thumb|direita|Folha de Rosto da primeira edição do Discurso sobre o método, de 1637.|325x325px thumb|direita|René Descartes, filósofo francês e autor do Discurso sobre o método.|294x294px O Discurso sobre o método, por vezes traduzido como Discurso do método, ou ainda Discurso sobre o método para bem conduzir a razão na busca da verdade dentro da ciência (em francês, Discours de la méthode pour bien conduire sa raison, et chercher la vérité dans les sciences), é um tratado matemático e filosófico de René Descartes, publicado em Leiden, Holanda, em 1637. Inicialmente apareceu junto a outros trabalhos seus, Dioptrique, Météores e Géométrie.M. Serfati, 2008.JLUC Robin, 2011. Uma tradução para o latim foi produzida em 1656 e publicada em Amsterdam.H. Méchoulan, 1988.A. R. Hall, 1996.G. Smith, 2007.A. E. Kossovsky, 2020.

Constitui, ao lado de Meditações sobre filosofia primeira (Meditationes de prima philosophia), Princípios de filosofia e Regras para a direção do espírito (Regulae ad directionem ingenii), a base da epistemologia do filósofo, sistema que passou a ser conhecido como cartesianismo.B. E. O'Neil, 1972.R. Garrod, A. Marr, 2020. O Discurso propõe um modelo quase matemático para conduzir o pensamento humano, uma vez que a matemática tem por característica a certeza, a ausência de dúvidas. De acordo com o próprio Descartes, parte da inspiração de seu método (descrito nesse tratado) deveu-se a três sonhos ocorridos na noite de 10 para 11 de novembro de 1619: nestes sonhos lhe havia ocorrido "a ideia de um método universal para encontrar a verdade".

Discurso sobre o método foi escrito em vernáculo (os textos filosóficos costumavam ser escritos em latim), de maneira não-doutrinária, pois Descartes tentou popularizar ao máximo os conceitos ali expressos e de maneira não impositiva, porém compartilhada. Em toda a obra permeia a autoridade da razão, conceito banal para o homem moderno, mas um tanto novo para o homem medieval (muito mais acostumado à autoridade eclesiástica). A autoridade dos sentidos (ou seja, as percepções do mundo) também é particularmente rejeitada; o conhecimento significativo, segundo o tratado, só pode ser atingido pela razão, abstraindo-se a distração dos sentidos. Uma das mais conhecidas frases do Discurso é Je pense, donc je suis (citada frequentemente em latim, cogito ergo sum; penso, logo sou): o ato de duvidar como indubitável, e as evidências de "pensar" e "ser" ligadas.J.R. Weinberg, 1962.B. Williams, 2014. (A forma "penso, logo existo", popularizada por algumas traduções da obra, não é a mais correta, uma vez que identifica o ser com o existir, conceitos diferentes no cartesianismo).J. Lyons, 1982.

Além dessa conclusão, Descartes também apresenta argumentos em favor da existência de Deus, especifica critérios para a boa condução da razão e faz algumas demonstrações.

Divisão e conteúdo da obra O Discurso está dividido em seis partes, e possui uma breve introdução. Nela, Descartes já enfatiza a divisão do livro e explica o que o leitor encontrará em cada uma das seis partes:

Na primeira, diversas considerações sobre a ciência. Em linhas gerais, o autor faz uma síntese de toda sua educação, das disciplinas auferidas no colégio, dos livros que teve oportunidade de ler fazendo algumas críticas sobre o que estudou e aprendeu. Já enfadado de tudo, resolve abandonar os estudos e buscar conhecimento nas próprias entranhas do mundo, viajando e conhecendo pessoas. Na realidade, sua intenção era apresentar um método (criado e seguido por ele) que conduzisse a razão do indivíduo em busca do que era verdadeiro, ou seja, o seu desígnio não era ensinar nesta obra "o método que cada qual deve seguir para bem conduzir sua razão, mas apenas mostrar de que maneira me esforcei para conduzir a minha."

