter derivado de boro, que significa "grande" ou "honorável", e de Budur (Buda). Contudo, o arqueólogo J.G. de Casparis sugere que Budur tem origem na palavra javanesa bhudhara ("montanha").
Outra etimologia possível é que Borobudur seja a pronúncia javanesa local corrompida e simplificada de Biara Beduhur, escrita em sânscrito como Vihara Buddha Uhr. Vihara significa mosteiro budista e Buddha Uhr pode significar "cidade dos Budas". Beduhur pode também ser um termo de javanês antigo, que sobreviveu na língua balinesa e que significa "local alto", derivado de dhuhur ou luhur ("alto"). Assim sendo, Borobudur pode significar "viara de Buda situada num local elevado ou num monte".
A construção e inauguração de um edifício sagrado budista — possivelmente uma referência a Borobudur — é mencionada em duas inscrições, ambas descobertas em Kedu, na regência de Temanggung. A , datada de 824, menciona um edifício sagrado chamado Jinalaya ("domínio daqueles que triunfaram sobre o desejo mundano e alcançaram a iluminação"), inaugurado por , filha do rei Sailendra . A , datada de 842, menciona as sima (terras livres de impostos) concedidas por Çrī Kahulunnan (Pramodhawardhani) para assegurar o financiamento e manutenção de um Kamūlān chamado Bhūmisambhāra. Kamūlān deriva da palavra mula ("lugar de origem"), que designa um edifício sagrado dedicado a homenagear os antepassados, provavelmente os da dinastia Sailendra. Casparis sugere que Bhūmi Sambhāra Bhudhāra, que significa "a montanha das virtudes combinadas dos dez níveis de Bodisatva" em sânscrito, era o nome original de Borobudur.
Localização Os três templos thumb|upright=1.4|Mapa de localização dos três templos (Borodbudur, Pawon e Mendut)
thumb|upright=1.4|Vista do templo desde noroeste
Borobudur encontra-se aproximadamente 40 km a noroeste de Jogjacarta e 86 km a oeste de Surakarta, numa área elevada entre dois pares de vulcões gémeos — Sundoro-Sumbing e -Merapi — e dois rios, o Progo e o Elo. Segundo a lenda local, a área conhecida como planície de Kedu é um local sagrado e é frequentemente chamado o "jardim" ou "horta" de Java devido à sua elevada fertilidade agrícola. Durante os trabalhos de restauro do início do descobriu-se que três templos budistas da região — Borobudur, Pawon e Mendut — estão alinhados em linha reta. Deve ter existido uma relação ritual entre esses três templos, embora o processo ritual seja desconhecido.
Antigo lago A hipotética existência de um lago no local onde se situa Borobudur foi um tema de intensa discussão entre arqueólogos no . Em 1931, um artista e académico holandês de arquitetura hindu e budista, , apresentou uma teoria segundo a qual outrora a planície de Kedu foi um lago e que inicialmente Borobudur representava uma flor-de-lótus flutuando no lago. Segundo alguns autores, o templo teria sido construído numa colina rochosa 265 metros acima do nível do mar e 15 m acima das águas de um antigo lago.
Em 1974 e 1977, Jacques Dumarçay e o palinologista recolheram amostras de solo de valas escavadas na colina e da planície imediatamente a sul. Estas amostras foram analisadas por Thanikaimoni, que examinou os pólens e esporos para identificar o tipo de vegetação que crescia na área quando Borobudur foi construído. Não foram encontrados quaisquer vestígios de plantas aquáticas; aparentemente, quando o templo foi construído, a área em volta era constituído por terrenos agrícolas e florestas de palmeiras, como ainda hoje acontece. A hipótese do lago foi reexaminada em 1985 e 1986 por Caesar Voûte e pelo geomorfologista J.J. Nossin, cujos trabalhos de campo concluíram que não existia um lago em volta de Borobudur na altura da construção.
História Construção thumb|left|Pintura de G. B. Hooijer representando Borobudur durante o seu apogeu
Não há quaisquer registos escritos sobre quem construiu Borobudur ou sobre as motivações para a construção. A data da construção foi estimada pela comparação entre os relevos esculpidos das fundações do templo e as inscrições de éditos reais dos séculos VIII e IX. O templo foi provavelmente fundado , o que corresponde ao período de apogeu da Dinastia Sailendra no Reino de Mataram de Java Central, quando este estava sob a influência do Império Serivijaia. Estima-se que a construção terá durado 7 anos e foi finalizada durante o reinado de em 825.
