Apollo 8 foi um voo espacial tripulado norte-americano responsável pela primeira órbita ao redor da Lua. Esta foi a segunda missão tripulada do Programa Apollo e a primeira na história da humanidade a deixar a órbita terrestre baixa e retornar. Os astronautas Frank Borman, Jim Lovell e William Anders tornaram-se os primeiros humanos a testemunhar e fotografar um Nascer da Terra e escapar da gravidade de um corpo espacial. A Apollo 8 foi lançada em e foi o primeiro voo tripulado do foguete Saturno V e o primeiro tripulado a partir do Centro Espacial John F. Kennedy.
A missão fora originalmente planejada para o início de 1969 como o segundo teste tripulado do Módulo de Comando e Serviço e do Módulo Lunar Apollo, ficando apenas em uma órbita terrestre média. Entretanto, como o Módulo Lunar ainda não estava pronto para o primeiro voo, seus objetivos foram alterados em agosto de 1968 para um mais ambicioso voo orbital lunar para dezembro. A tripulação original de James McDivitt, que estava treinando para um voo em órbita baixa com o Módulo Lunar, foi transferida para a Apollo 9, enquanto a equipe de Borman foi colocada na Apollo 8. Isto fez com que os astronautas tivessem dois a três meses a menos de treinamento, com os três escolhendo focar seu tempo no treinamento de navegação translunar.
A Apollo 8 demorou quase três dias para alcançar a Lua. A tripulação orbitou o satélite dez vezes no decorrer de vinte horas, no processo realizando uma transmissão televisiva na véspera de Natal, em que os três astronautas leram os primeiros dez versos do Gênesis. A transmissão na época foi assistida por milhares de pessoas ao redor do mundo. A espaçonave retornou para a Terra e amerrissou no Oceano Pacífico em 27 de dezembro. A missão bem-sucedida da Apollo 8 pavimentou o caminho para a Apollo 11 cumprir o objetivo nacional estabelecido em 1961 pelo presidente John F. Kennedy de alunissar na Lua antes do fim da década. Borman, Lovell e Anders foram nomeados as Pessoas do Ano pela revista Time logo depois de sua volta.
Antecedentes
Os Estados Unidos estavam no meio da Guerra Fria, uma disputa geopolítica com a União Soviética, no final da década de 1950 e início da de 1960. Os soviéticos lançaram em 4 de outubro de 1957 o Sputnik 1, o primeiro satélite artificial da história. Isto causou temores, pois demonstrou que a União Soviética era capaz de lançar armas nucleares a distâncias intercontinentais, ao mesmo tempo que desafiava a reivindicação de superioridade militar, econômica e tecnológica dos Estados Unidos. Isto precipitou a Crise do Sputnik e iniciou a Corrida Espacial. O presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower respondeu em 1958 ao criar a NASA.
John F. Kennedy, o sucessor de Eisenhower, acreditava que era do interesse nacional dos Estados Unidos ser superior a outras nações, além de que a percepção do poderio norte-americano era pelo menos tão importante quanto a realidade. Dessa forma era intolerável que a União Soviética fosse mais avançada no campo da exploração espacial. Ele determinou que os Estados Unidos deveriam competir, procurando um desafio que maximizasse suas chances de vitória. Já que os soviéticos possuíam foguetes auxiliares superiores, Kennedy queria um desafio em que os dois países começariam em igualdade. Era necessário algo espetacular, mesmo que não pudesse ser justificado do ponto de vista militar, econômico ou científico. Ele escolheu tal projeto depois de consultar-se com especialistas e conselheiros: pousar um homem na Lua.