A segunda parte cuida das principais regras para a prática científica. O autor apresenta argumentos necessários, ao seu parecer, que será utilizado para discernir entre o verdadeiro e o falso. Entende que está mais próximo de ser verdadeiro o simples raciocinar de um homem de bom senso a respeito das coisas do mundo do que a ciência que está contida em livros que reúnem opiniões diversas de várias pessoas. Assim, Descartes entende que somos como um edifício projetado desde a infância por muitos arquitetos. Seguindo esse raciocínio, conclui que se usássemos do raciocínio desde criança, o nosso relacionamento com o mundo poderia ser bem diferente do que se tem.DESCARTES, 1979, p.35. Deste modo, na busca de alicerçar o seu próprio pensar, Descartes cria quatro preceitos lógicos: Com estes preceitos, Descartes mostra quão desconfiado era em relação a tudo que lhe foi ensinado. Assim, seria preferível rejeitar todas as opiniõesDESCARTES, 1979, pp.36-41. para posteriormente readmiti-las. E os preceitos metodológicos seriam os fios condutores que prestariam auxílio à busca do que é verdadeiro. Descartes vai seguir o método da dúvida; isso a tal ponto que ele vai dizer que nossos sentidos às vezes nos enganam. No "Discurso do Método", ele não chega a mencionar o famoso “gênio maligno”, como o faz em suas "Meditações"; no entanto, aqui também ele resolve fingir que todas as coisas que entraram em seu espírito não passam de ilusões. O filósofo, então, colocando tudo em dúvida, ao menos tem a certeza de que ele é alguma coisa. Então a verdade que penso, logo existo é uma verdade que Descartes diz que nem os mais céticos podem abalar, por isso faz desse princípio o início da sua filosofia. Ele também não duvida que seja composto de uma alma e que ela é totalmente distinta do corpo. Nesse ponto, Descartes se afasta da filosofia escolástica, para a qual a alma está unida ao corpo sem cair nesse tipo de dualismo cartesiano. Adiante, Descartes diz que também não podemos duvidar da existência de um Ser perfeito, por isso podemos ter certeza da existência de Deus.

Na terceira parte da obra, está a moral provisória que Descartes definiu para si mesmo. Descartes formulará suas máximas. Diz ele que são necessárias, pois, se vai reconstruir o seu próprio juízo, retirando deles velhas opiniões e crenças ultrapassadas, deverá imprimir em si uma postura provisória, uma moral provisória. Dividiu-nas em: Na quarta parte do discurso, que é um resumo das "Meditações metafísicas", Descartes pretende provar a existência de Deus e da alma humana, estabelecendo, com essas provas, os fundamentos de sua metafísica. No primeiro parágrafo desse texto, o filósofo diz o seguinte: "Julguei necessário fazer o contrário (do que fiz em relação a moral) e rejeitar, como absolutamente falso, tudo o que pudesse ser objeto da menor dúvida, a fim de verificar se, depois disso, não me restava, em minha certeza, alguma coisa totalmente indubitável". Observa, em seguida, que os sentidos nos enganam e nos fazem perceber coisas, não como realmente são, mas como nos parecem ser. Mas, diz então Descartes, "ao pensar que tudo era falso, era necessário que, eu que pensava, fosse alguma coisa; e observando que essa verdade: 'Penso, logo existo' era tão firme e tão certa, que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não eram capazes de abalá-la, julguei que poderia recebê-la como o primeiro princípio da filosofia que eu procurava". Descartes ficou sabendo, assim, que era "uma substância cuja essência, ou natureza, consiste em pensar" e que "para ser, não precisa de lugar algum, nem depende de coisa alguma material". Em consequência, o eu, a alma, que permite ao filósofo ser o que é, um pensador, é inteiramente distinta do corpo, cujo conhecimento é mais fácil que o do corpo, pois mesmo que deixasse de existir, a alma não deixaria de ser o que é. Conclui, então, que, assim como o mais perfeito não pode ser consequência do menos perfeito, e, nada poder provir, tal ideia, do ser perfeito, ou da perfeição do ser, só pode ter sido posta em nós por uma natureza mais perfeita do que a nossa, e que inclui todas as perfeições, quer dizer, Deus. Em consequência, conclui: "[...] é para mim tão certo que Deus, que é esse ser perfeito, é ou existe, quão certa poderia ser qualquer demonstração da geometria". A regra, de acordo com a qual as coisas concebidas clara e distintamente são todas verdadeiras, só pode ser garantida pela existência de Deus, ser perfeito, do qual recebemos tudo o que se acha em nós;