Há alguma confusão entre os governantes hindus e budistas de Java dessa altura. Os Sailendras eram conhecidos como seguidores fervorosos do budismo, mas inscrições de pedra encontradas em sugere que podem ter sido hindus. Foi durante essa época que foram construídos numerosos monumentos budistas e hindus nas planícies e montanhas em redor da área de Kedu. Os monumentos budistas, nomeadamente Borobudur, foram construídos aproximadamente no mesmo período que o complexo hindu xivaíta de Prambanan, situado cerca de 50 km a leste de Borobudur. Em 732, o rei xivaíta mandou construir um santuário Shivalinga no monte Wukir, 10 km a leste de Borobudur.
thumb|Fotografia anónima de Borodbudur da segunda metade do
A construção de templos budistas nesse período, incluindo Borobudur, foi possível porque o sucessor de Sanjaya, concedeu aos budistas a permissão de construção desses templos. Como sinal do seu respeito pelo budismo, Panangkaran deu a aldeia de Kalasan, onde existe outro templo budista importante, à comunidade budista, conforme consta do édito de Kalasan, datado de 778. Isso levou alguns arqueólogos a acreditar que nunca houve conflitos religiosos sérios em Java, já que era possível um rei hindu patrocinar o estabelecimento de um monumento budista e um rei budista fazer o mesmo em relação aos hindus. Contudo, é provável que existissem então duas dinastias reais rivais em Java — a budista Sailendra e a xivaíta Sanjaya. A última derrotou a primeira numa batalha travada em 856 no planalto de Ratubaka.
Acredita-se que o templo Lara Jonggrang, parte do complexo de Prambanan, foi construído pelo rei vitorioso de Sanjaya, , como resposta a Borobudur, mas há autores que sugerem que as dinastias rivais coexistiam pacificamente e que há indícios de que os Sailendra estiveram envolvidos na construção de Lara Jonggrang.
Abandono left|thumb|Fotografia no livro “Java, Sumatra and the other islands of the Dutch East Indies”, de Antoine Cabaton e Bernard Miall, cuja tradução em inglês foi publicada em 1914
Borobudur permaneceu escondido na selva e debaixo de cinza vulcânica durante vários séculos. Desconhecem-se as razões do seu abandono. Não se sabe quando o monumento deixou de ser usado ou quando as peregrinações budistas cessaram. Em algum momento entre 928 e 1006, o rei transferiu a capital do Reino de Mataram para Java Oriental depois de uma série de erupções vulcânicas. Não há certeza sobre a influência disso no abandono, mas vários autores apontam que o mais provável é que Borobudur tenha sido abandonado nessa altura. O monumento é mencionado vagamente como "a viara em Budur" no de . Segundo uma tradição local, os templos foram desmantelados quando a população se converteu ao islão no .
O monumento não foi completamente esquecido, mas no folclore local a glória do passado deu lugar gradualmente a crenças supersticiosas associadas a azar e miséria. Duas crónicas javanesas (babad) do mencionam casos de má sorte associadas a Borobudur. Segundo o Babad Tanah Jawi ("História de Java"), o monumento foi fatal para Mas Dana, um rebelde que se revoltou contra o rei de Mataram em 1709. O monte "Redi Borobudur" foi cercado e os rebeldes foram derrotados e condenados à morte pelo rei. Na Babad Mataram ("História do Reino de Mataram"), o monumento é associado à má sorte do príncipe Monconagoro, herdeiro do . Apesar das visitas a Borobudur serem tabu, o príncipe levou "o cavaleiro que estava preso numa jaula" (uma estátua numa das estupas perfuradas) e quando regressou ao seu palácio adoeceu, morrendo um dia depois, em 1757.
Redescoberta thumb|upright|A estupa do cimo do templo em meados do , com uma varanda de madeira instalada por cima
thumb|upright|Fotografia de 1890–1891 de parte do painel de relevos nº 147 da "fundação escondida" do templo