O esforço de colocar um humano na Lua recebeu o nome de Programa Apollo. Uma decisão inicial foi escolher um encontro orbital lunar sobre ascensão direta ou encontro orbital terrestre. Um encontro espacial é uma manobra orbital em que duas naves navegam pelo espaço e se encontram. A espaçonave Apollo assim seria composta por três partes: o módulo de comando com uma cabine para três astronautas, a única parte que retornaria para a Terra; um módulo de serviço, que dava apoio ao módulo de comando com propulsão, energia, oxigênio e água; e o módulo lunar com dois estágios – um de descida para a alunissagem e um de ascensão para levar os astronautas de volta para a órbita lunar. A escolha também permitiu que a nave fosse lançada por um único foguete Saturno V, que estava em desenvolvimento na época.
Equipe Principal Posição Astronauta Comandante Frank F. Borman II Piloto do Módulo de Comando James A. Lovell Jr. Piloto do Módulo Lunar William A. Anders A tripulação principal para o terceiro voo Apollo tripulado foi anunciada em 20 de novembro de 1967 e originalmente consistia em Frank Borman, Michael Collins e William Anders como, respectivamente, Comandante, Piloto do Módulo de Comando e Piloto do Módulo Lunar. Entretanto, Collins foi diagnosticado com uma hérnia de disco cervical que necessitava de cirurgia e ele acabou substituído em julho de 1968 por Jim Lovell. Isto deixou a tripulação em uma situação única na era pré-Ônibus Espacial, em que o comandante de uma missão não era o tripulante mais experiente em voos espaciais. Lovell tinha voado duas vezes anteriormente na Gemini VII e Gemini XII, na primeira junto com Borman. Esta também seria a primeira vez que o comandante de uma missão anterior (Lovell na Gemini XII) não voaria como comandante.
Reserva Posição Astronauta Comandante Neil A. Armstorng Piloto do Módulo de Comando Edwin E. "Buzz" Aldrin Jr. Piloto do Módulo Lunar Fred W. Haise Jr. A tripulação reserva foi anunciada junto com a principal e originalmente era formada por Neil Armstrong, Lovell e Buzz Aldrin como Comandante, Piloto do Módulo de Comando e Piloto do Módulo Lunar. Aldrin foi promovido a Piloto do Módulo de Comando e Fred Haise entrou como Piloto do Módulo Lunar, depois de Lovell ter passado para a tripulação principal. Armstrong depois comandou Apollo 11 junto com Collins e Aldrin. Haise serviu de reserva da Apollo 11 e voou como Piloto do Módulo Lunar na Apollo 13.
Suporte Cada missão dos Projetos Mercury e Gemini tinha uma tripulação principal e uma reserva. Uma terceira tripulação de astronautas foi adicionada para o Programa Apollo, conhecida como tripulação de suporte. Esta mantinha o plano de voo, lista de checagens e regras da missão, também garantindo que as tripulações principais e reservas fossem notificadas de mudanças. Eles também desenvolviam procedimentos nos simuladores, especialmente para situações de emergência, de modo que as tripulações principal e reserva pudessem treinar em simuladores, permitindo a prática e domínio. A tripulação de suporte da Apollo 8 era formada por Ken Mattingly, Vance Brand e Gerald Carr.
thumb|thumb|250px|Charlesworth em seu console durante o lançamento da Apollo 8 Controle da Missão O comunicador com a cápsula (CAPCOM) era um astronauta do Centro de Controle da Missão em Houston, Texas, que era a única pessoa autorizada a se comunicar diretamente com a tripulação da nave espacial. Os CAPCOMs da Apollo 8 foram os membros das tripulações reserva e de suporte: Collins, Carr, Mattingly, Armstrong, Aldrin, Brand e Haise.
Havia três diretores de voo divididos em três equipes, cada uma trabalhando normalmente em turnos. Para a Apollo 8 os diretores de voo foram Clifford E. Charlesworth da equipe verde, Glynn Lunney da equipe preta e Milton Windler da equipe marrom.
