direita|thumb|200px|Beatus de Facundus: Julgamento da Babilônia
Arte moçárabe se refere à arte dos moçárabes, cristãos ibéricos que viviam em territórios conquistados pelos muçulmanos do período que vai da invasão pelos árabes da Península Ibérica (711) até o final do século XII, quando eles adotaram alguns costumes árabes, mas sem se converter ao Islã. Contudo, sua estética foi muito influenciada pela dos dominadores islâmicos. Descrição A arte moçárabe é uma expressão artística diversificada e híbrida que floresceu principalmente em al-Andalus e nos territórios cristãos setentrionais da Península Ibérica, em particular no Reino de Leão, durante os séculos IX e X. Caracteriza-se pela combinação de influências diversas, sobretudo andalusinas, e pela continuidade de tradições clássicas e tardo-antigas, tanto na tradição visigótica do norte como no contexto artístico do Califado de Córdova. A designação «moçárabe», contudo, é objeto de debate historiográfico, uma vez que nem todos os monumentos tradicionalmente classificados dessa forma podem ser atribuídos diretamente a comunidades moçárabes ou a artífices provenientes de Al-Andalus.
Na planície ou planalto leonês, entre os rios Douro, Esla, Cea e Pisuerga, surgiu um conjunto diversificado de construções, desde igrejas modestas de uma só nave com cabeceiras ou absides de configuração retangular, associadas aos primeiros processos de repovoamento, até complexos monásticos de maior complexidade, como San Cebrián de Mazote, Santa María de Wamba, Santiago de Peñalba e San Miguel de Escalada, entre outros. A diversidade das plantas, dos sistemas de cobertura e dos elementos decorativos não permite, contudo, considerar este conjunto como um estilo arquitetónico inteiramente homogéneo.
miniaturadaimagem|A Cruz de Peñalba, uma obra de ourivesaria do século X associada ao contexto monástico de Santiago de Peñalba.
As elites leonesas foram importantes promotoras deste conjunto de manifestações artísticas, desde a monarquia até às figuras civis e eclesiásticas ligadas ao ambiente régio e monástico, como o bispo Genádio de Astorga ou o nobre galego Rudesindo de Celanova. Apesar de pertencerem aos territórios cristãos do norte, estas elites mantiveram relações políticas e culturais com Al-Andalus e foram influenciadas por formas e gostos andalusinos. No caso do rei Afonso III das Astúrias, essas relações são também ilustradas pelo facto de ter enviado o seu filho Ordonho para junto dos Banu Qasi, em Saragoça.
A arte moçárabe combina tradições de origem cristã setentrional com elementos associados à cultura islâmica meridional. Apesar das diferenças religiosas e políticas, ambas participavam de uma herança artística mediterrânica de longa duração, na qual permaneciam tradições clássicas e tardo-antigas. No contexto peninsular, a circulação de pessoas, objetos, modelos arquitetónicos e conhecimentos técnicos favoreceu a transmissão e transformação dessas tradições. Não obstante, não é possível afirmar que os contemporâneos percebessem necessariamente essas manifestações como pertencentes a uma única tradição artística; a ideia de uma unidade conceptual entre as duas esferas culturais constitui sobretudo uma interpretação historiográfica posterior.
Este conjunto distingue-se pela sua grande diversidade formal, sendo tradicionalmente caracterizado como um fenómeno híbrido e original no contexto da arte europeia pré-românica. As construções apresentam uma combinação de soluções arquitetónicas e decorativas, incluindo a experimentação com diferentes estruturas de cobertura, abóbadas, cúpulas, arcos de ferradura, arcadas, colunas e capitéis, relevos e técnicas de pintura mural. Alguns destes elementos apresentam afinidades com a arquitetura e a cultura artística de Al-Andalus, particularmente com o ambiente artístico de Córdova, embora tais afinidades não constituam, por si só, prova de uma origem moçárabe dos edifícios ou dos seus construtores.
A diversidade formal é particularmente evidente no chamado grupo moçárabe leonês, expressão utilizada na historiografia para designar um conjunto de esculturas e elementos arquitetónicos que partilham determinadas características formais e decorativas. Estudos sobre a produção escultórica sugerem a existência de ateliers ou grupos de artífices itinerantes que se deslocavam pelo território e transmitiam repertórios técnicos e ornamentais entre diferentes centros. Esta hipótese ajuda a explicar a presença de motivos semelhantes em edifícios geograficamente distintos, sem pressupor necessariamente a existência de um único centro produtor ou de um estilo arquitetónico uniforme.
Nos territórios sob domínio muçulmano, as comunidades cristãs tradicionalmente designadas como moçárabes mantinham alguns dos templos herdados de períodos anteriores para os seus rituais religiosos. A construção de novos edifícios de culto cristão esteve condicionada pelas circunstâncias políticas e jurídicas de cada região e período, pelo que não se deve generalizar a situação de todas as comunidades cristãs sob domínio islâmico. Em muitos casos, a continuidade do culto fez-se através da conservação, adaptação e reutilização de edifícios anteriores. A deslocação da fronteira entre os territórios cristãos e muçulmanos para a bacia do rio Douro criou novas condições para a ocupação e reorganização dos territórios setentrionais. A expansão dos reinos cristãos foi acompanhada por processos de povoamento e fundação de comunidades religiosas, que conduziram à construção de novos templos. A concentração de recursos construtivos e artísticos nesses territórios favoreceu a experimentação arquitetónica e a incorporação de diferentes tradições formais e técnicas.