Na quinta parte, Descartes faz algumas aplicações do método a questões físicas e relativas à medicina; também as particularidades da alma humana. Nesta parte está a ordem das questões de física que investigou, e, particularmente, a explicação do movimento do coração e algumas outras dificuldades que concernem à Medicina, e depois a diferença que há entre nossa alma e a dos animais. E, na última, que coisas crê necessárias para ir mais adiante do que foi na pesquisa da natureza e que razões o levaram a escrever. Na quinta parte do Discurso, Descartes faz um resumo de sua física deduzida de sua metafísica. Após reiterar a tese da independência da alma em relação ao corpo, pois sua natureza consiste no pensamento, e supondo que Deus a tenha criado, acrescentando-a ao corpo, Descartes, em várias páginas do texto, faz uma minuciosa descrição do coração e da circulação do sangue no corpo humano;

Na sexta parte, estão apontadas as razões que o levaram a escrever o tratado e aquilo que Descartes acredita ser essencial para o progresso do conhecimento. Esta última parte do Discurso trata de vários assuntos. Um aspecto importante na filosofia de Descartes é sua concepção de homem em dualidade corpo-espírito. O universo consiste de duas diferentes substâncias: as mentes, ou substância pensante, e a matéria, a última sendo basicamente quantitativa, teoricamente explicável em leis científicas e fórmulas matemáticas. Enfim, o importante e o que constitui o preceito metodológico básico apontado no "Discurso do Método" é que só se considera verdadeiro o que for evidente, ou seja, o que for intuível com clareza e precisão.

Os quatro preceitos O método de raciocínio proposto por Descartes no Discurso compõe-se de quatro partes distintas, sintetizadas na passagem seguinte:

"Le premier étoit de ne recevoir jamais aucune chose pour vraie que je ne la connusse évidemment être telle; c'est-à-dire, d'éviter soigneusement la précipitation et la prévention, et de ne comprendre rien de plus en mes jugements que ce qui se présenteroit si clairement et si distinctement à mon esprit, que je n'eusse aucune occasion de le mettre en doute.

Le second, de diviser chacune des difficultés que j'examinerais, en autant de parcelles qu'il se pourroit, et qu'il seroit requis pour les mieux résoudre. Le troisième, de conduire par ordre mes pensées, en commençant par les objets les plus simples et les plus aisés à connoître, pour monter peu à peu comme par degrés jusques à la connoissance des plus composés, et supposant même de l'ordre entre ceux qui ne se précèdent point naturellement les uns les autres.

Et le dernier, de taire partout des dénombrements si entiers et des revues si générales, que je fusse assuré de ne rien omettre." (Discurso, parte 2)

thumb|direita|270px|O método cartesiano. No preceito ou passo 1, as coisas indubitáveis (círculos marcados com i) passam por um "funil", que impede a passagem de coisas que tragam dúvidas (d). No passo 2, as coisas são analisadas, ou seja, divididas para melhor compreensão; no passo 3, procede-se a síntese, ou agrupamento em graus de complexidade crescente. No último passo, as conclusões são ordenadas e classificadas.

De maneira simplificada, são os seguintes passos ou preceitos: Receber escrupulosamente as informações, examinando sua racionalidade e sua justificação. Verificar a verdade, a boa procedência daquilo que se investiga – aceitar o que seja indubitável, apenas. Esse passo relaciona-se muito ao cepticismo; Análise, ou divisão do assunto em tantas partes quanto possível e necessário;