Emblema thumb|esquerda|250px|Um medalhão de prata comemorativo que voou na Apollo 8. Este exemplar foi presenteado a Russell Schweickart. O emblema da missão da Apollo 8 possui um formato triangular azul que faz referência à forma geral do Módulo de Comando Apollo. Dentro estão um numeral "8" em vermelho que passa ao redor da Terra na parte de baixo e da Lua na parte de cima, com o objetivo de refletir tanto o número da missão quanto a natureza circunlunar de seu plano de voo. Na parte inferior do "8" estão os nomes dos três astronautas. O desenho inicial do emblema foi desenvolvido por Lovell, que supostamente o esboçou no assento do co-piloto de um Northrop T-38 Talon enquanto voava da Califórnia para Houston, logo depois de descobrir que a Apollo 8 tinha sido redesignada como uma missão de órbita lunar.
A tripulação tinha a intenção de nomear seu módulo de comando, porém a NASA não permitiu. Os astronautas provavelmente escolheriam Columbiad, o nome do canhão gigante que lançou a nave espacial do romance De la Terre à la Lune de Júlio Verne. O módulo de comando da Apollo 11 foi nomeado Columbia em parte pelo mesmo motivo.
Preparações Cronograma A NASA adotou em 20 de setembro de 1967 um plano de sete etapas para as missões Apollo, com a última etapa sendo o objetivo final do pouso tripulado na Lua. A Apollo 4 e Apollo 6 eram missões A, testes do foguete Saturno V usando um modelo Bloco I não tripulado do Módulo de Comando e Serviço em órbita da Terra. A Apollo 5 era uma missão B, um teste não tripulado do Módulo Lunar em órbita da Terra. A Apollo 7 foi marcada para outubro de 1968 e era uma missão C, uma órbita tripulada do Módulo de Comando e Serviço. Missões posteriores dependeriam do quão pronto o Módulo Lunar estaria. Foi decidido no início de maio de 1967 que haveria pelo menos mais quatro missões adicionais. A Apollo 8 foi planejada como uma missão D, um teste do Módulo Lunar em órbita terrestre baixa para dezembro de 1968, com os astronautas James McDivitt, David Scott e Russell Schweickart, enquanto Borman, Collins e Anders voariam no início de 1969 na Apollo 9, uma missão E pensada como um teste mais rigoroso do Módulo Lunar em uma órbita terrestre média. Uma missão F testaria os dois módulos em órbita lunar, enquanto a missão G seria finalmente a alunissagem.
thumb|250px|O Módulo de Comando e Serviço CSM-103 da Apollo 8 sendo anexado ao Saturno V AS-503 no Edifício de Montagem de Veículos em setembro de 1968 A produção do Módulo Lunar atrasou. O Módulo Lunar LM-3 da Apollo 8 finalmente chegou no Centro Espacial John F. Kennedy no Cabo Kennedy, Flórida, em junho de 1968, porém mais de cem defeitos importantes foram descobertos, fazendo com que Robert Gilruth, o diretor do Centro de Espaçonaves Tripuladas em Houston, e outros concluíssem que não havia chances de que o LM-3 estivesse pronto para voar no mesmo ano. Era na verdade possível que ele só ficasse pronto em fevereiro ou março de 1969. Seguir o plano original de sete etapas acarretaria adiar as missões D em diante, ameaçando o objetivo de pousar na Lua antes do fim de 1969. George Low, o gerente do Escritório do Programa da Espaçonave Apollo, propôs em agosto uma solução a fim de manter o programa no cronograma apesar do atraso do Módulo Lunar. Já que o próximo Módulo de Comando e Serviço, designado CSM-103, ficaria pronto três meses antes do LM-3, uma missão com apenas o Módulo de Comando e Serviço poderia voar em dezembro. Em vez de repetir a missão C da Apollo 7, a nave poderia ser enviada até a Lua com a possibilidade de entrar em sua órbita antes de retornar para a Terra. A nova missão permitiria que a NASA testasse os procedimentos de alunissagem que de outra forma teriam de esperar até o voo da Apollo 10, a missão F. Isto também significaria que a missão E seria descartada. O resultado desse rearranjo era de que apenas a missão D seria adiada e que o plano da alunissagem para meados de 1969 continuaria dentro do cronograma.