À medida que as condições políticas e sociais em determinadas regiões de Al-Andalus se tornaram menos favoráveis para algumas comunidades cristãs, e à medida que os reinos cristãos da Península Ibérica ampliaram os seus territórios, alguns cristãos provenientes de regiões sob domínio islâmico deslocaram-se para os territórios cristãos. Estes movimentos contribuíram para a circulação de tradições culturais hispânicas e de elementos associados à sociedade andalusina. A cultura hispano-gótica desses grupos interagiu com as tradições existentes nos reinos cristãos, contribuindo para a introdução e transformação de elementos artísticos, litúrgicos e culturais nas sociedades cristãs setentrionais.
Embora exista um subgrupo significativo de templos tradicionalmente agrupado como parte da arquitetura do Reino de Leão e, em parte da historiografia, associado à chamada arte de repovoamento ou arte de mistura, a atribuição direta desses edifícios a moçárabes, muladis ou muçulmanos convertidos ao cristianismo que migraram de Al-Andalus deve ser feita com cautela. A análise das características arquitetónicas, por si só, não permite determinar a identidade dos construtores ou das comunidades que utilizaram os edifícios. Elementos de aparência andalusina podem resultar da circulação de modelos, da transmissão de conhecimentos técnicos, da reutilização de materiais ou da atividade de artífices itinerantes.
Entre os exemplos mais importantes encontram-se Santiago de Peñalba e San Miguel de Escalada, templos com elementos arquitetónicos e decorativos relacionados com a cultura artística de Córdova e com outras tradições hispânicas. Ambos são considerados realizações fundamentais da arquitetura cristã do século X e testemunham a complexidade cultural da sociedade fronteiriça do Reino de Leão.
Santiago de Peñalba, associado à atividade monástica de Genádio de Astorga, apresenta uma combinação particularmente elaborada de soluções espaciais, construtivas e ornamentais. Entre os seus elementos mais característicos encontram-se os arcos de ferradura e determinadas soluções de articulação espacial que apresentam afinidades com a arquitetura de Al-Andalus. Estas características coexistem com elementos derivados das tradições arquitetónicas cristãs hispânicas, pelo que o edifício deve ser entendido como resultado de uma combinação de diferentes repertórios, e não como uma simples transposição de modelos arquitetónicos cordobeses para o território leonês.
San Miguel de Escalada, por sua vez, constitui outro dos exemplos fundamentais deste contexto. A igreja, consagrada em 913, apresenta uma organização espacial e um repertório decorativo que combinam tradições arquitetónicas hispânicas com elementos associados à cultura artística de Al-Andalus. A sua interpretação foi igualmente marcada pelo estudo do reaproveitamento de materiais arquitetónicos provenientes de edifícios anteriores. A utilização de elementos de espólio, incluindo componentes escultóricos e arquitetónicos, constitui um aspeto fundamental para compreender o processo de formação do edifício e o ambiente monumental em que foi construído.
A reutilização de materiais antigos não deve ser entendida apenas como uma necessidade prática. A incorporação de elementos provenientes de construções anteriores podia também estabelecer uma relação deliberada com o passado monumental e com a memória dos lugares. Este fenómeno é particularmente importante na arquitetura hispânica dos séculos IX a XI e constitui um dos fatores que dificultam a identificação da origem cronológica e geográfica de determinados elementos arquitetónicos quando estes são analisados isoladamente.
A relação entre as comunidades cristãs de Al-Andalus e os reinos cristãos do norte contribuiu, assim, para a circulação de pessoas, manuscritos, objetos, práticas litúrgicas, técnicas construtivas e repertórios artísticos. A migração de determinados grupos para os territórios cristãos foi acompanhada pela transmissão de conhecimentos e tradições, mas a influência andalusina não dependia necessariamente da migração de comunidades inteiras. As relações diplomáticas, comerciais, religiosas e políticas entre os diferentes territórios também proporcionavam canais de circulação cultural.
Neste contexto, a arquitetura tradicionalmente denominada moçárabe não pode ser reduzida a uma simples fusão de uma tradição cristã do norte com uma tradição islâmica do sul. Os edifícios resultam de processos mais complexos de continuidade, adaptação, reutilização e inovação. As tradições tardo-antigas e visigóticas permaneceram ativas, enquanto elementos provenientes de Al-Andalus foram incorporados e reinterpretados em diferentes contextos locais.
A chamada arte moçárabe deve, portanto, ser entendida como uma categoria historiográfica que reúne manifestações artísticas e arquitetónicas produzidas num contexto de intensa interação cultural na Península Ibérica dos séculos IX e X. A designação continua a ser amplamente utilizada, sobretudo para determinados conjuntos monumentais, mas a sua aplicação exige cautela, pois não corresponde necessariamente a uma identidade cultural ou étnica homogénea.
No âmbito da história da arquitetura, os monumentos tradicionalmente classificados como moçárabes são particularmente importantes pela diversidade das suas plantas, sistemas construtivos e repertórios decorativos. Documentam a continuidade de tradições arquitetónicas hispânicas anteriores, a reutilização de materiais antigos, a circulação de modelos andalusinos e a atividade de artífices especializados. Edifícios como Santiago de Peñalba e San Miguel de Escalada constituem, nesse sentido, alguns dos exemplos mais significativos da arquitetura pré-românica hispânica e da complexa sociedade fronteiriça do Reino de Leão durante o século X.